Jos Saramago

Histria do cerco
de Lisboa
   
   
 

   
   
   
   
   A Pilar
   
   
   
   
   
   
   Enquanto no alcanares a verdade, no poders corrigi-la.
   Porm, se a no corrigires, no a alcanars. Entretanto, no
   te resignes.
   
   Do Livro dos Conselhos
   

   
   Disse o revisor, Sim, o nome deste sinal  deleatur. usamo-lo quando precisamos suprimir e apagar, a prpria palavra o est a dizer, e tanto vale para letras soltas como para palavras completas, Lembra-me uma cobra que se tivesse arrependido no momento de morder a cauda, Bem observado, senhor doutor, realmente, por muito agarrados que estejamos  vida, at uma serpente hesitaria diante da eternidade, Faa-me a o desenho, mas devagar,  faclimo basta apanhar-lhe o jeito, quem olhar distraidamente cuidar que a mo vai traar o terrvel crculo, mas no, repare que no rematei o movimento aqui onde o tinha comeado, passei-lhe ao lado, por dentro, e agora vou continuar para baixo at cortar a parte inferior da curva, afinal o que parece mesmo  a letra Q maiscula, nada mais, Que pena, um desenho que prometia tanto, Contentemo-nos com a iluso da semelhana, porm, em verdade lhe digo, senhor doutor, se me posso exprimir em estilo proftico, que o interesse da vida onde sempre esteve foi nas diferenas, Que tem isso que ver com a reviso tipogrfica, Os senhores autores vivem nas alturas, no gastam o precioso saber em despicincias e insignificncias, letras feridas, trocadas, invertidas, que assim lhes classificvamos os defeitos no tempo da composio manual, diferena e defeito, ento, era tudo um, Confesso que os meus deleatures so menos rigorosos, um rabisco d-me para tudo, confio-me  sagacidade dos tipgrafos, essa tribu colateral da edpica e celebrada famlia dos farmacuticos, capazes at de decifrar o que nem chegou a ser escrito, E depois os revisores que acudam a resolver os problemas, Sois nossos anjos-da-guarda, a vs nos confiamos, voc, por exemplo, traz-me  lembrana a minha extremosa me, que me fazia e tornava a fazer a risca do cabelo at ficar como traada a tira-linhas, Obrigado pela comparao, mas, se a sua mezinha j morreu, valia-lhe a pena agora aperfeioar-se por sua conta, sempre chega o dia em que  preciso corrigir mais no profundo, Corrigir, corrijo eu, mas as piores dificuldades resolvo-as  maneira expedita, escrevendo uma palavra por cima de outra, Tenho reparado, No o diga nesse tom, dentro do que cabe fao o que posso, e quem consegue fazer o que pode, A mais no estar obrigado, sim senhor, sobretudo, como  o seu caso, quando falta o gosto da modificao, o prazer da mudana, o sentido da emenda, Os autores emendam sempre, somos os eternos insatisfeitos, Nem tm outro remdio, que a perfeio tem exclusiva morada no reino dos cus, mas o emendar dos autores  outro, problemtico, muito diferente deste nosso, Quer voc dizer na sua que a seita revisora gosta do que faz, To longe no ouso ir, depende da vocao, e revisor de vocao  fenmeno desconhecido, no entanto, o que parece demonstrado  que, no mais secreto das nossas almas secretas, ns, revisores, somos voluptuosos, Essa nunca eu tinha ouvido, Cada dia traz sua alegria e sua pena, e tambm sua lio proveitosa,  por experincia que fala, Refere-se  lio, Refiro-me  volpia, Claro que falo por experincia prpria, alguma haveria eu de ter, que  que julga, mas igualmente tenho beneficiado da observao dos comportamentos alheios, que  cincia moral no menos edificadora, Certos autores do passado, se os julgarmos por esse seu critrio, seriam gente da espcie, revisores magnficos, estou a lembrar-me das provas revistas pelo Balzac, um deslumbramento pirotcnico de correces e aditamentos, O mesmo fazia o nosso Ea domstico, para que no fique sem meno um exemplo ptrio, Agora me ocorre que tanto o Ea como o Balzac se sentiriam os mais felizes dos homens, nos tempos de hoje, diante de um computador, interpolando, transpondo, recorrendo linhas, trocando captulos, E ns, leitores, nunca saberamos por que caminhos eles andaram e se perderam antes de alcanarem a definitiva forma, se existe tal coisa, Ora, ora, o que conta  o resultado, no adianta nada conhecer os tenteios e hesitaes de Cames e Dante, O senhor doutor  um homem prtico, moderno, j est a viver no sculo vinte e dois, Diga-me c, os outros sinais, tambm levam nomes latinos, como o deleatur, Se os levam, ou levaram, no sei, no estou habilitado, talvez fossem to difceis de pronunciar que se perderam, Na noite dos tempos, Desculpar-me- se o contradigo, mas eu no empregaria a frase, Calculo que por ser lugar-comum, Nanja por isso, os lugares-comuns, as frases feitas, os bordes, os narizes-de-cera, as sentenas de almanaque, os rifes e provrbios, tudo pode aparecer como novidade, a questo est s em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois, Ento por que no diria voc noite dos tempos, Porque os tempos deixaram de ser noite de si mesmos quando as pessoas comearam a escrever, ou a emendar, torno a dizer, que  obra doutro requinte e outra transfigurao, Gosto da frase, Eu tambm, principalmente porque  a primeira vez que a digo,  segunda vez ter menos graa, Ter-se- tornado em lugar-comum, Ou tpico, que  vocbulo erudito, Creio perceber nas suas palavras uma certa amargura cptica, Vejo-a mais como um cepticismo amargo, Quem diz uma coisa, diz outra, Mas no dir o mesmo, os autores costumavam ter bom ouvido para estas diferenas, Talvez se me estejam a endurecer os tmpanos, Desculpe, foi sem inteno, No sou susceptvel, adiante, diga-me antes por que se sente assim amargo, ou cptico, como queira, Considere, senhor doutor, a vida quotidiana dos revisores, pense na tragdia de terem de ler uma vez, duas, trs, ou quatro, ou cinco vezes, livros que, Provavelmente, nem uma s vez o mereceriam, Fique registado que no fui eu quem proferiu to gravosas palavras, conheo muito bem o meu lugar na sociedade das letras, voluptuoso, sim, confesso-o, mas respeitador, No vejo onde esteja essa terribilidade, alis parecia-me a concluso bvia da sua frase, aquela eloquente suspenso, apesar de no se lhe verem as reticncias, Se quer saber, v aos autores, provoque-os com o meio dito meu e o meio dito seu, e ver como eles lhe respondem com o aplaudido aplogo de Apeles e o sapateiro, quando o operrio apontou o erro na sandlia duma figura e depois, tendo verificado que o artista emendara o desacerto, se aventurou a dar opinies sobre a anatomia do joelho, Foi ento que Apeles, furioso com o impertinente, lhe disse No suba o sapateiro acima da chinela, frase histrica, Ningum gosta que lhe olhem por cima do muro do quintal, Neste caso, o Apeles tinha razo, Talvez, mas s enquanto no viesse examinar a pintura um sbio anatomista, Voc  definitivamente cptico, Todos os autores so Apeles, mas a tentao do sapateiro  a mais comum entre os humanos, enfim, s o revisor aprendeu que o trabalho de emendar  o nico que nunca se acabar no mundo, Tem sentido muitas tentaes de sapateiro na reviso do meu livro, A idade traz-nos uma coisa boa que  uma coisa m, acalma-nos, e as tentaes, mesmo quando so imperiosas, tornam-se menos urgentes, Por outras palavras, v o defeito da chinela, mas cala-se, No, o que eu deixo passar  o erro do joelho, Gosta do livro, Gosto, Di-lo com pouqussimo entusiasmo, Tambm no o notei na sua pergunta, Questo de tctica, o autor, ainda que muito lhe custe, deve exibir alguns ares de modstia, Modesto sempre o revisor ter de ser, e, se lhe deu um dia para ser imodesto, com isso se obrigou a ser, em figura humana, a suma perfeio, No reviu a frase. trs vezes a palavra ser num flego s,  imperdovel, concorde, Deixe ficar a chinela, a falar tudo se desculpa, Pois, mas no lhe perdoo a avareza da opinio, Recordo-lhe que os revisores so gente sbria, j viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lho eu,  de histria, Assim realmente o designariam segundo a classificao tradicional dos gneros, porm, no sendo propsito meu apontar outras contradies, em minha discreta opinio, senhor doutor, tudo quanto no for vida,  literatura, A histria tambm, A histria sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a msica, A msica anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre  obedincia, E a pintura, Ora, a pintura no  mais do que literatura feita com pincis, Espero que no esteja esquecido de que a humanidade comeou a pintar muito antes de sabe escrever, Conhece o rifo, se no tens co caa com o gato, por outras palavras, quem no pode escrever pinta, ou desenha,  o que fazem as crianas, O que voc quer dizer, por outras palavras,  que a literatura j existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser j o era, Parece-me um ponto de vista bastante original, No o creia, senhor doutor, o rei Salomo, que h tanto tempo viveu, j ento afirmava que no havia nada de novo debaixo da rosa do sol, ora, quando naquelas pocas recuadas assim o reconheciam, o que no diremos hoje, trinta sculos passados, se a mim no me falha agora a memria da enciclopdia,  curioso, eu, e mais sou historiador, no me lembraria, se perguntado de repente, que tivesse sido h tantos anos,  o que tem o tempo, corre e no damos por ele, est uma pessoa por a ocupada nos seus quotidianos, subitamente cai em si e exclama, meu Deus como o tempo passa, ainda agora estava o rei Salomo vivo e j l vo trs mil anos, Quer-me parecer que voc errou a vocao, devia era ser filsofo, ou historiador, tem o alarde e a pinta que tais artes requerem, Falta-me o preparo, senhor doutor, que pode um simples homem fazer em o preparo, muita sorte j foi ter vindo ao mundo com a gentica arrumada, mas, por assim dizer, em estado bruto, e depois no mais polimento que primeiras letras que ficaram nicas, Podia apresentar-se como autodidacta, produto do seu prprio e digno esforo, no  vergonha nenhuma, antigamente a sociedade tinha orgulho nos seus autodidactas, Isso acabou, veio o desenvolvimento e acabou, os autodidactas so vistos com maus olhos, s os que escrevem versos e histrias para distrair  que esto autorizados a ser e a continuar a ser autodidactas, sorte deles, mas eu, confesso-lhe, para a criao literria nunca tive jeito, Meta-se a filsofo, homem, O senhor doutor  um humorista de finssimo esprito, cultiva magistralmente a ironia, chego a perguntar-me como se dedicou  histria, sendo ela grave e profunda cincia, Sou irnico apenas na vida real, Bem me queria a mim parecer que a histria no  a vida real, literatura, sim, e nada mais, Mas a histria foi vida real no tempo em que ainda no poderia chamar-se-lhe histria, Tem a certeza, senhor doutor, Na verdade, voc  uma interrogao com pernas e uma dvida com braos, No me falta mais que a cabea, Cada coisa a seu tempo, o crebro foi a ltima coisa a ser inventada, O senhor doutor  um sbio, Meu caro amigo, no exagere, Quer ver as ltimas provas, No vale a pena, as correces de autor esto feitas, o resto  a rotina da reviso final, fica nas suas mos, Obrigado pela confiana, Muito merecida, Ento o senhor doutor acha que a histria e a vida real, Acho, sim, Que a histria foi vida real, quero dizer, No tenha a menor dvida, Que seria de ns se no existisse o deleatur, suspirou o revisor.
   

   
   Quando s uma viso mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do cu a diferena inicial que separa a noite da madrugada, o almuadem acordou. Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que fosse vero como inverno, e no precisava de qualquer artefacto de medir o tempo, nada mais que uma mudana infinitesimal na escurido do quarto, o pressentimento da luz apenas adivinhada na pele da fronte, como um tnue sopro que passasse sobre as sobrancelhas ou a primeira e quase impondervel carcia que, tanto quanto se sabe ou acredita,  arte exclusiva e segredo at hoje no revelado daquelas formosas huris que esperam os crentes no paraso de Maom. Segredo, e tambm prodgio, se no mistrio intransponvel,  a virtude que elas tm de refazer a virgindade to-logo a perdem, pelos vistos suprema bem-aventurana na vida eterna, o que definitivamente vem provar que no se acabam com esta os trabalhos prprios e alheios, outrossim os sofrimentos imerecidos. O almuadem no abriu os olhos. Podia continuar deitado algum tempo ainda, enquanto o sol, muito devagar, se vinha acercando do horizonte da terra, porm to longe de chegar que nenhum galo da cidade levantara a cabea para indagar dos movimentos da manh.  certo que ladrou um co, sem resultado, que os mais dormiam, talvez a sonhar que em sonhos estavam ladrando.  um sonho, pensavam, e deixavam-se dormir, rodeados por um mundo povoado de cheiros sem dvida estimulantes, mas nenhum to urgente que os fizesse despertar em sobressalto, o odor inconfundvel da ameaa ou do medo, para no dar seno estes exemplos elementares. O almuadem levantou-se tacteando no escuro, encontrou a roupa com que acabou de cobrir-se e saiu do quarto. A mesquita estava silenciosa, s os passos inseguros ecoavam sob os arcos, um arrastar de ps cautelosos, como se temesse ser engolido pelo cho. A outra qualquer hora do dia ou da noite nunca experimentava esta angstia do invisvel, apenas no momento matinal, este, em que iria subir a escada da almdena para chamar os fiis  primeira orao. Um escrpulo supersticioso representava-lhe na imaginao a sua grave culpa de continuarem os moradores a dormir quando j o sol estivesse sobre o rio, e acordando de repelo, aturdidos pela luz clara, perguntassem, aos gritos, onde estava o almuadem que no chamara  hora prpria, algum mais caridoso diria, Por seu mal estar doente, e no era verdade, desaparecera, sim, levado para o interior da terra por um gnio das trevas maiores. A escada, em caracol, era trabalhosa de subir, de mais sendo este almuadem j velho, felizmente no precisava que lhe vendassem os olhos como s mulas das atafonas se faz para que lhes no d o mareio. Quando chegou acima sentiu na cara a frescura da manh e a vibrao da luz alvorecente, ainda cor nenhuma, que a no pode ter aquela pura claridade que antecede o dia e vem tanger na ele um arrepio subtil, como de uns invisveis dedos, impresso nica que faz pensar se a desacreditada criao divina no ser, afinal, para humilhao de cpticos e ateus, um irnico facto da histria. O almuadem correu a mo, lentamente. ao longo do parapeito circular at encontrar, insculpida na pedra, a marca que apontava a direco de Meca, cidade santa. Estava preparado. Uns instantes ainda para dar tempo ao sol de assomar aos balces da terra a sua primeira aura, e tambm para tornar clara a voz, porque a cincia proclamativa de um almuadem h-de ficar patente logo ao primeiro grito, e nele  que tem de demonstrar-se no quando a garganta j se dulcificou com o trabalho da fala e o consolo da comida. Aos ps do almuadem h uma cidade, mais abaixo um rio, tudo dorme ainda, mas inquietamente. A manh comea a mover-se sobre as casas, a pele da gua torna-se espelho do cu, e ento o almuadem inspira fundo e grita, agudssimo, Allahu akbar, apregoando aos ares a sobre todas grandeza de Deus, e repete, como gritar e repetir as frmulas seguintes, em exttico canto tomando o mundo por testemunha de que no h outro Deus seno Al, e que Maom  o enviado de Al, e tendo dito estas verdades essenciais chama  orao, Vinde ao azal, mas sendo o homem de natureza preguioso, ainda que crente no poder Daquele que nunca dorme, o almuadem repreende caridosamente esses outros a quem as plpebras ainda pesam, A orao  melhor que o sono, As-salatu jayrun min an-nawn, para os que nesta lngua o entendem enfim concluiu clamando que Al  o nico Deus, La ilaha illa llah, mas agora s uma vez, que  quanto basta quando se trate de verdades definitivas. A cidade murmura as oraes, o sol apontou e ilumina as aoteias, no tarda que nos ptios apaream os moradores. A almdena est em plena luz. O almuadem  cego.
   No o tem descrito assim o historiador no seu livro. Apenas que o muezim subiu ao minarete e dali convocou os fiis  orao na mesquita, sem rigores de ocasio, se era manh ou meio-dia, ou se estava a pr-se o sol, porque certamente em sua opinio, o mido pormenor no interessaria  histria, somente que ficasse o leitor sabendo que o autor conhecia das coisas daquele tempo o suficiente para fazer delas responsvel meno. E isto lhe deveramos agradecer porque o seu tema, sendo de guerra e de cerco, portanto de virilidades superiores, dispensaria bem as deliquescncias da prece, que  de todas as situaes a mais sujeita, pois nela se prontifica o rezador sem luta, rendido por uma vez. Ainda que, para que no quede sem exame e considerao o que esteja em contrrio destas oposies entre orao e guerra, aqui se pudesse recordar j, estando to prximo o tempo e sendo tantas e to preclaras as testemunhas ainda vivas, aqui se pudesse recordar, tornamos a dizer, aquele milagre de Ourique, celebrrimo, quando Cristo apareceu ao rei portugus, e este lhe gritou, enquanto o exrcito prostrado no cho orava, Aos infiis, Senhor, aos infiis, e no a mim que creio o que podeis, mas Cristo no quis aparecer aos mouros, e foi pena, que em vez da crudelssima batalha poderamos, hoje, registar nestes anais a converso maravilhosa dos cento e cinquenta mil brbaros que afinal ali perderam a vida, um desperdcio de almas de bradar aos cus.  assim, nem tudo se pode evitar, nunca a Deus faltmos com os nossos bons conselhos, mas o destino tem l as suas leis inflexveis, e quantas vezes com inesperados e artsticos efeitos, como foi este de haver podido aproveitar-se Cames do inflamado grito, distribuindo-o tal qual em dois versos imortais.  bem verdade que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se aproveita.
   Eram bons aqueles tempos, quando, para receber satisfao, no tnhamos mais que pedir com as palavras apropriadas, mesmo em casos difceis, por assim dizer j desenganado o paciente e sem esperana de remdio. Exemplo disto  este mesmo rei, que, tendo nascido de pernas encolhidas, ou atrofiadas, no falar de agora, foi extraordinariamente curado, sem que mdico algum lhe tivesse posto a mo em cima, e se puseram no lhe adiantou. E at, certamente por ser pessoa fadada para a realeza, nem h sinais de que tenha sido preciso importunar as altas potestades,  Virgem e ao Senhor nos referimos, no aos anjos da sexta hierarquia, para que se produzisse o salutar sucesso, graas ao qual, sabe-se l, Portugal deve talvez a sua independncia. Foi caso que estando dormindo em sua cama D. Egas Moniz, aio do menino Afonso, lhe apareceu Santa Maria em viso e disse, D. Egas Moniz, dormes, e ele, que no sabia se estava acordado ou a sonhar, perguntou, para ter a certeza, Senhora, quem sois vs, e ela respondeu, com bons modos, Eu sou a Virgem, e te mando que vs a Carquere, que fica no concelho de Resende, e cava em esse lugar e achars uma igreja que em outro tempo foi comeada em meu nome, e achars tambm uma imagem minha, conserta-a que bem necessitada est depois do triste abandono, e depois fars a viglia, e pors o menino sobre o altar, e fica sabendo que nesse instante quedar sano e curado, e cuida bem dele para o diante, que o meu Filho sei eu que tem na sua ideia dar-lhe cargo de destruir os inimigos da f, e claro est que no poderia faz-lo assim de pernas curtas. Acordou D. Egas Moniz o mais alegre que se pode, reuniu o pessoal e, cavalgando a mula, foi dali a Carquere e mandou cavar no stio indicado pela Virgem, e no  que l estava a igreja, mas a surpresa  nossa, no deles, porque naqueles abenoados tempos no eram nunca gratuitos ou enganosos os avisos superiores. Verdade  que no cumpriu D. Egas precisamente os ditados da Virgem, que muito explicado ficou ter-lhe ela mandado que cavasse, entendemos ns que por suas prprias mos, e vai ele, que fez, deu ordem que outros cavassem, os servos da gleba, provavelmente j naquela poca havia destas desigualdades sociais. Agradecemos  Virgem no ser ela melindrosa a pontos de fazer encolher outra vez as pernas do menino Afonso, porque, assim como h milagres para o bem, tambm os tem havido para o mal, testemunhem-no aqueles infelizes porcos da Escritura que se lanaram ao precipcio quando o Bom Jesus lhes meteu no corpo os mafarricos que no endemoninhado estavam, de que resultou padecerem martrio os inocentes animais, e s eles, pois muito maior tinha sido a queda dos anjos rebeldes, logo feitos demnios, quando do motim, e, que se saiba, no morreu nenhum, com o que no se pode perdoar a imprevidncia de Deus Nosso Senhor que por essa desateno deixou fugir a oportunidade de lhes acabar com a raa por uma vez, de bom conselho  o provrbio que previne, Quem o seu inimigo poupa, s mos lhe morre, oxal no venha Deus a ter de arrepender-se um dia, tarde de mais. Ainda assim, se nesse fatal instante tiver tempo de recordar a sua vida passada, esperemos que se lhe faa luz no esprito e possa compreender que nos deveria ter poupado, a todos ns, frgeis porcos e humanos, aqueles vcios, pecados e sofrimentos de insatisfao que so, diz-se, a obra e a marca do maligno. Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga.
   De histria sacra, por agora, temos que nos chegue. Importaria saber, isso sim,  quem escreveu o relato daquele formoso acordar de almuadem na madrugada de Lisboa, com tal abundncia de pormenores realistas que chega a parecer obra de testemunha aqui presente, ou, pelo menos, hbil aproveitamento de qualquer documento coetneo, no forosamente relativo a Lisboa, pois, para o efeito, no se precisaria mais que uma cidade, um rio e uma clara manh, composio sobre todas banal, como sabemos. A resposta, surpreendente,  que ningum escreveu, que, embora parea que sim, no est escrito, tudo aquilo no foi mais que pensamentos vagos da cabea do revisor enquanto ia lendo e emendando o que escondidamente passara em falso nas primeiras e segundas provas. O revisor tem este notvel talento de desdobrar-se, desenha um deleatur ou introduz uma vrgula indiscutvel, e ao mesmo tempo, aceite-se o neologismo, heteronimiza-se,  capaz de seguir o caminho sugerido por uma imagem, uma comparao, uma metfora, no raro o simples som duma palavra repetida em voz baixa o leva, por associao, a organizar polifnicos edifcios verbais que tornam o seu pequeno escritrio num espao multiplicado por si mesmo, ainda que seja muito difcil explicar, em vulgar, o que tal coisa quer dizer. L lhe pareceu que era informar pouco limitar-se o historiador a falar de muezim e minarete, unicamente para introduzir, se so permitidos juzos temerrios, um pouco de cor local e tinta histrica no arraial inimigo, impreciso semntica que convm corrigir imediatamente, uma vez que arraial  de sitiantes, no de sitiados, que estes esto, por enquanto, instalados com suficiente comodidade na cidade que, salvo uma ou outra intermitncia,  sua desde o ano de setecentos e catorze, pelas contas dos cristos, as do rosrio mouro so outras, como se sabe. Esta correco f-la o prprio revisor, que tem mais do que satisfatria cincia de calendrios e sabe que a Hgira comeou, segundo a lio da Arte de Verificar as Datas, obra indispensvel, no dia dezasseis de julho de seiscentos e vinte e dois, depois de Cristo, DC por abreviatura, sem esquecer, no entanto, que sendo o ano muulmano governado pela lua, portanto mais curto que o da cristandade, orientado pelo sol,  sempre preciso descontar trs anos por cada sculo andado. Bom revisor seria este, assim escrupuloso, se cuidasse de aparar as asas a um discorrer propenso a efabulaes ocasionalmente irresponsveis, foi aqui o caso de ter pecado por facilitao, incorrendo em erros evidentes e em assertos duvidosos, trs  o que se desconfia, que, a provarem-se, em definitivo mostram que no tinha razo nenhuma o historiador quando lhe deu conselho, leviano, de que se dedicasse  histria. Quanto  filosofia, Deus nos livre.
   O primeiro ponto suspeito, segundo a ordem inversa do relato,  aquela peregrina ideia de existirem, no parapeito das varandas das almdenas, sinais na pedra que apontariam, provavelmente na forma de setas, a direco de Meca. Por muito adiantada que estivesse na poca a cincia geogrfica e agrimensora dos rabes e outros mouros,  pouco crvel que soubessem determinar, com a exactido que se insinua, a posio de uma caaba na superfcie do planeta, onde precisamente sobreabundam as pedras, umas mais sagradas que outras. Todas estas coisas, sejam elas reverncias, ou genuflexes, ou olhares para cima ou para baixo, se fazem por aproximao, ao sentir, se podemos autorizar-nos esta linguagem de pescador  linha, o que importa, afinal,  que Deus e Al possam ler nos coraes e no levem a mal que, por ignorncia, lhes voltemos as costas, e quando dizemos ignorncia tanto pode ser a nossa como a deles, que nem sempre esto onde se comprometeram a estar. O revisor  homem deste tempo, habituaram-no a confiar e a firmemente crer nos sinais das estradas, no admira que tivesse cado na anacrnica tentao, qui impelido por um arrebato de caridade, tendo em conta a cegueira do almuadem.  sabido que no  a qualidade do pano que evita as ndoas, diz-se mesmo que no melhor deles  que a ndoa cai, e tambm que no h uma sem duas, pois a temos o segundo erro, este sim, gravssimo, pois levaria o leitor desprevenido, se escrita houvesse, e felizmente no h, a tomar por correcta e conforme com os factos da vida muulmana a descrio dos actos do almuadem depois de acordar. H erro, dizemos, porquanto o muezim, palavra preferida pelo historiador, no procedeu s ablues rituais antes de chamar os crentes  orao, achando-se por conseguinte em estado de impureza, situao improbabilssima se considerarmos quo prximos estamos ainda, no tempo, da primeira fonte do Islo, quatro sculos e pico, por assim dizer, no bero. L mais para o diante no faltaro relaxamentos, escamoteaes de jejuns, interpretaes duvidosas de regras que parecem claras,  que no h nada que mais fatigue as pessoas do que a observncia rigorosa dos princpios, antes que a carne ceda j o esprito fraquejou, mas a ele no pedem contas,  pobrezinha  que invectivam, insultam e caluniam. Agora ainda se vive num tempo de f completa, o almuadem seria o ltimo dos homens se ousasse subir  almdena sem levar o corao puro e as mos lavadas, e assim fica proclamado inocente da culpa com que o carregou a ligeireza imperdovel do revisor. Apesar da competncia profissional com que o ouvimos expressar-se durante a conversa com o historiador,  tempo de introduzir aqui uma primeira dvida sobre as consequncias da confiana de que o investiu o autor da Histria do Cerco de Lisboa, acaso em hora de fatigada displicncia ou com preocupaes de prxima viagem, quando permitiu que a leitura final das provas fosse tarefa exclusiva do tcnico dos deleatures, sem fiscalizao. Trememos s de imaginar que aquela descrio do amanhecer do almuadem poderia tomar lugar, abusivo, no cientfico texto do autor, frutos, um e outro, de estudos aturados, de pesquisas profundas, de confrontaes minuciosas. Duvida-se, por exemplo, ainda que seja sempre de boa prudncia duvidar da prpria dvida, que o historiador mencionasse no seu relato ces e ladrar de ces, pois ele sabe que o co, para os rabes,  impuro animal, como o  tambm o porco, sendo portanto demonstrao de crassa ignorncia supor que os mouros de Lisboa, to zelosos, estariam vivendo paredes meias com a canzoada. Chiqueiro  porta de casa e casota de mastim ou aafate de fraldiqueiro so invenes crists, no ser por casualidade indiferente que os muulmanos chamam perros aos guerreiros da cruz, e muita sorte que no lhes tenham chamado cerdos, pelo menos no consta. Claro que, se realmente assim , faz pena no poder contar mais com a graa de um co a ladrar  lua ou coando a orelha atormentada de carraas, mas a verdade, se finalmente a encontramos, deve ser posta acima de todas as outras consideraes, seja contra ou a favor, com o que deveramos, aqui mesmo, dar por no escritas as palavras que descreveram a ltima madrugada pacfica de Lisboa se no soubssemos j que aquele discurso falso, embora coerente, e esse  o perigo maior, no saiu nunca da cabea do revisor, antes no passou de seu devaneio fabulante e irrisrio.
   Est demonstrado, portanto, que o revisor errou, que se no errou confundiu, que se no confundiu imaginou, mas venha atirar-lhe a primeira pedra aquele que no tenha errado, confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia,  prprio do homem, o que significa, se no  erro tomar as palavras  letra, que no seria verdadeiro homem aquele que no errasse. Porm, esta suprema mxima no pode ser utilizada como desculpa universal que a todos nos absolveria de juzos coxos e opinies mancas. Quem no sabe deve perguntar, ter essa humildade, e uma precauo to elementar deveria t-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem sequer precisaria sair de sua casa, do escritrio onde agora est trabalhando, pois no faltam aqui os livros que o elucidariam se tivesse tido a sageza e prudncia de no acreditar cegamente naquilo que supe saber, que da  que vm os enganos piores, no da ignorncia. Nestas ajoujadas estantes, milhares e milhares de pginas esperam a cintilao duma curiosidade inicial ou a firme luz que  sempre a dvida que busca o seu prprio esclarecimento. Lancemos, enfim, a crdito do revisor ter reunido, ao longo duma vida, tantas e to diversas fontes de informao, embora um simples olhar nos revele que esto faltando no seu tombo as tecnologias da informtica, mas o dinheiro, desgraadamente, no chega a tudo, e este ofcio,  altura de diz-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe. Um dia, mas Al  maior, qualquer corrector de livros ter ao seu dispor um terminal de computador que o manter ligado, noite e dia, umbilicalmente, ao banco central de dados, no tendo ele, e ns, mais que desejar que entre esses dados do saber total no se tenha insinuado, como o diabo no convento, o erro tentador.
   Seja como for, enquanto no chega esse dia, os livros esto aqui, como uma galxia pulsante, e as palavras, dentro deles, so outra poeira csmica flutuando,  espera do olhar que as ir fixar num sentido ou nelas procurar o sentido novo, porque assim como vo variando as explicaes do universo, tambm a sentena que antes parecera imutvel para todo o sempre oferece subitamente outra interpretao, a possibilidade duma contradio latente, a evidncia do seu erro prprio. Aqui, neste escritrio onde a verdade no pode ser mais do que uma cara sobreposta s infinitas mscaras variantes, esto os costumados dicionrios da lngua e vocabulrios, os Morais e Aurlios, os Morenos e Torrinhas, algumas gramticas, o Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofcio, mas tambm esto as histrias da Arte, do Mundo em geral, dos Romanos, dos Persas, dos Gregos, dos Chineses, dos rabes, dos Eslavos, dos Portugueses, enfim, de quase tudo que  povo e nao particular, e as histrias da Cincia, das Literaturas, da Msica, das Religies, da Filosofia, das Civilizaes, o Larousse pequeno, o Quillet resumido, o Robert conciso, a Enciclopdia Poltica, a Luso-Brasileira, a Britnica, incompleta, o Dicionrio de Histria e Geografia, um Atlas Universal destas matrias, o de Joo Soares, antigo, os Anurios Histricos, o Dicionrio dos Contemporneos, a Biografia Universal, o Manual do Livreiro, o Dicionrio da Fbula, a Biografia Mitolgica, a Biblioteca Lusitana, o Dicionrio de Geografia Comparada, Antiga, Medieval e Moderna, o Atlas Histrico dos Estudos Contemporneos, o Dicionrio Geral das Letras, das Belas-Artes e das Cincias Morais e Polticas, e, para terminar, no o inventrio geral, mas o que mais  vista est, o Dicionrio Geral de Biografia e de Histria, de Mitologia, de Geografia Antiga e Moderna, das Antiguidades e das Instituies Gregas, Romanas, Francesas e Estrangeiras, sem esquecer o Dicionrio de Raridades, Inverosimilhanas e Curiosidades, onde, admirvel coincidncia que vem a matar neste aventuroso relato, se d como exemplo de erro a afirmao do sbio Aristteles de que a mosca domstica comum tem quatro patas, reduo aritmtica que os autores seguintes vieram repetindo por sculos e sculos, quando j as crianas sabiam, por crueldade e experimentao, que so seis as patas da mosca, pois desde Aristteles as vinham arrancando, voluptuosamente contando, uma, duas, trs, quatro, cinco, seis, mas essas mesmas crianas, quando cresciam e iam ler o sbio grego, diziam umas para as outras, A mosca tem quatro patas, tanto pode a autoridade magistral, tanto sofre a verdade com a lio dela que sempre nos vo dando.
   Esta inesperada incurso pelas fronteiras da entomologia mostra-nos, de concludente maneira, que os erros assacados ao revisor no so afinal seus, mas destes livros que no fizeram mais do que repetir, sem contra prova, obras mais antigas, e, sendo assim, lamentemos quem veio a ser vtima inocente da boa-f prpria e do alheio erro.  verdade que, condescendendo tanto, voltaramos a cair na desculpa universal j execrada, mas no o faremos sem prvia condio, vem a ser que, para seu bem, atente o revisor na estupenda lio que sobre os erros nos foi dada por Bacon, outro sbio, no livro chamado Novum organum. Divide ele os erros em quatro categorias, a saber, idola tribus, ou erros da natureza humana, idola specus, ou erros individuais, idola fori, ou erros de linguagem, e finalmente idola theatri, ou erros dos sistemas. Resultam eles, no primeiro caso, da imperfeio dos sentidos, da influncia dos preconceitos e paixes, do hbito de julgarmos tudo segundo ideias adquiridas, da nossa insacivel curiosidade apesar dos limites impostos ao nosso esprito, da inclinao que nos leva a encontrar mais analogias entre as coisas do que as que realmente tm. No segundo caso, a fonte dos errores vem da diferena entre os espritos, uns que se perdem nos pormenores, outros em vastas generalizaes, e tambm da predileco que temos por certas cincias, o que nos inclina a tudo querer reduzir a elas. Quanto ao terceiro caso, o dos erros de linguagem, o mal est em que muitas vezes as palavras no tm qualquer sentido, ora tm-no indeterminado, ou podem ser tomadas em acepes diversas, e, finalmente, quarto caso, so tantos os erros dos sistemas que no acabaramos nunca mais se comessemos a enumer-los aqui. Valha-se, ento, o revisor deste catlogo e
   prosperar, e sirva-se tambm dos benefcios daquela sentena de Sneca, reticente como aos dias de hoje convm, Onerat discentem turba, non instruit, mxima lapidar que a me do revisor, h muitos anos, sem saber latim e pouqussimo da sua prpria lngua, traduzia com desassombrado cepticismo, Quanto mais ls, menos aprendes.
   Mas, alguma coisa se salvando deste exame e contestao, confirme-se que no foi erro escrever, porque, enfim, escrito est, que era cego o almuadem. O historiador, que somente fala de minarete e muezim, talvez ignorasse que quase todos os almuadens, naquele tempo e por muito tempo depois, eram cegos. E se o sabe, porventura imagina que seria vocao particular da invalidez o canto da orao, ou que as comunidades mouras resolviam assim, parcialmente, como sempre foi feito e continuar a fazer-se, o problema de dar trabalho a gente a Quem faltava o precioso rgo da viso. Erro seu, agora, que a todos invariavelmente acaba por tocar. A verdade histrica, aprenda-o,  Que os almuadens eram escolhidos entre os cegos, no por humanitria poltica de emprego ou encaminhamento profissional fisiologicamente adequado, mas para que no pudessem devassar a intimidade dos ptios e aoteias que, do alto da almdena, em figura dominavam. O revisor j no se recorda de como o soube, certamente o ter lido em livro digno de confiana, que o tempo no emendou, por isso pode insistir agora que os almuadens eram cegos, sim senhor. Quase todos. Apenas, quando em tal lhe acontece pensar, no consegue repelir de si uma dvida, se a esses homens no lhes furariam os olhos lcidos, como se fazia e talvez se faa ainda aos rouxinis, para que da luz no conhecessem outra manifestao que uma voz ouvida nas trevas, a sua, ou, porventura, a daquele Outro que no sabe mais que repetir as palavras que vamos inventando, estas com que tentamos dizer tudo, bendio e maldio, at o Que nome no ter nunca, inominvel.
   

   
   O revisor tem nome, chama-se Raimundo. Era j tempo de sabermos quem seja a pessoa de quem vimos falando indiscretamente, se  que nome e apelidos alguma vez puderam acrescentar proveito que se visse s costumadas referncias sinalticas e outros desenhos, idade, altura, peso, tipo morfolgico, tom da pele, cor dos olhos, e dos cabelos, se lisos, crespos ou ondulados, ou simplesmente perdidos, metal da voz, lmpida ou rouca, gesticulao caracterstica, maneira de andar, porquanto a experincia das relaes humanas tem demonstrado que, sabendo ns isto e s vezes muito mais, nem o que sabemos nos serve, nem somos capazes de imaginar o que nos falta. Talvez s uma ruga, ou a forma das unhas, ou a grossura do pulso, ou o trao da sobrancelha, ou uma cicatriz antiga e invisvel, ou apenas o apelido que no chegara a ser dito, aquele que mais se estima, neste caso Silva, nome completo Raimundo Silva, assim se apresenta quando tem de o fazer, omitindo o Benvindo do que no gosta. Ningum est satisfeito com o que lhe coube em sorte, esta  uma geral verdade, e Raimundo Silva, que sobre todo o mais deveria apreciar chamar-se Benvindo, que precisamente diz o que quer dizer, bem-vindo  vida, meu filho, pois no senhor, no gosta do nome, felizmente, diz ele, que se perdeu a tradio de decidirem os padrinhos sobre a  melindrosa questo da onomstica, embora reconhea que lhe agrada muito ser Raimundo, por um no sei qu de solene ou antigo que h na palavra. Dos bens da senhora que foi madrinha esperavam os pais de Raimundo alguma parte para o futuro do filho, por isso  que, faltando ao costume que mandava dar ao menino apenas o nome do padrinho, se acrescentou o nome da paraninfa, passado a masculino. O destino no atende da mesma maneira a todas as coisas, sabemo-lo bem, mas neste caso alguma concomitncia se h-de reconhecer entre uns bens de que nunca houve benefcio e um nome to resolutamente repudiado, no se devendo, porm, suspeitar da existncia de uma relao de causa e efeito entre a decepo e a rejeio. Em Raimundo Benvindo Silva, os motivos, que em momento algum da sua vida haviam sido de rancorosa frustrao, so hoje, uns, meramente estticos, por no lhe soar bem a vizinhana dos dois gerndios e os outros, por assim dizer, ticos e ontolgicos, porque, segundo a sua maneira desenganada de entender, s uma ironia muito negra pretenderia fazer crer que algum  realmente bem-vindo a este mundo, o que no contradiz a evidncia de alguns se acharem bem instalados nele.
   Da varanda, breve sacada antiga sob um alpendre de madeira ainda com forro de caixotes, v-se o rio, e  um imenso mar o que os olhos alcanam entre raio e raio, desde o trao vermelho da ponte at aos rasos sapais de Pancas e Alcochete. Uma neblina fria tapa o horizonte, aproxima-o quase ao alcance da mo, a cidade visvel est reduzida a este lado, com a S em baixo, a meia encosta, e em degraus os telhados das casas, descendo at  gua baa, parda, onde uma fugidia esteira branca se abre quando um barco rpido passa, outros h que navegam dificilmente, pesados, como se estivessem lutando contra uma corrente de mercrio, comparao esta que seria bem mais apropriada  noite, no agora. Raimundo Silva levantou-se menos cedo do que  seu costume, trabalhara pela noite dentro, um sero longo, arrastado, e quando, de manh, abriu a janela, bateu-lhe este nevoeiro na cara, mais fechado do que o vemos a esta hora, meio-dia, quando o tempo vai ter de decidir se carrega ou alivia, de acordo com a voz popular. Ento as torres da S no eram mais do que um borro apagado, de Lisboa pouco mais havia que um rumor de vozes e de sons indefinidos, a moldurada janela, o primeiro telhado, um automvel ao comprido da rua. O almuadem, cego, tinha gritado para o espao duma manh luminosa, rubra, e logo azul, a cor do ar entre a terra que aqui est e o cu que nos cobre, se quisermos acreditar nos insuficientes olhos com que viemos ao mundo, mas o revisor, que hoje quase to cego se v como ele, apenas resmungou, com o mau humor de quem, tendo dormido mal, andara em trabalhosos sonhos de cerco, montantes, alfanges e fundas baleares, irritado, ao acordar, por no conseguir lembrar-se de como eram feitas as tais mquinas de guerra, das fundas  que falamos, e das profundas falas de quem no sonho estava falaramos, mas no caiamos j na tentao de antecipar os factos, agora s devemos lamentar a oportunidade perdida de saber-se, enfim, que mquinas eram as ditas fundas, como se armavam e disparavam, que no  to raro assim revelarem-se nos sonhos grandes mistrios, e entre eles no inclumos o nmero da sorte grande, banalidade suprema e indigna de qualquer sonhador que se respeite. Ainda na cama, Raimundo Silva, perplexo, perguntava a si mesmo por que razo insistia em pensar nas fundas baleares, ou fundbulos, como tambm se diria, acertando por igual, Baleares no deve ter nada que ver com as ilhas do mesmo nome, vir de balas, e balas sabemos o que so, projcteis, pedras que as mquinas atirariam contra os muros e por cima deles, para carem sobre as casas e a gente de dentro, espavorida, mas balas no  palavra daquele tempo, as palavras no podem ser levianamente transportadas de c para l e de l para c, cuidado, aparece logo algum que diz, No percebo. Adormeceu, esteve assim dez minutos, e ao despertar de novo, agora lcido, afastou do pensamento as mquinas que teimavam em voltar e deixou que as imagens das espadas e das cimitarras lhe ocupassem perigosamente o esprito, sorriu na penumbra do quarto porque bem sabia que se tratava de evidentes smbolos flicos,  certo que atrados ao sonho pela Histria do Cerco de Lisboa, mas em si enraizados, quem o duvida, se armas de ponta e fio tm razes, cravadas, sim, estaro, bastava olhar a cama vazia a seu lado para compreender tudo. Deitado de costas, cruzou os braos sobre os olhos, murmurou sem nenhuma originalidade, Mais um dia, no ouvira o almuadem, como se arranjaria naquela religio um mouro surdo para no faltar s oraes, sobretudo a da manh, decerto pediria a um vizinho, Em nome de Al, bate  porta com fora e no pares de bater enquanto eu no vier abrir. A virtude no  to fcil como o vcio, mas pode ser ajudada.
   Nesta casa no vive mulher. Duas vezes por semana vem uma de fora, mas no se pense que aquele lugar vago da cama tem que ver com a bissemanal visita, so diferentes precises, ficando desde j explicado que para o alvio das importunaes mais imperiosas da carne o revisor desce  cidade, contrata, satisfaz-se e paga, sempre teve de pagar, que remdio, mesmo quando no se achou satisfeito, que o verbo no tem um sentido s, como se cr vulgarmente. A mulher que vem de fora  o que chamamos a-dias, trata-lhe da roupa, arruma e limpa o mais substancial da casa, pe a cozer uma grande panela de sopa, a mesma, feijo branco e hortalia, que dar para alguns dias, no  que ao revisor no caiam bem outras variedades, mas reserva-as para o restaurante, aonde vai uma vez por outra, sem exageros de assiduidade. No h pois mulher nesta casa, nem nunca a houve. O revisor Raimundo Benvindo Silva  solteiro e no pensa em casar-se, Tenho mais de cinquenta anos, diz ele, quem  que me iria querer agora, ou a quem iria eu querer, ainda que, como todo o mundo sabe, seja muito mais fcil querer do que ser querido, e este ltimo comentrio, que se diria ser como o eco duma dor passada, agora tornada em sentena para lio dos confiados, este comentrio, mais a pergunta que o precedeu, f-los ele a si prprio, porque  homem bastante reservado para no andar a a derramar-se por amigos e conhecidos, que os ter, embora, provavelmente, no v ser preciso convoc-los ao relato, pelo jeito que ele leva. No tem irmos, os pais morreram-lhe nem cedo nem tarde, a famlia, se resta alguma, anda dispersa, notcias dela, quando chegam, pouco adiantam  tranquilidade de afinal no a ter, a alegria passou, o luto no vale a pena, e a nica coisa que verdadeiramente sente prxima de si  a prova que estiver a ler, enquanto dura, o erro que  preciso desemboscar, e tambm, quando calha, uma preocupao que no teria de ser sua, l se avenham os autores, que para isso levam as honras, corno este desassossego agora das fundas baleares que lhe voltou ao pensamento e no quer sair. Raimundo Silva levantou-se, enfim, procurou com os ps as babuchas, Chinelos, chinelos, que  a palavra crist, vinda de Gnova e aqui, tambm ela, passada a masculino, e entrou no escritrio enquanto vestia o roupo por cima do pijama. De longe em longe, a mulher-a-dias faz-lhe solene declarao sobre a necessidade de limpar o p dos livros, que, sobretudo nas prateleiras altas, onde se arrumam os que s muito raramente so consultados, mais parece ser o depsito aluvial duma acumulao de sculos, um p negro, como de cinza, que no se sabe donde vem, de tabaco no pode ser, que o revisor h muito que deixou de fumar,  a poeira do tempo, e est tudo dito. Sem que se saiba bem porqu, a tarefa  sempre adiada, o que, calcula-se, no desagrada  ancilar pessoa, aos seus prprios olhos absolvida pela inteno, e que no perde nenhuma ocasio de dizer, Mas olhe que a culpa no  minha.
   Raimundo Silva procura nos dicionrios e enciclopdias, v em Armas, em Idade Mdia, busca Mquinas de Guerra, e encontra as descries vulgares do arsenal da poca, rudimentar, basta dizer que ento no se conseguia matar um homem escolhido que estivesse a duzentos passos de distncia, forte perda, nem nada que se comparasse, e para a caa, se no havia  mo arco ou besta, tinha o caador de acercar-se aos braos do urso ou aos galhos do cervo ou aos dentes do javardo, hoje o que ainda conserva parecenas com to arriscadas aventuras  a corrida de touros, os toureiros so os ltimos homens antigos. Em nenhum lugar se explica nestes potentes volumes, nenhum desenho d uma ideia ao menos aproximada do que fosse aquela mortfera fbrica que tanto amedrontava os mouros, mas esta ausncia de informao j no  novidade para Raimundo Silva, agora o que ele quer descobrir  por que se chamava balear  funda, e vai de livro em livro, rebusca, impacienta-se, at que, finalmente, o precioso, o inestimvel Bouillet lhe ensina que os habitantes das Baleares eram considerados, na Antiguidade, os melhores arqueiros do mundo conhecido, que era, evidentemente, todo, e que da tinham tomado as ilhas o nome, pois em grego atirar diz-se ball, no h nada mais claro, qualquer simples revisor  capaz de ver a etimolgica linha recta que liga ball a Baleares, o erro, tratando-se da funda, est em ter-se escrito balear quando balerica  que seria correcto, senhor doutor. Mas Raimundo Silva no emendar, o uso faz alguma lei, quando a no fez toda, e, acima de tudo, primeiro mandamento do declogo do revisor que aspire  santidade, aos autores deve-se evitar sempre o peso de vexaes. Arrumou o livro, abriu a janela, e foi ento que o nevoeiro lhe deu na cara, denso, cerradssimo, se no lugar das torres da S ainda estivesse a almdena da mesquita maior, decerto no a poderia ver, por to delgada que era, area, impondervel quase, e ento, se essa fosse a hora, a voz do almuadem desceria do cu branco, directamente de Al, por uma vez louvador em causa prpria, o que de todo no poderamos censurar-lhe porque, sendo quem , com certeza se conhece bem.
   Ia a manh em meio quando o telefone tocou. Era da editora, queriam saber notcias sobre o andamento da reviso, quem comeou por falar foi a Mnica da Produo que tem, como todos os que trabalham nesse sector o hbito da meno majesttica, assim, Senhor Silva, disse a Produo pergunta, parece que estamos a ouvir, Sua Alteza Real quer saber, e repete como os arautos repetiam A Produo pergunta pelas provas, se falta muito para entreg-las, mas ela, a Mnica, ainda no percebeu, depois de tanto tempo de vida em parte comum, que Raimundo Silva detesta que lhe chamem Silva sem mais nada, no que o aborrece a vulgaridade do nome, que anda pela dos Santos e Sousas, mas porque lhe faz falta o Raimundo, por isso respondeu, seco, ferindo injustamente a pessoa delicada que Mnica , Diga l que amanh est pronto o trabalho Eu digo, senhor Silva, eu digo, e mais no acrescentou porque o telefone foi tomado bruscamente por outra pessoa, Fala Costa, Aqui Raimundo Silva, pde o revisor responder, J sei,  que as provas preciso delas ainda hoje, tenho a programao estoirada, se no meto o livro a imprimir amanh de manh arma-se um sarilho dos diabos, e tudo por causa da reviso, Para este tipo de livro, assunto, nmero de pginas, o tempo de reviso est dentro da mdia, No me venha com mdias, quero o trabalho acabado, a voz do Costa subira, sinal de que deveria estar por perto um chefe um director, talvez o prprio patro. Raimundo Silva inspirou fundo, argumentou, Revises feitas  pressa do ocasio a erros, E livros que se atrasam na sada significam prejuzo no h dvida, o patro assiste  conversa, mas o Costa acrescenta, Vale mais deixar passar duas gralhas do que perder um dia de vendas, fique sabendo, no, o patro no est, nem director, nem chefe, o Costa no admitiria com tanta naturalidade erros de reviso em proveito da rapidez,  uma questo de critrios, respondeu Raimundo Silva e o Costa, implacvel, No me fale de critrios, conheo bem o seu, o meu  muito simples, preciso dessas provas para amanh, sem falta, arranje-se como quiser, a responsabilidade  sua, J tinha dito  Mnica que o trabalho estar pronto amanh, Amanh tem ele que entrar na mquina, Entrar, pode mandar busc-lo s oito horas,  cedo de mais, a essa hora ainda isto est fechado, Ento mande buscar quando quiser, no posso continuar aqui a perder tempo, e desligou. Raimundo Silva est acostumado, no toma muito a peito as impertinncias do Costa, ms-criaes sem maldade, coitado do Costa, que no pra de falar da Produo, A Produo  que se trama sempre, diz ele, sim senhor, os autores, os tradutores, os revisores, os capistas, mas se no fosse c a Produozinha, eu sempre queria ver de que  que lhes adiantava a sapincia, uma editora  como uma equipa de futebol, muito floreado l na frente, muito passe, muito drible, muito jogo de cabea, mas se o guarda-redes for daqueles paralticos ou reumticos vai-se tudo quanto Marta fiou, adeus campeonato, e o Costa sintetiza, algbrico desta vez, A Produo est para a editora como o guarda-redes est para a equipa. O Costa tem razo.
   Chegando a hora do almoo, Raimundo Silva far uma omeleta de trs ovos com chourio, excesso diettico que o seu fgado por enquanto ainda aguenta. Com um prato de sopa, uma laranja, um copo de vinho, um caf para rematar, de mais no necessita quem tem esta vida sedentria. Lavou cuidadosamente a loua, gasta mais gua e detergente do que o preciso, enxugou-a, arrumou-a no armrio da cozinha,  um homem ordenado, um revisor no absoluto sentido da palavra, se  que alguma palavra pode existir e continuar a existir levando consigo um sentido absoluto, para sempre, uma vez que o absoluto no pede menos. Antes de voltar ao trabalho foi ver como estava o tempo, limpara um pouco, a outra margem do rio j comea a ser visvel, apenas uma linha escura, um borro alongado, o frio no parece ter diminudo. Sobre a secretria esto quatrocentas e trinta e sete provas de pgina, em duzentas e noventa e trs j foi feita a verificao das emendas, o que falta no  coisa que assuste, o revisor tem a tarde toda, e a noite, sim, tambm a noite, porque  seu profissional escrpulo fazer sempre uma derradeira leitura, seguida, como um leitor comum, finalmente o prazer e a felicidade de compreender de uma maneira livre, solta, sem desconfianas, tinha muita razo aquele autor que perguntou um dia, Aos olhos de um falco, como seria a pele de Julieta, ora, o revisor em sua agudssima tarefa,  precisamente o falco, mesmo quando j se lhe for cansando a vista, porm, em chegando a hora da leitura final,  tal qual Romeu quando olhou pela primeira vez Julieta, inocente, trespassado de amor.
   Neste caso da Histria do Cerco de Lisboa, j sabe Romeu que no encontrar motivos bastantes de embevecimento, embora Raimundo Silva, na conversao preambular e algo labirntica sobre as emendas dos erros e os erros das emendas, tenha dito ao autor que gostava do livro, e, de facto, no mentiu. Mas, que  gostar, perguntamos ns entre o muito gostar e o nada gostar est o menos e o pouco, e no chega escrev-lo para sabermos que partes de sim, de no e de talvez comporta tudo aquilo, seria preciso proferi-lo em voz alta, o ouvido capta a vibrao ltima, capta sempre, e quando nos enganamos ou nos deixamos enganar  s porque no demos ao ouvido ouvidos suficientes. Reconhea-se, porm, que aquele dilogo nada teve de enganador neste ponto, logo se percebeu que se tratava dum gostar sem cor, alheado, disse Raimundo Silva aquela palavra morna, Gosto, e ainda mal acabou de ser dita j est fria. Em quatrocentas e trinta e sete pginas no se encontrou um facto novo, uma interpretao polmica, um documento indito, sequer uma releitura. Apenas mais uma repetio das mil vezes contadas e exaustas histrias do cerco, a descrio dos lugares, as falas e as obras da real pessoa, a chegada dos cruzados ao Porto e sua navegao at entrarem no Tejo, os acontecimentos do dia de S. Pedro, o ultimato  cidade, os trabalhos do stio, os combates e os assaltos a rendio, finalmente o saque, die vero quo omnium sanctorum celebratur ad laudem et honorem nominis Christi et sanctissimae ejus genitricis purificatum est templum, dizem que escreveu Osberno, entrado na imortalidade das letras graas ao cerco e tomada de Lisboa e s histrias que deles se contaram, significando este latim, traduzido por cima do ombro de quem sabe, que no Dia de Todos os Santos passou a corrupta mesquita a purssima igreja catlica, e agora sim, agora  que o almuadem nunca mais poder chamar os crentes  orao de Al, vo substitu-lo por um sino ou sineta depois de terem substitudo um deus por outro, feliz caso teria sido terem-no deixado ir,  cego, coitado, salvo se de ira sanguinria cego ia precisamente o cruzado Osberno, s igual de nome, quando viu  frente da sua espada um mouro velho que nem para fugir tinha j foras, ali espojado no cho, agitando as pernas e os braos como se intentasse afundar-se pela terra dentro, este medo real em vez do outro, imaginrio, e h-de consegui-lo, to certo como estar vivo ainda, mas no por muito tempo mais dizemos ns, nem sozinho poder, porque estar morto ento, pensou o revisor, por enquanto esto a ser abertas as valas comuns. A intervalos, vindo do rio, ouve-se um mugido rouco de sereia, est assim desde manh, a avisar a navegao, mas s neste instante  que Raimundo Silva deu por ele, talvez por causa do grande e sbito silncio que dentro de si se fez.
    janeiro, anoitece cedo. A atmosfera do escritrio pesa, abafada. As portas esto fechadas. Para defender-se do frio, o revisor tem uma manta sobre os joelhos, o calorfero mesmo ao lado da secretria, quase a escaldar-lhe os tornozelos. J se percebeu que a casa  antiga, sem conforto, de um tempo espartano e bronco, quando sair para a rua, na altura dos frios maiores, ainda era o melhor remdio para quem no dispusesse seno de um corredor glido onde aquecer o corpo em pequenos exerccios de marcha. Mas, nesta ltima pgina da Histria do Cerco de Lisboa pode Raimundo Silva encontrar a ardente expresso de um patriotismo fervoroso, que decerto saber reconhecer se a vida montona e paisana no lhe entibiou o seu prprio, agora se arrepiar, sim, mas daquele sopro nico que vem da alma dos heris, repare-se no que escreveu o historiador, No alto do castelo o crescente muulmano desceu pela derradeira vez e, definitivamente, para sempre, ao lado da cruz que anunciava ao mundo o baptismo santo da nova cidade crist, elevou-se lento no azul do espao, beijado da luz, sacudido das brisas, a despregar-se ovante no orgulho da vitria, o pendo de D. Afonso Henriques, as quinas de Portugal, merda, e que no se cuide que a m palavra a dirige o revisor ao nacional emblema,  antes o legtimo desabafo de quem, tendo sido ironicamente repreendido por ingnuos erros da imaginao, vai ter de consentir que passem a salvo outros no seus, quando o que lhe est a apetecer, e com justo direito,  lanar nas margens do papel uma chuva de indignados deleatures, porm, j sabemos, no o far, que com emendas deste calibre ficaria avexado o autor, Reduza-se o sapateiro  observao da gspea, que s para isso  que lhe pagam, estas foram as impacientes palavras de Apeles, definitivas. Ora, estes erros no so como os das fundas, simples bagatela entre uma talvez-sim e uma talvez-no, que em boa verdade tanto nos d hoje que lhes chamem balericas como baleares, o que de todo no se deveria permitir  esta insensatez de falar de quinas em tempo de D. Afonso o Primeiro, quando s no reinado de seu filho Sancho foi que elas tomaram lugar na bandeira, e ainda assim dispostas no se sabe como, se em cruz ao centro, se uma a e as outras cada qual em seu canto, se ocupando o campo todo, esta, segundo as autoridades mais srias, a hiptese forte. Ndoa grave, mas no nica, que para todo o sempre ficar manchando a pgina final da Histria do Cerco de Lisboa, sobre o demais to ricamente instrumentada de tubas retumbantes, to de tambores, to de retrico arrebato, com as tropas formadas em parada, assim as imaginamos, p-terra infantes e cavaleiros, assistindo ao arriar do estandarte abominvel e ao hastear da insgnia crist e lusitana, gritando numa s voz Viva Portugal e batendo com as espadas nos escudos, em enrgica algazarra militar, e depois o desfile perante o rei, que est calcando aos ps, vindicativamente, alm do sangue mouro, o crescente muulmano, segundo erro e supremo disparate, que nunca tal bandeira foi erguida sobre os muros de Lisboa, pois, como o historiador no deveria ignorar, crescente em bandeira foi inveno do imprio otomano, dois ou trs sculos mais tarde. Raimundo Silva ainda pousou o bico da esferogrfica sobre as quinas, mas logo pensou que se dali as tirasse, e ao crescente, seria como um terramoto na pgina, tudo viria abaixo, histria sem remate a condizer com a grandeza do instante, e esta lio  muito boa para instruir-se a gente sobre a importncia duma coisa que,  primeira vista, no passa de um pedao de pano de uma ou vrias cores com figuras recortadas tambm diversamente coloridas, que tanto podem ser castelos como estrelas, ou lees, ou unicrnios, ou guias, ou sis, ou foices, ou martelos, ou chagas, ou rosas, ou sabres, ou machetes, ou compassos, ou rodas, ou cedros, ou elefantes, ou bois, ou barretes, ou mos, ou palmeiras, ou cavalos, ou candelabros, eu que sei, perde-se uma pessoa neste museu se no leva guia nem catlogo, pior ainda se s bandeiras se lembrar de juntar os brases, que tudo  uma famlia s, ento ser um nunca mais acabar de flores-de-lis, de conchas, de fivelas, de leopardos, de abelhas, de guisos, de rvores, de bculos, de mitras, de espigas, de ursos, de salamandras, de garas, de anis, de patos, de pombos, de javalis, de virgens, de pontes, de corvos e caravelas, de lanas, de livros, sim, at livros, a Bblia, o Coro, o Capital, adivinhe quem puder, e mais, e mais, de tudo isto se podendo concluir que os homens so incapazes de dizer quem so se no puderem alegar que so outra coisa, motivo afinal suficiente, neste caso, para que a deixemos ficar o episdio das bandeiras, a decada e a exaltada, mas cientes de que tudo no passa de mentira, til at certo ponto,  mxima vergonha, pois que no tivemos a coragem de emend-la nem saberamos pr no seu lugar a verdade substancial, aspirao sobre todas excessiva, porm inextinguvel, que Al se amerceie de ns.
   Pela primeira vez em tantos anos de ofcio minucioso, Raimundo Silva no far leitura final e completa de um livro. So, como j foi dito, quatrocentas e trinta e sete pginas fortssimas de notas, para ler tudo teria de ficar acordado a noite inteira, ou pouco menos, e no lhe apetece o martrio, tomou-se de resoluta antipatia pela obra e pelo autor dela, amanh iro dizer os leitores inocentes e repetir a juventude das escolas que a mosca tem quatro patas, por assim o ter afirmado Aristteles, e no prximo centenrio da tomada de Lisboa aos mouros, no ano de dois mil e quarenta e sete, se Lisboa houver ainda e portugueses nela, no faltar um presidente para evocar aquela suprema hora em que as quinas, ovantes no orgulho da vitria, tomaram o lugar do mpio crescente no cu azul da nossa formosa cidade.
   No entanto, exige-lhe a conscincia profissional que, ao menos, v percorrendo devagar as pginas, os olhos expertos vagando sobre as palavras, confiado em que, variando assim o nvel de ateno, qualquer erro menor de alada sua se deixaria surpreender, como sombra que o movimento do foco luminoso subitamente deslocou, ou aquele conhecido relance da viso lateral que capta, no ltimo instante, uma imagem em fuga. Importa nada saber se Raimundo Silva conseguiu limpar de todo as enfadonhas laudas, o que sim valer a pena  observ-lo enquanto rel o discurso que D. Afonso Henriques fez aos cruzados, conforme a verso dita de Osberno, ali traduzida do latim pelo prprio autor da Histria, que no se fia das lies alheias, mormente tratando-se de matria de tal responsabilidade, nem mais nem menos a primeira fala averiguada do nosso rei fundador, que outra, alis, no se conhece bastantemente autorizada. Para Raimundo Silva, o discurso , todo ele, de ponta a ponta, uma absurdidade, no que se permita duvidar do rigor da traduo, que no est a latinaria entre as suas prendas de revisor apenas mdio, mas porque no se pode,  que no se pode mesmo acreditar que da boca deste rei Afonso, sem prendas, ele, de clrigo, tenha sado a complicada fala, bem mais  semelhana dos sermes arrebicados que os frades ho-de dizer daqui a seis ou sete sculos do que dos curtos alcances duma lngua que ainda agora comeava a balbuciar. Estava o revisor, assim, sorrindo escarninhamente, quando de sbito lhe deu o corao um salto, afinal, se Egas Moniz foi to bom aio quanto dele proclamam os anais, se no nasceu s para levar o aleijadinho a Carquere ou, mais tarde, para ir a Toledo de barao ao pescoo, ento seguramente no teria faltado ao seu pupilo com suficientes mximas crists e polticas, e sendo o latim, por excelncia, o veculo destes aperfeioamentos,  de supor que o real menino, alm de explicar-se naturalmente em galego, latinizaria o quantum satis para poder declamar, chegada a hora, perante tantos e to cultos cruzados estrangeiros, a arenga supracitada, uma vez que eles, de lnguas, no entenderiam ento mais do que a sua de bero e iguais rudimentos da outra, com a ajuda dos frades intrpretes. Saberia portanto D. Afonso Henriques latim e no precisou de dar homem por si na clebre assembleia, qui, at, tenha sido ele o prprio autor das clebres palavras, hiptese muito plausvel em pessoa que, por seu mesmo punho, e no mesmo latim, tinha escrito a Histria da Conquista de Santarm, consoante gravemente no-lo explica Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana, mais nos informando que o manuscrito, ao tempo, se conservava no arquivo do Real Convento de Alcobaa, no fim de um Livro de S. Fulgncio. H que dizer que o revisor no cr em uma s palavra do que os seus olhos esto vendo, sobeja-lhe o cepticismo, ele prprio j o declarou, e para cortar a direito, como tambm para distrair-se dos enfados desta leitura obrigada, foi  fonte limpa das Historiografias modernas, buscou e encontrou, bem me queria a mim parecer, Machado, crdulo, copiou sem conferir o que haviam escrito Frei Bernardo de Brito e Frei Antnio Brando,  assim que se arranjam os equvocos histricos, Fulano diz que Beltrano disse que de Cicrano ouviu, e com trs autoridades dessas se faz uma histria, sendo afinal certo que a da Conquista de Santarm a escreveu um cnego regrante de Santa Cruz de Coimbra, de quem nem o simples nome ficou para tomar na biblioteca o lugar a que tem justo direito e dela retirar o rei usurpador.
   Raimundo Silva est de p, tem posta sobre os ombros a manta, mas de jeito que uma ponta arrasta pelo cho quando se move, e em voz alta l, como um arauto lanando as proclamas, isto , o discurso que aos cruzados fez el-rei nosso senhor, por esta guisa, Sabemos bem, e temos diante dos olhos, que vs haveis de ser homens fortes, denodados e de grande destreza, e, em verdade, a vossa presena no diminuiu  nossa vista o que de vs nos dissera a fama. No vos reunimos aqui para saber o quanto a vs, homens de tanta riqueza, seria bastante prometer para que, enriquecidos com as nossas ddivas, ficsseis connosco para o cerco desta cidade. Dos mouros, sempre inquietados, nunca pudemos acumular tesouros, com os quais acontece algumas vezes no se poder viver em segurana. Mas, porque no queremos que ignoreis os nossos recursos e quais as nossas intenes para convosco, entendemos que nem por isso deveis desprezar a nossa promessa, pois consideramos como sujeito ao vosso domnio tudo o que a nossa terra possui. Duma coisa porm estamos certos, e  que a vossa piedade vos convidar mais a este trabalho e ao desejo de realizar to grande feito, do que vos h-de atrair  recompensa a promessa do nosso dinheiro. Ora, para que com a algazarra dos vossos homens no seja perturbado o que vos disser, escolhei quem vs quiserdes, a fim de que, retirados  parte uns e outros, benigna e sossegadamente determinemos em conjunto a causa da nossa promessa, e resolvamos sobre aquilo que vos expomos, para depois ser explicado a todos em comum o que tivermos resolvido, e assim, dado o assentimento de ambas as partes, com juramento e garantias certas, seja isso ratificado para interesse de Deus.
   No este discurso no  obra de rei principiante, sem  excessiva experincia diplomtica, aqui tem dedo, mo e cabea de eclesistico maior, talvez o prprio bispo do Porto, D. Pedro Pites, e seguramente o arcebispo de Braga, D. Joo Peculiar, que juntos e concertados tinham logrado persuadir os cruzados, de passagem no Douro, a virem ao Tejo ajudar  conquista, dizendo-lhes, por exemplo, Ao menos ouam as razes que a favor da prestao de auxlio temos para dar-lhes,  vista da mercadoria. E tendo a viajem do Porto at Lisboa durado trs dias, no  preciso ser dotado duma imaginao prodigiosa para supor que os dois prelados, de caminho vieram fazendo o rascunho, com o fito de adiantar trabalho, ponderando os argumentos, insinuando muito, acautelando o possvel, com promessas liberalssimas envolvidas em prudentes reservas mentais, no esquecendo a lisonja, recurso embaidor que geralmente frutifica em mil por um, mesmo se o terreno  sfaro e pouco destro o semeador. Raimundo Silva, afogueado, deixa cair a manta com teatral ademane, sorri sem alegria, Isto no  discurso em que se acredite, mais parece lance shakespeariano que de bispos arrabaldinos, e regressa  secretria senta-se, abana a cabea sucumbidamente, Pensarmos ns que nunca viremos a saber que palavras disse realmente D. Afonso Henriques aos cruzados, ao menos bons dias, e que mais, e que mais, e a claridade ofuscante desta  evidncia, no poder saber, aparece-lhe, se sbito, como uma infelicidade, seria capaz de renunciar a alguma coisa, no se pergunta qu nem quanto, a alma, se a h, os bens, se os tivesse, para encontrar, de preferncia nesta parte de Lisboa onde vive e que  precisamente um papel era a cidade toda, um pergaminho, um papiro, avulso, um recorte de jornal, uma gravao, podendo ser, ou uma lpide insculpida, que registasse a vera fala, o original, por assim dizer, porventura menos subtil em arte dialctica do que esta verso amaneirada, onde justamente faltam as fortes palavras dignas da ocasio.
   O jantar foi rpido, simples, ainda mais ligeiro que o almoo, mas Raimundo Silva bebeu duas chvenas de caf em vez de uma, para se defender do sono que no tardaria a ameaar, vista a mal dormida noite passada. Num ritmo certo, as pginas vo mudando de lugar, sucedem-se os quadros e os episdios, agora o historiador embandeirou o estilo para tratar da grande discrdia que se levantou entre os cruzados, depois da arenga real, sobre se deveriam, ou no, ajudar os nossos portugueses a tomar Lisboa, se ficariam aqui ou seguiriam, como previsto, para a Terra Santa, onde os estava esperando Nosso Senhor Jesus Cristo, sob os ferros turcos. Argumentavam aqueles a quem seduzia a ideia de ficar que lanar fora da cidade a estes mouros e faz-la crist seria tambm servio de Deus, contestavam os contrrios que, se esse era servio de Deus, servio menor seria, e que cavaleiros to principais como ali todos se prezavam de ser tinham por obrigao acudir aonde mais trabalhosa fosse a obra, no neste cu do mundo, entre labregos e tinhosos, que uns deviam ser os mouros e outros os portugueses, porm no o averiguou o historiador, talvez por no valer a pena escolher entre os dois insultos. Berravam os guerreiros como possessos, Deus me perdoe, violentos de palavras e de gestos, e os que defendiam a ideia de continuar viagem para os Santos Lugares afirmavam que muito maiores lucros e proveitos tirariam da extorso do dinheiro e mercadorias das naus que no mar encontrassem, tanto de Espanha como de frica, anacronismo de que s ao historiador se devem pedir contas, falar de naus no sculo doze, do que da tomada desta cidade de Lisboa, com menos perigo de vidas, que as muralhas so altas e os mouros muitos. Acertara D. Afonso Henriques em cheio quando prognosticou que o exame da sua proposta acabaria em algazarra, palavra que sendo rabe de nacionalidade igualmente serve a qualquer gritar e vozear de colonenses, flamengos, bolonheses bretes, escoceses e normandos, misturados. Enfim, l se acomodaram as contrrias partes ao cabo duma disputa verbal que durou todo este dia de S. Pedro, e amanh, que  o trinta de junho, iro os representantes dos cruzados, agora concordes, informar o rei de que sim senhor o auxiliaro na conquista de Lisboa, a troco dos haveres dos inimigos, que alm esto olhando ds muralhas, e outras facilidades directas e indirectas.
   H dois minutos que Raimundo Silva olha, de um modo to fixo que parece vago, a pgina onde se encontram consignados estes inabalveis factos da Histria no por desconfiar de que nela se esteja ocultando algum ltimo erro, uma qualquer prfida gralha que tivesse arranjado artes de esconder-se nos refegos duma orao gramatical tortuosa e agora, negaceando, o provoque a coberto tambm da sua cansada vista e do sono geral que o invade e entorpece. Que o invadia e entorpecia, seriam os tempos verbais exactos. Porque h trs minutos que Raimundo Silva est to deserto como se tivesse tomado uma pastilha de benzedrina, de um resto que ainda a tem, por trs dos livros, o que sobrou da receita de um mdico idiota. Est como fascinado, l, rel, torna a ler a mesma linha, esta que de cada vez redondamente afirma que os cruzados auxiliaro os portugueses a tomar Lisboa. Quis o acaso, ou foi antes a fatalidade que estas unvocas palavras ficassem reunidas numa linha s, assim se apresentando com a fora de uma legenda, so como um dstico uma inapelvel sentena, mas so tambm como uma provocao, como se estivessem a dizer ironicamente, Faz de mim outra coisa, s s capaz. A tenso chegou a pontos que Raimundo Silva, de repente, no pde aguentar mais, levantou-se, empurrando a cadeira para trs, e agora caminha agitado de um lado para o outro no reduzido espao que as estantes, o sof e a secretria lhe deixam livre, diz e repete, Que disparate, que disparate, e como se precisasse de confirmar a radical opinio, tornou a pegar na folha de papel, graas ao que podemos ns, agora, que antes havamos chegado a duvidar, certificar-nos de que no h tal disparate, ali se diz mui explicadamente que os cruzados auxiliaro os portugueses a tomar Lisboa, e a prova de que assim foi que aconteceu iramos encontr-la nas pginas seguintes, l onde se descreve o cerco, o assalto s muralhas, o combate nas ruas e nas casas, a mortandade excessiva, o saque, Por favor, diga-nos o senhor revisor onde est a o disparate, esse erro que nos escapa,  natural, no beneficiamos da sua grande experincia, s vezes olhamos e no vemos, mas sabermos ler, creia, sim, tem razo, no compreendermos sempre tudo, j se adivinha porqu, o preparo tcnico, senhor revisor, o preparo tcnico, e tambm, confessemo-1o, s vezes d-nos a preguia de ir ao dicionrio ver os significados, o que s nos prejudica.  um disparate, insiste Raimundo Silva como se estivesse a responder-nos, no farei semelhante coisa, e por que a faria, um revisor  uma pessoa sria no seu trabalho, no joga, no  prestidigitador, respeita o que est estabelecido em gramticas e pronturios, guia-se pelas regras e no as modifica, obedece a um cdigo deontolgico no escrito mas imperioso,  um conservador obrigado pelas convenincias a esconder as suas voluptuosidades, dvidas, se alguma vez as tem, guarda-as para si, muito menos por um no onde o autor escreveu sim, este revisor no o far. As palavras que o Dr. Jekill acabou de dizer tentam opor-se a outras que no chegmos a ouvir, essas disse-as Mr. Hyde, no seria preciso mencionar estes dois nomes para percebermos que neste prdio velho do bairro do Castelo assistimos a mais uma luta entre o campeo anglico e o campeo demonaco, esses dois de que esto compostas e em que se dividem as criaturas, referimo-nos s humanas, sem excluso dos revisores. Mas esta batalha, desgraadamente, vai ganh-la Mr. Hyde, percebe-se pela maneira como Raimundo Silva est a sorrir neste momento, com uma expresso que no esperaramos dele, de pura malignidade, desapareceram-lhe do rosto todos os traos do Dr. Jekill,  evidente que acabou de tomar uma deciso, e que m ela foi, com a mo firme segura a esferogrfica e acrescenta uma palavra  pgina, uma palavra que o historiador no escreveu, que em nome da verdade histrica no poderia ter escrito nunca, a palavra No, agora o que o livro passou a dizer  que os cruzados No auxiliaro os portugueses a conquistar Lisboa, assim est escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos falso prevaleceu sobre o que chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar, algum teria de vir contar a histria nova, e como.
   Em tantos anos de honrada vida profissional, jamais Raimundo Silva se atrevera, em plena conscincia, a infringir o antes citado cdigo deontolgico no escrito que pauta as aces do revisor na sua relao com as ideias e opinies dos autores. Para o revisor que conhece o seu lugar, o autor, como tal,  infalvel. Sabe-se, por exemplo, que o revisor de Nietzsche, sendo embora fervoroso crente, resistiu  tentao de introduzir, tambm ele, a palavra No numa certa pgina, transformando em Deus no morreu o Deus est morto do filsofo. Os revisores, se pudessem, se no estivessem atados de ps e mos por um conjunto de proibies mais impositivo que o cdigo penal, saberiam mudar a face do mundo, implantar o reino da felicidade universal, dando de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome, paz aos que vivem agitados, alegria aos tristes, companhia aos solitrios, esperana a quem a tinha perdida, para no falar da fcil liquidao das misrias e dos crimes, porque tudo eles fariam pela simples mudana das palavras, e se algum tem dvidas sobre estas novas demiurgias no tem mais que lembrar-se de que assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com palavras, umas e no outras, para que assim ficasse e no doutra maneira. Faa-se, disse Deus, e imediatamente apareceu feito.
   Raimundo Silva no continuar a ler. Est exausto, foram-se-lhe todas as foras naquele No em que acabou de jogar, alm da imaculada reputao que tem merecido, a tranquilidade duma conscincia em paz. A partir de hoje viver para o momento, mais tarde ou mais cedo, mas inevitvel, em que algum lhe aparecer a pedir contas do erro, poder ser o justamente enfadado autor, ou o crtico irnico e implacvel, ou um leitor atento em carta  editora, ou ainda, amanh mesmo, o Costa, quando vier buscar as provas, que  bem capaz de aparecer ele prprio a, com o seu ar herico e sacrificado, Tive de vir eu,  sempre o melhor, fazer cada um mais do que o seu dever. E se ao Costa lhe der para folhear as provas antes de met-las na pasta, se nesse acaso lhe saltar aos olhos a pgina maculada de mentira, se estranhar o aparecimento duma nova palavra em provas que j so quartas, se se der ao trabalho de l-la e entender o que passou a estar escrito, o mundo, ento reemendado, ter vivido diferentemente s um curto instante, o Costa dir, ainda que hesitando, Senhor Silva, parece haver aqui um erro, e ele fingir olhar e no ter mais remdio que concordar, Que tolice a minha, no sei como pde isto ter acontecido, efeitos do sono, foi o que foi. No ser necessrio desenhar um deleatur para eliminar a ominosa palavra, bastar risc-la, simplesmente, como o faria uma criana, o mundo regressar  antiga e tranquila rbita, o que foi continuar a ser, e, daqui em diante, o Costa, ainda que no venha a falar do estranho caso, ter mais um motivo para proclamar que a Produo est por cima de todas as coisas.
   Raimundo Silva deitou-se. Est de costas, com as mos cruzadas atrs da nuca, no sente ainda o frio. Tem dificuldade em reflectir no que fez, sobretudo no consegue reconhecer a gravidade do seu acto, e chega mesmo a surpreender-se por nunca antes lhe ter ocorrido a ideia de alterar o sentido doutros livros que reviu. Num momento que lhe parece ser como se estivesse a desdobrar-se, a afastar-se de si mesmo, observa-se a pensar, e assusta-se um pouco. Depois encolhe os ombros, adia a preocupao que comeava a insinuar-se no seu esprito, Veremos, amanh decidirei se deixo ficar a palavra, ou a retiro. Ia voltar-se para o lado direito, virando as costas  metade vazia da cama, quando percebeu que a sereia de aviso se calara, quem sabe h quanto tempo, No, ouvi-a quando estava a dizer o discurso do rei, lembro-me exactamente, entre duas frases, o mugido rouco, como de touro que se tivesse perdido entre a nvoa, bramindo para o cu branco, longe da manada,  estranho que no haja animais marinhos com vozes capazes de encher a vastido do mar, ou este largo rio, vou ver como est o cu. Levantou-se, cobriu-se com o roupo de fazenda grossa que, de inverno, sempre estende sobre os cobertores da cama, e foi abrir a janela. O nevoeiro desaparecera, no se acredita que tantas cintilaces tivessem estado ocultas nele, as luzes pela encosta abaixo, as outras do outro lado, amarelas e brancas, projectada sobre a gua como trmulos lumes. Est mais frio. Raimundo Silva pensou, pessoanamente. Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo  vago e vrio assim, no fumando, apenas pensarei que tudo  vrio e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse. O revisor demora-se  janela, ningum o chamar, Vem para dentro, olha que te constipas, e ele tenta imaginar que o chamam docemente, mas fica ainda um minuto a pensar, vago ele, e vrio, e enfim, como se outra vez o tivessem chamado,  Vem para dentro, peo-te, condescende em fechar a janela, deita-se sobre o lado direito,  espera. De sono.
   

   
   No eram ainda oito horas quando o Costa tocou  porta. O revisor, que tivera uma noite difcil, de breves e inquietos sonhos, dormia enfim pesadamente, assim o pensava a parte de si que acedera a um nvel de conscincia suficiente para pensar, e esse profundo sono tirava-se por concluso, vista a dificuldade de acordar a outra parte, apesar das insistncias estridentes da campainha, quatro vezes, cinco, agora um toque prolongado at ao infinito como se o mecanismo do boto se tivesse encravado. Raimundo Silva sabia, evidentemente, que deveria levantar-se, mas no podia deixar na cama metade de si mesmo, ou talvez mais, que diria o Costa, com certeza que  o Costa, agora a polcia j no vem tirar-nos da cama matinalmente, sim, que dir o Costa ao ver aparecer somente metade de Raimundo Silva, talvez o Benvindo, um homem sempre deve ir completo aonde o chamem, no pode alegar, 'Trago aqui esta parte de quem sou, o resto atrasou-se no caminho. A campainha continuava a tocar, o Costa comea a preocupar-se, Que silncio na casa, finalmente a metade acordada do revisor consegue gritar numa voz rouca, L vou, e s ento a parte adormecida se deixa mover, de m vontade. Agora, precariamente reunidos, inseguros em pernas que no se sabe a quem pertencem, atravessam o quarto, a porta da escada faz ngulo recto com esta, quase se poderiam abrir as duas num nico movimento,  o Costa, claramente repeso do matinal alarme, Desculpe-me, repara ento que no deu os bons-dias, Bons dias, desculpe, senhor Silva, vir to cedo, mas  por causa das provazinhas, o Costa quer lhe perdoem, o humilde diminutivo no significa outra coisa, Sim, sim, diz o revisor, , entre a para o escritrio.
   Quando Raimundo Silva reaparece, a apertar o cinto e a aconchegar ao pescoo as bandas do roupo, que  em tons de azul, com  desenhos  escocs, o Costa j tem na mo o mao de provas, segura-as como se as sopesasse, diz at compreensivo. De facto isto  enorme mas no as folheia propriamente, limita-se a perguntar, um pouco inquieto, Ainda lhe meteu muitas emendas, e Raimundo Silva responde, No, ao mesmo tempo sorri, felizmente que ningum pode perguntar-lhe porqu, o Costa no sabe que ningum pode perguntar-lhe porqu, o Costa no sabe que precisamente est a ser enganado por uma to pequena palavra, esse No que numa mesma emisso de voz esconde e revela, o Costa perguntara, Ainda lhe meteu muitas emendas, e o revisor respondeu, No, sorrindo, agora crispado quando diz, Se quiser, pode ver, o Costa estranha a benevolncia,  um sentimento vago que logo se dissipou. No vale a pena, vou daqui para a tipografia, prometeram-me que metem o livro na mquina assim que cheguem as provas. Se o Costa folheasse as pginas e desse com o erro, pensa o revisor que ainda seria capaz de o convencer com duas ou trs frases complicadas de contexto e negao, de contradio e aparncia, de nexo e indeterminao, mas o Costa j s quer partir, tem uma tipografia  sua espera, est contente porque a Produo conseguiu mais uma vitria na luta contra o tempo, Hoje  o primeiro dia do resto da tua vida, deveria, claro est, mostrar-se severo, no  bom que as coisas acabem por resolver-se sempre  ltima hora, precisamos de trabalhar com margens de segurana maiores, mas o revisor tem um ar to desamparado, metido naquele roupo de falso escocs, a barba crescida o cabelo grotescamente pintado a contrastar, triste, com as brancas, que o Costa, rapaz que est na fora da vida, apesar de pertencer s geraes que fizeram da bondade irriso, cala as suas justssimas queixas e  com quase afecto que retira da pasta o original de um novo livro para rever, Este  pequeno, pouco mais de duzentas pginas, e a pressa no  muita. Raimundo Silva recebe e apreende o sentido do gesto e das palavras, decifra o meio-tom acrescentado ou retirado a uma vogal, o seu ouvido sabe ler to bem como os seus olhos, e por tudo isso sente como um remorso de assim estar enganando a inocncia do Costa, emissrio e portador de um erro de que no  responsvel, como acontece  maioria dos homens, que vivem e morrem ingnuos, afirmando e negando por conta alheia, mas as contas pagando como se suas prprias fossem, porm sbio  Al, e o mais fantasmas da razo.
   Foi-se o Costa, feliz por comear to bem o dia, e Raimundo Silva vai  cozinha, a preparar o caf com leite e as torradas com manteiga. As torradas, para este homem de normas e princpios, so quase um vcio e verdadeiramente uma manifestao de gula insofrevel, em que entram mltiplas sensaes, tanto visuais como tcteis, tanto olfactivas como gustativas, principiando pelo brilho da torradeira cromada, depois a faca cortando as fatias, o cheiro do po tostado, a manteiga a derreter-se, e enfim o prazer complexo da boca, do palato, da lngua, dos dentes, a que se cola inefvel pelcula escura, queimada e macia, e outra vez o cheiro, agora dentro de si, no cu esteja quem to sublime coisa soube inventar. Raimundo Silva, um dia, disse estas exactas palavras em voz alta, num rpido momento em que lhe pareceu estar transfundindo-se-lhe ao sangue a obra perfeita do fogo e do po, que, em verdade, para ele, at a manteiga seria suprflua, dispensvel sem maior desgosto, ainda que muito nscio ter de ser aquele que recusasse o que, acrescentado ao essencial, lhe redobra os apetites e os sabores,  esse o caso do po torrado e da manteiga, de que vimos falando, seria tambm o caso do amor, por exemplo, se dele tivesse o revisor mais ampla experincia. Acabou Raimundo Silva de comer, foi ao banho, a barbear-se, a cuidar da aparncia. Enquanto no tem a cara bem coberta de espuma foge de olhar-se a direito no espelho, hoje vive arrependido de ter decidido pintar o cabelo, est como prisioneiro dos seus prprios artifcios, porque, mais do que o desagrado que lhe causa a sua imagem, o que ele no suporta  a ideia de que, deixando de pintar-se, os cabelos brancos que sabe ter lhe apareceriam de repente  luz, de uma s vez, como uma irrupo brutal, em lugar do lento avano natural que por vaidade tola resolveu um dia interromper. So as pequenas misrias do esprito, que o corpo tem de pagar, ele que est sem culpas.
   No escritrio, s para tomar conhecimento do novo trabalho, Raimundo Silva examina o original que o Costa lhe deixou, oxal no me saia uma histria de Portugal completa, que no faltariam nela outras tentaes de Sim e de No, ou aquela, qui ainda mais sedutoramente especulativa, de um infinito Talvez que no deixasse pedra sobre pedra nem facto sobre facto. Afinal,  apenas um romance entre os romances, no tem que preocupar-se mais com introduzir nele o que nele j se encontra, porque livros destes, as fices que contam, fazem-se, todos e todas, com uma continuada dvida, com um afirmar reticente, sobretudo a inquietao de saber que nada  verdade e ser preciso fingir que o , ao menos por um tempo, at no se poder resistir  evidncia inapagvel da mudana, ento vai-se ao tempo que passou, que s ele  verdadeiramente tempo, e tenta-se reconstituir o momento que no soubemos reconhecer, que passava enquanto reconstituamos outro, e assim por diante, momento aps momento, todo o romance  isso, desespero, intento frustrado de que o passado no seja coisa definitivamente perdida. S no se acabou ainda de averiguar se  o romance que impede o homem de esquecer-se, ou se  a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances.
   Tem Raimundo Silva o hbito higinico de conceder-se a si mesmo um dia de liberdade quando termina uma reviso.  como um desafogo, diz ele, uma purga, e assim desce da sua casa ao mundo, passeia por essas ruas, demora-se em exposies, senta-se num banco de jardim, distrai-se duas horas no cinema, entra num museu para rever uma pintura subitamente urgente, enfim, faz a vida de quem veio de visita e to cedo no tornar. Nem sempre, porm, cumpre o programa todo. No  raro que regresse a casa quando ainda a tarde vai em meio, nem cansado nem aborrecido, apenas porque o chamou a voz interior com que nem vale a pena discutir, tem l um livro  espera, outro, que a editora, pelo muito que o considera e estima, nunca o deixou at agora sem trabalho. Apesar de tantos anos desta montona vida, ainda o toca a curiosidade de saber que palavras o estaro aguardando, que conflito, que tese, que opinio, que simples enredo, aconteceu isso mesmo com a Histria do Cerco de Lisboa, nem seria de estranhar, que desde os tempos da escola nunca mais o acaso ou a prpria vontade o haviam feito interessar-se por to remotos episdios.
   Desta vez, no entanto, Raimundo Silva rev que s tarde regressar a casa, provavelmente ir mesmo a uma sesso da meia-noite, e no precisamos ser excessivamente perspicazes para perceber que o seu desejo  estar fora do alcance imediato do Costa se vier a descobrir-se a fraude de que, ao mesmo tempo,  autor e cmplice, porque sendo autor errou e sendo revisor no emendou. Alis, so quase dez horas, na tipografia j devem estar a montar as primeiras ramas, o impressor, com os gestos pausados e minuciosos que distinguem o especialista, proceder aos acertos aps a imposio, daqui a poucos minutos comearo a sair velozmente as folhas de papel que vo contar a falsa Histria do Cerco de Lisboa, e tambm daqui a poucos minutos poder soar a campainha do telefone, estranho  que no tenha soado j, e do outro lado ouvir-se- o Costa aos gritos, Um erro que no tem explicao, senhor Silva, felizmente que dei por ele a tempo, venha imediatamente, meta-se num txi, isto  assunto da sua responsabilidade, no, no  questo que se possa tratar pelo telefone, exijo a sua presena, com testemunhas, ao Costa, de nervosismo, esgania-se-lhe a voz, e Raimundo Silva, nervoso outro tanto, ou mais, empurrado pelas imaginaes, comea a vestir-se precipitadamente, vai  janela a ver como est o tempo, frio mas descoberto. Na outra margem, as altas chamins lanam para o ar rolos de fumo que primeiro sobem verticalmente, at que o vento lhes quebra o impulso e os abate numa lenta nuvem que vai para o sul. Raimundo Silva baixa os olhos para os telhados que cobrem o antigo cho de Lisboa. Tem as mos apoiadas no parapeito da varanda, sente o ferro frio e rugoso, agora est calmo, apenas olha, no pensa, e  neste instante que ao esprito vazio lhe acode uma ideia para ocupar este seu dia livre, algo que afinal nunca fizera na vida, no tm razo aqueles que se queixam da brevidade dela, se no a aproveitaram como lhes foi dada.
   Deixou a varanda, foi ao escritrio, procurou entre os papis de um armrio as primeiras provas do Cerco, ainda em seu poder, como as segundas e as terceiras, no o original, esse fica na editora depois de terminada a primeira reviso, meteu tudo num saco de papel, e  agora que o telefone toca. Raimundo Silva deu um estremeo, a mo esquerda, levada pelo hbito, ainda se aproximou, mas parou a meio caminho e recolheu-se, este objecto negro  uma bomba de relgio que vai explodir, uma cascavel vibrante prestes a atacar. Lentamente, como se temesse que os passos pudessem ser ouvidos l donde o chamam, o revisor afasta-se, murmura,  o Costa, porm est enganado, e nunca vir a saber quem lhe quis falar a esta hora da manh, quem e para qu, o Costa no lhe dir, daqui por alguns dias, Telefonei para sua casa, mas ningum atendeu, e to-pouco outra pessoa, mas quem, repetir a declarao, Que pena, tinha uma boa notcia para lhe dar, o  telefone tocou, tocou, e nada.  verdade, o telefone toca, toca, mas Raimundo Silva no responder, j vai no corredor, pronto para sair, provavelmente, depois de tantas dvidas e aflies, foi algum que se enganou no nmero, acontece, mas isto mesmo no o viremos a saber,  um supor apenas, ainda que apetecesse aproveitar a hiptese, esta que deixaria mais sossegado o revisor, o que, alis, bem vistas as coisas, no passa de irreflectido modo de dizer, considerando que tal tranquilidade, nas presentes circunstncias, seria parecida em tudo, com o precrio alvio de um mero adiamento afastai de mim este clice, disse o outro, e no lhe adiantaria nada, que outra vez lho tornariam a impor.
   Enquanto desce a escada, estreita e empinada, Raimundo Silva vai pensando que ainda estaria a tempo de evitar a m hora que o espera quando o temerrio procedimento for descoberto, basta que tome um txi e corra  tipografia, onde o Costa certamente assiste, feliz por ter provado urna vez mais a eficcia que  sua principal caracterstica, o Costa, sendo a Produo, adora vir  tipografia dar, por assim dizer, as vozes de marcha, e vai precisamente dar esta quando de sbito irrompe pela porta dentro Raimundo Silva gritando, Alto, suspendam, parece o novelesco caso do emissrio esbaforido que traz ao condenado  morte, no ltimo segundo, o perdo real, que alvio,  certo que tambm este precrio, porm  abissal a diferena entre sabermos que um dia morreremos e termos j diante dos olhos o fim de tudo, o peloto de arma apontada, melhor do que ningum o dir quem, tendo antes escapado miraculosamente, esteja agora, sem remdio, no definitivo transe, safou-se da primeira vez Dostoievski, mas no da segunda.  luz clara e fria da rua, Raimundo Silva parece ainda ponderar sobre o que finalmente vai fazer, mas a ponderao  fingimento aparncia apenas, o revisor representa para si mesmo um debate cuja concluso  de antemo conhecida, aqui teve voz a costumada frase dos jogadores de xadrez intransigentes, pea tocada, pea jogada, meu caro Alekhine, o que escrevi, escrevi. Raimundo Silva respira fundo, olha as duas filas de prdios  esquerda e  direita, com um sentimento estranho de posse que abrange o prprio cho que pisa, ele que no tem bens ao luar nem esperana de vir a logr-los, perdida que foi, nos longes do tempo, a iluso prebendria representada pela madrinha Benvinda, que Deus haja, se a esto confortando as oraes dos herdeiros legtimos e agraciados, nem menos nem mais egostas do que manda a geral natureza deles, igual em toda a parte. Mas  verdade que o revisor, que neste bairro chegado ao castelo vive h, de to largos, j no contados anos, dele no precisando mais forte referncia do que a bastante para no perder o tino da casa, experimenta agora, a par do mencionado gozo de novel proprietrio, uma livre, uma desafogada sensao de prazer que quem sabe se prolongar para alm da esquina prxima, quando virar para a Rua Bartolomeu de Gusmo, na zona da sombra. Enquanto caminha, pergunta a si mesmo donde lhe estar vindo uma tal segurana, se to bem sabe que o segue a famosa espada de Dmocles, em forma de carta de dispensa de servios, por causa mais do que justa, incompetncia, fraude deliberada, premeditao maliciosa, incitamento  perverso. Pergunta, e imagina receber a resposta da prpria falta que cometeu, no da falta em si mesma, mas das suas consequncias bvias, isto , Raimundo Silva, que justamente se encontra nos lugares da antiga cidade moura, tem, desta coincidncia histrica e topogrfica, uma conscincia mltipla, caleidoscpica, sem dvida graas  deciso que formalmente tomou de haverem os cruzados resolvido no auxiliar os portugueses, e, portanto, estes que se avenham como puderem, com as suas parcas foras nacionais, se nacionais j podemos chamar-lhes, sendo certo que h sete anos, apesar da ajuda doutra cruzadia, deram com o nariz nos muros, ou nem sequer tentaram aproximar-se deles, ficando-se tudo por correrias, devastaes de hortas e quintais, e outros atropelos contra a propriedade privada. Ora, estas consideraes minuciosas tm por nico fim tornar claro, ainda que muito custe admiti-lo  luz da crua realidade, que, para Raimundo Silva, e at nova ordem ou at que Deus Nosso Senhor doutra maneira o disponha, Lisboa continua a ser de mouros pois que, ature-se a repetio, ainda no esto passadas vinte e quatro horas sobre o fatal minuto em que os cruzados deram a afrontosa nega, e em to escasso tempo no poderiam os portugueses resolver, por si ss, as complexas questes tcticas e estratgicas de cerco, assdio, batalha e assalto, esperemos que por decrescente ordem de durao, quando chegar a altura.
   Evidentemente, a Leitaria A Graciosa, onde o revisor agora vai entrando, no se encontrava aqui no ano de mil cento e quarenta e sete em que estamos, sob este cu de junho, magnfico e clido apesar da brisa fresca que vem do lado do mar, pela boca da barra. Uma leitaria , desde sempre, bom lugar para saber as novidades, em geral as pessoas no trazem muita pressa, e sendo este um bairro popular, onde todos se conhecem e onde a familiaridade do quotidiano j reduziu ao mnimo as cerimnias prvias  comunicao, tirando, claro est, algumas frmulas simples, Bons dias, Como tem passado, L em casa, tudo bem, que se dizem sem dar grande ateno ao significado real das perguntas e das respostas,  natural que em pouco se passe s preocupaes do dia, que so vrias e todas graves. A cidade est que  um coro de lamentaes, com toda essa gente que vem entrando fugida, enxotada pelas tropas de Ibn Arrinque, o Galego, que Al o fulmine e condene ao inferno profundo, e vm em lastimoso estado os infelizes escorrendo sangue de feridas, chorando e gritando, no poucos trazendo cotos em lugar de mos, ou cruelmente desorelhados, ou sem nariz,  o aviso que manda adiante o rei portugus, E parece, diz o dono da leitaria, que vm cruzados por mar, malditos sejam eles, corre que sero uns duzentos navios, as coisas desta vez esto feias, no h dvida, Ai, coitadinhos, diz uma mulher gorda, limpando uma lgrima, que mesmo agora venho da Porta de Ferro,  um estendal de misrias e desgraas, no sabem os mdicos a que lado acudir, vi pessoas com a cara numa pasta de sangue, um pobre com os olhos vazados, horror, horror, que a espada do Profeta caia sobre os assassinos, Cair, disse um homem novo que, encostado ao balco, bebia um copo de leite, se for a nossa mo a empunh-la, No nos renderemos, disse o dono da leitaria, h sete anos tambm vieram portugueses e cruzados e levaram que contar, Pois sim, tornou o homem novo, depois de enxugar a boca s costas da mo, mas Al no costuma ajudar a quem a si prprio se no ajude, e esses cinco barcos de cruzados que aqui esto fundeados no rio h seis dias, pergunto eu por que ainda no os atacmos e metemos a fundo, Que justa obra seria essa, disse a mulher gorda, em pago das misrias dos nossos, Em pago, no, disse o dono da leitaria, que as contas nossas vinganas nunca foram de menos que cem por um, Mas os meus olhos so como as pombas mortas que no voltaro aos ninhos, disse o almuadem.
   Raimundo Silva entrou, deu os bons-dias sem reparar em quem estava, e foi sentar-se a uma mesa por trs da montra onde se exibiam as sedues da doaria habitual, os pastis de nata, os palmis, as cornucpias, os queques, os bolos de arroz, os jesutas, e, infalveis, os cruasss, com a forma que lhes deu o nome em francs, de crescente, logo tornado decrescente  primeira dentada, minguante portanto, at no ficarem no prato mais do que migalhas, nfimos corpos celestes que o gigantesco dedo de Al, humedecido, vai levando  boca, depois no ficar mais do que o terrvel vazio csmico, se so compatveis o ser e o nada. O empregado, que dono no , interrompe a limpeza duns copos e traz o caf que o revisor pediu, conhece-o apesar de no ser fregus de todos os dias, s uma vez por outra, e sempre d a ideia de c vir para preencher um intervalo ocasional, agora parece ter-se sentado com mais descanso, abre um saco de papel donde retira um mao grosso de pginas soltas, o empregado procura espao para pousar a chvena e o copo de gua, pe o pacote de acar no pires, e antes de retirar-se repete o comentrio que tem feito ao longo da manh, fala do frio que est, Felizmente que hoje no temos nevoeiro, o revisor sorri como se tivesse acabado de receber uma notcia agradvel,  verdade, felizmente no temos nevoeiro, mas uma mulher gorda, na mesa ao lado, que acompanha com um galo claro o seu bolo mil-folhas, informa que, segundo o boletim meteorolgico, ela pronuncia viciosamente, Metrolgico,  provvel que a neblina volte a aparecer ao cair da tarde, quem o diria, estando o cu agora to claro, este rebrilhante sol, observao poetizante que ela no fez, mas que, por irresistvel, aqui se recolhe. O tempo, como a fortuna,  inconstante, disse o revisor, consciente da estupidez da frase. No respondeu o empregado, a mulher no respondeu, que essa  a mais prudente atitude a tomar perante as sentenas definitivas, ouvir e calar, esperando que o mesmo tempo as faa cair em pedaos, no sendo raro que as torne mais definitivas ainda como as dos gregos e latinos, finalmente tambm condenadas ao esquecimento quando o tempo tiver passado todo. O empregado voltou  lavagem dos copos, a mulher ao que resta do mil-folhas, daqui a pouco, disfaradamente, por ser acto de m educao, ainda que irresistvel, catar com o dedo indicador molhado as migalhas do bolo, mas no conseguir recolh-las todas, uma a uma, porque os fragmentos do mil-folhas, sabemo-lo por experincia, so assim como uma poeira csmica, incontveis, gotculas de um nevoeiro infinito e sem remisso. Nesta leitaria tambm estaria um homem novo se no tivesse morrido na guerra, e quanto ao almuadem no h mais que lembrar que amos principiando a saber como se finou, de misericordioso susto, quando sobre ele vinha o cruzado Osberno porm no o tal, de espada ao alto, escorrendo sangue fresco, que Al se apiede das suas e apesar disso desgraadas criaturas.
   Enquanto bebia o caf, Raimundo Silva buscava as provas da Histria do Cerco de Lisboa que lhe interessavam, no o discurso do rei, no os episdios da luta, perdeu todo o interesse sobre a questo das fundas baleares ou balericas, e to-pouco quer agora saber de rendio e saque. Encontrou j o que procurava, quatro tiras de papel que separa do conjunto e rel atentamente, passando sobre as referncias mais importantes um marcador fluorescente, amar elo. A mulher gorda olha com desconfiado respeito a operao incompreensvel, e depois, sem que nada o deixasse prever, muito menos por uma relao directa de causa e efeito entre um acto alheio e um pensamento prprio, rene precipitadamente as migalhas num montinho e, com as polpas dos cinco dedos juntos, recolhe-as, aperta-as e leva-as  boca, aspirando-as com volpia. Incomodado pelo rudo, Raimundo Silva olhou de lado, com modo repreensivo, no h dvida, pensa ele, que a tentao regressiva  uma constante da espcie humana, se D. Afonso Henriques come alarvemente com os dedos, v que no v,  esse o costume do tempo, embora j se estejam notando por a algumas inovaes, como esta de espetar a faca no naco de carne e lev-la assim  boca, agora s falta quem tenha a bvia ideia de abrir os dentes na lmina, e  que j tarda a inveno, afinal bastaria que os inventores distrados reparassem nas forquilhas de tosco pau com que os lavradores juntam e recolhem o trigo ceifado, e a cevada, e os levantam e sobem aos carros, de mais tem a experincia mostrado que ningum ir longe em arte e vida se pelos aconchegos da corte se deixou enlear. Mas esta mulher da leitaria  que no tem desculpa, haja vista que os pais, com muito trabalho, ensinaram-na a comportar-se  mesa, e a est que reincide, acaso ter sobejado dos grosseiros tempos de ento, quando mouros e cristos se igualavam nos modos, opinio, alis, muito controversa, porque no falta quem afirme e intente provar que a vantagem em civilizao a estavam levando os seguidores de Maom, e que aos outros, cafres rematados, regalados na sua testarrudez, mal comeava ainda a coar-lhes a brotoeja das maneiras, mas tudo mudar no dia em que lhes entrar na alma o febro do culto da Virgem Nossa Senhora, to arrebatado que far descuidar o do Seu Divino Filho, para no falarmos do pouco caso que, no trato quotidiano, est insultando o Padre Eterno. E assim se evidencia como, naturalmente, sem esforo, por um suave deslizar de assunto a assunto, se sobe do pastel de mil-folhas, comido por uma mulher na Leitaria A Graciosa, quele que comer no precisa, mas que, ironicamente, ps em ns mil desejos e necessidades.
   Raimundo Silva faz voltar ao saco de papel as provas da Histria do Cerco de Lisboa, com excepo das quatro escolhidas pginas, que dobra e cuidadosamente guarda num bolso interior do casaco, e vai ao balco, onde o empregado serve um copo de leite e um queque a um homem novo com cara de quem anda  procura de emprego e a expresso concentrada de quem prev que no ter outra mais farta refeio neste dia. O revisor  observador bastante competente e sensvel para, num simples relance do olhar, recolher uma informao to completa, podemos mesmo admitir a hiptese de que algum dia ter encontrado no espelho da sua casa uns olhos assim, os seus prprios, no seria preciso diz-lo, porm no vale a pena perguntar-lho, que, dele, o que mais nos interessa  o presente, e, se do passado uma lembrana, muito menos o seu do que, do passado geral, a parte modificada pela palavra impertinente. Agora o que falta  ver aonde ela nos levar, sem dvida, em primeiro lugar, a Raimundo Silva, pois a palavra, qualquer, tem essa facilidade ou virtude de conduzir sempre a quem a disse, e depois, talvez, talvez, a ns que estamos indo atrs dela como perdigueiros farejando, consideraes estas evidentemente prematuras, se o cerco ainda nem sequer comeou, os mouros que entram na leitaria entoam em coro, Venceremos, venceremos, com as armas que temos na mo, pode ser, mas para tanto  preciso que Maom ajude o melhor que saiba, pois as armas no as vemos, e o arsenal, se a voz do povo  realmente a voz de Al, no est numerosamente fornecido na proporo das necessidades. Raimundo Silva diz ao empregado, Guarde-me a este embrulho at logo, venho busc-lo antes de fechar, entende-se que se est referindo  leitaria e o empregado entala o saco de papel entre dois boies de rebuados, atrs de si, Aqui ningum lhe mexe, diz, no lhe ocorreu a ideia de perguntar por que no vai Raimundo Silva deixar o saco em casa, morando to perto dali, na Rua do Milagre de Santo Antnio, ao virar mesmo da esquina, ora, os empregados, ao contrrio da geral opinio, so pessoas discretas, ouvem com tanta pacincia os boatos que vo correndo, um dia e outro dia, toda a vida, e da monotonia j se cansam,  verdade que por um dever de cortesia profissional e para no desagradarem  ao fregus que  sua razo de viver, do mostras de grande interesse e ateno, mas no fundo, esto sempre a pensar noutra coisa, a este, por exemplo, que  que poderia interessar a resposta do revisor, se a desse, Tenho medo de que o telefone toque. O homem novo acabou de comer o queque, agora bochecha disfaradamente o leite para soltar os resduos  que lhe ficaram agarrados aos dentes e s gengivas, no aproveitar  que est o ganho, ensinavam os nossos bons pais, mas a eles no os enriqueceu to extremada sabedoria, e, tanto quanto sabemos, tambm no foi essa a origem dos chorados bens da madrinha Benvinda, que lhe perdoe Deus, se pode.
   Faz bem,  o empregado da leitaria em no dar ouvidos ao diz-que-diz.  por de mais sabido que, em caso de tenso internacional grave, a primeira actividade industrial que logo d sinal de instabilidade e quebra  o turismo. Ora, se a situao, aqui, nesta cidade de Lisboa, fosse efectivamente de iminncia de cerco e assalto, no estariam  estes turistas a chegar, so os primeiros da manh, em dois autocarros, um de japoneses, culos e mquinas fotogrficas, outro de anoraques e calas de cores americanas. Renem-se atrs dos intrpretes, e lado a lado, em duas colunas separadas, lanam-se  subida, vo entrar pela Rua do Cho da Feira, a porta onde est o nicho de S. Jorge, admiraro o santo e o drago medonho, ridculo de tamanho, este, a olhos de japoneses habituados a mais prodigiosas bestas da espcie. Quanto aos americanos, ser notria a humilhao de reconhecerem quo pobre figura, afinal, faz um vaqueiro do Oeste laando um bezerro desmamado em comparao com o cavaleiro de armas de prata, invencvel em todos os combates, embora se comece a suspeitar que desistiu das novas lutas e vive daquela boa fama que no passado alcanou. J entraram os turistas, a rua ficou subitamente quieta, apeteceria mesmo escrever que em estado de modorra, se a palavra, que irresistivelmente insinua no esprito e no corpo as lassides de um ardente estio, no resultasse incongruente na fria manh de hoje, ainda que em sossego o lugar e indo to pacficas as pessoas. Daqui alcana-se a ver o rio, por cima dos merles da S que parecem um jogo de paulitos sobre as torres sineiras que o desnvel do terreno torna invisveis, e, apesar da grande distncia percebe-se a serenidade que h nele, adivinha-se mesmo o voo pulsante das gaivotas sobre o rebrilhante caminhar das guas. Se fosse verdade estarem cinco barcos de cruzados alm, certamente que j teriam comeado a bombardear a cidade inerme, mas tal no poder acontecer, que ns bem sabemos que desse lado no vir perigo aos mouros uma vez que foi dito, e do dito se fez escrito para valer e dar f, que no vo os portugueses, neste caso, contar com a ajuda de quem somente aqui aportou para fazer aguada e descansar dos trabalhos da navegao e da aflio das tormentas, antes de seguir viagem para ir arrancar s mos dos infiis, no uma vulgar cidade como esta, mas o cho precioso que sentiu o peso de Deus e que dos seus ps ainda guarda, em algum stio por onde nunca ningum voltou a passar, e que a chuva e o vento deixaram intocado as prprias divinas marcas, descalas.
   Raimundo Silva virou a esquina para a Rua do Milagre de Santo Antnio e ao passar defronte da sua casa, talvez porque meio conscientemente apurava o ouvido aos sons que o rodeavam, pareceu-lhe perceber, por um instante, a campainha dum telefone, Ser o meu, pensou, mas o som viera de muito perto, poderia ter sido na barbearia do outro lado da rua, e  neste preciso segundo que lhe ocorre a outra possibilidade, que imprudncia a sua, foi estupidez rematada pensar que o Costa comearia forosamente por usar o telefone, Quem sabe se no estar por a a chegar, e a imaginao, prestvel, figurou-lhe logo o quadro, o Costa no automvel, a subir furiosamente a Rua do Limoeiro, ainda pairando no ar o guincho dos pneus na curva da S, se Raimundo Silva no se pe j a salvo, surge a o Costa com o motor a rugir, travando a fundo ao chegar  porta e a dizer, ofegante, Suba, suba, que temos muito que conversar, no, aqui no quero falar, apesar de tudo o Costa  uma pessoa educada, incapaz de fazer uma cena na rua. O revisor no espera mais, desce precipitadamente as Escadinhas de S. Crispim e s pra depois da curva, oculto  ansiosa perscrutao do Costa. Senta-se num degrau para recobrar-se do susto, enxota um co que se aproximara de focinho estendido, a beber-lhe os ares, e tira do bolso os papis que separara do mao das provas, desdobra-os, alisa-os sobre os joelhos.
   A sua ideia, nascida quando da varanda olhava os telhados descendo como degraus at ao rio,  acompanhar o traado da cerca moura, segundo as informaes do historiador, poucas, dubitveis, como tem a honradez de reconhecer. Mas, aqui, diante dos olhos de Raimundo Silva, est precisamente um troo, se no da prpria e incorruptvel muralha, pelo menos um muro que ocupa o exacto lugar do outro, descendo ao longo das escadas, por baixo duma fieira de janelas largas, acima das quais se alam altas empenas. Raimundo Silva est portanto do lado de fora da cidade, pertence ao exrcito sitiante, no faltaria mais que abrir-se agora um daqueles janeles e aparecer uma rapariga moura a cantar, Esta  Lisboa prezada, Resguardada, Aqui ter perdio, O cristo, e tendo cantado bateu com a janela em sinal de desprezo, mas, se os olhos do revisor o no enganam, a cortina de cassa foi afastada subtilmente e este gesto simples bastou para quebrar-se a ameaa que estava nas palavras, na condio de as tomarmos ns  letra porque bem poderia ser que Lisboa, ao contrrio do que parecia, no fosse cidade mas mulher, e a perdio somente , amorosa, se o restritivo advrbio aqui tem cabimento, se no  essa a nica e feliz perdio. O co aproximou-se outra vez, agora Raimundo Silva olha-o apreensivo, sabe-se l se no estar raivoso, uma ocasio, no se lembra onde, leu que um dos sinais do terrvel mal  a cauda cada, e este rabo no demonstra grande vigor, mas ser por causa do mau passadio, que bem se lhe vem as costelas ao bicho e  sinal tambm, mas esse decisivo, a sinistra baba escorrendo das fauces e colmilhos, ora o rafeiro em presena, se saliva, ser por estmulo de um cheiro de comida em preparao aqui nas Escadinhas de S. Crispim. O co tranquilizemo-nos, no est raivoso, se fosse no tempo dos mouros, talvez, mas agora, numa cidade como esta moderna, higinica, organizada, at mesmo esta amostra de co vadio  de estranhar, provavelmente tem-no salvado da rede frequentar de preferncia este caminho desviado e ngreme, que requer perna gil e flego de rapaz, bondades que no confluem inevitavelmente nos apanhadores de ces.
   Raimundo Silva vai consultando os papis, seguindo mentalmente o itinerrio, e olha o co a furto, e  ento que se lembra da descrio que o historiador fez dos horrores da fominha dos sitiados ao cabo dos meses, no ficou vivo nem co nem gato, at as ratazanas levaram sumio, mas afinal, sendo assim, tinha razo quem disse que um co ladrou naquela serena madrugada em que o almuadem subiu  almdena para chamar os crentes  orao da manh, errado estaria, sim, quem argumentasse que, por ser o co impuro animal, o no tolerariam  sua vista os mouros, ora, admitamos que o exclussem das casas, dos afagos e da gamela, mas nunca do vasto Islo, porque, em verdade, se somos to capazes de levar a vida em paz com as impurezas que so nossas prprias, por que haveramos de rejeitar violentamente as impuridades alheias, neste caso de natureza perruna, portanto bem mais inocente que a outra, dos humanos, que to mau uso fazem do nome de co a torto e a direito o atirando  cara de inimigos, de mouros os cristos de cristos os mouros, de judeus todos juntos. Para no falar seno de quem melhor conhecemos, os fidalgos portugueses que a vm, tudo neles so cuidados e recomendaes para os seus dogues, e alanos, a ponto de serem adictos a dormir com eles, com tanto ou maior gosto que com as concubinas, e, vai-se a ver, ao mais cruel adversrio no escolhem pior palavra para chamar-lhe, Co, dizem, e parece no haver outra ofensa que tanto doa, salvo Filho de Cadela. E tudo isto se vai passando por arbitrrio critrio de homens, eles so os que fazem as palavras, os animais, coitados, so alheios a essas gramticas, assistem  disputa, Co, diz o mouro, Co s tu, responde o cristo, e ei-los que se batem com lana, espada e adaga, enquanto os rafeiros dizem uns para os outros, Somos ns os ces, e no se importam.
   J ciente do caminho que dever tomar, Raimundo Silva levanta-se, sacode as calas, e comea a descer as escadas. O co seguiu-o, mas de largo, como quem tem uma velha experincia de calhoadas, e lhe basta, para levar um susto, ver baixar-se bruscamente o homem e fazer meno de apanhar uma pedra. Ao fundo das escadinhas hesitou, parecia pensar, Sigo, no sigo, mas decidiu-se e foi emps do revisor que l vai descendo pela Calada do Correio Velho. Por estes stios, ou um pouco mais por dentro, para obedecer ao alinhamento do troo de S. Crispim, baixava a muralha, a direito, supe-se, at  renomada Porta de Ferro, outros dizem do Ferro, de que no ficou rasto nem resto que hoje se diga, talvez se levantssemos este empedrado moderno do Largo de Santo Antnio da S e cavssemos fundo nos aparecesse um alicerce do tempo, algumas escamas de ferrugem de antigas armas, um cheiro de tumba dois confundidos esqueletos, de guerreiros, no de amantes, gritaram ao mesmo tempo, Co, e ao mesmo tempo um ao outro se mataram. Sobem e descem automveis, os elctricos rangem na curva da Madalena, so da carreira vinte e oito, particularmente estimados pelos realizadores de cinema, e l adiante, a virar em frente  S, vai outro autocarro repleto de turistas, devem ser franceses que julgam que esto em Espanha. O co tem dvidas em atravessar o seu mundo mais chegado e conhecido  o das ruas altas e apesar de ver que o homem olha para trs enquanto desce a Rua da Padaria, ao longo do que seria h sculos, o pano de muralha que ia at  Rua dos Bacalhoeiros, no se atreve a continuar, talvez o medo de agora se torne insuportvel por lembrana dum susto antigo, gato escaldado de gua fria tem medo, o co tambm. Regressa pelo caminho andado, volta s Escadinhas de S. Crispim,  espera de quem aparea.
   O revisor est revendo, entra pelo Arco Escuro, a conhecer a escada que o historiador protesta ser uma que naquele tempo dava acesso ao adarve da cerca, ou melhor, est esta no stio onde se acharia a outra de origem, aos degraus da de agora no os gastaram mais do que duas ou trs geraes. Raimundo Silva observa com vagar as janelas escuras, as fachadas salitrosas e encardidas, os registos de azulejos, este que tem a data de mil setecentos e sessenta e quatro, com uma Santa Ana ensinando sua filha Maria a ler, e, em medalhes laterais, acolitando, S. Maral, que protege dos incndios, e Santo Antnio, restaurador de bilhas e supremo achador de objectos desencaminhados. O registo,  falta de certificado autntico, serve de documento aproximado, se a data que leva , como tudo permite crer a do ano em que o prdio foi construdo, passados nove anos do terramoto. O revisor avalia o seu cabedal de conhecimentos e encontra-o mais rico, por isso, voltando  Rua dos Bacalhoeiros, olhar com desdm superior os passantes e ignorantes, alheados destas curiosidades de cidade e vida, nem sequer competentes para aproximarem duas to explcitas datas. Da a pouco, porm, quando estiver diante do Arco das Portas do Mar, achando em seu ntimo que o nome merecia outra traduo arquitectnica, no uma prosaica tabuleta de despachantes oficiais, nesse momento, considerando sobre os desencontros entre a palavra e o sentido, a si mesmo se observou e de si mesmo fez juzo severo, Afinal, que direito tenho eu de julgar os outros, vivo em Lisboa desde que nasci e nunca me tinha lembrado de vir ver, com os meus prprios olhos, coisas que esto em livros, coisas que algumas vezes olhei e tornei a olhar, sem ver, quase to cego como o almuadem, se no fosse esta ameaa do Costa, provavelmente, nunca teria a ideia de verificar o traado da cerca, as portas, que estas aqui cuido eu que j sero da muralha fernandina, claro que quando chegar ao fim do meu passeio saberei mais, mas tambm  certo que saberei menos, precisamente por mais saber, por outras palavras, a ver se me explico, a conscincia de saber mais conduz-me  conscincia de saber pouco, alis, apetece perguntar, que  saber, tinha razo o historiador, a minha vocao  para filsofo, dos bons, daqueles que pegam num crnio e levam a vida toda a interrogar-se sobre a importncia que um crnio tem no universo e se h razo para que o universo se preocupe com esse crnio ou para que algum se interrogue sobre universo e crnio, e agora chegmos, isto diz o guia indispensvel, senhoras e senhores, turistas, viajantes ou simples curiosos, ao Arco da Conceio, onde existiu o chafariz clebre da Preguia, dulcssimas guas que mataram a sede e o apetite de trabalhar a muita gente, at hoje.
   Raimundo Silva no tem pressa. Consulta gravemente o itinerrio, por sua satisfao vai tomando minuciosas notas mentais, por assim dizer complementares, que atestam a sua prpria contemporaneidade, l na Calada do Correio Velho uma soturna agncia funerria, uma espuma branca no cu de azul, de avio a jacto, como no azul do mar a longa esteira de um barco rpido, a Penso Casa Oliveira Bons Quartos da Rua da Padaria, o Restaurante Come Petisca Paga Vai Dar Meia Volta, mesmo ao lado das Portas do Mar, a Cervejaria Arco da Conceio, no dito, a alta pedra de armas dos Mascarenhas no cunhal de um prdio do Arco de Jesus, onde teria sido uma porta da cerca moura, a inscrio na parede, protestativa, o portal neoclssico do palcio dos condes de Coculim, que Mascarenhas eram , armazns de ferro, nisso deram as grandezas, um mundo, de coisas fugazes, transitrias, que o certo  todas o serem sem excepo, pois j o rasto do avio se dissipou e do resto dar o tempo conta a seu tempo,  s ter a pacincia de esperar. O revisor entrou em Alfama pelo Arco do Chafariz d'El-Rei, almoar por a, numa casa de pasto da Rua de S. Joo da Praa, para os lados da torre de S. Pedro, uma refeio popular portuguesa de carapaus fritos e arroz de tomate, com salada, e muita sorte, que lhe calharam no prato as tenrssimas folhas do corao da alface, onde, verdade que no a sabe toda a gente, se acolhe a frescura incomparvel das manhs, a orvalhada, o rocio, que tudo  o mesmo, mas se deixa repetido pelo simples gosto de escrever as palavras e diz-las de modo saboroso.  porta do restaurante estava uma rapariguinha cigana, de uns doze anos, estendia a mo,  espera, sem pronunciar palavra, apenas olhando fito o revisor, que, indo atrs dos pensamentos que o ocupam, no viu cigana, mas moura, na hora da primeira necessidade, quando ainda havia a quem pedir e os ces, os gatos e os ratos julgavam ter vida assegurada at  sua natural morte, por doena ou guerra das espcies, afinal, o progresso  uma realidade, hoje ningum, em Lisboa, anda  caa de animalejos destes para comer, Mas o cerco no acabou, avisam os olhos da cigana.
   Raimundo Silva percorrer mais lentamente o que ainda lhe falta inspeccionar, um outro lano da muralha no Ptio do Senhor da Mura, a Rua da Adia, por onde a cerca subia e a Norberto de Arajo, de baptismo recente, ao cimo um poderoso pano de muro, carcomido na base, estas so pedras vivas verdadeiramente, esto aqui h nove ou dez sculos, se no mais, do tempo dos brbaros, e resistem, aguentam impvidas a torre sineira da igreja de Santa Luzia ou de S. Brs tanto faz, neste lugar se abriam, ladies and gentlemen, as antigas Portas do Sol, a nascente viradas, primeiras a receber o rosado hlito do amanhecer, agora no resta mais que o largo que delas tomou o nome, porm no mudaram os efeitos especiais da aurora, um milnio, pra o sol,  como um breve suspiro nosso, sic transit, claro est. A cerca continuava por estas bandas, em ngulo obtuso, muito aberto direita  muralha da alcova, assim ficando rematada a cintura da cidade, desde o rente das guas, em baixo at aos ns de encontro no castelejo, cabea alta e robustos encaixes, braos arqueados, dedos entrelaados, firmes, como de mulher sustendo o ventre grvido. O revisor, cansado sobe  Rua dos Cegos, entra no Ptio de D. Fradique, o tempo abre-se em dois ramos para no tocar nesta aldeia rupestre, est assim, a bem dize, desde os tempos dos godos, ou os romanos, ou os fencios, depois  que vieram os mouros, os portugueses de raiz, os filhos e os netos deles, estes que somos, o poder e a glria, as decadncias, primeira, segunda e terceira, cada uma delas dividida em gneros e subgneros.  noite neste espao entre as casas baixas, juntam-se os trs fantasmas, o do que foi, o do que esteve para ser, o do que poderia ter sido, no falam, olham-se como se olham cegos, e calam. 
   Raimundo Silva senta-se num banco de pedra,  fria sombra da tarde, consulta pela ltima vez os papis e verifica que nada mais h para ver, ao castelo conhece-o o suficiente para no ter de voltar hoje, mesmo sendo dia de inventrio. O cu comea a tornar-se branco, talvez um aviso do nevoeiro prometido pela meteorologia, a temperatura desce rapidamente. O revisor sai do ptio para a Rua do Cho da Feira, em frente  a Porta de S. Jorge, mesmo daqui se pode ver que h pessoas a tirar fotografias ao santo, ainda. A menos de cinquenta metros, embora invisvel daqui, est a sua casa, e, ao pens-lo, apercebe-se, pela primeira vez com evidncia luminosa, de que mora no preciso lugar onde antigamente se abria a Porta de Alfofa, se da parte de dentro ou da parte de fora eis o que hoje no se pode averiguar e impede que saibamos, desde j, se Raimundo Silva  um sitiado ou um sitiante, vencedor futuro ou perdedor sem remdio.
   No havia, debaixo da porta, nenhum furioso recado do Costa. Fez-se noite, o telefone no tocou. Raimundo Silva ocupou tranquilamente o sero, a procurar nas estantes livros que lhe falassem da Lissibona moura. Tarde, foi  varanda, a ver como estava o tempo. Nevoeiro, mas no to denso como o de ontem. Ouviu ladrar dois ces, e isso, inexplicavelmente, ainda mais o serenou. Com diferena de sculos, os ces ladravam, o mundo era portanto o mesmo. Foi-se deitar. De to cansado dos exerccios do dia, dormiu pesadamente, mas algumas vezes acordou, sempre quando sonhava e voltava a sonhar com uma muralha sem nada dentro e que era como um saco de boca estreita alargando o bojo at  margem do rio, e ao redor colinas arborizadas, mato, e vales, arroios, algumas casas dispersas, hortas, olivais, um largo esteiro avanando pela terra dentro. Ao fundo, distintamente, as torres das Amoreiras.
   

   
   Treze longos e arrastados dias foi quantos levou a editora ou algum por ela a descobrir a malfeitoria, e essa eternidade viveu-a Raimundo Silva como se tivesse no corpo um veneno de aco lenta, porm, derradeiramente, to conclusiva como a do txico mais fulminante, smile perfeito da morte que cada um de ns vai preparando em vida e de que a mesma vida  casulo protector, tero propcio e caldo de cultura. Quatro vezes foi  editora sem motivo real que l o chamasse, porquanto o seu trabalho, sabemo-lo,  individual e domstico, isento da maior parte das servides que amarram os empregados comuns, adstritos a tarefas de administrao, direco literria, produo, distribuio e armazm, um mundo vigiado para quem o ofcio de revisor pertence ao reino da liberdade. Perguntavam-lhe o que queria, e ele respondia, Nada, passei por aqui perto, lembrei-me de entrar. Deixava-se ficar uns minutos, atento s conversas, aos olhares, tentando apanhar o fio duma suspeita, um sorriso dissimulado e provocador, uma frase de que pudesse perceber o oculto sentido. Evitava o Costa, no por temer que dele lhe viesse qualquer dano particular, mas precisamente porque o enganara, assim assumindo o Costa a figura da inocncia ultrajada que no somos capazes de enfrentar porque a ofendemos e ela ainda no sabe. Apeteceria dizer que Raimundo Silva vai  editora como o criminoso volta ao lugar do crime, mas no seria exacto, Raimundo Silva , sim, atrado pelo lugar onde se descobrir o delito e onde ho-de reunir-se os juzes para ditar a sentena que o condenar, prevaricador, nu, falso e sem defesa.
   No tem o revisor dvidas de que est a cometer um estpido erro, de que estas visitas sero recordadas, na altura prpria, como expresses particularmente odiosas duma malcia perversa, Voc sabia o mal que tinha feito, e apesar disso no teve a ombridade, diriam ombridade, a franqueza, a honestidade de confessar por seu prprio arbtrio, diriam arbtrio, ficou  espera dos acontecimentos, a rir-se por dentro, perversamente, insisto na palavra, a gozar connosco, e a vulgaridade destas ltimas palavras destoar do discurso repreensivo e moralizador. Ser intil explicar-lhes que esto equivocados, que Raimundo Silva s ia  procura duma tranquilidade, dum alvio, Ainda no sabem, suspirar de cada vez, mas alvio e tranquilidade duravam pouco, era s entrar em casa e logo se sentia mais cercado do que Lisboa esteve alguma vez.
   Porque no era supersticioso, no contava que algo desagradvel pudesse ocorrer-lhe no dcimo terceiro dia, S s pessoas dadas a agoiros sucedem contratempos ou infelicidades nos dcimos terceiros dias, eu nunca me orientei por comportamentos inferiores, seria esta provavelmente a sua resposta se algum lhe tivesse sugerido a hiptese. Este cepticismo de princpio explica que o seu primeiro sentimento tenha sido de irritada surpresa quando ouviu, no telefone, a voz da secretria do director, Senhor Silva, est convocado para uma reunio hoje, s quatro horas, disse-o assim secamente, como se estivesse a ler um recado escrito, cautelosamente redigido para que no faltasse nele nenhuma palavra indispensvel nem outra se intrometesse que pudesse diminuir o efeito de aflio mental, de desgarramento lgico, agora que surpresa e irritao no tm mais sentido perante a evidncia de que o dcimo terceiro dia, afinal, no poupa os espritos fortes, alm de governar os que o no so. Pousou o telefone muito devagar e olhou em redor, com a impresso de que via a casa oscilar, Pronto, j est, disse. Em momentos destes, o estico sorriria, se  que a espcie clssica no se extinguiu completamente para deixar o espao livre s evolues do cnico moderno, por sua vez de semelhana mnima com o seu antepassado filsofo e pedestre. Seja como for, h um plido sorriso no rosto de Raimundo Silva, o seu ar de vtima resignada tempera-se com uma viril tristeza,  o que mais se encontra nos romances de personagens, revendo aprende-se muita coisa.
   Pergunta-se o revisor se est ou no angustiado, e no encontra em si resposta. O que sim lhe parece insuportvel  ter de esperar at s quatro horas para saber que volta dar a editora ao seu destino de revisor faltoso, como ir ela punir o insolente atentado contra a solidez dos factos histricos, a qual, pelo contrrio, deve ser permanentemente reforada, defendida de acidentes, sob pena de perdermos o sentido da nossa prpria actualidade, com grave perturbao das opinies que nos guiam e das convices derivadas. Agora que se descobriu o erro,  intil especularmos sobre as consequncias que viria a ter no futuro a presena daquele No na Histria do Cerco de Lisboa, se o acaso lhe tivesse permitido uma mais demorada incubao, pgina contra pgina, como despercebido aos olhos dos leitores mas abrindo caminho invisivelmente como esses insectos da madeira que deixam uma casca vazia onde ainda julgvamos estar um pesado mvel. Empurrou para o lado as provas que estava a rever, no do romance que Costa lhe deixara no dia clebre, este  um livro delgadinho de poemas, e, ao pousar a cabea esvada nas mos, lembrou-se de uma histria de que no recordava o ttulo nem o autor, ainda que lhe parecia que era assim algo como Tarzan e o Imprio Perdido, e onde havia uma cidade de romanos antigos e de cristos primeiros, tudo escondido numa selva de frica,  bem certo que a imaginao dos autores no tem limites, e este, se todo o mais confere, s pode ser o Edgar Rice Burroughs. Havia um circo e os cristos eram lanados s feras, isto , aos lees, ainda por cima com a facilidade que d ser aquela a terra deles, e o romancista escrevia, embora sem aduzir provas ou citar autoridades, que os mais nervosos daqueles infelizes no se deixavam ficar  espera de que os lees atacassem, antes corriam, por assim dizer, ao encontro da morte, no para serem os primeiros a entrar no paraso, mas porque, simplesmente, no tinham fora de nimo para suportar a espera do inevitvel. Esta recordao de leituras da juventude fez pensar a Raimundo Silva, pelos conhecidos caminhos da decorrncia das ideias, que estaria na sua mo precipitar o passo da histria, acelerar o tempo, ir imediatamente  editora, ajudando-se com uma explicao qualquer, por exemplo, s quatro tenho uma consulta no mdico, digam l o que  que me querem, este seria o tom com que falaria ao Costa, mas est claro que no foi para um encontro com a Produo que a secretria do director o chamou, o seu caso vai ser tratado nas mais altas esferas, e esta certeza, absurdamente, lisonjeou-lhe a vaidade, Devo estar doido, murmurou, repetindo palavras de h treze dias. Gostaria de encontrar, nesta confuso, um sentimento que prevalecesse sobre os outros, de modo a poder responder, mais tarde, se lho vierem a perguntar, E como  que voc se sentiu na terrvel situao, Senti-me preocupado, ou indiferente, ou divertido, ou angustiado, ou temeroso, ou envergonhado, em verdade no sabe o que sente, s deseja que as quatro horas cheguem depressa, o encontro fatal com o leo que o espera de boca aberta enquanto os romanos aplaudem, so assim os minutos, ainda que em geral se afastam para nos deixarem passar depois de nos rasparem a pele, mas sempre haver um para devorar-nos. Todas as metforas sobre o tempo e a fatalidade so trgicas e ao mesmo tempo inteis, pensou Raimundo Silva, talvez no precisamente por estas palavras, mas sendo o sentido o que verdadeiramente conta, assim o anotou, contente de t-lo pensado. Porm, mal foi capaz de almoar, tinha um n na garganta, sensao conhecida, e um garrote no estmago, o que no  vulgar e exprime a gravidade da situao. A empregada, era seu dia, achou-o esquisito, perguntou-lhe mesmo, Est doente, palavras que contrariamente tiveram um efeito estimulante, pois se os seus modos o estavam reduzindo tanto a olhos de estranho que j o viam como enfermo, ento era tempo de dominar-se, de recusar a misria que o derrotava, por isso respondeu, Estou ptimo, e nesse momento foi verdade.
   Faltavam cinco minutos para as quatro quando entrou na editora. Encontrou tudo o que antes procurara, os murmrios, os olhares, os risinhos, e tambm, em um ou dois rostos, uma expresso apenas perplexa, de quem no se satisfaz com uma evidncia, tendo embora de acreditar nela. Fizeram-no passar para a sala de espera da direco e ali o deixaram ficar mais de um quarto de hora, o que serve para demonstrar a vanidade de temores que pouco tm de pontuais. Olhou o relgio, era patente que o leo se atrasara, hoje em dia  muito difcil conduzir na selva mesmo havendo estradas romanas, porm, neste caso, o mais provvel  que algum tenha pensado ser uma boa ideia recorrer a tcticas psicolgicas comprovadas, faz-lo esperar para desgastar-lhe os nervos, p-lo  beira da crise, sem defesa logo ao primeiro ataque. Raimundo Silva considera que, ainda assim, tendo em conta as circunstncias, est bastante calmo, como quem durante toda a vida no fez mais que pr mentiras no lugar de verdades sem dar demasiado pela diferena e aprendeu a escolher entre os argumentos pr e contra acumulados ao longo das idades por quantas dialcticas e casusticas floresceram na cabea do homo sapiens.  porta, bruscamente aberta, apareceu, no a secretria do director, o geral, mas a de outro, o literrio, Faa favor acompanhar-me, disse ela, e Raimundo Silva, apesar de ter reparado na sintaxe defeituosa, percebeu que a imaginada calma no passava de aparncia, e tnue, os joelhos tremiam-lhe quando se levantou do sof, a adrenalina agitava-lhe o sangue, o suor ressumbrou-lhe subitamente nas almas das mos e nas axilas, e at uma difusa clica deu sinal de querer expandir-se a todo o aparelho digestivo, Pareo um bezerro levado ao matadouro, pensou, e felizmente foi capaz de desprezar-se a si prprio.
   A secretria deu-lhe passagem, Entre, e fechou a porta. Raimundo Silva disse, Boas tardes, duas das pessoas que ali estavam responderam, Boa tarde, a terceira, o director literrio, disse apenas, Sente-se, senhor Silva. O leo tambm est sentado e olha, podemos supor que lambe os beios e arreganha os colmilhos, enquanto avalia a consistncia e o sabor das carnes do plido cristo. Raimundo Silva cruza a perna, descruza-a logo, e nesse momento d-se conta de que no conhece uma pessoa que ali est, sentada  esquerda do director literrio, uma mulher. Aquele  direita  o director da Produo, mas  mulher nunca a viu na editora, Quem ser. Disfaradamente, tenta observ-la, mas o director literrio j tomou a palavra, Imagino que sabe por que o mandmos chamar, Calculo, O senhor director tinha querido ser ele prprio a tratar deste assunto, mas um problema urgente surgido  ltima hora obrigou-o a ausentar-se. O director literrio calou-se, como se quisesse dar tempo a Raimundo Silva para lamentar a sua pouca sorte, ter assim perdido a oportunidade de ser interrogado pelo director-geral em pessoa, mas, perante o silncio do revisor, deixou que a sua voz manifestasse pela primeira vez uma irritao reprimida, embora diluindo-a num tom de certo modo conciliatrio, Agradeo-lhe, disse, ter admitido implicitamente as suas responsabilidades, poupando-nos a uma situao muito penosa, que seria, por exemplo, uma negativa sua ou a tentativa de justificao do seu acto. Raimundo Silva pensou que deviam estar agora  espera que desse uma resposta mais completa que aquela simples palavra, Calculo, mas antes que pudesse falar foi o director da Produo quem interveio, Eu ainda no estou em mim, senhor Silva o senhor que trabalha h tantos anos para esta casa, um profissional competente, cometer um erro desses, No foi um erro, cortou o director literrio, no vale a pena estender essa mo misericordiosa ao senhor Silva, to bem como ele sabemos que foi um procedimento deliberado, no  assim, senhor Silva, Que  que o leva a dizer que se tratou de um procedimento deliberado, senhor director, Espero que no esteja a pensar voltar atrs sobre o que julgo ter sido a sua primeira inteno quando aqui entrou, No estou a voltar atrs, apenas pergunto. A irritao do director literrio tornou-se bvia, mais ainda pela ironia que carregou as palavras ditas, Creio que no preciso dizer-lhe que o direito de fazer perguntas e exigir desculpas, alm doutras medidas que entendemos tomar, no lhe pertence a si, mas a ns, especialmente a mim, que represento aqui o director-geral, Tem toda a razo, senhor director, eu retiro a pergunta, No precisa retirar a pergunta, eu respondo-lhe que sabemos que se tratou de procedimento deliberado por causa da maneira como escreveu o No na prova, com letras carregadas, bem desenhadas, em contraste com a sua caligrafia corrente, solta, ainda que clara de ler. Neste ponto o director literrio calou-se de repente como se tivesse ganho conscincia de que estava a falar de mais e, portanto, a enfraquecer a sua posio de julgador. Houve um silncio, a Raimundo Silva pareceu que durante todo o tempo a mulher no desfitara de si os olhos, Quem ser, mas ela mantinha-se calada como se nada naquele assunto lhe dissesse respeito. Por sua vez, o director da Produo, melindrado por ter sido interrompido, parecia haver-se desinteressado duma discusso que, evidentemente, ia por mau caminho, Este idiota no v que a maneira de tratar do caso no  esta, pe-se a falar, a falar, gosta de se ouvir, e d todos os trunfos ao Silva, que deve estar a divertir-se divinamente,  s ver a maneira como administra os silncios, devia estar assustadssimo e  a calma personificada. O director da Produo enganava-se sobre a calma de Raimundo Silva, sobre o resto talvez no, pois  verdade que no conhecemos suficientemente o director literrio para termos opinio nossa, abalizada. Raimundo Silva, de facto, no est calmo, apenas parece, graas  desorientao que lhe causa o inesperado rumo dum dilogo que tinha imaginado literalmente catastrfico, a acusao formal e solene, os seus balbuceios em defesa do que defendido no podia ser, a vexao, a ironia pesada, a diatribe, a ameaa, qui o despedimento a culminar tudo isto ou tudo isto dispensando, Est despedido, e no conte connosco para dar-lhe cartas de recomendao. Agora Raimundo Silva percebe que tem de falar, tanto mais que o leo j no est directamente na sua frente, chegou-se um pouco para o lado e coa distraidamente a juba com uma unha partida, talvez acabe por no morrer nenhum cristo neste circo, mesmo no havendo sinal de Tarzan. Diz, dirigindo-se primeiro ao director da Produo, depois a furto  mulher que continua calada, No neguei que a palavra tenha sido escrita por mim, nunca pensei em neg-lo quando viesse a saber-se, mas o importante no  t-la escrito, o importante deveria ser, penso eu, descobrir por que o fiz. Espero que no me v dizer que no sabe, ironizou o director literrio, retomando a conduo do caso,  verdade, senhor director, no sei, Bonito, o senhor comete uma fraude propositada, causa um prejuzo moral e  material  editora e ao autor, no disse ainda uma palavra de desculpa, e com o ar mais inocente deste mundo quer que acreditemos que uma fora desconhecida, um esprito do alm lhe guiou a mo quando estava em transe hipntico. O director literrio sorria, satisfeito com a fluncia da frase mas tentando fazer do sorriso uma expresso de esmagadora ironia. No creio que estivesse em transe, respondeu Raimundo Silva, lembro-me bem das circunstncias em que tudo se passou, mas isto no significa que seja claro para mim o motivo por que escrevi esse erro deliberado, Ah, confessa que foi deliberado, Naturalmente, Agora s tem de confessar que no foi erro, mas fraude, e que, conscientemente, quis prejudicar a editora e ridicularizar o autor do livro, Admito que se trata duma fraude, quanto ao resto nunca foi essa a minha inteno, Talvez uma perturbao momentnea, sugeriu o director da Produo, em tom de quem quer dar uma ajuda. Raimundo Silva esperou a reaco certamente brusca do director literrio, mas ela no veio, e ento compreendeu que a frase estava prevista, que no haveria despedimento, que tudo iria ficar em palavras, sim, no, talvez, e a sensao de alvio foi to intensa que sentiu amolecer-se o corpo, desafogar-se o esprito, agora s tinha ele de dizer as palavras certas, por exemplo, Sim, uma perturbao momentnea, mas no podemos esquecer que passaram algumas horas at entregar as provas ao Costa, e Raimundo Silva felicitou-se pela maneira hbil como introduzira aquele podemos, colocando-se ele prprio ao lado dos juzes, como se lhes dissesse, No nos deixemos iludir. Disse o director literrio, Bom, o livro ser distribudo levando uma errata,  uma errata ridcula, onde se l no leia-se no no, onde se l os cruzados no ajudaram leia-se os cruzados ajudaram, vo rir-se  nossa custa mas enfim, felizmente demos pela coisa a tempo, e o autor mostrou-se compreensivo, alis fiquei com a impresso de que o estima muito, falou-me duma conversa que tiveram h tempos, Sim, tivemos uma conversa, foi sobre o deleatur, Sobre qu, perguntou a mulher, Sobre o deleatur, no sabe o que , perguntou Raimundo Silva, agressivamente Sei, no tinha ouvido bem. A interveno da mulher, que ningum parecia esperar, pareceu obrigar a um desvio da conversa, Esta senhora, disse o director literrio, a partir de agora fica com a responsabilidade de dirigir todos os revisores que trabalham para a editora, tanto no que se refere a prazos e ritmo de trabalho como ao acompanhamento da exactido das revises, tudo passar por ela, mas voltemos ao nosso assunto, a editora resolveu considerar arrumado este desagradvel incidente, tendo em conta os bons e leais servios prestados at hoje pelo senhor Silva, vamos admitir que a causa de tudo isto ter estado na fadiga, numa obliterao ocasional dos sentidos, enfim, pomos uma pedra sobre o caso, esperando que ele no se repita, alm disso o senhor Silva ter de escrever uma carta  editora e outra ao autor apresentando desculpas, o autor diz que no  preciso, que um dia falar consigo sobre o incidente, mas ns pensamos que  um dever seu, senhor Silva, escrever essa carta, Escreverei, Muito bem, o director literrio estava agora francamente aliviado, escusado ser dizer que nestes tempos prximos o seu trabalho vai ser objecto da nossa particular ateno, no por pensarmos que, propositadamente, volte a alterar textos, mas para prevenir a eventualidade de persistirem no seu esprito impulsos irrefreveis que possam manifestar-se outra vez, e nesse caso no preciso dizer-lhe que nos encontraria menos tolerantes. O director literrio calou-se  espera de que o revisor fizesse uma declarao sobre as suas futuras intenes, ao menos as conscientes, j que as outras, se as havia, pertenciam aos planos da inconscincia, indevassveis. Raimundo Silva percebeu o que se esperava dele,  verdade que as palavras necessitam palavras, por isso se diz Palavra puxa palavra, mas tambm  certo que Quando um no quer dois no discutem, imaginemos que o Romeiro deixava sem resposta a curiosidade fatal do Escudeiro Telmo, o mais provvel seria comporem-se as coisas e no haveria conflito, drama, morte, desgraa geral, ou ento suponhamos que um homem perguntou a uma mulher, Amas-me, e ela se cala, olhando-o apenas, esfngica e distante, recusando dizer o No que o destroar ou o Sim que os destroaria, concluamos, pois, que o mundo estaria bem melhor se se contentasse cada um com o que vai dizendo, sem esperar que lhe respondessem, e, mais ainda, sem o pedir nem o desejar. Mas Raimundo Silva deve dizer, Compreendo que a editora tome precaues, quem sou eu para levar a mal que o faam, enfim, peo que me desculpem, e prometo que, estando em meu juzo perfeito, no voltar a acontecer, neste ponto fez uma pausa como se perguntasse a si prprio se deveria continuar, mas depois achou que estava tudo dito, e calou-se. O director literrio disse, Bem, e preparava-se para acrescentar as esperadas palavras, Est encerrada a questo, agora vamos trabalhar, ao mesmo tempo que se levantaria e estenderia a mo aberta a Raimundo Silva em sinal de pazes, sorrindo, porm a mulher sentada  sua esquerda interrompeu o movimento e a generosidade, Se me permitem, o que me causa estranheza  que o senhor Raimundo Silva,  este o seu nome, creio, no tenha sequer tentado explicar-nos por que cometeu um abuso to grave, alterando o sentido duma frase que, como revisor, tinha, pelo contrrio, o dever imperativo de respeitar e defender,  para isso que os revisores existem. O leo reapareceu subitamente, rugindo, mostra a dentua assustadora, as garras intactas e afiadas, agora a nossa nica esperana, perdidos na arena,  que Tarzan surja finalmente, pendurado numa liana e gritando, Ah-ah-ah--, se a memria no falha, e at pode ser que traga os elefantes para ajud-lo, por causa da boa memria que tm. Perante o agora inopinado ataque o director literrio e o director , de produo voltaram a carregar a expresso, talvez para no virem a ser acusados de fraqueza por uma frgil mulher consciente das suas obrigaes profissionais, apesar de investida nelas h pouco tempo, e fitaram o revisor com a dureza adequada. No repararam que precisamente no havia dureza no rosto da mulher, antes um leve sorriso, como se, no fundo, ela estivesse a divertir-se com a situao. Raimundo Silva, desconcertado, olhou-a,  uma mulher ainda nova, menos de quarenta anos, percebe-se que  alta, tem a pele mate, os cabelos castanhos, se o revisor estivesse mais perto poderia ver alguns fios brancos, e a boca  cheia, carnuda, mas os lbios no so grossos, estranho caso, um sinal de inquietao toca algures o corpo de Raimundo Silva, perturbao seria a palavra justa, agora deveramos escolher o adjectivo adequado para acompanh-la, por exemplo, sexual, porm no o faremos, Raimundo Silva no pode tardar tanto a responder, ainda que seja comum em situaes deste tipo dizer-se que o tempo se suspendeu, coisa que o tempo nunca fez desde que o mundo  mundo. O sorriso ainda est no rosto da mulher, mas a brusquido, a secura das palavras no pode ser ignorada, nem mesmo os directores foram to directos, Raimundo Silva hesita entre responder com a pressividade igual ou usar o tom conciliatrio que a sua dependncia desta mulher parece aconselhar, est claro que ela tem meios rio para fazer-lhe a vida negra no futuro, serviro todos os pretextos, posto que, havendo ponderado to precisamente quanto lho permitiu o tempo disponvel, ainda por cima tendo em conta o que gastou em observaes fisionmicas, enfim respondeu, Ningum mais do que eu gostaria de encontrar uma explicao satisfatria, mas, se no o consegui at agora, duvido que venha a consegui-lo, o que eu penso  que deve ser travado dentro de mim uma luta entre o lado bom, se o tenho realmente e o lado mau, que esse temo-lo todos, entre um Dr. Jekill e um Mr. Hyde, se posso permitir-me referncias clssicas, ou ainda, por palavras minhas, entre a tentao do mutante do mal e o esprito conservador do bem, s vezes pergunto-me que erros teria cometido Fernando Pessoa, de reviso e outros, com aquela confuso de heternimos, uma briga dos diabos, suponho. A mulher manteve o sorriso ao longo de todo o discurso, e foi a sorrir que perguntou, O senhor, alm de Jekill e Hyde,  mais alguma coisa, At agora tenho conseguido ser Raimundo Silva, ptimo, ento veja se consegue aguentar-se como tal, no interesse desta editora e da harmonia das nossas futuras relaes, Profissionais. Espero que no lhe tenha passado pela cabea que pudessem ser outras, Limitei-me a completar a sua frase,  dever de um revisor sugerir solues que evitem ambiguidades, tanto as de estilo como as de sentido, Imagino que sabe que o lugar ambguo  a cabea de quem ouve ou l, Principalmente se o estmulo lhe veio de quem escreveu ou falou, Ou se se pertence ao tipo dos que se auto-estimulam, No creio que seja esse o meu caso No cr, Raramente fao afirmaes peremptrias, Foi peremptrio ao escrever o seu No na Histria do Cerco de Lisboa, e s no consegue s-lo para justificar a fraude, ao menos explic-la, que justificao no pode haver, Estamos a voltar ao princpio, desculpe, Agradeo-lhe a observao, poupou-me o trabalho de dizer-lhe outra vez o que penso do seu acto. Raimundo Silva abriu a boca para responder, mas nesse momento deu pela expresso de pasmo dos directores e resolveu calar-se. Houve um silncio, a mulher continuava a sorrir, mas, talvez por estar sorrindo h tanto tempo, havia no seu rosto uma espcie de crispao, e Raimundo Silva de repente sentiu que sufocava, a atmosfera do gabinete pesava-lhe nos ombros, Detesto esta gaja, pensou, e deliberadamente olhou os directores como dando a entender que, a partir da, s deles aceitaria perguntas e s a eles consentiria em dar respostas. Sabia que por este lado a partida estava ganha, os directores, ambos, j se levantavam, um deles disse, Damos a questo por encerrada, vamos ao trabalho, mas no estendeu a mo a Raimundo Silva, esta duvidosa paz no merecia celebrao, quando o revisor saiu o director literrio disse para o da produo, Se calhar devamos t-lo despedido, teria sido mais simples, e foi a mulher quem argumentou, Teramos perdido um bom revisor, Vai dar-se mal com ele, a julgar pelo que aqui se passou, Talvez no.
    sada Raimundo Silva encontrou o Costa que vinha duma tipografia. Deu-lhe as boas-tardes bruscamente e ia seguir, mas o Costa reteve-o por um brao, sem violncia apenas aflorando a manga da gabardina, os olhos do Costa eram srios, quase piedosos, e as palavras foram terrveis Por que  que me fez uma coisa destas, senhor Silva, perguntou, e Raimundo Silva ficou sem saber que responder, limitou-se a negar infantilmente, Mas eu no lhe fiz nada. O Costa abanou a cabea, retirou a mo, e foi-se pelo corredor, parecia-lhe impossvel que aquele homem no percebesse que o tinha ofendido pessoalmente, que a verdadeira questo era entre os dois, Costa e Raimundo Silva o enganado e o enganador, para estes no podia haver uma errata salvadora in extremis. Ao fundo do corredor o Costa voltou-se para trs e perguntou, Despediram-no, No, no despediram, Ainda bem, se o tivessem despedido eu ficaria mais chateado do que estou agora, afinal o Costa  um grande homem, e sbrio nas suas declaraes, no disse triste nem amargurado para no parecer solene, disse chateado, que  palavra chula segundo os dicionrios, mas sem rival, ainda que o neguem os puristas. O Costa, definitivamente, est chateado, nenhuma outra palavra exprimiria melhor o seu estado de esprito, nem afinal o de Raimundo Silva que, tendo-se perguntado pela milsima vez, Como  que eu me sinto, pde responder, tambm definitivamente, Estou chateado.
   Quando chegou a casa j a mulher-a-dias tinha sado, deixando-lhe o recado, sempre igual se calhava estar ele ausente, Fui-me embora, ficou tudo arrumado, levei a roupa para acabar de passar a ferro, esta manifestao de zelo significava que ela aproveitava para sair mais cedo, porm no o confessaria nunca, e Raimundo Silva, que sobre o expediente no tinha dvidas, aceitava a explicao e calava. Certas relaes harmoniosas criam-se e duram graas a um sistema complexo de pequenas inverdades, de renncias, uma espcie de bailado cmplice de gestos e posturas, tudo resumvel no nunca assaz citado provrbio, ou sentena, que muito melhor lhe assenta esta designao, Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei. No  que haja segredos, mistrios, esqueletos em armrios fechados que devessem ser revelados quando se fale da relao entre senhor e serva nesta casa onde vive Raimundo Silva e onde de vez em quando assiste, porm trabalhando, uma mulher de quem talvez nem venha a ser necessrio saber o nome completo. Mas  sumamente interessante reconhecer como a vida destes dois seres  ao mesmo tempo opaca e transparente, para Raimundo Silva no h ningum que mais prximo esteja e, contudo, at hoje no se interessou por saber que vida  a desta mulher quando no est a-dias, e quanto ao nome basta que diga, Senhora Maria, e ela aparece  porta a perguntar, O senhor Raimundo deseja alguma coisa. A senhora Maria  baixa, magra, morena at parecer escura, e tem uns cabelos naturalmente crespos que so a sua vaidade, nem poderia ter outra, pois de beleza nasceu mal servida. Quando diz ou escreve, Ficou tudo arrumado, abusa evidentemente das palavras, pois o seu sentido de arrumao consiste na aplicao de uma regra de ouro segundo a qual basta que tudo parea arrumado, ou, por artes interpretativas, que no esteja  vista o que arrumado no chegou a ser e em alguns casos no  nunca. Exceptua-se, evidentemente, o escritrio de Raimundo Silva onde a desarrumao parece ser condio do prprio trabalho, assim o entende ele em contrrio do estilo doutros revisores que so manacos do alinhamento, da preciso, da harmonia geomtrica, com esses teria de sofrer muito a senhora Maria, diriam, Este papel no est como o deixei, os papis do escritrio de Raimundo Silva esto sempre como ele os deixou, pela muito simples razo de que a senhora Maria no pode nem tocar-lhes, e assim protestar, A culpa no  minha, quando Raimundo Silva perder o stio a livros ou provas.
   Amarrotou o papel, desdenhando do recado, e lanou-o no cesto. Depois  que despiu a gabardina, mudou de roupa, uma camisa grossa, umas calas que s tinham esta serventia, um colete de malha, no  s pelo frio que faz,  pelo frio que sente,  verdade que Raimundo Silva tem isto de ser friorento, tanto que sobre tudo o que j vestira enfiou o roupo de quadrados escoceses, entrouxado mas confortvel  como est, alm de que no espera visitas. Durante o trajecto da editora at casa conseguira no pensar, h quem no consiga, mas Raimundo Silva aprendeu a arte de fazer flutuar ideias vagas, como nuvens que se mantm separadas, e sabe mesmo soprar qualquer uma que se aproxime demasiado, o que  preciso  que no se encostem umas s outras criando um contnuo ou, o que ainda seria pior, se h electricidade na atmosfera mental, com a resultante tormenta de coriscos e trovoada. Por alguns momentos deixara que o pensamento se ocupasse da senhora Maria, mas agora o crebro estava outra vez vazio. Para o manter assim abriu a porta da saleta onde tinha a televiso e ligou o aparelho. O ar, ali, ainda estava mais frio. Sobre a cidade, graas ao cu limpo, o sol ainda brilhava, posto j sobre o lado do mar, a cair, lanando uma luz suave, um afago luminoso a que daqui a pouco respondero as vidraas da encosta, primeiro com archotes vibrantes, depois empalidecendo, reduzindo-se a um pedacinho de espelho trmulo, at se apagar tudo e comear o crepsculo a peneirar a sua cinza lenta entre os prdios, ocultando as empenas, apagando os telhados, ao mesmo tempo que o rudo da cidade baixa esmorece e recua sob o silncio que se derrama destas ruas altas onde vive Raimundo Silva. A televiso no tem som, isto , tirou-lho Raimundo Silva, h s as imagens luminosas que se movem, no apenas no ecr mas tambm sobre os mveis, as paredes, e sobre o rosto de Raimundo Silva que olha sem ver e sem pensar. H quase uma hora que passam diante de si videoclips do Tottaly Live, os cantores, se a palavra tem lugar aqui, e os bailarinos remexem-se, aqueles exprimem todos os sentimentos e todas as sensaes humanas, algumas duvidosas, tm tudo na cara, no se ouve o que dizem mas no importa,  incrvel como um rosto pode ter tanta mobilidade, so crispaes, esgares, distenses, caretas ameaadoras, um serzinho andrgeno, postio e obsceno, mulheres maduras e de juba, frescas raparigas de coxas, ndegas e tetas generosas, outras delgadas como vimes e diabolicamente erticas, senhores maduros que mostram algumas rugas interessantes e seleccionadas, tudo isto fabricado de luz relampejante, tudo sufocado de silncio, como se Raimundo Silva tivesse posto as mos sobre estas gargantas, asfixiando-as para alm duma cortina de gua, ela tambm silenciosa,  o triunfo universal da surdez. Agora um homem aparece sozinho, deve estar a cantar apesar de mal se lhe moverem os lbios, o dstico dizia Leonard Cohen, e a imagem olha para Raimundo Silva insistentemente, os movimentos da boca articulam uma pergunta, Por que no queres ouvir-me, homem sozinho, e certamente acrescenta, Ouve-me agora porque depois ser demasiado tarde, aps um videoclip vem outro, no se repetem, isto no  um disco que possas fazer voltar atrs mil e uma vezes,  possvel que eu volte, mas no sei quando e tu talvez j aqui no estejas nesse momento, aproveita, aproveita, aproveita. Raimundo Silva inclinou-se para a frente, abriu o som, o gesto de Leonard Cohen foi como se agradecesse, agora podia cantar, e cantou, disse as coisas que diz quem viveu e se pergunta quanto e para qu, quem amou e se pergunta a quem e porqu, e, tendo feito as perguntas todas se acha sem resposta, uma s que fosse,  o contrrio daquele que afirmou um dia que as respostas esto todas por a e que ns no temos mais que aprender a fazer as perguntas. Quando o Cohen se calou, Raimundo Silva tornou a cortar o som, e logo a seguir desligou de todo o aparelho. A saleta, interior tornou-se de repente noite negra, e o revisor pde levar as mos aos olhos sem que ningum o visse.
   Agora perguntar quem tiver preocupaes de lgica se  crvel que ao longo de tanto tempo no tenha Raimundo Silva pensado uma s vez na cena humilhante sucedida na editora, ou, se pensou, por que no se fez dela a competente meno em nome da coerncia duma personagem e da verosimilhana das situaes. Ora,  verdade que Raimundo Silva pensou, e algumas vezes, no desagradvel episdio, mas pensar no  o mesmo em todos os casos, e o mais que ele se permitiu foi lembrar-se, como por outras palavras ficou explicado antes, quando se falou de nuvens no cu e electricidade no ar, soltas umas e de voltagem mnima outra. A diferena est entre um pensamento activo que escava poos e galerias a partir e ao redor dum facto e essa outra forma de pensamento, se merece tal nome, inerte, alheado, que quando olha no se detm e segue, apostado na crena de que o que no  mencionado no existe, como o doente que se considera saudvel porque o nome da doena ainda no foi pronunciado. Engana-se, porm, quem imagine que estes sistemas defensivos duram sempre, l vem o momento em que a vaguidade do pensar se transforma em ideia fixa, em geral basta doer um pouco mais. Foi isto que sucedeu com Raimundo Silva quando, estando a lavar a pouca loua que sujara para jantar, se lhe acendeu no esprito a sbita evidncia de que a editora, afinal, no levara treze dias a descobrir o engano, o que tanto absolvia a superstio velha como imporia a necessidade duma nova superstio, carregando de energia negativa outro dia, at agora inocente. Quando o chamaram  editora j tudo fora descoberto e discutido, Que vamos fazer com esse tipo, perguntou o director-geral, e o director literrio telefonou ao autor para comunicar-lhe o absurdo acontecimento desculpando-se muito,  que no se pode confiar em ningum, ao que o autor respondeu por mais incrvel que parea, No  morte de homem, uma errata resolve a questo, e ria-se, Do que esse homem se foi lembrar, e o Costa teve uma ideia, Devia haver algum para controlar os revisores, o Costa sabe onde lhe di, e a sugesto pareceu to boa que o director da Produo a levou, como se sua fosse,  considerao superior, e com to geral aprovao que antes do dcimo terceiro dia j a pessoa tinha sido procurada, escolhida e instalada, ao ponto de assistir de pleno direito e autoridade plena ao juzo sumrio que veio a deliberar sobre as culpas, evidentes, provadas e finalmente confessadas, se bem que, no que toca  confisso, tenham sido mais do que o admissvel as reticncias e as reservas mentais do culpado, atitude que acabou por irritar a nova empregada, no pode ter outra explicao o ataque violento que desferiu no ltimo assalto, Mas respondi-lhe  letra, murmurou Raimundo Silva enquanto enxugava as mos e descia as mangas que arregaara para fazer o trabalho domstico.
   Agora sentado  secretria, com as provas do livro de poesia diante de si, segue atrs do pensamento, ainda que talvez fosse mais exacto dizer que o antecede, pois, sabendo ns como o pensamento  rpido, se nos contentamos com ir atrs dele em pouco tempo perdemos-lhe o rasto, ainda estamos a inventar a passarola e j ele chegou s estrelas. Raimundo Silva tenta, pensando e repensando, perceber por que desde as primeiras palavras no pde reprimir a agressividade, No sabe o que  o deleatur, incomoda-o sobretudo a lembrana do tom com que atirou a pergunta, provocador, mesmo grosseiro, e depois o duelo final, de inimigos, como se houvesse ali uma questo pessoal a dirimir, um rancor velho, quando se sabe que estes dois nunca se encontraram antes, e, se sim no deram um pelo outro, Quem ser ela, pensou ento Raimundo Silva, ao pens-lo afrouxou, sem dar por isso, a rdea com que vinha guiando o pensamento, foi quanto bastou para que ele lhe passasse  frente e comeasse a pensar por conta prpria,  uma mulher ainda nova menos de quarenta anos, no to alta como primeiro lhe parecera, o tom da pele mate, os cabelos soltos, castanhos, os olhos da mesma cor, um nada menos escuros, e a boca pequena e cheia, a boca pequena e cheia, a boca pequena, a boca, cheia, cheia. Raimundo Silva est a olhar a estante que tem em frente, encontram-se ali reunidos todos os livros que reviu ao longo duma vida de trabalho, no os contou mas fazem uma biblioteca, ttulos nomes, ele  o romance, ele  a poesia, ele  o teatro, ele so os oportunismos polticos e biogrficos, ele so as memrias, ttulos, nomes, nomes, ttulos, uns clebres at aos dias de hoje, outros que tiveram a sua boa hora e para quem o relgio parou, alguns ainda suspensos do destino Mas o destino que temos  o destino que somos, murmurou o revisor, respondendo ao que antes pensara, Somos o destino que temos. De repente sentiu calor apesar de no ter o aquecimento elctrico ligado, desatou o cinto do roupo, levantou-se da cadeira, estes movimentos pareciam ter um objectivo e contudo, no pode haver outra explicao, eram apenas expresso de um inesperado bem-estar, um vigor quase cmico, uma tranquilidade de deus sem remorsos. A casa tornou-se subitamente pequena, at a prpria janela aberta para as trs vastides, a da cidade, a do rio, a do cu, lhe pareceu como um postigo cego, e  verdade que no havia nevoeiro, e mesmo a frialdade da noite era retemperadora frescura. No foi neste momento, mas antes, que Raimundo Silva pensou, Como se chamar ela, s vezes acontece, temos um pensamento mas no queremos reconhec-lo, dar-lhe confiana, isolamo-lo com pensamentos laterais como este de se ter finalmente lembrado de que o nome da mulher no fora mencionado nenhuma vez, Esta senhora, declarou o director literrio, a partir de agora fica com a responsabilidade, e, ou por improvvel falta de educao, ou por efeito do nervosismo prprio e geral, no fez a apresentao, O senhor Raimundo Silva, a senhora fulana de Tal. Com estas reflexes atrasara Raimundo Silva a pergunta directa, Como se chamar ela, e agora que a fez no  capaz de pensar noutra coisa, como se, ao cabo de todas estas horas, tivesse finalmente chegado ao seu destino, palavra que aqui  utilizada no sentido vulgar, de termo de viagem, sem derivaes ontolgicas ou existenciais, somente aquele dizer dos viajantes, Cheguei, julgando saber tudo o que os espera.
   Agora no se espere nem se exija explicao para o que Raimundo Silva fez. Regressou ao escritrio, abriu sobre a mesa o Vocabulrio de Jos Pedro Machado, sentou-se e, devagar, comeou a percorrer desde a letra A as colunas da seco de onomstica, logo o primeiro nome  o antropnimo Aala, porm foi omitido o gnero, masculino, feminino, no se sabe, este foi um caso de reviso desatenta, ou ser nome comum-de-dois, de qualquer maneira uma responsvel de revisores no pode chamar-se Aala.
   Raimundo Silva adormeceu na letra M, com o dedo sobre o nome de Maria, sem dvida de mulher, mas a-dias, como sabemos, o que no exclui a hiptese duma coincidncia, num mundo onde elas so to fceis.
   

   
   A carta que Raimundo Silva escreveu ao autor da Histria do Cerco de Lisboa continha o quantum satis necessrio de desculpas, e tambm a tnue pincelada de humor discreto que as relaes cordiais entre o remetente e o destinatrio admitiriam sem abusar da confiana, embora no final devesse perdurar a impresso de uma honesta perplexidade, de uma austera interrogao sobre a irresistibilidade de alguns actos absurdos. Esta como que meditao sobre a fraqueza humana quebraria as ltimas resistncias se ainda alguma restava, em quem, ao ser informado do lesivo procedimento contra a sua propriedade intelectual respondera, lanando em estupefaco o director literrio No  morte de homem, claro est que na vida real no se encontram tais abnegaes, mas esta reflexo, escusado seria diz-lo, no  da responsabilidade do historiador, no passando, portanto, de mero acrescentamento de sentido duplo, to a propsito agora introduzido como em qualquer outro momento e pgina deste relato. O cesto de papis ficou cheio de folhas amarrotadas, de tentativas sem seguimento, de rascunhos emendados em todas as direces, sobejos inteis de um dia inteiro de esforos de estilo e de gramtica, de milimtricas harmonias para equilbrio das partes constitutivas da epstola, Raimundo Silva chegou mesmo a desabafar em voz alta, Se os autores sempre assim sofrem, coitados, e achou algum contentamento em no ser mais que revisor.
   Subia Raimundo Silva a escada da casa depois de ter ido levar a carta ao correio, quando ouviu tocar o telefone. No se apressou, um tanto porque se sentia cansado, outro tanto por indiferena ou alheamento, o mais provvel era que fosse o Costa a querer saber das provas do livrinho de poemas ou como ia a leitura prvia do romance que lhe tinha deixado naquele negro dia, Lembra-se. Deu tempo a que o Costa se aborrecesse de chamar sem resultado, mas o telefone no se calava, retinia com uma espcie de obstinao mansa, como quem est decidido a continuar s por ser dever seu e no por contar que lhe respondam. Metia tranquilamente a chave na fechadura quando se lembrou de que no podia ser o Costa o da chamada, o Costa deixara de ser o seu directo interlocutor, pobre Costa, vtima inocente, por tabela reduzido a uma funo quase mecnica de leva-e-traz, ele que, sendo preciso, era capaz de bater-se de igual para igual com a camorra revisora. Raimundo Silva deteve-se no limiar do escritrio, e o telefone, como se lhe sentisse a presena, redobrou de estridncia, parecia um cozito louco de entusiasmo ao pressentir o dono, s lhe faltava lanar-se da mesa abaixo e disparar aos saltos em nsia de afagos, com a lngua de fora, arquejando, babado de puro gozo. Raimundo Silva tem por a alguns conhecidos que uma vez por outra lhe telefonam, e j sucedeu que tal ou tal mulheres sentiam ou fingiam uma necessidade de falar-lhe e ouvi-lo, mas esses so casos do passado que no passado ocorreram e no passado se deixaram ficar, vozes que se dele viessem agora seriam como sobrenaturalidades do outro mundo.
   Pousou a mo sobre o telefone, esperou ainda, como se quisesse dar-lhe a ltima oportunidade de calar-se, enfim levantou o auscultador julgando saber exactamente o que o esperava,  o senhor Silva, perguntou a telefonista, e ele respondeu, lacnico, Sou, Como ningum atendia, j ia desligar, Quer alguma coisa, Eu no,  a doutora Maria Sara que quer falar consigo, um momento. Houve uma pausa, rudos que deviam ser de comutao, tempo bastante para que Raimundo Silva pudesse pensar, Chama-se Maria Sara em parte tinha acertado, sem saber, porque se  verdade que adormecera com um dedo revelador sobre o nome de Maria, tambm  certo que disso no guardara lembrana, e ao acordar, levantando a cabea da mo espalmada sobre o livro, e depois esfregando com as duas mos os olhos, retirara da pgina aquele precrio sinal de orientao, disporia somente das duas referncias extremas e saberia, quando muito, que o achado estaria entre Manuela e Marula, nomes esses, alis, desde logo excluveis por serem radicalmente inadequados  personalidade da pessoa ou personagem. A telefonista disse, Vou ligar,  um anncio corrente das telefonistas, lugar-comum da profisso, e contudo so palavras que prometem consequncias, tanto para o bem como para o mal, Vou ligar, disse ela, indiferente ao destino que utiliza os seus servios, e no repara que est a dizer, Vou juntar, apertar, prender, atar, liar, fixar, unir, aproximar vincular, relacionar, associar, na sua ideia somente se trata de pr em comunicao duas pessoas, mas esse mesmo simples acto, observemo-lo ns, j transporta consigo riscos mais do que suficientes para que no o cometssemos com leviandade. Porm, no adiantam os avisos, apesar de a experincia nos demonstrar diariamente que cada palavra  um perigoso aprendiz de feiticeiro.
   Raimundo Silva deixara-se cair na cadeira, em um instante sentira-se duas vezes mais cansado, Ns, os velhos, do-nos a lei os trmulos joelhos, a citao obrigatria riu-se dele injustamente, que no  velho um homem que apenas passou dos cinquenta anos, isso era dantes, agora cuidamo-nos melhor, h loes, tinturas, cremes, suavizaes diversas, por exemplo, onde  que se encontraria a homem no mundo civilizado que depois de barbear-se ainda aplicasse almen na cara, essa brutalidade contra a epiderme, hoje a cosmtica  rainha, rei e presidente, e se est visto que no poderia disfarar uma tremura de pernas, ao menos dar alguma compostura ao rosto para quando houver testemunhas. No as havendo agora, o prprio rosto de Raimundo Silva se crispa enquanto do outro lado a doutora Maria Sara, serena, num gesto evidentemente gracioso, atira para trs, com um movimento da cabea, o cabelo do lado esquerdo para poder encostar o auscultador ao ouvido, e diz finalmente, No fomos apresentados no outro dia, mas apresento-me agora a mim mesma, o meu nome  Maria Sara, o seu, ia a dizer, J o conheo, mas Raimundo Silva arrastado pelo hbito disse o seu nome, mas disse-o completo, declarou-se Benvindo, e quase morreu de ridculo ali mesmo. A doutora Maria Sara porm, apesar de no ter enunciado da sua pessoa mais do que esse pouco, no fez reparo na confisso, tratou-o por senhor Raimundo Silva sem poder adivinhar quanto blsamo estava derramando na macerada susceptibilidade do revisor, Gostaria de falar consigo sobre o modo de organizarmos o nosso trabalho, estou a ter encontros com todos os revisores, interessa-me saber o que pensam, sim, encontros pessoais, que no h outra maneira, amanh ao meio-dia, se lhe convier, de acordo, fico  sua espera, at amanh. O telefone fora desligado e Raimundo Silva ainda no recuperara por completo a serenidade, agora a casa estava cheia de silncio, apenas se adivinha uma pulsao inaudvel, tanto pode ser o arfar da cidade como o mover do rio, ou simplesmente o corao do revisor. Acordou algumas vezes durante a noite, em sobressalto, como se algum o tivesse sacudido. Mantinha os olhos fechados, tentando defender-se da espertina, e da a pouco passava ao do torpor inquieto a outro inquieto sono, porm sem sonhos. Na ltima hora da noite comeou a chover,  o alpendre da varanda era sempre o primeiro a dar sinal mesmo sendo leve a chuva, e Raimundo Silva acordou com o rumor contnuo das gotas caindo e ressoando, lentamente abriu os olhos para receber a luz cinzenta que mal comeava a insinuar-se pelas frinchas da janela. Como acontece quase sempre a quem acorda a esta hora, tornou a cair no sono, desta vez agitado de sonhos, lutando com uma preocupao, se teria tempo para tingir o cabelo, que estava precisado, e se seria capaz de o fazer to bem que no se desse por que era pintado. Acordou passava das nove horas, o seu pensamento imediato foi, No tenho tempo, depois achou que sim. Entrou na casa de banho e, piscando os olhos, despenteado, de cara franzida, examinou-se  luz forte das duas lmpadas que ladeavam o espelho. As razes brancas eram melancolicamente visveis, no bastaria afofar o cabelo para dissimul-las, o remdio seria tingir mesmo. Despachou em poucos minutos a refeio, sacrificando o j conhecido apetite de torradas com manteiga, e voltou  casa de banho, onde se fechou para proceder  sua cunhagem particular de moeda falsa, enfim,  aplicao do produto, como se dizia no prospecto da embalagem. Fechava-se sempre, embora sempre estivesse sozinho em casa quando pintava o cabelo, fazia em segredo o que, devia sab-lo, no era segredo para ningum, e certamente cairia morto de vergonha se um dia fosse surpreendido no que ele prprio considerava uma lastimvel operao. Tal como o da doutora Maria Sara, o seu cabelo, no tempo da verdade era castanho, mas agora seria impossvel comparar os tons de um e do outro, de natureza a natureza, porque o de Raimundo Silva apresenta-se com uma cor uniforme que lembra irresistivelmente uma peruca desbotada e roda de traas, esquecida e outra vez achada num sto, de confuso com antigas imagens, mveis, adornos, pechisbeques, as mscaras doutro tempo. Faltava pouco para as onze e meia quando ficou pronto para sair, atrasadssimo, se no tiver a sorte de encontrar logo logo um txi ser caso para outra citao, esta de um ditado velho, Sobre queda, coice, expresso sinttica e percuciente que se pode traduzir por Depois de um no, um tarde de mais, sem dvida a verso mais adequada ao caso. Valeu-lhe realmente morar na Rua do Milagre de Santo Antnio, pois s um milagre podia fazer com que, em rua to erma, em dia assim, de chuva, aparecesse um txi livre que parou quando lhe fizeram sinal e no fez, ele, sinal de que levava outro destino. Raimundo Silva entrou, feliz, deu a direco da editora, mas depois, enquanto acomodava o guarda-chuva, taxou-se de idiota, a sua ansiedade manifestava-se por dois modos distintos, o temor de ir, o desejo de chegar, a editora passara a ser para si um stio detestado, e, por outro lado, no era apenas para chegar pontualmente ao meio-dia que apertava com o motorista, Tenho pressa, com risco de criar um inimigo em algum que tinha comeado por manifestar-se como instrumento de milagre. Descer  cidade baixa levou seu tempo, avanar no meio de um trfego que a chuva demorava foi como patinhar melao, Raimundo Silva suava de impacincia, enfim, passavam j dez minutos do meio-dia quando entrou na editora, a bufar, no pior estado de esprito desejvel para um encontro em que iriam discutir-se responsabilidades novas e, seguramente, trazer de novo  colao os agravos recentes.
   A doutora Maria Sara levantou-se da cadeira, foi ao encontro dele, cordial, Como est, senhor Raimundo Silva, Peo-lhe que me desculpe o atraso, esta chuva, o txi, No tem importncia, sente-se. O revisor sentou-se, mas fez gesto de erguer-se outra vez porque a doutora Maria Sara voltava  secretria, Por favor, deixe-se estar, e quando regressou trazia um livro que colocou sobre a mesa baixa, entre os dois sofs forrados de napa negra. Depois instalou-se, cruzou as pernas, tinha uma saia de tecido grosso, cingida na medida justa, e acendeu um cigarro. Os olhos do revisor acompanharam o movimento que animava as regies superiores, reconhecia o rosto, o cabelo solto, cado sobre os ombros, e de repente sentiu um choque ao distinguir nele, nitidamente, fios brancos que brilhavam sob a luz do tecto, No os pinta, pensou, e teve vontade de fugir dali. A doutora Maria Sara tinha-lhe perguntado se queria fumar, mas ele no ouviu, s  segunda vez, No fumo, muito obrigado, respondeu, e baixou os olhos, levando neles a imagem duma blusa de decote em bico, de cor que a sua perturbao o impediu de definir. Agora no tirava os olhos da mesa, fascinado, estava ali a Histria do Cerco de Lisboa, virada para si, certamente de propsito, tudo, o nome do autor, o ttulo em letras grandes, uma ilustrao no meio da capa onde se percebiam cavaleiros medievais com o smbolo dos cruzados, e sobre as muralhas do castelo desproporcionadas figuras de mouros, era difcil saber, a esta distncia, se se tratava de reproduo duma miniatura antiga ou de composio moderna, de estilo arcaizante, falsamente ingnuo. No queria continuar a olhar a capa provocadora, mas to-pouco desejava enfrentar-se com a doutora Maria Sara, que nesse momento estaria a fit-lo impiedosamente, como outra cobra-capelo, pronta a lanar o ltimo e definitivo bote. Mas ela disse, em tom de voz natural, sem nenhuma intonao particular, deliberadamente neutra, to simples como as quatro palavras que pronunciou, Esse livro  seu, fez uma pausa, demorada, e acrescentou, colocando desta vez peso maior em algumas slabas, Digamo-lo doutro modo, esse livro  o seu. Confundido, Raimundo Silva levantou a cabea, O meu, perguntou, Sim,  o nico exemplar da Histria do Cerco de Lisboa que no leva a errata, nele continua a afirmar-se que os cruzados no quiseram ajudar os portugueses, No compreendo, Diga antes que est a tentar ganhar tempo para saber como deve falar comigo, Desculpe, mas a minha inteno, No precisa justificar-se, no pode levar a vida a dar explicaes, o que eu realmente esperava era que me perguntasse por que motivo lhe entrego eu um exemplar no emendado, um livro que mantm intacta a fraude, que insiste no erro, que persevera na mentira, quanto ao qualificativo escolha o que mais lhe agradar, Pergunto-lho agora, Tardou demasiado, j no me apetece responder-lhe, mas disse-o sorrindo, embora se notasse uma tenso no desenho da boca, Peo-lhe, insistiu ele, a sorrir por sua vez, e ficou surpreendido consigo mesmo, numa situao destas, Mostrar os dentes a uma mulher de quem no sei mais nada e que deve estar a troar de mim, aposto. A doutora Maria Sara apagou o cigarro, acendeu outro, parecia nervosa. Raimundo Silva observou-a com ateno, a balana comeava a inclinar-se para o seu lado, mas ele no percebia porqu, muito menos qual fosse o sentido de tudo isto, afinal de contas no fora convocado para debater ou simplesmente receber instrues sobre o novo funcionamento da reviso, o que ali estava a passar-se tornava evidente que o assunto do Cerco no ficara definitivamente arrumado naquela negra hora do dcimo terceiro dia em que viera para ser julgado, Mas no creias que vais sujeitar-me a outro vexame, pensou, sem querer admitir que estava a ser desonesto com os factos, quando, na verdade, precisamente tinha sido poupado ao vexame duma demisso ignominiosa, por exemplo, decerto no contava que o condecorassem e citassem  ordem, promovendo-o, a chefe dos revisores, lugar que antes no existia e, pelos vistos, agora sim.
   A doutora Maria Sara, num movimento rpido, levantou-se, era interessante observar como a rapidez dos seus gestos no prejudicava uma espcie de fluidez natural que lhes retirava toda a aparncia de brusquido, e foi  secretria buscar uma folha de papel que entregou a Raimundo Silva, A partir de agora, os trmites do trabalho de reviso sero os que constam dessas instrues, no h alteraes de fundo no modo como as coisas se faziam at aqui, e, como poder ver, o mais importante  que, nos casos em que o revisor trabalhe sozinho, como acontece consigo, as provas passem por uma verificao final, que tanto poder ser feita por mim prpria como por outro revisor, ficando claro que sero sempre respeitados os critrios do primeiro, o que se pretende, apenas,  estabelecer uma ltima fieira que impea erros e remedeie falhas de ateno, Ou desvios intencionais, acrescentou Raimundo Silva, tentando um sorriso amargo, Engana-se, este foi um episdio do qual nem sequer vale a pena dizer que depois da casa roubada trancas  porta, porque tenho a certeza de que os ladres nunca mais voltaro, e a porta poder continuar como estava, as regras que a tem obedecem ao simples senso comum, no so um cdigo penal para dissuadir e castigar atentados de criminosos empedernidos, Como eu, Um nico delito, que ainda por cima, volto a dizer, no ter repetio, no faz de uma pessoa normal um criminoso, empedernido muito menos, Obrigado pela confiana, No precisa da minha confiana,  uma questo de lgica e de psicologia elementares, nada que uma criana no fosse capaz de compreender, Tenho as minhas limitaes, Cada um tem as suas. Raimundo Silva no respondeu, ficou a olhar o papel que segurava nas mos, porm sem o ler, que, para revisor to veterano, como ele era, dificilmente se inventaria uma surpresa capaz de durar mais, em efeitos, que o tempo da sua enunciao. A doutora Maria Sara permanecia sentada, mas endireitara o tronco e inclinava-se um tudo-nada para a frente, tornando claro que, por sua parte, a conversao terminara, e que no segundo imediato, no ocorrendo razo em contrrio, estaria de p para pronunciar as ltimas palavras, as tais a que no se costuma dar ateno, essas frmulas de despedida a que a repetio e o hbito desgastaram o sentido, comentrio, alis, tambm ele repetente, introduzido aqui como um eco de outro, feito em diferente tempo e lugar e que portanto no merece desenvolvimento, vide Retrato do Poeta no Ano da sua Morte. 
   Raimundo Silva dobrou a folha de papel duas vezes, tardando nos vincos, e guardou-a num bolso interior do casaco. Depois fez um movimento que enganou a doutora Maria Sara, parecia que ia levantar-se, mas no, era apenas uma maneira de tomar balano, de modo a no ficar a meio, duma frase que decidira dizer, o que, tudo junto, mais ou menos significa que estes momentos, e os momentos so sempre muitos, ainda que sejam poucos os segundos, eles os viveram em equilbrio instvel, compelido o revisor, contra vontade, a seguir o movimento da doutora, invertendo esta o seu prprio impulso ao perceber que se tinha equivocado sobre a inteno dele. Ainda mais que o teatro, saberia o cinema mostrar estes subtis bailados de gestos, podendo mesmo decomp-los e recomp-los sucessivamente, mas a experincia da comunicao tem vindo a provar que essa abundncia aparente de visualizaes no diminuiu a necessidade das palavras, quaisquer palavras, mesmo sabendo elas dizer to pouco sobre as aces e interaces do corpo, da vontade que h nele ou ele , do que chamamos instinto na ausncia doutro nome, da qumica das emoes, e o mais que, precisamente por falta de palavras, no se mencionar. Mas, no tratando ns aqui de cinema, nem de teatro, nem sequer de vida, somos forados a gastar mais tempo a dizer o que necessitamos, sobretudo porque nos damos conta de que, aps urna primeira, uma segunda e s vezes uma terceira tentativa, apenas uma parte mnima das substncias ter ficado explicada, ainda assim muito dependente de interpretaes, posto o que, em meritrio esforo de comunicao, perturbadamente tornamos ao princpio, a ponto de, inbeis, aproximarmos ou distanciarmos o plano de focagem, com risco de esborratar os contornos do motivo central, e de torn-lo, digamo-lo assim, inidentificvel. Neste caso, porm, afortunadamente, no tnhamos perdido de vista Raimundo Silva, deixmo-lo naquele movimento ondulatrio que havia de transportar a frase, nem a doutora Maria Sara, de algum modo submissa, com perdo da excessiva palavra, no por perda sua de vontade, mas por uma derradeira e qui benevolente expectativa, a questo est em saber se vai o revisor pronunciar as palavras certas, sobretudo evitando a pior das cacofonias, que  no condizerem a palavra com o som e os dois com a inteno, vamos ver como resolve Raimundo Silva a dificuldade, Por favor, disse, e no h dvida de que comeou bem, a minha reaco diante do livro, a surpresa ao ouvir que no est emendado, tudo isto se compreende,  como quando temos um ponto dorido, o corpo encolhe-se instintivamente se lhe tocam, s lhe digo que o meu desejo seria que tudo se me apagasse da memria, Encontro-o hoje muito menos desafiador do que da outra vez que aqui esteve, Os lumes apagam-se, as vitrias perdem significado, os desafios cansam-se, repito que gostaria de esquecer o que sucedeu, Temo que venha a ser impossvel, se aceitar a sugesto que tenho para fazer-lhe, Uma sugesto, Ou uma proposta, se prefere. A doutora Maria Sara tomou de uma estante baixa a seu lado um dossier que colocou sobre o colo, e disse, Esto aqui reunidos pareceres seus sobre livros que a editora, em anos passados, publicou ou no, Isso  histria antiga, Fale-me dela, Acha que vale a pena, Tenho as minhas prprias razes para acreditar que sim, Bem, a editora estava ento no princpio, todas as ajudas eram bem-vindas, e algum nessa poca pensou que eu poderia fazer algo mais que revises, dar opinio sobre livros, por exemplo, francamente no podia passar-me pela cabea que esses papis tivessem durado at hoje, Encontrei-os durante a inspeco que fiz  parte do arquivo que interessava ao meu trabalho, J mal lembro, Li-os todos, Espero que no tenha tido que rir-se de disparates, Disparates, nenhuns, pelo contrrio, so pareceres excelentes, bem pensados e bem escritos, Suponho que no achou trocas de sins por nos, e Raimundo Silva atreveu-se a sorrir, foi irresistvel, mas um tanto pelo canto da boca para no parecer confiado de mais. A doutora Maria Sara sorriu tambm, No, no trocou, esto todos pontualmente, religiosamente, nos seus lugares. Fez uma pausa, folheou ao acaso o dossier, pareceu hesitar ainda e depois, Foram estes pareceres, e o facto, como j disse, de estarem bem escritos e mostrarem, alm de capacidade de observao crtica, uma espcie, como direi, de pensamento oblquo bastante singular, Pensamento oblquo, No me pea que explique, mais do que senti-lo, vejo-o, foi tudo isso, repito, que se condensou na sugesto que decidi fazer-lhe, E que , A de escrever uma histria do cerco de Lisboa em que os cruzados, precisamente, no tenham ajudado os portugueses, tomando portanto  letra o seu desvio, para empregar a palavra que lhe ouvi h pouco, Desculpe, mas no estou a perceber bem a sua ideia,  muito clara, Talvez seja isso mesmo que me impede de perceb-la, Ainda no teve tempo de se habituar a ela, assim de repente  natural que o primeiro movimento seja de rejeio, No se trata de rejeio,  mais como um absurdo que eu a vejo, Pergunto-lhe se conhece absurdo maior que o tal seu desvio, No falemos do meu desvio, Ainda que no falssemos mais dele, ainda que este exemplar levasse, tambm ele, a errata que est em todos os outros, ainda que esta edio fosse inteiramente destruda, mesmo assim, o No que naquele dia escreveu ter sido o acto mais importante da sua vida, Que sabe da minha vida, Nada, a no ser isto, ento no pode ter opinio sobre a importncia do resto,  verdade, mas o que eu disse no se destinava a ser tomado em sentido literal, so expresses enfticas que sempre tm de contar com a inteligncia do interlocutor, Sou pouco inteligente, A est mais uma expresso enftica, a que eu dou o valor que tem realmente, isto , nenhum, Posso fazer-lhe uma pergunta, Faa-a, Sinceramente, est ou no a divertir-se  minha custa, Sinceramente, no estou, Ento porqu este interesse, essa sugesto, esta conversa, Porque no  todos os dias que se encontra algum que tenha feito o que o senhor fez, Estava mentalmente perturbado, Ora, ora, Em definitivo, sem querer ser mal-educado, a sua ideia no tem ps nem cabea, Ento, em definitivo, faa de conta que ela nunca existiu. Raimundo Silva levantou-se, comps a gabardina que no chegara a despir, Se no tem outro assunto para tratar comigo, retiro-me, Leve o seu livro,  exemplar nico. As mos da doutora Maria Sara no tm anis nem aliana. Quanto  blusa, chemisier, ou l como lhe chamam, parece seda, de um tom plido que permanece indefinvel, bege, marfim-velho, branco-manh, ser possvel que as pontas dos dedos vibrem diferentemente segundo as cores que tocam ou afagam, no sabemos.
   A chuva no diminura.  porta do prdio da editora, Raimundo Silva, de mau humor, espreitava o cu por entre os ramos nus das rvores, mas o cu era uma pegada nuvem, sem abertas de azul, e a chuva caa com uma regularidade irritante, nem mais, nem menos. No vamos ter outro dia, murmurou, repetindo um dito antigo de gente habituada a meteorologias prticas, mas no qual se no deve acreditar completamente, porque depois daquele dia outros vieram, e para Raimundo Silva este no  certamente o seu ltimo. Enquanto esperava o improvvel alvio dos meteoros, saam empregados que iam almoar, passava j da uma hora, a conversa fora demorada. Pensou que no gostaria de ver aparecer o Costa, ter de falar-lhe, ter de ouvi-lo, suportar-lhe o olhar recriminatrio, e neste instante descobriu que ainda menos quereria ver outra pessoa, a doutora Maria Sara, que, se calhar, j a vem no elevador, e que, vendo-o parado  porta, pode julgar que ele se deixou ficar de propsito, a pretexto da chuva, para poder prosseguir a conversa noutro ambiente, num restaurante, por exemplo, aonde ele a convidaria, ou hiptese sobre todas aterradora, contando que ela lhe oferea uma boleia, o leve a casa, em atitude humanitria e generosa, vista a chuva que cai incessante, ora essa, no me faz transtorno nenhum, entre, entre, que se est a molhar todo. Claro que Raimundo Silva ignora se a doutora Maria Sara tem automvel, mas as probabilidades de o ter so muitas, o seu ar no engana,  pessoa moderna e despachada, basta observar-lhe os gestos metdicos, medidos, de quem sabe manejar a caixa de velocidades no segundo exacto e se habituou, num relance, a avaliar distncias e espaos de manobra. Ouviu parar o elevador e olhou rapidamente para trs, era mesmo o director literrio que segurava a porta para deixar passar a doutora Maria Sara, vinham falando os dois animadamente, ningum mais no elevador, ento Raimundo Silva meteu o livro entre o casaco e a camisa, foi um reflexo de proteco, e, abrindo de golpe o guarda-chuva, deslizou rente aos prdios, encolhido como um co corrido  pedrada, o seu corpo era isso mesmo, um co que foge, de rabo entre as pernas, Devem ir almoar juntos, pensou. Reteve o pensamento enquanto descia a rua, depois examinou-se a si mesmo para compreender por que razo o tinha pensado, porm s encontrou um muro branco, sem inscries, ele prprio uma interrogao.
   Para chegar a casa utilizou dois autocarros e um elctrico, nenhum deles o deixava  porta, claro est, mas no tinha outra maneira de aproximar-se, txis livres nem um. De todo o modo, a chuva no o poupou, afinal no se fica mais molhado caindo ao mar oceano do que ao rio da nossa aldeia, quer isto dizer que se Raimundo Silva tivesse feito todo o caminho a p no se molharia mais do que j est, um pinto, uma sopa. Durante o trajecto passou por um momento pouco agradvel, ou quase terrvel, se preferirmos dramatizar a situao, quando fantasiou a doutora Maria Sara, no restaurante, a contar ao director literrio a jocosa histria do revisor, Ento eu disse-lhe que escrevesse um livro e ele ficou desconcertado com a ideia, e mais, respondeu-me que a histria do No do Cerco de Lisboa fora consequncia duma perturbao mental, imagine, Esse tipo  cmico, sempre com aquela cara de pau, mas  competente no trabalho, h que reconhec-lo, e o director literrio, tendo cometido, com notvel iseno, este acto de caridade e justia, d o assunto por terminado e passa ao que mais lhe interessa, Oua, Maria Sara, e se ns jantssemos um dia destes, podamos depois ir a qualquer lado, danar, beber um copo. Ao virar duma esquina, um sbito e traioeiro golpe de vento virou o guarda-chuva, toda a gua que do cu tombava caiu na cara de Raimundo Silva, e o vento era ciclone, maelstrm, furaco, foi obra de poucos segundos, mas de agnico desespero, a salvo s o livro, entre casaco e camisa. Sumiu-se o remoinho, voltou a calma, e o guarda-chuva, apesar de levar agora uma vareta estropiada, pde retomar a sua funo,  verdade que mais simblica do que efectiva, No, pensou Raimundo Silva, e ficou-se por esta palavra, portanto no saberemos se foi dela que se serviu a doutora Maria Sara para responder ao invite do director literrio, ou se este homem que vai subindo as Escadinhas de S. Crispim, onde no se v sombra do co vadio, finalmente no acredita que haja no mundo gente de tal modo desapiedada que ouse desfrutar assim de um pobre revisor sem defesa. Sem contar que, possivelmente, a doutora Maria Sara vai almoar a casa.
   Mudada a roupa, posto mais ou menos em seco, Raimundo Silva preparou o almoo, cozeu batatas para compor o prato de conserva de atum por que acabara por decidir-se aps exame das alternativas, escassas, e, adubando esta frugalidade com o costumado prato de sopa, sentiu-se bastante reconfortado e restaurado de energias. Enquanto comia, dera, no seu esprito, por uma curiosa impresso de estranheza, como se, experincia s imaginria, tivesse acabado de chegar de uma larga e demorada viagem por terras distantes e outras civilizaes. Obviamente, em existncia to pouco dada a aventuras qualquer novidade, insignificante para outros, pode fazer figura de revoluo, ainda que, para propor s esse recente exemplo, o seu memorvel atrevimento contra o texto quase sagrado da Histria do Cerco de Lisboa no lhe causara efeito que de longe se parecesse, agora a casa est como se fosse pertena doutra pessoa, e ele um estranho, at o cheiro  outro, e os mveis esto como deslocados ou deformados por uma perspectiva regida por leis diferentes. Preparou um caf muito quente, como era seu hbito, e com o pires e a chvena na mo, sorvendo pequenos goles, visitou a casa para poder senti-la outra vez sua, comeou pelo quarto de banho, onde tinham ficado vestgios da operao de tinturaria a que se sujeitara, no adivinhando que viria a envergonhar-se dela, depois a saleta de estar onde quase nunca se demorava, com a televiso, uma mesa baixa, um div, um pequeno sof e uma estante de portas envidraadas, e logo o escritrio, que lhe restituiu a familiaridade do que foi mil vezes visto e tocado e finalmente o quarto de dormir, a cama de mogno antigo, o guarda-fato da mesma madeira, e a mesa-de-cabeceira, mveis nascidos para maiores paredes e aqui contrafeitos, acanhando o espao. Em cima da cama, para onde o atirara ao entrar, est o livro, o derradeiro iroqus da dizimada tribu, refugiado na Rua do Milagre de Santo Antnio por inexplicvel deferncia da doutora Maria Sara, inexplicvel, diz-se, que no  suficiente ter proposto, Escreva um livro, s por ironia, que uma cumplicidade, pelo que leva de ntimo, no tem sentido aqui, ou ento a doutora quer apenas ver a que ponto  ele capaz de chegar nos caminhos da loucura, uma vez que ele prprio foi quem falou de perturbao mental. Raimundo Silva pousou o pires e a chvena na mesa-de-cabeceira, Quem sabe se no  um sintoma esta impresso de estranheza, como se no fosse a minha casa ou no pertencesse eu a este lugar e a estas coisas, a pergunta ficou em suspenso, sem resposta, como todas as que assim comeam, Quem sabe. Pegou no livro a ilustrao da capa era realmente imitada duma miniatura antiga, francesa ou alem, e nesse instante, apagando tudo, penetrou-o uma sensao de plenitude, de fora, tinha nas mos algo que era exclusivamente seu,  certo que desdenhado pelos outros, mas por essa razo mesma, Quem sabe, ainda mais estimado, afinal este livro no tem mais quem o queira e este homem no tem, para querer, mais que este livro.
   Um tero das nossas curtas vidas passamo-lo a dormir, no h quem o ignore, e tanto que basta ter olhos para a nossa prpria experincia, entre o deitar e o levantar as contas so boas de fazer, descontando as insnias quem delas sofra, e, no geral, o tempo gasto nos exerccios nocturnos da arte amatria, ainda e sempre estimados e praticados s horas ditas mortas, apesar da crescente divulgao dos horrios flexveis que, nesse e em outros particulares, parecem encaminhar-nos finalmente para a realizao dos dourados sonhos da anarquia, isto , aquela idade apetecida em que cada um poder fazer o que lhe der na real gana, sob a nica condio, elementar, de no ferir ou limitar a real gana dos seus prximos. Sim, no h nada mais simples, mas o facto de at hoje no termos conseguido nem sequer identificar com perdurvel certeza os nossos prximos entre a multido dos alheios, vem demonstrar, se era preciso, o que por tradio sabamos, que a dificuldade de realizar o simples sobrepassa em complexidade todos os ofcios e tcnicas, ou, por outras palavras,  menos dificultoso conceber, criar, construir e manipular um crebro electrnico do que encontrar no nosso prprio a simples maneira de ser feliz. Porm, atrs de tempo, tempo vem, dizia o outro, e a esperana  sempre a ltima coisa a perder-se. Infelizmente, ns  que podemos comear a perd-la desde j, porque o tempo que ainda falta para a felicidade universal conta-se por astronmicas medidas, e esta gerao no aspira a viver tanto, alm de ser patente que est desanimando muito.
   To largo rodeio, tornado irresistvel por esse jeito que as palavras tm de puxar umas pelas outras, parecendo que no fazem mais do que seguir o desejo de quem finalmente ter de responder por elas, mas levando-o ao engano, a ponto de deixarem, quantas vezes, a ponta da narrativa abandonada num lugar sem nome e sem histria, o puro discurso sem causa nem objectivo, cuja flutuao precisamente o ir tornar apto a servir como cenrio ou adereo de no importa que drama ou fico, este rodeio, que principiou por indagar sobre horas de sono e viglia para vir a rematar em gasta reflexo sobre a curteza das vidas e a longevidade das esperanas, este rodeio, acabemos, encontrar justificao se, subitamente, nos perguntarmos quantas vezes, ao longo da vida, vai uma pessoa  janela, quantos dias, semanas e meses ali passou, e porqu. Geralmente fazemo-lo para saber como o tempo est, para estudar o cu, para acompanhar as nuvens, para devanear com a lua para responder a quem chamou, para observar a vizinhana, e tambm para ocupar os olhos distraindo-os, enquanto o pensamento acompanha as imagens do seu discorrer, nascidas como nascem as palavras, assim. So relances, so momentos, e longas contemplaes do que no chega a ser olhado, uma parede lisa e cega, uma cidade, o rio cinzento ou a gua que escorre dos beirais.
   Raimundo Silva no abriu a janela, olha por trs das vidraas, e segura nas mos o livro, aberto na pgina falsa, como se diz que  falsa a moeda cunhada por quem para tal no teve legitimidade. A chuva ressoa surdamente no zinco do alpendre, e ele no a ouve, posto o que, diramos ns, buscando comparao apropriada  circunstncia,  como um rumor ainda longnquo de cavalgada, um bater de cascos na terra branda e hmida, um espadanar de guas dos charcos, estranho sucesso este, se no inverno sempre se suspendiam as guerras, que seria dos homens de cavalo, pouco enroupados por baixo das lorigas e cotas de malha, com a chuvinha a meter-se-lhes pelas frinchas, fendas e interstcios, e da tropa de p nem  bom falar, descala na lama ou pouco menos, e com as mos to engadanhadas de frio que mal podem segurar as armas diminutas com que vm a conquistar Lisboa, que lembrana a do rei, vir  guerra com este mau tempo, Mas o cerco foi no vero, murmurou Raimundo Silva. A chuva no alpendre tornara-se audvel apesar de cair com menos fora, o tropear dos cavalos afasta-se, vo recolher a quartis. Num movimento rpido, inesperado em pessoa habitualmente to sbria de gestos, Raimundo Silva abriu de par em par a janela, alguns borrifos salpicaram-lhe a cara, o livro no, porque o protegera, e a mesma impresso de fora plena e desbordante lhe tomou o esprito e o corpo, esta  a cidade que foi cercada, as muralhas descem por ali at ao mar, que sendo to largo o rio bem lhe merece o nome, e depois sobem, empinadas, onde no alcanamos a ver, esta  a moura Lisboa, se no fosse ser pardacento o ar deste dia de inverno distinguiramos melhor os olivais da encosta que desce para o esteiro, e os da outra margem, agora invisveis como se os cobrisse uma nuvem de fumo. Raimundo Silva olhou e tornou a olhar, o universo murmura sob a chuva, meu Deus, que doce e suave tristeza, e que no nos falte nunca, nem mesmo nas horas de alegria.
   

   
   Certos autores, qui por adquirida convico ou compleio espiritual naturalmente pouco afeioada a indagaes pacientes, aborrecem a evidncia de no ser sempre linear e explcita a relao entre o que chamamos causa e o que, por vir depois, chamamos efeito. Alegam esses, e no h que negar-lhes razo, que desde que o mundo  mundo, posto ignoremos quando ele comeou, nunca se viu um efeito que no tivesse sua causa e que toda a causa, seja por predestinao ou simples aco mecnica, ocasionou e ocasionar efeitos, os quais, ponto importante, se produzem instantaneamente, ainda que o trnsito da causa ao efeito tenha escapado  percepo do observador ou s muito tempo depois venha a ser aproximadamente reconstitudo. Indo mais longe, com temerrio risco, sustentam os ditos autores que todas as causas hoje visveis e reconhecveis j produziram os seus efeitos, no tendo ns seno esperar que eles se manifestem, e tambm, que todos os efeitos, manifestados ou por manifestar, tm suas inelutveis causalidades, embora as mltiplas insuficincias de que padecemos nos tenham impedido de identific-las em termos de com eles fazer a respectiva relao, nem sempre linear, nem sempre explcita, como comeou por ser dito. Falando agora como toda a gente, e antes que to trabalhosos raciocnios nos empurrem para problemas mais rduos, como a prova pela contingncia do mundo de Leibniz ou a prova cosmolgica de Kant, com o que em cheio nos encontraramos a perguntar a Deus se existe realmente ou se tem andado a confundir-nos com vaguidades indignas de um ser superior que tudo deveria fazer e dizer muito pelo claro, o que esses autores proclamam  que no vale a pena preocuparmo-nos com o dia de amanh, porque duma certa maneira, ou de maneira certa, tudo quanto vier a acontecer aconteceu j, contradio apenas aparente como ficou demonstrado, pois se no se pode fazer voltar a pedra  mo que a lanou, to-pouco escaparemos ns ao golpe e ao ferimento se foi boa a pontaria e por desateno ou inadvertncia do perigo no nos desvimos a tempo. Enfim viver no  apenas difcil,  quase impossvel, mormente naqueles casos em que, no estando a causa  vista, nos esteja interpelando o efeito, se ainda esse nome lhe basta, reclamando que o expliquemos em seus fundamentos e origens, e tambm como causa que por sua vez j comeou a ser, porquanto, como ningum ignora, em toda esta contradana, a ns  que compete encontrar sentidos e definies, quando o que nos apeteceria seria fechar sossegadamente os olhos e deixar correr um mundo que muito mais nos vem governando do que se deixa, ele, governar. Se tal sucede, isto , se diante dos olhos temos o que, por todos os sinais e apresentao, tem visos de efeito, e dele no percebemos uma causa imediata ou prxima, o remdio estar em contemporizar, em dar tempo ao tempo, j que a espcie humana, sobre a qual, lembremo-lo, embora parea vir a despropsito, no se conhece outra opinio do que a que ela tem de si prpria, est destinada a esperar infinitamente os efeitos e a buscar infinitamente as causas, pelo menos  o que, at hoje, infinitamente tem feito.
   Esta concluso, que tem tanto de suspensiva como de providencial, permite-nos, por hbil mudana do plano narrativo, regressar ao revisor Raimundo Silva no momento preciso em que est executando um acto de cujos motivos no pudemos inteirar-nos, entretidos como estvamos no enxundioso exame geral das causas e dos efeitos, afortunadamente interrompido quando ameaava resvalar para ontolgicas e paralisantes angstias. Esse acto , como todos, um efeito, mas a sua causa, quem sabe se obscura para o prprio Raimundo Silva, parece-nos impenetrvel, pois no se compreende, tendo em conta os dados conhecidos, por que est este homem a despejar no lava-louas , da cozinha a benemrita loo restauradora com que tinha vindo a mitigar os estragos do tempo. De facto, faltando a explicao que s o prprio pertinentemente poderia dar e no querendo ns arriscar suposies e hipteses, que no passariam de mal acautelados juzos temerrios, torna-se impossvel estabelecer aquela desejada e tranquilizadora relao directa que faria de qualquer humana vida um encadeamento irresistvel de factos lgicos, todos perfeitamente travejados, com seus pontos de apoio e calculadas flechas. Contentemo-nos, portanto, ao menos por agora, com saber que Raimundo Silva, na manh seguinte  sua ida  editora, e aps uma noite de inconcilivel espertina, entrou no escritrio, agarrou no escondido frasco de tinta do cabelo e, depois de um brevssimo instante, lugar para a ltima hesitao, verteu-o inteiro no lava-louas, fazendo em seguida correr guas abundantes que em menos de um minuto fizeram desaparecer da face da terra, literalmente, o artificioso lquido malamente denominado Fonte de Juventa.
   Cometido este gesto notvel, os passos seguintes repetiram a rotina habitual, pela ltima vez referida aqui, salvo ocorrendo variantes significativas, e que foi barbear-se, banhar-se, alimentar-se, e depois abrir a janela para arejar a casa at aos seus recessos profundos, a cama, por exemplo, com os lenis plenamente expostos e j frios, sem vestgios da inquieta insnia, menos ainda dos sonhos que o exausto sono acabou por trazer, fragmentos s, imagens insensatas aonde a luz no chega, indevassveis at para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves, se assim fosse acabava-se uma das boas coisas que o mundo ainda tem, a privacidade, o mistrio das personagens. O tempo continua chuvoso, porm no to diluvianamente como ontem, a temperatura parece ter descido, feche-se pois a janela, tanto mais que a atmosfera da casa j se purificou com o sopro revigorante que vinha do lado da barra. So horas de trabalhar.
   A Histria do Cerco de Lisboa est sobre a mesa-de-cabeceira. Raimundo Silva segurou o livro deixou que ele se abrisse por si prprio, as pginas so as que sabemos, no haver outra leitura. Foi sentar-se  secretria, onde o est esperando o inacabado livro de poemas, inacabada a reviso dele, quer dizer, e tambm, lido s at um tero, corrigidas algumas faltas de concordncia, propostas algumas aclaraes, e at, discretamente, emendados certos erros de ortografia, o romance que veio por mo do Costa e no tinha urgncia. Raimundo Silva afastou para um lado as obrigaes do dever, e, com a Histria do Cerco de Lisboa dia e de si, descansou a testa nos dedos dispostos em arco, olhando fixamente o livro, mas logo sem o ver, como se percebia pela expresso de ausncia que pouco a pouco se lhe alastrava pelo rosto. A Histria do Cerco de Lisboa no tardou a ir fazer companhia ao romance e ao livro de poesia o tampo da secretria  uma superfcie lisa, limpa, uma tbua rasa, para falar com plena propriedade de linguagem, o revisor ficou assim durante longos minutos, ouve-se o rumor vago da chuva l fora, nada mais, a cidade  como se no existisse. Ento Raimundo Silva puxou uma folha de papel branco, tambm ela lisa, limpa, tambm ela uma tbua rasa, e , ao alto, com a sua clara e cuidada caligrafia de revisor, escreveu Histria do Cerco de Lisboa. Sublinhou duas vezes, retocou uma e outra letra, e no instante seguinte a folha estava rasgada, rasgada quatro vezes, que menos do que isto no  inutilizao suficiente e mais do que isso entende-se como precauo manaca. Colocou outra folha de papel, mas no para escrever nela, porquanto a disps rigorosamente de modo a ficarem paralelos os seus quatro lados com os quatro lados da secretria, teria de torcer o corpo todo, o que ele quer  algo a que possa perguntar, Que vou eu escrever, e depois esperar uma resposta, esperar at se lhe confundirem os olhos e no ver mais a branca, estril superfcie, mas uma confuso de palavras surdindo da profundidade como corpos afogados que logo tornam a afundar-se, no tinham visto bastante do mundo, vieram s para isso, no voltam mais.
   Que vou eu escrever, no  a nica pergunta, uma outra logo lhe ocorreu, tambm ela imperiosa, e to imediata de urgncias que se tornaria quase irresistvel tom-la como efeito reflexo instantneo, porm determina a prudncia que no regressemos ao debate em que nos perdemos anteriormente, e que de mais exigiria, para que no recassemos outra vez em confuses conceptuais, a distino entre relaes ntimas e essenciais e relaes acidentais, isto pelo mnimo, o que finalmente importar ao caso  saber que Raimundo Silva, depois de ter perguntado, Que vou eu escrever, perguntou, Por onde devo comear. Dir-se-ia ser a primeira pergunta a mais importante das duas, porquanto ela  que vai decidir sobre os objectivos e as lies do futuro escrito, mas, no podendo e no querendo Raimundo Silva remontar tanto que acabasse por ter de redigir uma Histria de Portugal, felizmente curta por h to poucos anos ter comeado e por to  vista estar o seu limite prximo, que , como est dito, o Cerco de Lisboa, e carecendo de suficiente enquadramento narrativo um relato que principiasse apenas no momento em que os cruzados responderam, Negativo, ao pedido do rei, ento a segunda pergunta perfila-se como uma referncia factual e cronolgica incontornvel, o que equivale a perguntar, usando palavras do povo comum, Por que ponta vou eu pegar nisto.
   Parece, portanto, necessrio recuar um pouco, por exemplo, comear pelo discurso de D. Afonso Henriques, o que, alis, permitiria uma nova reflexo sobre o estilo e as palavras do orador, se no mesmo inveno de um outro discurso, mais de acordo com o tempo, a pessoa e o lugar, ou, simplesmente, a lgica da situao, e que, por sua substncia e particularidades, pudesse justificar a fatal recusa dos cruzados. Ora, aqui levanta-se uma questo prvia, convm a saber, quem foram naquele passo os interlocutores do rei, para quem falava ele, que gente tinha diante de si quando fez a sua prtica. Felizmente, no se trata de nenhum impossvel, basta ir a fonte limpa, aos cronistas,  prpria Histria do Cerco de Lisboa, esta que Raimundo Silva tem sobre a sua secretria,  muito explcita, no h mais que folhear, procurar, encontrar, a informao  de boa origem, diz-se que directamente do clebre Osberno, e assim podemos ficar a saber que estava o conde Arnoldo de Aarschot, o qual comandava os guerreiros vindos de diversas partes do imprio germnico, que estava Cristiano de Gistell, chefe dos flamengos e bolonhenses, e que a terceira parte dos cruzados era governada por quatro condestveis, eram eles Herveu de Glanvill com o pessoal de Norfolk e Suffolk, Simo de Dover com os navios de Kent, Andr com os londrinos, e Sahrio de Archelles com o resto. Sem comando principal, mas dotados de autoridade, fora militar e influncia poltica para influrem nas discusses, haveremos de mencionar tambm ao normando Guilherme Vitulo e a um seu irmo, chamado Rodolfo, ambos pouco bons de assoar.
   Porm, o mal das fontes, ainda que verazes de inteno, est na impreciso dos dados, na propagao alucinada das notcias, agora nos referamos a uma espcie de faculdade interna de germinao contraditria que opera no interior dos factos ou da verso que deles se oferece, prope ou vende, e, decorrente desta como que multiplicao de esporos, d-se a proliferao das prprias fontes segundas e terceiras, as que copiaram, as que o fizeram mal, as que repetiram por ouvir dizer, as que alteraram de boa-f, as que de m-f alteraram, as que interpretaram, as que rectificaram, as que tanto lhes fazia, e tambm as que se proclamaram nica, eterna e insubstituvel verdade, suspeitas, estas, acima de todas as outras. Tudo, naturalmente, depende da maior ou menor quantidade de documentos a compulsar, de mais ou menos ateno que se preste  enfadonha tarefa, mas, para que possamos fazer uma ideia moderna da natureza do problema em causa basta que fantasiemos, nestes dias de agora em que Raimundo Silva est vivendo, que ele ou outro de ns precisaramos de apurar uma qualquer verdade repetida, e em sua mesma repetio variada, nas notcias dos jornais, e ainda assim  o pas pequeno e a populao no extremadamente dada s letras, no mais do que enunciar os ttulos deles j  causa de mareio mental, pela abundncia, claro est, pela abundncia, o Dirio de Notcias, o Correio da Manh, o Sculo, a Capital, o Dia, o Dirio de Lisboa, o Dirio Popular, o Dirio, o Comrcio do Porto, o Jornal de Notcias, o Europeu, o Primeiro de Janeiro, o Dirio de Coimbra, e isto para s falar dos quotidianos, porque depois, glosando, resumindo, comentando, prevendo, anunciando, imaginando, temos os hebdomadrios e as revistas, o Expresso, o jornal, o Semanrio, o Tempo, o Diabo, o Independente, o Sbado, e o Avante, e o Aco Socialista, e o Povo Livre, e decididamente no chegaramos ao fim se, alm do que de principal falte, ou influente, inclussemos no rol quanto jornal e folha se publicam por essa provncia fora, que tambm ela tem direito  vida e  opinio.
   Felizmente para o revisor, so muito outras as suas preocupaes, a ele o que lhe interessa  saber quem eram os estrangeiros que naqueles ardentes dias de vero estiveram  conversa com o nosso rei Afonso Henriques, parecia que tudo tinha ficado esclarecido pela consulta  Histria do Cerco de Lisboa, na falta do que se diz ser de Osberno e dessas semelhantes antiguidades que foram, para esta e restantes matrias, Arnulfo e Dodequino, e tambm, lateralmente, a narrao do Indiculum Fundationis Monasterii Sancti Vincentii, mas no senhor, no est nada explicado, pois que, por exemplo, na Crnica dos Cinco Reis de Portugal, que certamente teve as suas razes para dizer o que apenas diz, s vezes se tira, s vezes se acrescenta, no se mencionam, de estrangeiros importantes, outros que Guilho da Longa Seta, Gil do Rolim, e mais um Dom Gil de que no ficou registado o apelido, repare-se que no est nenhum dos mencionados na Histria do Cerco de Lisboa, tributria da suposta osbrnica fonte, em casos assim opta-se geralmente pelo documento mais antigo por estar mais perto do evento, mas no sabemos o que far Raimundo Silva, a quem, de manifesto, est agradando o bom travo medieval do nome de Guilho de Longa Seta, personagem s por isso fadada para as mais estupendas cavalarias. Um recurso  buscar desempate em obra de maior porte, como seria, neste caso, a Crnica do Prprio D. Afonso Henriques, de Frei Antnio Brando, porm, e desgraadamente, no vir ela desenredar a meada, ou mais ns lhe dar ainda, chamando ao Guilho da Longa Seta Guilherme da Longa Espada, e introduzindo, segundo a lio de Setho Calvisio, um Eurico rei de Damia, um bispo bremense, um duque de Borgonha, um Teodorico conde de Flandres, e tambm, com aceitvel verosimilhana, o j citado Gil de Rolim, igualmente chamado Childe Rolim, e Dom Lichertes, e Dom Ligel, e os irmos Dom Guilherme e Dom Roberte de La Corni, e Dom Jordo, e Dom Alardo, uns franceses, outros flamengos, outros normandos, outros ingleses, ainda que seja duvidoso, em alguns casos, que assim de nao se identificassem quando perguntados, considerando que naquele tempo, e por muito tempo mais, um homem, fosse ele fidalgo ou plebeu, ou no sabia de que terra era ou ainda no tinha tomado a deciso final.
   Porm, tendo reflectido sobre estas discrepncias, concluiu Raimundo Silva que o apuramento duma verdade pouco adiantaria ao caso, porquanto, destes e os outros cruzados, nobres de primeira ou viles da derradeira, no se ouvir mais falar, to-logo faa el-rei o discurso, pois a tal est obrigando a nega que se encontra exarada neste nico exemplar da Histria do Cerco de Lisboa, com todas as consequncias. Mas, no tratando ns de gente leviana de entendimentos, de mais com a ajuda da multido de clrigos que vm de intrprete e guio das almas, para a recusa de ajudar os portugueses no cerco e tomada de Lisboa h-de ter havido um motivo forte, ou no se teriam alguns centos de homens dado j ao trabalho de desembarcar, enquanto para cima de doze mil ainda esperam nos barcos ordem de descer a terra com armas, arcas e mochilas, incluindo os femininos acompanhamentos vindos nas naves, de que um guerreiro em caso algum deve ser privado, mesmo andando em lutas espirituais, seno como se repousaria e consolaria o carecido corpo. Que motivo tenha sido o tal, eis pois o que  hora de averiguar, por mor das credibilidades e verosimilhana do novo relato, por enquanto escassas.
   Vamos a ver. Uma primeira hiptese poderia ser o clima mas essa imediatamente cai pela base, no se sustenta, pois  por de mais sabido que os estrangeiros, sem excepo, adoram este rico sol, estas brisas suaves, este cu de incomparvel azul, basta reparar que estamos em fins de junho, ontem foi o dia de S. Pedro, e eram cidade e rio uma glria s, duvidando-se em todo o caso se sob o olhar do Deus dos cristos ou do Al dos mouros, se  que no estariam juntos a gozar do espectculo e a combinar apostas. Segunda hiptese poderia ser, por exemplo, uma aridez da terra, uma secura dos lugares, uma desolao dos horizontes, mas disparate assim apenas poderia conceb-lo a cabea de quem Lisboa e o seu termo no conhecesse, um vergel de regalar-se qualquer alma de bem, vejam-se todas essas hortas que se estendem pelas margens do rebrilhante esteiro que avana terra dentro, nesta Baixa regaada entre a colina onde se ala a cidade e a outra, fronteira, do lado do poente, manifestao perfeita de que para as hortalias em geral no h melhores mos do que as dos mouros. Terceira hiptese, e final, para resumir, seria grassar por c uma fatal pestelena, como as que de tempos a tempos varrem de morte estes povos de Europa e adjacentes, sem excepo dos cruzados, que por alguns simples casos endmicos no seria caso de assustar-se homem, uma pessoa acostuma-se a tudo,  como viver inquieto agarrado s fraldas dum vulco, enfim, so despropositadas comparaes, que esta terra  sim de terramotos, sab-lo-emos melhor daqui por seiscentos anos e picos. Trs hipteses a ficam, e nenhuma sequer plausvel. Posto o que, por muito que nos custe aceit-lo, a razo, a causa, a origem, o motivo, o porqu tm de ser procurados, e qui encontrados, no discurso do rei. A, e s a.
   Ir pois Raimundo Silva voltar atrs no livro, retomar a j comentada arenga para l-la nas entretelas, limp-la de excrescncias, adornos e proliferaes at a deixar reduzida ao tronco e s pernadas principais, e ento, por um salto acrobtico, por um esforo de identificao com a mentalidade de gente com tais nomes, origens e atributos, sentir manifestar-se em si prprio uma clera, uma indignao, um desagrado que o levassem a dizer, terminante, Senhor rei, ns aqui no ficamos, apesar deste bom sol que c tm, destas veigas fertilssimas, destes lavados ares, deste rio to formoso onde saltam as sardinhas, quede-se vossa merc e que lhe faa bom proveito, adeus. A Raimundo Silva, lendo e tornando a ler, pareceu que o buslis da questo poderia estar naquele troo de frase em que D. Afonso Henriques, lngua, como j observmos, duma fala que no era exclusivamente sua, tenta convencer os cruzados a fazerem a operao pelo mais barato, ao dizer, supe-se que com expresso inocente, Duma coisa, porm, estamos certos, e  que a vossa piedade vos convidar mais a este trabalho e ao desejo de realizar to grande feito, do que vos h-de atrair  recompensa a promessa do nosso dinheiro. Isto ouvi, eu, cruzado Raimundo Silva, ouviram os meus ouvidos, e assombrado fiquei de que rei to cristo no tivesse aprendido a divina palavra, aquela que por seu mesmo ofcio dele deveria ter-se tornado indeclinvel princpio poltico, Dai a Deus o que  de Deus e a Csar o que  de Csar, que, aplicada ao conto, significa que no tem o rei de Portugal de misturar alhos com bugalhos, uma coisa ser ajudar eu a Deus, outra coisa  pagarem-me bem na terra por esse e todos os demais servios, sobretudo havendo risco de deixar a pele na empresa, e no apenas a pele, como tudo o que ela leva dentro. Claro que h contradio evidente entre esta passagem do discurso real e aquela outra, logo antes, quando ele afirma que considera sujeito ao vosso domnio, dos cruzados, entenda-se, tudo o que a nossa terra possui, mas no  de excluir a probabilidade de se tratar duma frmula de cortesia usada no tempo, que qualquer pessoa bem-educada no ousaria tomar  letra, como hoje quando dizemos a algum que acabmos de conhecer, Estou inteiramente ao seu dispor, imagine-se se nos pegavam na palavra e de ns faziam pau-mandado.
   Raimundo Silva levantou-se da secretria, passeia no pequeno espao livre do escritrio, vem ao corredor para desafogar-se mais ligeiramente da tenso de nova espcie que o est tomando, e em voz alta pensa, O problema no  este, ainda que tivesse sido tal a causa do diferendo entre os cruzados e o rei,  realmente o mais provvel, que todo aquele conflito, insultos, desconfianas, ajudamos, no ajudamos, tivesse como raiz a questo do pagamento dos servios, o rei a querer poupar, os cruzados a quererem sacar mas o problema que eu tenho de resolver  outro, quando escrevi No os cruzados foram-se embora, por isso no me adianta nada procurar resposta ao Porqu na histria a que chamam verdadeira, tenho de invent-la eu prprio, outra para poder ser falsa, e falsa para poder ser outra. Cansou-se de percorrer o corredor, voltou ao escritrio, mas no se sentou, olhou com nervosa irritao as poucas linhas que haviam restado do destroo, seis folhas, umas aps outras, tinham sido rasgadas, e as emendas, as emendas como cicatrizes por fechar. Percebia que enquanto no resolvesse a dificuldade no seria capaz de avanar, e surpreendia-se, acostumado como estava a que nos livros tudo parecesse correntio, espontneo, quase necessrio, no porque efectivamente o fosse, mas porque qualquer escrita, boa ou m, sempre acaba por apresentar-se como uma cristalizao pre-determinada, ainda que no se saiba como nem quando nem porqu nem por quem, surpreendia-se, dizamos, porque a ele no lhe ocorria aquela que seria simplesmente a ideia seguinte, a ideia que naturalmente deveria ter nascido da ideia anterior, e, pelo contrrio, se lhe estava recusando, ou nem isso, apenas no estava l, no existia, sequer como probabilidade. A stima folha foi tambm rasgada, a secretria tornou a ficar limpa, lisa, tbua duas vezes rasa, um deserto, nenhuma ideia. Raimundo Silva puxou para si as provas do livro de poesia, pairou ainda durante alguns minutos entre aquele nada e este alguma coisa, depois, aos poucos fixou a ateno no trabalho, o tempo passou, antes do almoo as provas estavam revistas e relidas, prontas para a editora. Durante toda a manh o telefone no tocara, o carteiro a esta casa vem raramente, o sossego da rua s de longe em longe foi perturbado pelo passar cautelos de um automvel, os autocarros de turistas no entram aqui, do a volta para o Largo dos Lios, e com a chuva que tem cado devem ter sido poucos os que se aventuraram to alto para no verem mais do que horizontes tapados. Raimundo Silva levantou-se, so horas de comer, mas antes foi  janela do quarto, afinal o cu escampou, j no chove, e entre as nuvens rpidas aparecem e desaparecem pedaos de cu azul, to vivo como devia ter estado naquele dia, apesar da diferena das estaes. Num momento, no apeteceu a Raimundo Silva entrar na cozinha, aquecer o sempiterno prato de sopa, pesquisar no meio das latas de atum e de sardinha ousar a manipulao duma frigideira ou dum tacho, e no porque se lhe tivesse despertado a vontade de comer para gastronomias mais elaboradas, foi s, por assim dizer, um caso de fastio mental. Mas to-pouco queria ir  procura de um restaurante. Olhar a ementa, escolher entre o prato e o preo, permanecer sentado entre as pessoas, manejar a faca e o garfo, todos estes actos, to simples, to quotidianos, lhe pareceram insuportveis. Lembrou-se de ir perto,  Leitaria A Graciosa, servem ali umas tostas mistas, aceitveis mesmo por paladares mais exigentes do que o seu, e com um copo de vinho a acompanhar, um caf para remate, certamente o estmago se daria por satisfeito.
   Decidiu-se e saiu. A gabardina ainda estava hmida da grande molha da vspera, vesti-la causou-lhe arrepios, como se estivesse a enfiar-se na pele dum animal morto, sobretudo incomodavam-no os punhos e a gola, devia era ter um agasalho sobressalente para ocasies como esta, no  um luxo,  uma
   necessidade, ento quis recordar-se de como estava vestida, se de casaco comprido, se de gabardina, a doutora Maria Sara quando vinha a sair do elevador com o director literrio, e no conseguiu, claro que no podia ter reparado, se no mesmo instante fugira. No era esta a primeira vez que pensara na doutora Maria Sara durante a manh inteira, mas antes ela comportara-se como uma espcie de vigilante, sentada num qualquer lugar do seu pensamento, a observ-lo. Agora era algum que se movia, que saa de um elevador conversando por baixo da gabardina ou do casaco tinha uma saia de tecido grosso e cingido, e uma blusa, ou um chemisier, pouco importa o nome, to francesa  uma palavra como a outra, de uma cor indefinvel, no, indefinvel no, porque Raimundo Silva j lhe encontrou o tom exacto, branco-manh, que no existe na natureza verdadeiramente, to diferentes entre si so as manhs iguais, mas que qualquer pessoa, querendo-o, pode inventar para seu prprio uso e gosto, at o almuadem cego, se cego no veio da barriga da sua me moura.
   Na Leitaria A Graciosa no serviam vinho a copo. Raimundo Silva teve de empurrar as tostas com uma cerveja, pouco agradvel neste tempo frio, mas que, remotamente acabava por produzir no corpo efeito semelhante, uma confortvel lassido interna. Um homem idoso, de cabelos todos brancos, com ar de reformado, lia o jornal numa mesa prxima. No tinha pressa, almoara certamente em casa e viera instalar-se aqui para beber um caf e ler o peridico que o proprietrio da leitaria, ainda conforme com uma antiga tradio lisboeta, punha ao servio dos fregueses. Mas o que atraa a ateno de Raimundo Silva para ele eram os cabelos brancos, que nome haveria de dar a este tom de branco, poderia dizer, por anttese, branco-crepsculo, o da tarde, claro, tendo em conta a avanada idade do sujeito, mas a obviedade seria excessiva, inventar est muito bem, mas que seja alguma coisa que merea a pena. Deve-se, no entanto acrescentar que a preocupao de Raimundo Silva no era exclusivamente de ordem cromtica, o que sim o estava fascinando era a sbita ideia de que, afinal, no sabia quantos cabelos brancos ele prprio realmente teria, se muitos se muitssimos, h mais de dez que comeara a pint-los, perseguindo-os com fero encarniamento, como se para essa nica batalha tivesse nascido. Desconcertado, estupefacto, deu por si a desejar absurdamente que o tempo passasse depressa para poder conhecer a sua verdadeira cara, a que surgiria como um recm-chegado que lentamente se acercasse, por baixo de cabelos que primeiro seriam grotescos fios de duas cores, a falsa cada vez mais deslavada e breve, a outra, autntica desde a raiz, inexoravelmente avanando. Enfim, pensou Raimundo Silva, bem podemos dizer que  para o branco que vai o tempo, e, imaginando viu o mundo nos seus derradeiros dias, extinguida a mais, pelo vento, vida, como uma enorme cabea branca varrida era s o que l havia, vento e brancura. O reformado tomou um gole de caf, sorvendo com rudo, e logo metade do clice de bagao que tinha diante de si, fez Aaah, e continuou a ler. Raimundo Silva sentiu uma irritao surda contra o homem, uma espcie de inveja, de qu, talvez do que parecia ser uma tranquilidade total, uma crdula confiana a estabilidade do universo,  verdade que o conforto que o bagao d  infinitamente superior ao que pode proporcionar uma cerveja, e, veja-se na prtica, como o bagao  perfeito no seu gnero at  ltima gota, e este resto de cerveja est a morrer no fundo da caneca, no tem outro destino que a pia dos despejos, como uma gua apodrecida. Pediu um caf, rpido, No, no quero digestivo,  o nome que o povo dos restaurantes d  tribu dos bagaos, brandes e aguardentes, e no falta quem jure pelas estomacais virtudes da medicina, o reformado bebeu de um trago o que ficara no clice, Aaaaah, e, batendo com a ponta do dedo indicador na borda do copo, fez sinal ao empregado para que enchesse outra vez. Raimundo Silva pagou a conta e saiu, notando,  passagem, que no cabelo do homem havia estreitas madeixas amareladas, talvez um resto de pintura, talvez o definitivo sinal da velhice, como no marfim antigo, que escurece e comea a rachar-se.
   H meses que Raimundo Silva no entra no castelo, mas agora vai l, acabou de o decidir, embora pense que, finalmente, para isso  que saiu de casa, ou ento no lhe teria ocorrido to naturalmente a ideia, o seu esprito, faamos de conta, criou-lhe um sentimento de repugnncia, de invencvel resistncia  necessidade de ter de entrar na cozinha, mas f-lo para melhor o levar ao engano, temeu que  sugesto, Vamos ao castelo, ele respondesse de mau modo, Fazer o qu, e precisamente isso era o que o esprito, ou no sabia, ou no podia confessar. O vento sopra em rajadas violentas, os cabelos do revisor agitam-se num remoinho, as abas da gabardina estalam como lenis molhados.  um disparate vir ao castelo com um tempo assim, subir s torres desabrigadas, pode mesmo cair duma daquelas escadas sem corrimo, a vantagem  no haver ningum, pode-se desfrutar do stio sem testemunhas, ver a cidade, Raimundo Silva quer ver a cidade, ainda no sabe para qu. A grande esplanada est deserta, o cho alagado de poas de gua que o vento empurra em minsculas ondas, e as rvores rangem aos saces da ventania, isto  quase um ciclone, autorize-se o exagero da expresso em cidade que no ano de mil novecentos e quarenta e um sofreu os ainda assim modestos efeitos de um rabo de tufo e ainda hoje fala disso para queixar-se dos prejuzos como daqui por cem anos ainda se queixar de lhe ter ardido o Chiado. Raimundo Silva aproxima-se do muro, olha para baixo e ao longe, os telhados, as regies superiores das fachadas e das empenas,  esquerda o rio sujo de barro, o arco triunfal da Rua Augusta, a confuso das ruas quadriculadas, um ou outro canto duma praa, as runas do Carmo, as outras que ficaram do incndio. No fica ali muito tempo, e no  por incomod-lo demasiado o vento, obscuramente sabe que este seu inslito passeio tem um fito, no veio aqui para contemplar as torres das Amoreiras, j foi pesadelo suficiente terem-lhe aparecido em sonho. Entrou no castelo, de cada vez surpreende-o que seja to pequeno, uma coisa que parece de brincar, um outro legos ou meccano. Os muros altos reduzem o mpeto maior da ventania, dividem-na em mltiplas e contrrias correntes que se engolfam pelos arcos e passagens. Raimundo Silva conhece os caminhos, vai subir a muralha do lado de S. Vicente ver da a disposio dos terrenos. E l est, o cabeo da Graa, enfrentando-se com a torre mais alta, e o rebaixo para o Campo de Santa Clara, onde assentou arraiais D. Afonso Henriques com os seus soldados, que nossos foram, primeiros pais da nacionalidade, pois Que os antepassados deles, por terem nascido cedo de mais, portugueses no tinham podido ser. Este  um ponto de genealogia que em geral no merece considerao, averiguar o que, no tendo nenhuma importncia, deu vida, lugar e ocasio  importncia que passou a ter o que dizemos ser importante.
   No foi ali o encontro dos cruzados com o rei, ter sido l em baixo, na outra margem do esteiro, mas o que Raimundo Silva procura, se a expresso tem sentido,  uma impresso de tangibilidade visual, algo que no saberia definir, que, por exemplo, podia ter feito dele agora mesmo um ' soldado mouro a olhar os vultos dos inimigos e o rebrilhar das espadas, mas que, neste caso, por um escondido caminho mental, espera receber, em demonstrativa evidncia, o dado que ao relato falta, isto , a causa indiscutvel de terem-se ido embora os cruzados depois do seu rotundo No. O vento puxa e repuxa Raimundo Silva, obriga-o a segurar-se aos merles para manter o equilbrio. Num momento o revisor experimenta uma sensao forte de ridculo, tem a conscincia da sua postura cnica, melhor dizendo, cinematogrfica, a gabardina  manto medieval, os cabelos soltos plumas, e o vento no  vento, mas sim corrente de ar produzida por uma mquina. E  nesse preciso instante, quando duma certa maneira se tornou infenso e inocente pela ironia contra si prprio dirigida, que no seu esprito surgiu, finalmente claro e tambm ele irnico, o motivo to procurado, a razo do No, a justificao ltima e irrefutvel do seu atentado contra as histricas verdades. Agora Raimundo Silva sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar a casa para escrever a Histria do Cerco de Lisboa.
   

   
   Diz a Histria do Cerco de Lisboa, a outra, que foi o alvoroo extremo entre os cruzados quando houve notcia de que vinha a o rei de Portugal para dar a conhecer as propostas com que pretendia atrair  empresa os esforados combatentes que  Terra Santa tinham apontado seus desgnios resgatadores. E diz tambm, fundamentando-se na providencial fonte osbrnica, porm de Osberno no, que quase todo aquele pessoal, ricos e pobres, assim o refere explicitamente, ouvindo que se aproximava D. Afonso Henriques, lhe foram ao encontro festivamente, entende-se que sim, ou melhor seria ento que se deixassem ficar  espera, sem mais, e que tal  o que acontece sempre em ajuntamentos desses, isto , que no resto da Europa, quando vem rei, tambm todos acodem a encurtar-lhe o caminho, a receb-lo com palmas e vivas. Por sorte, prestamente esta explicao nos foi dada, morigeradora das vaidades nacionais no fssemos ns imaginar, ingenuamente, que os europeus daquele tempo, como os de agora, j se deixavam desabaladamente mover e comover por um rei portugus, ainda por cima de to fresca data, estar vindo a no seu cavalo com uma tropa de galegos como ele, uns fidalgos, outros eclesisticos, todos rsticos e pouco instrudos. Ficmos pois sabendo que a instituio real ainda tinha ento, geralmente, prestgios bastantes para fazer descer as pessoas  estrada, dizendo umas contra as outras, Vamos ver o rei, vamos ver o rei, e o rei  este homem barbado, cheirando a suor, de armas sujas, e os cavalos no passam de azmolas peludas, sem raa, que  batalha vo mais para morrer do que para volteios de alta escola, porm, apesar de tudo ser afinal to pouco, no se deve perder a oportunidade, porque um rei que vem e que vai nunca se sabe se volta.
   Vinha a pois D. Afonso Henriques, e os chefes dos cruzados, de quem foi feita j meno completa, ressalvada a insuficincia das fontes, esperavam-no postos em linha com alguma da sua gente, porquanto o mais do exrcito continuava na frota  espera de que os senhores decidissem do destino que todos iriam ter, sem excluso do seu prprio. Ao rei acompanhavam-no o arcebispo de Braga, D. Joo Peculiar, o bispo do Porto, D. Pedro Pites, famosas lnguas para o latim, e uma quantidade cabal de gente para formar, sem desdouro, o real squito, e eram esses, Ferno Mendes, Ferno Cativo, Gonalo Rodrigues, Martim Moniz, Paio Delgado, Pro Viegas, tambm chamado Pro Paz, Gocelino de Sousa, outro Gocelino, mas Sotero, ou Soeiro, Mendo Afonso de Refoios, Mcio de Lamego, Pedro Pelgio, ou Pais da Maia, Joo Rainho, ou Ranha, e outros de que no ficou registo, mas estavam l. Chegaram-se as partes  fala e, feitas as apresentaes, que tomaram seu tempo, pois alm do nome e dos apelidos se enunciavam os atributos de senhorio, anunciou o bispo do Porto que o rei ia discursar, e que seria ele o seu fiel intrprete, como tal ajuramentado  face das leis, a humana e a divina. Entretanto j tinham todos os de cavalo descido das mulas, o rei subira a uma pedra para estar sobranceiro, da qual, alis, podia gozar uma vista magnfica por cima das cabeas dos cruzados, o esteiro em todo o seu comprimento, as hortas abandonadas depois da assolao cometida pelos portugueses que nos dois dias anteriores tinham feito geral razia nas verduras e nas frutas. L no alto o castelo, onde se distinguiam minsculas figuras nas ameias, e, descendo, a muralha da cidade, com as suas duas portas deste lado, a de Alfofa e a de Ferro, fechadas e trancadas por trs delas pressentia-se a inquietao da gente moura ; murmurando, por ora ainda em segurana, sobre o que tudo " aquilo iria dar, o rio coalhado de barcos, e o ajuntamento na colina fronteira, viam-se os pendes e as flmulas ondeando ao vento, bonito espectculo, alguns lumes ardendo, no se sabe para qu, pois o tempo est quente e no  hora de comer, o almuadem ouve as explicaes que lhe est dando um sobrinho e pe-se a temer o pior, maneira de dizer que o mau ainda seria mais ou menos suportvel. Alou ento o rei a poderosa voz, Ns c, embora vivamos neste cu do mundo, temos ouvido grandes louvores a vosso respeito, que sois homens de muita fora e destros nas armas o mais que se pode ser, e no duvidamos, basta pr os olhos nas robustas compleies que ostentais, e quanto ao talento para a guerra fiamo-nos no rol dos vossos feitos, tanto no religioso como no profano. Ns c, apesar das dificuldades, que tanto nos vm do ingrato solo como das vrias imprevidncias de que padece o esprito portugus em formao, vamos fazendo o possvel, nem sempre sardinha nem sempre galinha, ainda por cima tivemos a pouca sorte de nos terem cabido estes mouros, gente de escassa riqueza, se vamos a comparar com Granada e Sevilha, por isso mais vale tir-los daqui duma vez para sempre, e neste ponto  que se levanta uma questo, um problema, que passo a submeter ao vosso critrio, e que  o seguinte, A bem dizer a ns o que nos convinha era uma ajuda assim para o gratuito, isto , vocs ficavam aqui um tempo, a ajudar quando isto acabasse contentavam-se com uma remunerao simblica e seguiam para os Santos Lugares, que l, sim seriam pagos e repagos, tanto em bens materiais, posto que os turcos no se comparam em riqueza a estes mouros, como em bens espirituais, que l se derramam sobre o crente no mais que por pr ele p em terra,  D. Pedro Pites, olhe que eu aprendi latim bastante para perceber como vai a traduo, mas vs a, senhores cruzados, por favor, no vos impacienteis, que isto da remunerao simblica foi um falar, o que eu queria dizer  que para garantir o futuro da nao nos conviria muito ficarmos com as riquezas todas que esto na cidade, que no ser nada de assombrar, mas  muito verdadeiro o ditado que diz ou h-de vir a dizer, Ningum melhor ajuda o pobre que o pobre, enfim, falando  que a gente se entende vocs dizem quanto levam pelo servio, e a gente logo v se pode chegar ao preo, embora mande a verdade que em tudo fala pela minha boca, eu tenha c as minhas razes para pensar que, ainda que no cheguemos a um acordo, sozinhos seremos capazes de vencer os mouros e tomar a cidade, como ainda h trs meses tommos Santarm com uma escada de mo e meia dzia de homens, que tendo entrado depois o exrcito foi toda a populao assada  espada, homens, mulheres e meninos, sem difere a de idades e terem ou no terem armas na mo, s escaparam os que conseguiram fugir e foram poucos, ora, se isto fizemos, tambm cercaramos Lisboa, e se isto vos digo no  porque despreze o vosso auxlio, mas para que n nos vejais to desprovidos de foras e de coragem, e mais ainda no falei doutras melhores razes, que  contarmos ns, portugueses, com a ajuda de Nosso Senhor Jesus Cristo, cala-te, Afonso.
   Que no se creia que algum da comitiva ou da ranchada estrangeira se haja permitido a insolncia de mandar calar o rei dirigindo-se-lhe no mais que pelo nome de pia, como se com ele alguma vez tivesse comido do mesmo prato, aquilo foi, sim, um falar do prprio a si prprio, assim como Cala-te, boca, que, como no ignorar quem tiver o costume de ouvir e buscar os entendimentos subtis que vm com as palavras e que so mais do que elas, significa, verdadeiramente, que quem falou morre por dizer o que aparentemente decidira calar. Ainda assim tem de se contar com a benvola curiosidade alheia para que se remova o obstculo tctico, lanando, por exemplo, uma pergunta nestes aproximados termos, Ora, ora, diga l o resto, no nos deixe ficar nesta suspenso, mas tambm pode acontecer de muito diferente maneira,  conforme a pessoa e a circunstncia, neste caso o da interveno foi Guilherme Vitulo, aquele mal-encarado, que ter sido ou no o da Longa Espada, o qual, com certa brutalidade, se atreveu a duvidar, Nosso Senhor Jesus Cristo ajuda a todos os cristos, e a nenhum mais do que a outro, no faltava mais, acabava-se a religio se fossem uns filhos e outros enteados. Alguns cruzados olharam repreensivamente o do aparte, porm mais por causa da forma do que pelo fundo, pois quanto a este deveria ser geral a concordncia de que na oratria do rei, alm duma censurvel avareza que qui venha a deitar tudo a perder, houve muita petulncia, muito orgulho, parecia mais um arcebispo a falar do que um simples rei que nem o ttulo tem direito a usar pois no lho reconhece o papa, o qual, por muito favor, trs anos antes lhe deu o tratamento de dux, e vai com sorte. No foi o silncio to longo quanto se imaginaria pelo tempo que levou a explicar, mas foi-o mais do que bastante para ficar carregada de tempestade a atmosfera da reunio, a D. Afonso Henriques no agradou nada a desconfiana, e ia a abrir a boca, certamente para soltar alguma m palavra, quando um cruzado mais diplomtico, foi ele Sahrio de Archelles, lanou uma ponte conciliatria, Que tomassem os portugueses Santarm com uma escada de mo, no duvidamos, ajudando Deus, como soberanamente o fez ao permitir que se derrubassem as muralhas de Jeric ao toque dumas trombetas, que nem sequer ao menos as tocaram sete guerreiros mas sete sacerdotes, e tambm no  causa de maior assombro terem os portugueses causado morticnio tal, se na mesma cidade de Jeric foram mortos, alm dos homens, das mulheres, das crianas e dos velhos, foram mortos, digo, os bois, as ovelhas e os jumentos, o que sim a ns nos faz espcie  comprometer homem, ainda que rei, o nome do Senhor cuja vontade, bem sabemos, s se manifesta onde e quando quer, no bastando pedir, rogar, suplicar, importunar, e sobre a questo dos filhos e enteados no me pronuncio.
   Aprouve a D. Afonso Henriques, alm do a-propsito da cincia bblica, o tom mesurado com que se havia expressado Sahrio de Archelles,  certo que to duvidoso na substncia como o Guilho da Longa Seta, mas que, ao contrrio deste, tivera a precauo de cuidar quer da forma quer da msica, e, aps ter concertado durante alguns minutos com o arcebispo de Braga e com o bispo do Porto, para o que teve de descer da pedra, voltou a subir a ela, e disse, Sabei, senhores, que esta terra portuguesa aonde viestes foi lugar, no aqui, mais para o meridio, e no h mais que oito anos, de um prodigioso aparecimento de Cristo Nosso Senhor, que, diferentemente, no sendo eu Josu nem hebreia a minha gente, obrou, sobre inimigos mais formidveis do que estes que alm nos olham tremendo de medo, uma vitria que em nada fica a dever  de Jeric e a outras de qualidade parceira, e, se tal feito fomos capazes de cometer, bem poderia ser que diante dos muros de Lisboa voltasse a manifestar-se o Salvador do Mundo, caso em que, e querendo-o Ele, to pouco valeria a nossa arte militar como a vossa, e no seramos, todos juntos, mais do que maravilhadas testemunhas do poder e da majestade de Deus. Enquanto o rei falava, acenavam o arcebispo e o bispo a cabea comprazidamente, e, quando ele to brilhantemente rematou a fala, aplaudiram arrebatados a mos ambas, acompanhando a festa todos os demais portugueses com igual entusiasmo. Os cruzados entreolharam-se, perplexos, por um momento no souberam que responder, e foi Gil de Rolim quem finalmente tomou a palavra, para dizer, Tendes razo, senhor, que tudo isso poderia faz-lo sem nenhum custo Cristo Nosso Senhor, mas o que ns queremos saber, neste passo, no  o que Ele faria, mas o que Ele fez, e por isso vos rogamos que faais vs relato circunstanciado de to grande vitria, que, pelo que temos entendido, ouvir dela valer bem a longa e trabalhosa viagem que a esta terra, vossa e por ora ainda tambm de mouros, nos trouxe. Consultou outra vez o rei com o arcebispo e o bispo, e, tendo todos concordado, disse, Ouvide, ento.
   O telefone tocou. Tem uma campainha antiga, das que atroam toda a casa, e a concentrao de Raimundo Silva era to forte que, com o sobressalto inesperado, a mo fez um movimento brusco e um risco no papel, como se o mundo, acelerando-se, tivesse deslizado subitamente debaixo da caneta. Atendeu, perguntou, Quem fala, e reconheceu logo a voz da telefonista da editora, Vou ligar  doutora Maria Sara, disse ela. Enquanto esperava, olhou o relgio, dez minutos para as seis horas, Como o tempo passou depressa, era verdade que o tempo tinha passado depressa, mas pens-lo no tinha outra utilidade que servir-lhe de precria proteco, assim como uma cortina de delgado fumo que a brisa espalha e varre, enquanto Raimundo Silva se demorasse a pensar, Como o tempo passou depressa, o outro tempo, este para onde de repente fora lanado, dar-lhe-ia a iluso de deixar-se retardar, pausa sustentada sobre uma vibrao, a mo direita parece tremer levemente, pousada sobre o papel. Ento a telefonista disse, incorrigvel, Est ligada, senhora doutora, Raimundo Silva cerrou o punho, o tempo tornou-se turvo, confuso, depois espraiou-se, fluiu na sua corrente natural, Boas tardes, senhor Raimundo Silva, Boas tardes, senhora doutora, Como tem passado, Eu, bem, e a senhora doutora, como est, Muito bem obrigada, continuo a organizar o trabalho aqui, e precisamente vinha saber do andamento das provas desse livro de poesia que a tem, Terminei a reviso agora mesmo, estive todo o dia a trabalhar nele, posso lev-lo  editora amanh, Ah, esteve todo o dia a trabalhar nele, No exactamente todo o dia, dediquei umas duas horas  leitura do romance que o senhor Costa me tinha entregue, Aproveitou bem o seu tempo, No tenho mais nada para aproveitar, A frase  interessante, Ser, mas foi dita sem inteno, saiu-me sem pensar. Provavelmente d-se bem com isso, Isso, qu, Dizer sem pensar, fazer sem pensar, Sempre me achei uma pessoa reflectida, creio que o sou, uma pessoa reflectida, Ainda que sujeita a impulsos, Senhora doutora, por favor, se vou ter de ouvir aluses constantes ao que se passou, o melhor  procurar trabalho noutra editora, No quis mago-lo, desculpe, da minha boca no sair mais palavra sobre o caso, Agradeo-lho, Bom, ento traga-me amanh essas provas, e quanto ao romance, uma vez que pode trabalhar todo o dia nele, espero que mo entregue tambm rapidamente, No tardarei, esteja descansada, Estou descansada, senhor Raimundo Silva, sei que posso contar com a sua colaborao, Nunca decepcionei quem alguma vez me mostrou confiana, Ento no me decepcione a mim, Assim farei, At amanh, senhor Raimundo Silva, At amanh, senhora doutora. A mo que segurava o telefone planou no ar, desceu lentamente, e depois de ter pousado o aparelho a se deixou ficar, como se dele no quisesse separar-se ou ainda estivesse  espera duma palavra que no pudera ser dita. Melhor fora que Raimundo Silva se preocupasse antes com as outras, as que tinham sido pronunciadas, por exemplo, qualquer pessoa perceberia que a doutora Maria Sara no acreditara na sua declarao de que todo o dia havia estado a trabalhar no livro de poesia, nem mesmo tendo-lhe acrescentado o aperfeioamento credvel dumas supostas duas horas dedicadas  leitura do romance, porm, ela no podia, positivamente no podia, saber como ele ocupara o tempo durante este dia, o que fez foi deitar-se a adivinhar, enfim, coisas de mulheres, todas se imaginam prodigiosas sibilas e pitonisas, e acabam por enganar-se como o mais comum dos homenzinhos a quem geralmente consideram com irnica e tolerante benevolncia. Mas o que sobremaneira perturbava Raimundo Silva era ter ela dito, e gravemente o disse, ainda que sem acentuar demasiado o tom, No me decepcione, com certeza no estava a referir-se  mais do que comprovada competncia profissional de quem, numa vida de trabalho, perdoe-se a repetio, mas  o que sempre  esquecido, a vida de trabalho, de quem no cometera mais do que um erro, e esse mesmo revelado reconhecido e felizmente desculpado. Ora, excludos, obviamente, aqueles motivos de natureza mais ntima que as relaes entre ambos, tal como esto, liminarmente rejeitam, o que fica  a probabilidade, alta, de uma aluso indirecta  famosa sugesto de escrever ele a Nova Histria do Cerco de Lisboa a que, de sbito, e duplamente, se descobria obrigado, no s porque j a comeara, mas tambm porque, com pelo menos igual seriedade, respondera, No a decepcionarei, e nesse momento ainda no sabia o que estava dizendo.
   Raimundo Silva olhou o papel, Ouvide, ento, agarrou na esferogrfica para prosseguir o relato, mas percebeu que tinha o crebro vazio, outra vez uma pgina branca, ou negra de palavras sobrepostas, entrecruzadas indecifrveis. Depois do que declarara D. Afonso Henriques, no tinha mais que, por palavras suas, contar o milagre de Ourique, introduzindo-lhe, claro est, a esperada poro de cepticismo moderno, alis autorizada pelo grande Herculano e dando soltas  linguagem, ainda que sem exceder o comedimento, por no serem os revisores habituais arautos de ousadias em matria to vigiada pela opinio pblica.
   Quebrara-se porm a tenso, ou fora substituda por outra talvez o impulso regresse mais tarde, em horas nocturnas como uma inspirao nova, que dizem autoridades nada se poder fazer sem ela. Raimundo Silva tem ouvido que, em casos assim, o melhor ainda ser no forar o que chamamos a natureza, deixar que o corpo siga a fadiga do esprito, sobretudo que no lutem um contra o outro, por muito hericas e edificantes que sejam as histrias de tais batalhas, e essa  uma opinio sbia, embora no a mais favorecida por aqueles que sobretudo tm ideias quanto ao que cada um de ns deve fazer, mas muito menos vontade de us-las em si prprios. O rei continua a anunciar, Ouvide ento, mas  um disco falhado que repete, repete, hipnoticamente repete. Raimundo Silva esfrega os olhos cansados a pgina do crebro est em branco, esta por metade escrita, com a mo direita puxa para si a Crnica de D. Afonso Henriques, de Frei Antnio Brando, que h-de vir a servir-lhe de guia quando, esta noite ou amanh voltar ao relato, e, no sendo capaz de escrever agora, l para inteirar-se do mtico episdio,  o segundo captulo, No eram de qualidade as coisas que trazia entre mos o esforado prncipe D. Afonso Henriques que lhe consentissem tomar muito repouso, nem os pensamentos ocupados na grandeza do negcio presente davam lugar a se poder quietar e tomar alvio. E assim, para divertir de algum modo aquela molstia, lanou mo de uma Bblia sagrada, a qual tinha em sua tenda, e, comeando a ler por ela, a primeira coisa que encontrou foi a vitria de Gedeo, insigne capito do povo judaico, o qual, com trezentos soldados, rompeu os quatro reis Madianitas e seus exrcitos, passando  espada cento e vinte mil homens, sem outros muitos que morreram no alcance. Alegre o infante com to bom encontro, e tomando desta vitria prognstico feliz da que esperava, se confirmou mais na resoluo de dar batalha e, com o corao inflamado e olhos postos em o Cu, rompeu nestas palavras: Bem sabeis vs, meu Senhor Jesus Cristo, que por vosso servio e pela exaltao do vosso santo nome, empreendi eu esta guerra contra vossos inimigos; vs, que sois todo-poderoso, me ajudai nela, animai e dai esforo a meus soldados, para que os venamos, pois so blasfemadores de vosso santssimo nome. Ditas estas palavras lhe sobreveio um brando sono e comeou a sonhar que via um velho de venervel presena, o qual lhe dizia tivesse bom nimo porque sem dvida venceria aquela batalha, e com evidente sinal de ser amado e favorecido de Deus veria com seus olhos antes de entrar nela o Salvador do mundo, o qual queria honrar com a sua soberana vista. Estando o infante neste alegre sonho, nem bem dormindo, nem de todo acordado, entrou na tenda Joo Fernandes de Sousa, de sua cmara, e lhe fez a saber como a ela chegara um homem velho, o qual pedia audincia e, segundo dava a entender, era sobre negcio de muita importncia. Mandou o infante que entrasse sendo cristo, e, tanto que o viu reconheceu ser o mesmo que acabava de ver em sonhos, com que ficou sumamente consolado. O bom velho repetiu ao infante as mesmas palavras que em sonho tinha ouvido, e certificando-o da vitria e aparecimento de Cristo, acrescentou que tivesse muita confiana em o Senhor por ser dele amado, e que nele, e em seus descendentes, tinha posto os olhos de sua misericrdia at  dcima sexta gerao, em que se atenuaria a descendncia, mas nela ainda nesse estado poria o Senhor os olhos, e haveria. Que da parte do mesmo Senhor o avisava que, quando na seguinte noite ouvisse tocar o sino da sua ermida, na qual morava havia sessenta anos, guardado com particular favor do Altssimo, sasse fora ao campo, porque lhe queria Deus mostrar a grandeza da sua misericrdia. Ouvindo o catlico prncipe to soberana embaixada, tratou o embaixador dela com venerao e deu a Deus com profundssima humildade infinitas graas. Saiu fora da tenda o bom velho e tornou a sua ermida, e o infante, esperando pelo sinal prometido, gastou em orao afervorada todo o espao da noite at  segunda vigia, na qual ouviu o som da campainha; armado ento com seu escudo e espada saiu fora dos arraiais, e, pondo os olhos no Cu viu da parte oriental um resplendor formosssimo, o qual pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutfero sinal da santa Cruz, e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multido de anjos, os quais em figura de mancebos formosssimos apareciam ornados de vestiduras brancas e resplandecentes, e pde notar o infante ser a Cruz de grandeza extraordinria, e estar levantada da terra quase dez cvados. Com o espanto de viso to maravilhosa, com o temor e reverncia devidos  presena do Salvador, deps o infante as armas que levava, tirou a vestidura real, e descalo se prostrou em terra e, com abundncia de lgrimas, comeou a rogar ao Senhor por seus vassalos, e disse: Que merecimentos achastes, meu Deus, em um to grande pecador como eu para me enriquecer com merc to soberana? Se o fazeis por me acrescentar a f, parece no ser necessrio, pois vos conheo desde a fonte do Baptismo por Deus verdadeiro, filho da Virgem sagrada, segundo  humanidade, e do Padre Eterno por gerao divina. Melhor seria participarem os infiis da grandeza desta maravilha, para que, abominando os seus erros, vos conhecessem. O Senhor ento com suave tom de voz que o prncipe pde bem alcanar, lhe disse estas palavras: No te apareci deste modo para acrescentar tua f, mas para fortalecer teu corao nesta empresa, e fundar os princpios do teu Reino em pedra firmssima. Tem confiana, porque, no s vencers esta batalha, mas todas as mais que deres aos inimigos da F catlica. Tua gente achars pronta para a guerra, e com grande nimo pedir-te- que com ttulo de rei comeces esta batalha; no duvides de o aceitar, mas concede livremente a petio porque eu sou o fundador e destruidor dos Imprios do mundo, e em ti e tua gerao quero fundar para mim um reino, por cuja indstria ser meu nome notificado a gentes estranhas. E porque teus descendentes conheam de cuja mo recebem o reino, comprars as tuas armas ao preo com que comprei o gnero humano, o daquele por que fui comprado dos judeus, e ficar este reino santificado, amado de mim pela pureza da F e excelncia da piedade. O infante D. Afonso, quando ouviu to singular promessa, se prostrou de novo por terra e, adorando ao Senhor, lhe disse: Em que merecimentos fundais, meu Deus, uma piedade to extraordinria como usais comigo? Mas j que assim , ponde os olhos de vossa misericrdia em os sucessores que me prometeis, conservai livre de perigos a gente portuguesa, e, se contra ela tendes algum castigo ordenado, peo-vos o deis antes a mim e a meus descendentes, e fique salvo este povo, a quem amo como nico filho. A tudo deu o Senhor resposta favorvel, dizendo como nunca dele, nem dos seus, apartaria os olhos da sua misericrdia, porque os tinha escolhido por seus obreiros e segadores, para lhe ajuntarem grande seara em regies apartadas. Com isto desapareceu a viso, e o infante D. Afonso, cheio da fortaleza e jbilos de alma, quais se deixam entender, fez volta para os arraiais e se recolheu em sua tenda.
   Raimundo Silva fechou o livro. Apesar de fatigado, a sua vontade seria continuar a leitura, seguir os episdios da batalha at ao desbarato final dos mouros, mas Gil de Rolim, tomando a palavra em nome dos cruzados presentes ali, disse ao rei que, por este modo notificados do memorvel prodgio obrado pelo Senhor Jesus em regio tambm ela to apartada, ao sul de Castro Verde, em stio que chamam de Ourique, provncia de Alentejo, na manh do dia seguinte lhe dariam resposta. Posto o que, cumpridas as saudaes e cerimonial da ordenana, igualmente se recolheram s suas tendas.
   

   
   O rei dormiu mal, de um sono inquieto que constantemente se interrompia, mas pesado e negro como se dele no devesse acordar mais, e foi um sono onde no aconteceram sonhos nem pesadelos, nenhum velho de aspecto venervel anunciando o suave milagre, Aqui estou, nenhuma mulher gritando, No me maltrates que sou tua me, apenas uma densa e inexplicvel negrura que parecia envolver-lhe o corao e ceg-lo. Acordava com sede e pedia gua, que bebia s tarraadas, e vinha  entrada da tenda para espreitar a noite, impaciente com o tardo movimento dos astros. Era lua cheia, daquelas que transformam o mundo em fantasma quando todas as coisas, as vivas e as inanimadas, esto murmurando misteriosas revelaes, porm vai dizendo cada qual a sua, e todas desencontradamente, por isso no alcanamos a entend-las e sofremos esta angstia de quase ir saber e no ficar sabendo. O esteiro rebrilhava entre as colinas, o rio levava as guas como um resplendor, e as fogueiras ateadas nos eirados do castelo e os grossos brandes que assinalavam cada um dos barcos dos cruzados eram como lumes plidos na luminosa escurido. O rei olhava a um lado, olhava a outro, imaginava como estariam aqueles mouros e aqueles francos olhando as fogueiras do acampamento portugus, que pensamentos, que medos e que desdns, que planos de batalha, que decises. Voltava a deitar-se no catre, sobre a pele de urso em que costumava dormir e esperava o sono. Ouviam-se as vozes da rolda, algum rumor de armas, o candil aceso na tenda fazia danar as sombras, depois o rei entrava no silncio e em um negro infinito, adormecia.
   As horas passaram, a lua desceu e sumiu-se, a noite fez-se noite. Ento as estrelas cobriram o cu todo, cintilando como reflexos na gua, abrindo espao ao branco caminho de Santiago, depois, quanto tempo depois, a primeira luz da manh abriu-se devagar por trs da cidade, negra no contraluz, aos poucos iam-se extinguindo as almenaras, e quando o sol apontou, invisvel ainda deste lugar onde estamos, ouviram-se as costumadas vozes que ecoavam entre as colinas, eram os almuadens chamando  orao os crentes de Al. So menos madrugadores os cristos, nos barcos ainda no h sinal de vida, e o arraial portugus, tirando as fatigadas sentinelas que cabeceiam, continua imerso num imenso sono, uma letargia entrecortada de roncos, de suspiros, de murmrios, que s bem mais tarde, j sado o sol e levantado, libertar os membros e soltar as vozes, o repeso e desgarrador bocejo matinal, o interminvel espreguiamento que faz estalar os ossos, este dia mais, este dia menos. Espevitaram-se as fogueiras, agora os caldeiros esto ao lume, os homens aproximam-se, cada um com sua gamela, vm as sentinelas rendidas, outras refrescadas distribuem-se pelo campo mastigando o ltimo bocado, ao mesmo tempo que, junto das tendas, os nobres comem as suas pouco diferentes iguarias, se no falarmos da carne, que  a diferena maior. Servem-se de grandes pratos de madeira, juntamente com eles os eclesisticos que entre o levantar e o comer disseram missa, e todos futuram sobre o que iro decidir os cruzados, diz um que no ficam se lhes no forem prometidas mais rotundas riquezas, diz outro que talvez se contentem com a glria de servir o Senhor, alm duma propina razovel, pelo incmodo. Olham deste longe os barcos, auguram dos movimentos dos marinheiros, se manobram para ficar ou, pelo contrrio, aligeiram a ncora, so suposies inconsequentes nascidas da ansiedade, antes que de l venham dar a resposta ao rei no se movero os barcos, e mesmo depois, dependendo da ocasio, acaso ainda tero de esperar o favor da mar para fixar o ancoradouro ou largar para o mar alto.
   O rei est esperando. Remexe-se de impacincia no assento colocado em frente da tenda, est armado, apenas com a cabea descoberta, e no diz palavra, olha e espera, nada mais. A manh vai em meio, o sol est alto, o suor escorre em fio sob as lorigas. Percebe-se que o rei est irritado, mas no quer manifest-lo. Por cima dele foi armado um toldo que a brisa faz estalar suavemente, a compasso com o estandarte real. Um silncio que no  como o da noite, talvez ainda mais inquietante porque do dia o que se espera  movimento e rudo, um silncio de pressgio cobre a cidade, o rio, as colinas ao redor.  certo que as cigarras cantam, mas esse  um canto que vem de outro mundo,  o rangido da invisvel serra que est serrando os alicerces deste. Sobre as muralhas, entre os merles, os mouros olham tambm, e esperam.
   Enfim h um movimento de batis entre trs galeras principais fundeadas  entrada do esteiro, de cada uma delas desce gente que entra nas embarcaes, e agora esto vindo para c, ouve-se sobre a gua lisa o bater dos remos, o chapinhar das ps, pouco falta para ser de puro lirismo a imagem geral, um cu limpo e azul, dois barquinhos avanando sem pressa, falta aqui o pintor para registar estas suaves cores da natureza, a escura cidade subindo a colina e o castelo l em cima, ou, mudando de ponto de vista, o acampamento portugus sobre um fundo de acidentada orografia, barrancos, encostas, espalhadas oliveiras, alguns restolhos, vestgios de incndios recentes. O rei j ali no est, recolheu-se  sua tenda, porque, sendo real pessoa, no tem de esperar ningum, os cruzados, sim,  que ho-de reunir-se aqui, aguardando respeitosamente, e depois sair D. Afonso Henriques, armado da cabea aos ps, para escutar a mensagem. Aproximam-se alguns dos guerreiros de qualidade que estiveram na conferncia com o rei, e vm de rosto fechado, impenetrvel, ns j sabemos que se vo recusar a ficar para auxiliar os portugueses, mas estes ainda esto na santa ignorncia, alimentam, como  costume dizer-se, uma esperana, o que no se pode  imaginar a justificao que eles vo dar como fundamento de resoluo to grave, que alguma ter de ser, sob pena de serem taxados de levianos e faltos de considerao. Vm Gil de Rolim, Ligel, Lichertes, os irmos La Corni, Jordo, Alardo, vem tambm um alemo at agora no mencionado, de nome Henrique, natural de Bona, cavaleiro de boa fama e virtuosa vida, como a seu tempo se haver de provar, e um religioso ingls muito erudito, Gilberto de sua graa, e mais, na funo de porta-voz, Guilherme Vitulo, o da Longa Espada, ou da Longa Seta, aos portugueses deu-lhes o corao um baque de mau pressentimento quando viram que este seria o lngua, pois de sobejo sabem quanta m vontade ele tem contra o rei, h casos assim, sem motivo que se perceba tomamo-nos de antipatia por algum, e no h quem nos faa arredar p, No gosto dele, no gosto dele, e pronto.
   Saiu D. Afonso Henriques da tenda, trazendo de conselheiros D. Pedro Pites e D. Joo Peculiar, e foi este, aps consultar com o rei, quem tomou a palavra para dar as boas-vindas aos emissrios, em latim as deu, claro est, que no ficam piores que as outras, e afirmar quanto aprouveria ao rei ouvir a resposta que lhe traziam, cuja no duvidava fosse a mais proveitosa  glria de Deus Nosso Senhor. A frmula  boa, porque no podendo ns, obviamente, saber que  o que a Deus mais convm, deixamos ao seu critrio a responsabilidade da escolha, competindo-nos to-somente ser humildes se ela vier contra os nossos interesses e no exagerar as expresses do contentamento se, pelo contrrio, vem servir maravilhosamente as nossas convenincias. A eventualidade de que a Deus sejam igualmente indiferentes o sim e o no, o bem e o mal, no pode entrar em cabeas como foram feitas as nossas, porque, enfim, Deus sempre h-de servir para alguma coisa. No , contudo, hora de navegar por to torcidos meandros, porque j Guilherme da Longa Espada, em postura de corpo e movimento de gestos que descaradamente brigam com a atitude de reverente subalternidade que deveria guardar, est dizendo que, gozando o rei de Portugal de to eficazes e fceis ajudas de Nosso Senhor Jesus Cristo, por exemplo, no perigoso aperto que foi dito ter sido o da batalha de Ourique, mal haveria de parecer ao mesmo Senhor presumirem os cruzados que ali estavam em trnsito de substitu-lo na nova empresa, pelo que dava como conselho, se receb-lo que! riam, fossem os portugueses sozinhos ao combate, pois j tinham segura a vitria e Deus lhes agradeceria a oportunidade de provar o Seu poder, esta e tantas vezes quantas para isso vier a ser solicitado. Tendo-se Guilherme Vitulo explicado na sua lngua natal, ouviram-no os portugueses, enquanto durou a fala, fazendo cara de entendidos, como  costume nestes casos, sem poderem imaginar que finalmente a deciso estava mesmo contra os seus interesses e convenincias, o que, porm, veio a saber-se logo no seguinte e fatal minuto, com a exactido que se pde, quando o frade intrprete que acompanhava o da Longa Espada traduziu, relutante, pois a sua prpria boca se recusava a articular palavras de tanto sarcasmo, e algumas outras que esto a pedir segunda leitura, pelos indcios que parece haver nela de caluniosa dvida sobre o poder divino de cortar, de talhar, de pr e de dispor, de dar e de tirar as vitrias, fazer que ganhe um contra mil, as coisas s se tornam difceis quando lutam cristos contra cristos, ou mouros contra mouros, ainda que, no segundo caso, seja a questo com Al, ele que se avenha.
   O rei ouviu em silncio, e em silncio ficou, com as mos aferradas no punho da espada, posta a direito e firme no cho a ponta, como se do mesmo cho j tivesse tomado definitivamente posse. E foi D. Joo Peculiar que, vermelho de santa indignao, proferiu a frase com que deveria envergonhar-se o provocador, No tentars o Senhor teu Deus, que todos muito bem entenderam, mesmo os fracos em doutrina, porque, na verdade, mais do que desdenhar dos portugueses, Guilherme Vitulo, em outra situao e por diferentes palavras, no fizera mais do que repetir o nefando intento do Demnio ao dizer a Jesus, Atira-te daqui abaixo, que, vindo os anjos a amparar-te, no corrers nenhum risco, e Jesus respondeu, No tentars o Senhor teu Deus. Com o que deveria Guilho envergonhar-se, mas no se envergonhou, antes parecia que se lhe estava retorcendo a boca num riso de escrnio. Perguntou ento D. Afonso Henriques,  essa a deciso dos cruzados, Esta , respondeu o outro, Ento, ide, e que Deus vos acompanhe at  Terra Santa, onde j no podereis invocar nenhum pretexto para fugirdes  batalha como estais fugindo a esta, se no me engano. Foi a vez de Guilherme Vitulo levar a mo  espada que lhe deu o nome, o que poderia ter tido as mais funestas consequncias se no se tivessem interposto os companheiros dele, e mais do que o movimento dos corpos se interpuseram as palavras que um deles disse, Gilberto foi ele, nico daquela banda que, mais do que os intrpretes, podia expressar-se em to fluente latim, como eclesistico maior, de estudos superiores, e o que ele disse foi isto, Senhor,  verdade o que Guilherme Vitulo acaba de dizer-vos, que no se quedam aqui os cruzados, s no fez meno dos motivos materiais que os movem  negativa, enfim,  l com eles, porm alguns resolveram ficar, e esses so os que aqui vedes, que para isso mesmo viemos na embaixada, Gil de Rolim, Ligel, Lichertes, os manos La Corni, Jordo, Alardo, Henrique, e eu, de todos o mais insignificante e humilde, ao teu servio. Ficou D. Afonso Henriques to contente que lhe passou pronto a ira, e, ali mesmo se desprendendo de preconceitos hierrquicos, foi para Gilberto e abraou-o, na passagem lanando ao desprezo o reles Guilho, que de nome vai realmente bem servido, e disse em alta voz, Por essa resoluo vos prometo que sereis o primeiro bispo de Lisboa quando for crist a cidade, e quanto a vs, senhores, que tendes querido ficar comigo, dou-vos por seguro que no tereis razo de queixa da minha magnanimidade, posto o que voltou as costas e entrou na tenda. A se separaram as guas, quer dizer, ficou o Guilho desamparado, mesmo o seu frade se afastou trs prudentes passos, olhando desconfiadamente se haveria sinais de p-de-cabra ou cornos de cabro no atrevido e agora derrotado energmeno.
   Juntando o que efectivamente foi escrito ao que por enquanto est apenas na imaginao, chegou Raimundo Silva a este lance crtico, e muito adiantado ele vai, se nos lembrarmos de que, alm da mais que uma vez confessada falta de preparo para tudo quanto no seja a mida tarefa de rever,  homem de escrita lenta, sempre cuidando das concordncias, avaro na adjectivao, molesto na etimologia, pontual no ponto e outros sinais, o que desde logo vem delatar que quanto aqui em seu nome se tem lido no passa, afinal de contas, de verso livre e livre adaptao de um texto que provavelmente poucas semelhanas ter com este e que, tanto quanto podemos prever, se manter reservado at  ltima linha, fora do alcance dos amadores da histria naive. Alis, basta reparar que a verso de que dispomos j leva doze pginas densssimas, e est claro que Raimundo Silva, que de escritor nada tem, nem os vcios nem as virtudes, no poderia, em um dia e meio ter escrito tanto e to variado, que sobre os mritos literrios do que fez no h que falar, por ser isto histria logo cincia, e por carncia de autoridade propriamente dita. Estas prevenes novamente se recordam para que sempre tenhamos presente a convenincia de no confundir o que parece com o que seguramente estar sendo, mas ignoramos como, e tambm para que duvidemos, quando creiamos estar seguros duma realidade qualquer, se o que dela se mostra  preciso e justo, se no ser apenas uma verso entre outras, ou, pior ainda, se  verso nica e unicamente proclamada.
   A tarde vai em meio, so horas de visitar a doutora Maria Sara, que est esperando as provas do livro de poesia. A mulher-a-dias arruma a cozinha, ou passa a ferro, mal se d por ela, de to discreta no trabalho, provavelmente tem na sua ideia que escrever ou emendar o que foi escrito  obra de religio, e Raimundo Silva, que desde manh no saiu, foi perguntar-lhe, Que tal o tempo, como nunca tem muito que dizer-lhe aproveita as oportunidades, ou inventa algumas, por isso no foi  janela como  seu inveterado costume, e deveria t-lo feito, sendo hoje o dia especial que , porventura j sabem na cidade que os cruzados se vo embora, a espionagem no  uma inveno das guerras modernas, e a senhora Maria responde, Est bom, expresso sinttica que, na verdade, apenas significa que no chove, pois dizendo ns to frequentemente Est bom, mas frio, ou Est bom, mas faz vento, nunca dissemos nem diremos, Est bom, mas chove. Raimundo Silva vai buscar a informao complementar, se h ameaa de chuva, ou vento como o de ontem, e como estamos de temperatura. Por sair sem outras defesas que as moderadas, a gabardina, sequssima e agora apresentvel, dos dois cachecoles que tem, o leve, lstima que no se possa dizer manta de pescoo, que to-pouco soava bem, mas enfim, era do portugus de aqui, e no como o francs cachecol, que  o portugus de toda a parte, lngua nova, alis ainda em preparao, sobretudo nas praias do reino do Algarve, mas alastrando poderosamente ao reino de Portugal. Foi  cozinha para fazer com a senhora Maria as contas da semana, ela olhou o dinheiro e suspirou,  um jeito seu, como se receb-lo fosse j comear a separar-se dele, ao princpio Raimundo Silva ficava nervoso, parecia-lhe que ela recorria  desolada mmica para expressar o seu desgosto por ser to mal paga, por isso no descansou enquanto no teve suficiente informao sobre as tabelas geralmente praticadas na classe mdia baixa a que pertence, concluindo que se encontrava razoavelmente bem situado na verdade no se poderia dizer dele que explorava o trabalho alheio, porm, pelo sim pelo no, aumentou o salrio que vinha pagando, o que no pde foi cur-la do suspiro.
   Trs so os caminhos principais que ligam a casa de Raimundo Silva  cidade dos cristos, um que, seguindo pela Rua do Milagre de Santo Antnio, e conforme o ramo que escolher da trifurcao tanto o pode deixar no Caldas e na Madalena como no Largo da Rosa e suas adjacncias baixas e altas, na eminncia a Costa do Castelo, nos fundos as Escadinhas da Sade e o Largo de Martim Moniz, e, medianamente, o arranque da Calada de Santo Andr, o Terreirinho e a Rua dos Cavaleiros, outro que pelo Largo dos Lios o leva na direco das Portas do Sol, e finalmente o mais comum, pelas Escadinhas de S. Crispim, todo a descer, que em poucos minutos o pe na Porta de Ferro, onde espera o carro elctrico que o transportar ao Chiado, ou donde parte, ainda por seu p, para a Praa da Figueira, se precisar utilizar o metro, como  o caso de hoje. A editora est perto da Avenida do Duque de Loul, longe de mais, a esta hora j declinante, para subir a Avenida da Liberdade, em geral pelo passeio do lado direito, pois nunca lhe agradou o outro, no sabe porqu, embora a impresso de gosto e desgosto no seja constante, tem altos e baixos, quer duma parte quer da outra, mas realmente  no lado direito que se sente melhor. Um dia, enquanto a si prprio ia chamando manaco, deu-se ao trabalho de marcar num mapa da cidade as extenses de passeio da avenida que lhe agradavam e as que lhe desagradavam, e descobriu, com surpresa, que era mais extensa a parte agradvel do lado esquerdo, mas que, tendo em conta o grau de intensidade da satisfao, o lado direito acabava por prevalecer, donde resultava ir muitas vezes subindo por este lado de aqui e olhar o outro passeio de alm com pena de l no estar. Claro que no toma estas pequenas obsesses demasiado a srio, para alguma coisa lhe serviu ser revisor, ainda h poucos dias, estando a conversar com o autor da Histria do Cerco de Lisboa, argumentou que os revisores tm visto muito de literatura e vida, entendendo-se que o que da vida no souberam ou no quiseram ir aprender a literatura mais ou menos se encarregou de ensinar-lhes, mormente no captulo dos tiques e manias, pois  de geral conhecimento que no existem personagens normais, ou ento no seriam personagens, suponho, o que, tudo junto, talvez signifique que Raimundo Silva tenha ido buscar aos livros que reviu alguns traos impressivos que, passando o tempo, teriam acabado por formar nele, com o que nele era de natureza, esse todo coerente e contraditrio a que costumamos chamar carcter. Agora que est nas Escadinhas de S. Crispim, a olhar o co, que o olha a ele, poderia perguntar-se com que personagem de fices se parece neste momento, pena que no seja lobo o animal, pois ento viria imediatamente a plo a referncia a S. Francisco, ou porco, e seria Santo Anto, ou leo, e seria S. Marcos, ou boi, e seria S. Lucas, ou peixe, e poderia ser Santo Antnio, ou borrego, e seria o Baptista, ou guia, e o Evangelista seria, no era bastante termos dito que o co  o melhor amigo do homem, pelo jeito que leva o mundo bem pode acabar por ser o ltimo.
   Com a condio de que lhe retribuam a amizade, como agora est pensando Raimundo Silva diante do escanzelado bicho,  por de mais evidente que os vizinhos de S. Crispim no gostam da espcie canina, acaso sero eles ainda, esses vizinhos, descendentes directos dos mouros que por dever de religio detestaram aqui os ces daquele tempo, apesar de serem, uns e outros, irmos em Al. O co, com mais de oito sculos de maus tratos no sangue e na herana gentica, levantou de longe a cabea para produzir um ganido lamentoso, uma voz exasperada e sem pudor, mas tambm sem esperana, pedir de comer, ganindo ou estendendo a mo, mais do que degradao sofrida de fora,  renncia vinda de dentro. Raimundo Silva no tem hora marcada, At amanh, disse a doutora Maria Sara, mas j se vai fazendo tarde, o pior  este co que no o deixa seguir o seu caminho, o ganido passou a choro,  o contrrio das pessoas, que primeiro choram e depois uivam, e o que ele pede, roga, suplica e importuna, como se este simples homem fosse a prpria pessoa de Deus,  uma bucha de po, um osso, agora usam uns contentores de lixo trabalhosos de abrir ou derrubar, da ser a necessidade muita, meu Senhor. Posto entre seguir adiante e o remorso de o ter feito, Raimundo Silva resolve voltar a casa para procurar algo que um leo faminto no se atreva a rejeitar, enquanto sobe a escada olha o relgio, Est-se a fazer tarde, repetiu, entrou de rompante, causando sbito susto  mulher-a-dias apanhada a olhar a televiso, mas, sem dar-lhe importncia foi  cozinha, remexeu em gavetas, em tachos, abriu o frigorfico, a senhora Maria no se atreveu a perguntar, Precisa de alguma coisa menos ainda a estranhar como  seu relativo direito, porque, j se sabe, foi surpreendida em flagrante delito de preguia para o trabalho, e agora tenta recompor-se, desligou a televiso e est a deslocar mveis, faz rudos demonstrativos duma actividade frentica, em pura perda se desvela, que Raimundo Silva, se efectivamente deu pela falta cometida mal pensou nisso, de to preocupado que vinha com a hora tardia e a ideia de fazer boa figura quando pusesse diante do co o produto do saque, que vai embrulhado em papel de jornal, um bocado de chourio cozido, uma fatia de presunto gordo, trs bocados de po, pena no ter ali um osso robusto para a sossega, no h nada melhor, enquanto a digesto se vai fazendo, que um osso para excitar as glndulas salivares e fortalecer a dentadura de um co. A porta bateu, Raimundo Silva j desce a escada, pelo seguro a senhora Maria foi  janela espreitar, depois voltou para dentro, tornou a ligar a televiso, tinha perdido nem cinco minutos da telenovela, que  isso.
   O co no se movera, apenas deixara descair a cabea, o beio rente ao cho. As costelas salientes, como de cristo crucificado, tremem-lhe nos encaixes da espinha, este animal  um rematado idiota, com a teima de viver nas Escadinhas de S. Crispim onde tem passado fomes de rabo, desprezando as abundncias de Lisboa, Europa e Mundo, ora isto so juzos fceis, no se trata de teimosia nenhuma, mas sim de um caso de timidez, portanto respeitvel caso, os atrevidos no percebem nada de dificuldades, por exemplo, que terramoto produziria na mente deste co a descoberta de que aos cento e trinta e quatro degraus conhecidos da escada se tinha acrescentado subitamente mais um, no  que tenha acontecido, trata-se apenas de uma hiptese, como se sentiria infeliz o bicho diante do abismo intransponvel, ainda nos lembramos de quanto lhe custou ter seguido no outro dia este homem at  Porta de Ferro, certas experincias o melhor  no repeti-las. Afastado trs passos, Raimundo Silva v o co aproximar-se do jornal estendido, e o animal duvida se deve olh-lo a ele, para prevenir o provvel pontap, ou lanar-se sobre a comida cujo cheiro lhe est estorcegando as entranhas brutalmente, a saliva inunda-lhe os dentes,  deus dos ces, por que fizeste para tantos de ns to difcil a vida,  sempre assim, atiramos para os deuses as culpas disto e daquilo, quando ns  que inventamos e fabricamos tudo, incluindo as absolvies dessas e mais culpas. Raimundo Silva compreende que o co tem medo, afasta-se, o animal avana um pouco, o nariz freme de ansiedade, de repente a comida estava e deixou de estar, abocanhada em dois movimentos desapareceu, e a lngua plida e comprida lambe a gordura impregnada no papel.  um espectculo miservel este que o destino oferece aos olhos de Raimundo Silva, agora esquecido da doutora Maria Sara, e de sbito encontra-se identificado com a personagem das fices que faltava, aquele S. Roque a quem precisamente deu assistncia um co, tempo era de que o santo retribusse o favor, assim no sofrendo desmentido a assero de que tudo na vida tem sua correspondncia, ainda que seja ao invs, ponto de vista nosso, claro est, porque quanto ao dos ces no sabemos, que ser Raimundo Silva aos olhos deste, digamos que um vivente com cara de homem, para que fique por fim completa a antes enunciada coleco dos animais apocalpticos e seja tambm Raimundo Silva o S. Mateus que faltava, como vai poder ele com uma carga to pesada.
   Que no lhe pesar assim tanto, se observarmos a rapidez com que num instante comeou a descer a escada, subitamente lembrado da doutora Maria Sara, que o estar esperando, agora s de txi chegar a tempo, e a vida no vai para gastos sumpturios, diabos levem o co, eu feito samaritano, o mais seguro  que no iria a casa buscar comida se fosse uma velha que estivesse a pedir nas Escadinhas de S. Crispim, bem, se fosse uma velhinha talvez sim, mas a apostar que no se fosse um velho, interessante verificar como a prpria bondade, supondo que dela  que estamos a falar, varia com as circunstncias e os objectos, com a sade do momento, com o humor da ocasio, a bondade, mal comparada,  assim como um elstico, estende, encolhe, capaz de envolver a humanidade toda ou apenas a s pessoa, egosta, isto , bondosa para si prpria, contudo, sempre uma boa aco refrescou a alma, o bicho l ficou agradecidssimo, ainda que, sendo a fome tanta, de pouco mais lhe ter servido a pitana que para encher a cova dum dente, pobre animalzito, maneira piedosa de dizer, pois no  to pequeno assim, que raa, todas, tirando as mais recatadas, que nunca descem  rua, ou descendo vm de trela e tapa-sexo, este ao menos  livre, goza das cadelas livres, mas pouco gozar se nunca sai das Escadinhas de S. Crispim, se nunca sai das Escadinhas de S. Crispim. Neste ponto Raimundo Silva interrompeu conscientemente o discorrer mental a que se abandonara enquanto o txi o levava, apercebera-se de um repentino mal-estar, no fsico, antes como se algum adormecido dentro de si tivesse acordado subitamente e gritado por encontrar-se emerso em escurido profunda, por isso repetiu, a dar tempo para que passasse o susto, Se nunca sai das Escadinhas de S. Crispim, de quem estou a falar, perguntou, o txi subia a Rua da Prata e ele ia dentro, afinal pertencia ao pas dos homens, no dos ces, e podia sair das Escadinhas de S. Crispim sempre que precisasse ou lhe apetecesse, como agora mesmo se demonstra, vai  editora falar com a doutora Maria Sara, que dirige os revisores, entregar-lhe as provas definitivas do livro de poesia, e depois pode ser que resolva no regressar logo a casa, acabou um livro, ainda que to delgado que quase corpo de livro no tem, far pois como de costume, comer no restaurante, ir ao cinema, ainda que o mais provvel  no ter consigo dinheiro suficiente para um programa to vasto, mentalmente faz contas, o contador do txi, tenta lembrar-se de quanto ter na carteira, e est nestas aritmticas quando se d conta de que no sair esta noite, no pode esquecer que comeou um livro novo, no, no  o romance do Costa, olhou o relgio, so quase cinco horas, o txi sobe a Avenida do Duque de Loul, pra num semforo, avana, a, se faz favor, e quando Raimundo Silva tira o dinheiro para pagar verifica, num rpido relance, que no lhe chegaria o dinheiro para restaurante e cinema, um dos dois, sim, mas um sem o outro no tem graa nenhuma, Janto em casa e continuo com aquilo, aquilo  a Histria do Cerco de Lisboa, alguma vez o teria dito antes, quando revia um livro com esse ttulo, no tempo da sua inocncia.
   O elevador  antigo e acanhado, propcio a intimidades se no fosse a transparncia das portas e dos painis laterais, contudo, no intervalo entre dois patamares, dando ateno vigilante aos lanos de escada que de um lado sobem e do outro descem,  sempre possvel cometer algum jogo de mos, e at um furtivo beijo, se a urgncia aperta. Em anos de trabalho que j so muitos, Raimundo Silva tem utilizado esta gaiola mecnica, umas vezes sozinho, outras acompanhado, e nunca, at hoje, pelo menos no o recorda, fora acometido por to perturbadores pensamentos,  certo que ao princpio escolhia ir pela escada por falta de pacincia de esperar quando o ascensor tardava, e tambm porque ainda sentia folgadas as pernas e ligeiro o corao, capazes de competir com a juventude de todos estes escritrios incluindo a editora, ainda que nesta a mdia das idades sempre tenha tendido para o alto. O trajecto  curto somente ' dois andares, devendo no entanto ter-se em conta que, tratando-se de um prdio antigo, o p-direito das casas anda quase pelo dobro das que actualmente se fabricam, afinal parecidas, estas, neste particular, com a sua velhssima habitao do Castelo, a bem dizer no  isto novidade, ao alto sempre se seguiu o baixo e ao baixo o alto, provavelmente !  uma das leis da vida, tambm o nosso pai um dia nos pareceu gigante e agora somos ns que o olhamos por cima do ombro, e vai decaindo de ano em ano, coitado, porm calemo-nos, para que o pobre possa sofrer em silncio. A Raimundo Silva parece-lhe absurdo lembrar-se do falecido pai neste ascensor, quando tinham comeado por assalt-lo as erticas sugestes, a verdade  que quem pensa apenas sabe o que pensa, e no por que o pensou, pensamos desde que nascemos, suponho, e no sabemos qual foi o nosso primeiro pensamento, esse de que todos foram depois, e at hoje, consequncia, a biografia definitiva de cada um seria subir o rio dos pensamentos at  sua fonte primeva, e mudar de vida imagino que seria, se fosse possvel vir andando e repetindo o curso deles, ter subitamente outro pensamento e ir atrs dele, chegaramos talvez ao dia em que estamos, se ao escolher outra vida no a fizssemos mais breve, e ainda que desta se tratasse no como revisor e subiramos noutro elevador, qui para falar a outra pessoa, no  doutora Maria Sara. Calhou, neste onde ainda est, ocupar Raimundo Silva o lado onde naquele dia viu descer o director literrio com a governadora dos revisores, e ei-lo que o vemos agora a olhar o espao vazio com severidade desdenhosa, como se fosse exprobar  mulher que ali esteve o seu imoral comportamento, porque essas coisas, fique sabendo, no se fazem num ascensor, no se devem fazer, digo, que bem sei no faltar por a quem as faa, e ainda pior, Foi s um apalpo, senhor revisor, foi apenas um beijo, senhor revisor, No importa, foi de mais, em nome da minha prpria e incurvel inveja vos condeno, nos ltimos centmetros da subida Raimundo Silva colocou-se no meio do elevador, os outros no cabiam, tiveram de sair, corridos de vergonha iriam se ainda houvesse vergonha neste mundo, o mais provvel  estarem a rir-se do moralista hipcrita Esto verdes no prestam, disse a raposa.
   Olhar, ver e reparar so maneiras distintas de usar o rgo da vista, cada qual com a sua intensidade prpria, at nas degeneraes, por exemplo, olhar sem ver, quando uma pessoa se encontra ensimesmada, situao comum nos antigos romances, ou ver e no dar por isso, se os olhos por cansao ou fastio se defendem de sobrecargas incmodas. S o reparar pode chegar a ser viso plena, quando num ponto determinado ou sucessivamente a ateno se concentra, o que tanto suceder por efeito duma deliberao da vontade quanto por uma espcie de estado sinestsico involuntrio em que o visto solicita ser visto novamente, assim se passando de uma sensao a outra, retendo, arrastando o olhar, como se a imagem tivesse de produzir-se em dois lugares distintos do crebro com diferena temporal de um centsimo de segundo, primeiro o sinal simplificado, depois o desenho rigoroso, a definio ntida, imperiosa de um grosso puxador de lato amarelo, brilhante, numa porta escura, envernizada, que subitamente se torna presena absoluta. Diante desta porta, muitas e muitas vezes, tem Raimundo Silva esperado que lha abram de dentro, o rudo de disparo que faz o trinco elctrico, e nunca como hoje teve uma conscincia to aguda, assustadora quase, da materialidade das coisas, um puxador que no  a sua simples superfcie luzidia, polida, mas um corpo de cuja densidade pode aperceber-se at ao encontro com essa outra densidade, da madeira, e  como se tudo isto fosse sentido, experimentado, palpado dentro do crebro, como se os seus sentidos, agora todos eles, e no s a viso, reparassem no mundo por terem finalmente reparado num puxador e numa porta. O trinco estalou, os dedos empurraram a porta, dentro a luz parece fortssima, e no o , mas Raimundo Silva sente-se como se vogasse num espao sem referncias, tal essas atmosferas saturadas de claridade agora em moda nos filmes de sobrenatural ou de aparies de extraterrestres,
   com dispndio excessivo de vltios, espera que a telefonista d um grito de terror ou caia em transe exttico se pelo lado de fora de si prprio se manifesta, numa proliferao de tentculos sensitivos ou numa irradiao de beleza suprema, a vibrao caleidoscpica em que, por um instante que j se extingue, se tornou a sua sensibilidade. Mas a telefonista cujas obrigaes, alm de manipular a central, incluem disparar o trinco da porta e atender quem chega, faz-lhe um sinalzinho de dedos enquanto termina uma conversa ao telefone, e depois, cordial, familiar e nada surpreendida, Ol senhor Silva, conhece-o h uns bons anos e de cada vez que o v no lhe tem encontrado mais diferenas que as do tempo que passa, se da a pouco lhe perguntarem como achou o revisor responder, porm sem segura convico, No sei, talvez um pouco nervoso, isto dir e nada mais ou no  boa observadora ou Raimundo Silva j voltou ao seu natural, se  que de fora se podia dar pelo que acontecera dentro, mesmo reparando, Quero falar com a doutora Maria Sara, disse ele, e a telefonista, que tambm se chama Sara mas sem Maria e anda muito orgulhosa da meia coincidncia, informa-o de que a senhora doutora est no gabinete do senhor doutor, nem precisa dizer o nome, o senhor doutor  o director literrio, sempre foi, os outros, desde o director de todos at ao Costa, so gente de p, e Raimundo Silva, mais brusco do que  costume, diz-lhe que pergunte se o pode receber ou se quer que deixe ficar as provas do livro de poesia, aqui mesmo no balco, ela sabe do que se trata. Sara ouve o que lhe est dizendo a doutora Maria Sara, acena com a cabea, o dilogo  curto, mas talvez por um resto de viso intensa, apesar de plida sombra do que havia sido do outro lado da porta, Raimundo Silva observa, fio por fio, o cabelo louro da telefonista, uma cor como de palha moda, ela mantm a cabea baixa, no pode adivinhar que ferocidade h neste olhar, ferocidade  um exagero da expresso, claro est, que o homem no quer mal  mulher, so os seus olhos irresponsveis, ele apenas espera que lhe digam o que deve fazer, veio de longe e  pressa, e ter de deixar as provas no balco da entrada, como qualquer mandarete que veio trazer uma carta sem resposta, A senhora doutora pede que a espere no gabinete, a telefonista est de cabea levantada, sorri, Obrigado, menina Sara, chamam-lhe menina Sara desde sempre, ficou assim, apesar de ter casado e enviuvado, h pessoas com muita sorte, mulheres, evidentemente, que os homens, no geral, pouco tempo tiveram para ser meninos, e alguns no o foram nunca, como se sabe e escreveu, e outros ficaram assim para sempre mas no se atrevem a diz-lo.
   Raimundo Silva no teve de esperar muito, trs, quatro minutos, se tanto. Deixara-se estar de p, a olhar, com a impresso estranha de entrar aqui pela primeira vez, no admira, a memria no guardava nenhuma lembrana anterior deste gabinete, provavelmente estaria afecto a servios de administrao antes das recentes mudanas, e to-pouco, percebia-o agora com surpresa, lhe tinham ficado imagens de quando fora chamado pela doutora Maria Sara, no recordava, por exemplo, se j ento estava sobre a secretria aquele solitrio com uma rosa branca e na parede o quadro de registo onde, podia v-lo, se lia o seu nome, na linha superior, e por baixo os nomes dos outros revisores que trabalhavam em casa, tendo, todos eles, no quadriculado adiante, indicaes abreviadas de ttulos de obras, datas, sinais coloridos, um organigrama simples, uma espcie de mapa da cidade dos revisores, no mais que seis. Podemos imagin-los, cada um em sua casa, no Castelo, nas Avenidas Novas, talvez em Almada ou Amadora, ou Campo de Ourique, ou Graa, debruados para as provas de um livro lendo e emendando, e a doutora Maria Sara pensando neles alterando uma data, trocando um verde por um azul, daqui a pouco tempo nem dar importncia aos nomes, sero para ela um mero traado grfico que lhe suscitar ideias, associaes, reflexos, por enquanto cada um destes nomes representa ainda uma informao a assimilar, Raimundo Silva primeiro, depois Carlos Fonseca, Albertina Santos, Mrio Rodrigues, Rita Pais, Rodolfo Xavier, tratando-se de um escritrio seria natural que estivessem dispostos por ordem alfabtica, pois no esto, no senhor, Raimundo Silva  o da primeira linha, e a razo talvez tenha uma explicao fcil, vem a ser que na altura da instalao do quadro seria ele a maior preocupao da doutora Maria Sara.
   Que vem entrando, e diz, Desculpe t-lo feito esperar, o rudo da porta e as palavras sobressaltaram Raimundo Silva, apanhado de costas voltadas, e agora vira-se precipitadamente, No tem importncia, responde, eu s vim para, no termina a frase, tambm a este rosto  como se o visse pela primeira vez, tantas vezes, nestes dias, tem pensado na doutora Maria Sara, e afinal no era numa imagem dela que pensava, o simples nome ocupara todo o espao disponvel da lembrana, progressivamente fora invadindo o lugar dos cabelos, dos olhos, das feies, do gesto das mos, somente podia reconhecer de longe a macieza da seda, no porque a tivesse tocado alguma vez, j o sabemos, e tambm h que esclarecer que no estava recorrendo a sensaes antigas para morbidamente imaginar o que esta poderia ser, por impossvel que parea Raimundo Silva conhece tudo desta seda, o brilho, o mover brando do tecido, as flutuantes pregas, como areia danando, embora a cor de agora no seja a de ento, tambm ela emersa nas brumas da memria, se no  desrespeito citar o hino ptrio. Trago-lhe aqui as provas, como combinmos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer,  passagem, agora est sentada  secretria, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu, No vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, to perto dela est que pode ver-lhe o corao suavssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do ntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer at a poetas medocres, O ntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que no se acredite, o roar inefvel das ptalas, ou teria sido o roar da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem de imaginar.
   A doutora Maria Sara disse, Muito bem. Apenas estas duas palavras, num tom que no prometia outras falas, e Raimundo Silva, to bom entendedor at de meias palavras, compreendeu, ditas estas duas, que nada mais tinha que fazer ali, viera para entregar provas, entregara-as, agora s lhe restava despedir-se, Boas tardes, ou perguntar, Precisa ainda de mim, interrogao muito comum que tanto  capaz de exprimir uma humildade subalterna como uma impacincia refreada, e que, no caso presente, usando o tom adequado, se poderia tornar em irnico remoque, o mau  que muitas vezes o destinatrio ouve a frase mas no d pela inteno, basta que estivesse folheando com profissional ateno umas provas tipogrficas, e ainda mais se se tratava de versos, que exigem cuidado especial, No, no preciso, respondeu, e levantou-se, foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, to alheio ao acto como s consequncias dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefacta, no o estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitrio vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo no se esperaria  que mulher to segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrvel que se possa corar assim nos tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, no do corpo. Mas o mais extraordinrio de tudo foi que Raimundo Silva corou tambm, e por mais tempo que ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridculo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou vir a diz-lo. Em situaes como esta, faltando a ousadia, e no nos perguntemos, Ousadia para qu, a salvao est na fuga,  bom conselheiro o instinto de conservao, o pior vem depois, quando repetimos as horrveis palavras, Que vergonha, todos passmos j por horrores assim, de raiva e humilhao damos socos na almofada, Como pude ser to estpido, e no sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale  estarmos protegidos pela escurido do quarto, ningum nos v, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condo mau de tornar irremediveis e monstruosas at as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraa como a de agora. Raimundo Silva virou costas bruscamente, com a ideia vaga de que tudo se havia perdido na sua vida e que nunca mais poderia voltar a esta casa,  absurdo, absurdo, repetia em silncio e parecia-lhe que o dizia mil vezes enquanto fugia para a porta, Em dois segundos sairei, estarei fora, longe, quando no derradeiro e preciso instante o deteve a voz de Maria Sara, inesperadamente tranquila, em tal contradio com o que neste momento se est passando aqui que foi como se o significado das palavras se tivesse perdido no ar, se no fosse a certeza final do ridculo Raimundo Silva teria fingido que percebera mal, portanto no havia outro remdio que acreditar que ela dissera mesmo, Saio dentro de cinco minutos,  s o tempo de terminar um assunto na direco literria, posso dar-lhe uma boleia, se quiser. Com a mo aferrada  maaneta da porta, ele buscava desesperadamente parecer natural, e quanto lhe estava custando, uma parte de si ordenava-lhe, Vai-te embora, a outra olhava-o como um juiz e sentenciava, No ters outra oportunidade, todos os rubores e surpreendimentos tinham perdido importncia em comparao com o grande passo dado por Maria Sara, porm em que direco, meu Deus, em que direco, e aqui est como ns, humanos, somos feitos, que apesar da confuso em que se debatia, de sentimentos, j se v, ainda lhe sobrava frieza de esprito para identificar a irritao que lhe causara a palavra boleia, absolutamente inadequada  ocasio pela sua patente vulgaridade de fado corrido, a srie foi irresistvel e instantnea, boleia tipia fado, Levo-o aonde quiser, podia ter dito Maria Sara, mas provavelmente no se lembrou, ou achou que devia evitar a ambiguidade duma tal frase, Levo-o aonde voc quiser, levo-o aonde eu quiser,  bem verdade que o estilo elevado costuma falhar quando mais precisamos dele. Raimundo Silva conseguiu soltar-se da porta e permanecer firme, observao que pareceria de gosto duvidoso se no fosse expresso duma ironia amigvel enquanto esperamos que responda, Muito obrigado, mas no quero desvi-la do seu caminho, ora aqui vem muito a propsito dizer que o soneto est a sofrer com a emenda e que ao desastrado revisor no restaria mais que morder a lngua se o tardio sacrifcio servisse para alguma coisa, felizmente no deu Maria Sara, ou fingiu no dar, pela duplicidade maliciosa da frase, pelo menos no lhe tremia a voz quando disse, No me demoro nada, sente-se, e ele faz quanto pode para que lhe no trema a sua ao responder, No vale a pena, gosto de estar de p, pelas palavras que tinha dito antes parecia que recusara a oferta, agora se v que aceitou. Ela sai, regressar antes de passados os cinco minutos, entretanto espera-se que ambos recobrem o ritmo da respirao, o sentido da avaliao das distncias, a regularidade do pulso, o que no ser certamente pequena proeza depois de to perigosos cruzamentos. Raimundo Silva olha a rosa, no so s as pessoas que no sabem para o que nascem.
   Um dia, talvez por efeito duma luz que far recordar esta, lmpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dir Lembras-te, primeiro o silncio dentro do carro, as palavras difceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistncias, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo a um elctrico, Ora essa, levo-o a casa, no me custa nada, Mas sai do seu caminho, Eu, no, o automvel, No  cmodo subir aos stios onde vivo, Ao p do castelo, Sabe onde moro Na Rua do Milagre de Santo Antnio, vi na sua ficha depois um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e esprito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas at ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos ns que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que no percebera a inteno, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porm ela, s vezes ponho-me a imaginar como ter sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor, foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela no parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silncio. Quando o carro parou  porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educao, achou que devia convid-la a subir, e logo se arrependeu,  uma indelicadeza, pensou, e alis no devo esquecer-me de que sou seu subordinado, foi nessa altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje  tarde. Sobre esta frase histrica se h-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva est capaz de jurar que as palavras ento ditas foram outras, e no menos histricas, Ainda no  tempo.
   

   
   Em estes ltimos dias, tivesse o almuadem o sono pesado, sem dvida haveria de despert-lo, se de todo o no impedira de adormecer, o rumor de uma cidade inteira vivendo em estado de alerta, com gente armada subida s torres e adarves, enquanto o mido povo no se cala, em ajuntamentos nas ruas e mercados, perguntando se j vm os francos e os galegos. Temem por suas vidas e haveres claro est, mas os mais afligidos ainda so aqueles que tiveram de abandonar as casas em que viviam, do lado de fora da cerca, por enquanto defendidas pela tropa, mas onde inevitavelmente se travaro as primeiras batalhas, se essa for a vontade de Al, louvado seja, e, mesmo que vena Lisboa aos invasores, do prspero e desafogado subrbio no ficaro mais que runas. No alto da almdena da mesquita maior, como todos os dias, o almuadem soltou o seu grito estrdulo, sabendo que j no ir acordar ningum, quando muito estaro dormindo as crianas inocentes, e, contra o costume, quando paira ainda no ar o ltimo eco da chamada  orao, logo comea a ouvir-se o murmrio da cidade rezando, em verdade no tinha de sair do sono quem no sono mal cegara a entrar. A manh est esta lindeza de julho, de fina e suave brisa, e, se a experincia no engana, vamos ter hoje um dia de calor. Terminada a orao, o almuadem prepara-se para descer, quando de sbito se levanta de baixo um alarido to desordenado e espantoso que o cego, assustado, cr em um momento que se desmorona a torre, em outro que esto os maldito cristo dando assalto s muralhas, para finalmente perceber que so de jbilo os gritos que de todas as partes irrompem e fazem sobre a cidade um como que resplendor, agora pode ele dizer que j conhece o que  a luz, se ela tem nos olhos de quem v o efeito que nos seus ouvidos  esto causando estes alegres sons. Porm, que motivo. Talvez que Al, movido pelas preces ardentes do povo, tivesse enviado os seus anjos do sepulcro Munkar e Nakir, a exterminar os cristos, talvez tenha feito cair sobre a armada dos cruzados o inextinguvel fogo do cu, talvez, de terrestre humanidade, o rei de vora, avisado dos perigos que ameaam os seus irmos de Lisboa, tenha mandado mensageiro com os seus irmos de Lisboa, tenha mandado mensageiro com recado, Aguentem a os malvados que a minha tropa de alentejanos j vai a caminho, dizemo-lo assim, por vir essa gente de alm do Tejo, ficando demonstrado, de caminho que  havia alentejanos antes de haver portugueses. Com risco de malhar com os frgeis ossos nos degraus, o almuadem desce  pressa a apertada espiral, e  quando chega abaixo eis que o derruba a vertigem,  outra vez parece querer meter-se pela terra dentro, iluso nossa nascida de exemplos passados, agora se v que todo o seu esforo  antes para levantar-se, enquanto pergunta  escurido que o rodeia, Que aconteceu, digam-me o que aconteceu. No instante seguinte esto braos a ajud-lo a erguer-se, e uma voz forte e jovem quase grita, Vo-se os cruzados, os cruzados esto a retirar-se. De f e comoo dobraram-se ali os joelhos do almuadem, mas cada coisa a seu tempo, Al no se escandalizar se tardarem um pouco mais os agradecimentos que lhe so devidos, primeiro h-de expandir-se a alegria. O bom samaritano levantou o velho em peso, p-lo definitivamente de p, comps-lhe o turbante que se desmanchara com a agitao da descida e queda e disse, Deixa-te disso, vamos   muralha ver debandarem os infiis, ora estas palavras, no sendo de consciente maldade, s se explicam por ser a cegueira do almuadem de gota serena, repare-se, est a olhar para ns, isto , tem os olhos fitos na nossa direco e no pode ver-nos, que tristeza, custa a acreditar que uma tal transparncia e limpidez sejam, finalmente, a pele da opacidade absoluta. O almuadem levanta as mos e toca com elas os olhos, Mas eu no vejo, neste instante o homem reconhece-o, Ah, s o almuadem, e faz um movimento como para afastar-se, que emenda logo, No importa, vem comigo  muralha, eu digo-te tudo, a formosas atitudes como esta costumvamos ns chamar caridade crist, o que uma vez mais vem demonstrar quanto as palavras andam ideologicamente desorientadas.
   O homem abriu caminho entre a gente que se apertava para subir por uma escada que levava ao adarve, Dem passagem ao almuadem, dem passagem, irmos, pedia, e as pessoas afastavam-se e sorriam de puro amor fraterno, mas para que nem tudo sejam rosas, ou porque no so rosas tudo, houve ali um desconfiado que malsinou a boa obra,  certo que no teve coragem para mostrar a cara, mas atirou l das filas de trs, Olha o vivao, o que ele quer  aproveitar para passar-nos  frente, e o almuadem, ciente como estava de que assim no era, disse na direco da voz, Que Al te castigue pelo aleive que cometes, e Al deve ter tomado muito boa nota do encargo, pois o caluniador vir a ser o primeiro que morrer no cerco de Lisboa, antes mesmo que qualquer cristo, o que diz muito sobre a ira do Altssimo. Acima chegaram, pois, o velho e o seu protector, e pelo mesmo mtodo de aviso e petio, boamente acolhido sem excepes, puderam tomar lugar num camarote de primeira ordem, com vista aberta para o esteiro, o rio largo, o mar imenso, mas no foi esta grandeza que fez o homem exclamar, Oh, que maravilha, sim o que disse logo a seguir, Almuadem, seria capaz de dar-te os meus olhos para que pudesses ver o que eu vejo, a armada dos cruzados a navegar rio abaixo, a gua lisa e brilhante como s ela pode ser, e toda azul, da cor do cu que a cobre, os remos sobem e descem compassadamente, parecem as barcas um bando de aves que vai bebendo enquanto voa raso, duzentas aves de arribao que tm nome de galeras, fustas, galeotas e no sei que mais, que sou homem de terra, no de mar, e como vo rpidas, levam-nas os remos e a mar, por ela madrugaram e j partem, agora os da frente devem ter sentido o vento, esto a levantar as velas, ah, que outra maravilha seria se fossem brancas, este dia  de festa, almuadem, alm, na outra margem, esto os nossos irmos de Almada acenando, to alegres como ns, salvos tambm pela vontade de Al, Ele, o Mais Alto, o Misericordioso, o Incriado, o Vivente, o Confortador, o Clemente, pela graa de Quem nos temos libertado da ameaa pavorosa daqueles ces que esto saindo a barra, cruzados so e atravessados sejam, com eles possa morrer e cair no esquecimento a beleza da sua sada, e que Malik, o guardio do inferno, os tenha para sempre e castigue. Aplaudiram os circunstantes a objurgatria final, menos o almuadem, no por estar em desacordo, mas porque cumprira antes a sua parte de vigilante moral quando pediu o castigo do desconfiado e atrevido, mal parecia, de facto, que reincidisse em espalhar maldies quem tem por ofcio chamar  orao a comunidade dos irmos,  que punir uma vez ao dia j est de sobejo para um simples ser humano, e o prprio Deus no sabemos se vai aguentar tamanha responsabilidade eternamente. Por esta razo ficou o almuadem calado, mas tambm por uma outra, que vinha de ser cego e portanto no saber se havia motivos para uma alegria completa, Foram-se todos, perguntou, e o companheiro, aps uma pausa que foi o tempo de certificar-se, respondeu, Os barcos, sim, Explica melhor, que mais h que os barcos,  que esto, alm, na margem do esteiro, e agora vo andando na direco do arraial do galego, uns cem que desembarcaram, transportam consigo as armas e as bagagens, daqui no  fcil cont-los, mas no sero mais de cem. Disse o almuadem, Se ficaram esses, ou desistiram de ir na cruzada, sem mais, e trocaram as suas terras por esta, ou, havendo cerco e batalha, estaro com Ibn Arrinque quando ele vier contra ns, Crs tu, almuadem, que com to pouca gente sua e esta quase nenhuma que se lhe juntar, Ibn Arrinque, maldito seja ele e quanto gerar o seu sangue, por cerco a Lisboa, Tentou uma vez com os cruzados e falhou, agora h-de querer mostrar que no precisava deles, servindo estes de testemunhas, Dizem os espias que o galego no tem mais que uns doze mil soldados, no chegam para rodear a cidade e apertar com ela Talvez no, se no apertar com ns a fome, Vs negro o futuro, almuadem, Vejo, sou cego. Neste momento um outro homem que ali estava com eles estendeu o brao, apontou, H movimentos no arraial, vo-se embora os galegos, Afinal enganaste-te, disse o companheiro do almuadem, Saberei que me enganei quando me vieres dizer que no se v um nico vulto de soldado cristo em toda a redondeza da terra que te rodeia, Ficarei aqui a vigiar e depois irei  mesquita dizer-to, s um bom muulmano, que Al te d nesta vida e na eterna o prmio que perfeitamente mereces. Digamos ns j, antecipando, que uma vez mais Al tomou em boa conta o voto do almuadem, pois, no que a esta vida toca, sabemos que este a quem impropriamente chammos Bom Samaritano ser o penltimo mouro a morrer no cerco, e sobre a vida eterna no temos mais que esperar que algum mais bem informado venha c dizer-nos, chegando o tempo, que prmio foi o tal e para qu. Por nossa parte, aproveitamos a ocasio para mostrar que no estamos de menos no exerccio da bondade, da caridade e da fraternidade, agora que o almuadem perguntou, Quem daqui me ajuda a descer a escada.
   Tambm o revisor Raimundo Silva vai precisar que o ajudem a explicar como, tendo ele escrito que os cruzados no ficaram para o cerco, nos aparecem agora desembarcadas umas tantas pessoas,  roda duma centena, se acreditarmos no clculo dos mouros, feito de longe e a olho.
    certo que tal ficada no  completa novidade para ns, pois j sabamos, desde o feio lance em que Guilho da Longa Espada abrutadamente falou ao rei, que uns quantos fidalgos estrangeiros logo ali tinham declarado que podamos contar com eles, mas nem os ditos deram ento o motivo da sua deciso nem D. Afonso Henriques manifestou vontade de o saber, pelo menos no a mostrou publicamente, e, se em privado veio a ficar esclarecido, em privado tudo ficou, no h registo, nem ele to-pouco interessaria  trama destes casos. Seja como for, o que Raimundo Silva no pode  continuar na sua, isto , que nenhum cruzado havia querido fazer negcio com o rei, porquanto est a a Histria Acreditada a dizer-nos que, tirando alguma no conhecida excepo, aqueles senhores prosperaram muito na terra portuguesa, basta lembrar, para que no se imagine que falamos em vo e tambm para que no sofra desmentido o refro No dar ponto sem n, que a D. Alardo, francs, deu o nosso bom rei Vila Verde, e a D. Jordo, francs como ele, a Lourinh, e aos irmos La Corni, que com o tempo mudaram o nome para Correia, calhou-lhes Atouguia, ali onde h alguma confuso E na Azambuja, que no se sabe se foi logo dada a Gil de Rolim ou mais tarde a um seu filho com o mesmo nome, neste caso no se trata duma falta de registo, mas da impreciso do que existe. Ora, para que esta e outra gente pudesse cobrar as suas doaes, era necessrio comear por faz-la desembarcar, portanto temo-la a, disposta a merec-las com as armas, deste modo ficando mais ou menos conciliado o terminante No do revisor com o Sim, o Talvez Que e o Ainda Assim de que se fez a histria ptria. Dir-se- que todos aqueles juntos e outros no mencionados pouco alm iro da meia dzia, e que se podem contar por muitos mais estes que aqui vm andando para o arraial, sendo portanto natural curiosidade querer saber quem eles sejam e se tambm receberam terras e senhorios ao cabo dos seus trabalhos. Reparo  este sem cabimento e que deveria ser simplesmente desprezado, mas  sinal de boa formao moral ser tolerante com a ignorncia sem culpa, e paciente com a temeridade, por isso esclareamos que o mais comum deste pessoal, alm de uns tantos homens de armas a soldo dos senhores, so criados que vieram de pau-mandado para as operaes de carga e descarga e para o mais que se requeira, constando ainda, no papel de concubinas ou barregs adstritas aos servios particulares de trs fidalgos, outras tantas mulheres, uma delas de origem, as restantes colhidas em desembarques para refresco e aguada, que, verdade seja dita, melhor fruta que esta no se descobriu at hoje nem consta que cresa nos mundos desconhecidos.
   Raimundo Silva pousou a esferogrfica, esfregou os dedos que as arestas dela tinham vincado, depois, num movimento lento, de cansao, recostou-se na cadeira. Est no quarto onde dorme, sentado a uma mesa pequena que colocou ao lado da janela, de maneira que olhando  sua esquerda pode ver os telhados do bairro e tambm, a espaos, entre as empenas, o rio. Decidiu que para o seu trabalho de reviso de obra alheia continuar a servir-se do escritrio, interior, mas isto que est escrevendo, venha ou no a ser histria do cerco de Lisboa, o far s claras, com a luz natural caindo sobre as suas mos, sobre as folhas de papel, sobre as palavras que forem nascendo e ficando, que no ficam todas as que nascem, por sua vez fazendo elas luz sobre o entendimento das coisas, at onde se pode, e aonde, a no ser por elas, no se chega. Apontou num papel solto o pensamento, se tanto se lhe pode chamar, com a ideia de vir a utiliz-lo mais tarde, calhando, em alguma reflexo sobre o mistrio da escrita, que culminar provavelmente, seguindo a lio definitiva do poeta, na precisa e sbria declarao de que o mistrio da escrita est em no haver nela mistrio nenhum, verificao que, a ser aceite, nos conduziria  concluso de que se no h mistrio na escrita, to-pouco o haver no escritor. Diverte-se Raimundo Silva com este arremedo de meditao profunda, a sua memria de revisor est cheia de versos e de prosas, so troos, fragmentos, e tambm frases completas, com sentido, pairam na lembrana como clulas quietas e resplandecentes vindas doutros mundos, a sensao  a de estar emerso no cosmo, apreendendo o perfeito significado de tudo, sem mistrio. Se Raimundo Silva pudesse alinhar, pela ordem certa, tudo quanto a sua memria contm de palavras e frases avulsas, bastaria dit-las, regist-las num gravador, e teria assim, sem o esforo penoso de escrever, a Histria do Cerco de Lisboa que ainda est buscando, e, sendo outra a ordem, outra seria a histria, outro o cerco, Lisboa outra, infinitamente.
   J l vo os cruzados pelo mar fora, livrando-nos da exigente e incmoda presena de treze mil figurantes, porm a tarefa de Raimundo Silva em pouco se viu simplificada, pois tantos como aqueles, pelo menos, so os portugueses, e, muitssimo mais do que a soma de uns e outros, so os mouros dentro da cidade, incluindo os fugidos de Santarm que aqui vieram parar, cuidando encontrar proteco atrs destas muralhas, pobres deles, feridos e desgraados. De que maneira h-de Raimundo Silva lidar com toda esta gente,  a formal pergunta. Por seu gosto, supomos que tomaria cada um deles de per si, estudar-lhe-ia a vida, os precedentes e os consequentes, os amores, as rixas, a maldade e a bondade que houve nela, e especialmente cuidaria muito daqueles que vo morrer em breve, pois no  de prever que nos tempos mais prximos surja outra oportunidade de ficar algum registo escrito do que foram e fizeram. Tem Raimundo Silva clara conscincia de que a tanto no podem alcanar os seus limitados dons, em primeiro lugar porque no  Deus, e que o fosse, se mesmo o outro, apesar da fama, no conseguiu nada que se parecesse a este propsito, em segundo lugar porque no  historiador, categoria humana que mais se aproxima da divindade no modo de olhar, e em terceiro lugar, inicial confisso, porque para a criao literria nunca teve jeito, debilidade esta que obviamente lhe dificultar um convincente manejo da efabulao inventiva de que todos, mais ou menos, participamos. Do lado dos mouros, o mais que at agora conseguiu foi um almuadem que aparece de vez em quando e que se encontra na menos satisfatria situao possvel, pois sendo algo mais que um figurante, no o  bastante para tornar-se em personagem. Do lado dos portugueses, tirando o rei, o arcebispo, o bispo e uns tantos fidalgos conhecidos, e estes intervindo somente como portadores de um nome, o que h de patente e indiscernvel  uma enorme confuso de caras que no se sabe a quem pertencem, treze mil homens que falam sabe-se l como e que, tendo sentimentos, quem o duvida, os exprimem to distantemente da nossa compreenso que mais perto estaro eles dos seus inimigos mouros do que de ns, que temos ttulo e bandeira de descendentes.
   Raimundo Silva levanta-se e abre a janela. Daqui, se as informaes da Histria do Cerco de Lisboa de que foi revisor no enganam, pode ver o local onde acamparam os ingleses, os aquitanos e os bretes, alm na encosta da Trindade para o lado do sul e at  ravina da Calada de S. Francisco, mais metro menos metro, ali est a igreja dos Mrtires, que no deixa mentir. Agora, na Nova Histria,  o arraial dos portugueses, por enquanto todos juntos,  espera do que o rei decida, se ficamos, se partimos, ou como . Entre a cidade e o acampamento dos lusitanos, para chamar-lhes como eles no se chamavam a si prprios, vemos o largo esteiro, to extenso, terra dentro, que para dar-lhe a volta a p enxuto seria preciso passar, no seu brao oriental, por onde comea a Rua da Palma, e, no brao ocidental, por alturas da Rua das Pretas, uma boa caminhada atravs de campos que ainda ontem estavam um mimo de trato e agora, alm de saqueados de tudo quanto se pudesse comer, se vem pisados e queimados como se a cavalaria do Apocalipse ali tivesse passado com os seus cascos de fogo. Havia declarado o mouro que o arraial portugus se estava movendo, e assim era, mas em pouco voltaram a ficar quedos, que  quis D. Afonso Henriques receber com todo o seu exrcito os senhores cruzados que se aproximavam,  frente da minguada tropa desembarcada, assim os honrando especialmente, e tanto mais quanto muito o enfadara a partida dos outros. Conhecendo ns j o bastante destes encontros e assembleias de gente grada em sangue e em poder,  tempo de ver quem mais est, que soldados so estes nossos, espalhados entre o Carmo e a Trindade, esperando ordens sem o refrigrio de um cigarro, esto por a sentados ou parados de p ou passeando entre amigos,  sombra das oliveiras, que com o bom tempo que tem feito so poucas as tendas armadas, e o mais do pessoal tem dorso com a cabea sobre o escudo, sentindo, por algum tempo, de noite, o calor da terra, e depois aquecendo-a a ela com o seu prprio corpo, at ao dia em que venham a juntar-se um frio a outro frio, tarde seja.  Forte motivo temos para andar mirando a estes homens, toscamente armados em comparao com os arsenais modernos de Bond, Rambo and Company, e  ele o motivo, encontrar por aqui algum que possa servir de personagem a Raimundo Silva, pois este, tmido por natureza ou feitio, infenso a multides, deixou-se ficar na sua janela da Rua do Milagre de Santo Antnio sem ousar descer  rua, e bem mal procede, se no era capaz de vir sozinho pedisse companhia  doutora Maria Sara, tem-se visto quanto  mulher para resolutas aces, ou ento, talvez mais romntico e interessante sinal de solido se no de cegueira, que trouxesse consigo o co das Escadinhas de S. Crispim, que bonito quadro seria um barquinho a remos atravessando o manso esteiro, na gua de ningum e um revisor remando, enquanto o co, sentado  popa, vem bebendo os ares e, nos intervalos, mordendo to discretamente quanto pode as pulgas que lhe desferem aguilhadas nas partes sensveis. Deixemos pois tranquilo este homem ainda no de todo preparado para ver, ele que de rever tem profisso, e que s ocasionalmente, por passageiro distrbio psicolgico, repara, e busquemos-lhe algum que, no tanto por mritos prprios, alis sempre discutveis, como por uma espcie de predestinao adequada, possa tomar o seu lugar no relato naturalmente, to naturalmente que depois venha a dizer-se, como se diz de uma evidncia de coincidentes, que nasceram um para o outro. Porm, no  fcil. Uma coisa  tomar um homem e lev-lo a uma multido, como em outros casos se assistiu, outra  buscar na multido um homem e, no mais que por v-lo, dizer,  este. Quase no h velhos no arraial, estamos num tempo em que se morre cedo e muito, sem contar que para a guerra j lhes pesariam as pernas e fraquejariam os braos, nem todos podem aguentar tanto como Gonalo Mendes da Maia, o Lidador, que, tendo agora setenta anos, parece estar na flor da idade, e aos noventa ainda andar  espadeirada ao rei de Tnger, morrendo finalmente. Vamos buscando e ouvindo, que estranha lngua fala a nossa gente,  uma dificuldade a acrescentar a todas, que to custosamente os percebemos a eles como eles a ns, apesar de pertencermos  mesma portuguesa ptria, afinal, isso a que modernamente chamamos conflito de geraes talvez no seja muito mais do que uma questo de diferenas de linguagem,  um supor. Est aqui uma roda de homens sentados no cho, debaixo de frondosa oliveira, que, pelos retorcidos do tronco e geral vetustez do aspecto, deve ter pelo menos dois dobros dos anos que tem o Lidador, e se ele fere e mata, ela contenta-se com produzir azeite, cada um  para o que nasce, diz-se, mas este ditado inventou-se para as oliveiras, no para os homens. Estes aqui, por agora, no fazem mais do que escutar um outro, moo novo e alto, barbado curto, de plo negro. Alguns mostram cara de quem j ouviu a histria mil vezes, porm sem fastio, so soldados que estiveram em Santarm quando foi da clebre tomada, os outros, pela ateno que prestam ao relato, v-se logo que pertencem  incorporao recente, vieram-se juntando ao exrcito pelo caminho, pagos por trs meses como os demais, do soldo se faz soldada e da soldada soldado, e, enquanto a guerra no comea, entretm a sede de glria prpria com as faanhas da glria alheia. A este homem haver que reconhecer-lhe um nome, ele o tem, sem dvida, como qualquer de ns, mas o problema est em que teremos de escolher entre o que ele supe ser seu, Mogueime, e outro que lhe daro mais tarde, Moigema ser, no se pense que tais equvocos s sucediam nas antigas e ignaras idades, de algum deste sculo soubemos que levou trinta anos a dizer que se chamava Diogo Luciano, at ao dia em que, precisando de tirar papis, veio a revelar-se que afinal no passava de Deocleciano, e no ganhou com a troca, apesar de imperador. Esta questo dos nomes no a deveis tomar por insignificante, Raimundo no poderia ser Jos, Maria Sara no quereria ser Carlota, e Mogueime no merece que lhe chamemos Moigema. Posto o que poderemos agora aproximar-nos, sentar-nos no cho se apetece, e ouvir.
   Diz Mogueime, Que foi pela calada da noite, estivemos  espera at de madrugada em um vale encoberto e escuso to perto da vila que ouvamos bradar as sentinelas no muro, tnhamos tomadas nos braos as rdeas com o cuidado de no relincharem os cavalos, e quando veio o quarto da lua, que os capites entenderam que estavam os vigias assonorentados, fomo-nos todos dali, ficaram os pajens no vale com as bestas, e pelo semideiro alcanmos a chegar  fonte de Atamarma, que este nome lhe deram por serem doces as suas guas, e indo alm nos acercmos do muro, mas ento estava passando nele a rolda, que foroso foi termos de esperar outra vez, calados calados num campo de trigo, e quando pareceu bem a Mem Ramires, que era o que mandava nesses que estavam comigo, demos em subir asinha a ladeira, a teno era prender uma escada no muro levantando-a numa lana, mas quis a m fortuna, ou o Maligno para empecer a obra, que resvalasse com grande som indo cair no telhado de um oleiro, foi a aflio muita de todos, se os vigias acordassem havia perigo de perder-se a empresa, abaixmo-nos cosidos com a sombra do muro, e depois, como no davam os mouros sinal, chamou-me Mem Ramires por ser o mais alto e mandou-me que subisse aos seus ombros, e eu prendi a escada em cima, depois subiu ele e eu com ele, e outro comigo, e quando espervamos que subissem os demais, acordaram os vigias e um deles perguntou, Menfu, que quer dizer, Quem anda a, e Mem Ramires, que fala o arbigo como se fora mouro, disse que ramos da rolda e que tnhamos voltado atrs por umas ordens, e tendo o mouro descido da torre cortou-lhe a cabea, que lanmos fora, assim ficando os nossos seguros de que tnhamos entrado na praa, mas o outro vigia percebeu quem ramos e comeou a bradar a grandes vozes Anauchara, anauchara, que na lngua deles quer dizer Cilada de cristos, nessa altura j ramos dez em cima do muro, a veio a rolda a correr e comearam as cutiladas de uma parte e da outra, bradava Mem Ramires chamando em ajuda Santiago, patrono de Espanha, e el-rei D. Afonso que estava fora respondia a altas vozes dizendo, Santiago e Santa Maria Virgem acudi-nos, e mais dizia, Matai-os a todos que no escape um, enfim, os incitamentos do costume entretanto por outra parte subiram vinte e cinco dos nossos e foram-se s portas trabalhando de abri-las, mas s o puderam conseguir depois que de fora lhes lanaram um macho de ferro com que britaram os embudos e as fechaduras, e ento entrou el-rei com os seus e, fincados os joelhos no cho, no meio da porta, comeou a dar graas a Deus, mas logo se levantou porque vinham os mouros correndo a defender a entrada, porm j Lhes chegara a hora da morte, que os nossos avanando de roldo os mataram, e com eles muitas mulheres e meninos, e grande multido de gados, e foi tanto o sangue que corria pelas ruas como um rio, e por esta guisa se ganhou Santarm em cuja tomada eu fui, e outros que aqui esto comigo. Alguns desses nomeados acenaram com a cabea confirmando, sem dvida teriam os seus prprios feitos para contar, mas sendo dos a quem as palavras faltam sempre, primeiro por no serem em nmero bastante, segundo porque no acodem quando se lhes pede, deixaram-se ficar como estavam, calados na roda, ouvindo aquele mais loquaz e jeitoso na principiada arte de falar portugus, passe o exagero, que teramos a mais avanada lngua do mundo se h oito sculos e meio um simples militar sem graduao j pudesse construir discurso to claro, onde nem as felicidades narrativas faltam, a alternncia do breve e do longo, o corte sbito, a mudana de plano, a suspenso, at a ironia levemente desrespeitosa de fazer erguer-se o rei da sua orao de graas, no fosse dar-se o caso de chegar o alfange antes do amm, ou, para recorrer pela milsima vez ao inexaurvel tesouro da sabedoria popular, fia-te na Virgem e no corras, e vers o que te acontece, calcula-se que no seria boa coisa. Um dos magalas, sem mais experincia de guerra que ver passar a tropa, mas dotado de perspiccia e bom senso, percebendo que nenhum dos da velha guarda queria tomar a palavra, disse o que com certeza todos estariam a pensar, Est na cara que Lisboa vai ser um osso mais duro de roer, interessante metfora que fez regressar ao relato o co e os ces, pois sero precisos muitos e muitssimos para conseguir meter o dente nos altos e alentados muros que d'alm nos desafiam e onde esto alvejando albornozes e armas relampejando. O aviso enegreceu de agoiros os nimos dos companheiros, nisto de guerras nunca se sabe quem vai morrer, e realmente h sortes que acontecem uma vez e nunca mais, muito loucos devero estar os mouros de Lisboa se se deitarem a dormir quando a hora fatal chegar, apostemos que desta vez no vai ser preciso nenhuma sentinela gritar, Menfu, porque demasiado j eles sabem quem est e o que quer. Valeu no passo melanclico estarem aqui dois pajens dos que tinham ficado a guardar os cavalos naquele escuso e encoberto vale de Santarm, e comearem a folgar, com grandes risadas, lembrando o que haviam feito eles e os outros a umas quantas mouras fugidas da vila e que o destino encaminhara para ali, negro destino, que depois de tomadas por fora uma e muitas vezes, as mataram sem d, como a infiis que eram. Contrariou no entanto Mogueime, usando da sua autoridade de combatente da primeira linha, que estava bem, no aceso da batalha, matar sem olhar a quem, porm no assim, depois de haverem desfrutado dos seus corpos delas, mais de cristo seria deix-las ir, declarao esta, humanitria, que os pajens contestaram argumentando que sempre as deveremos matar, fodidas ou no, para que no possam mais gerar desses perros mouros e danados. Pareceu que no saberia Mogueime dar resposta a razo to radical, mas de um recesso oculto do entendimento tirou umas poucas palavras que deixaram os pajens sem fala, Porventura haveis matado dentro delas filhos de cristos, foi caso de tambm a estes lhes terem faltado as palavras, pois bem podiam ter ripostado que filho de cristo s o  se de crist for tambm, o que deve t-los embuchado foi uma sbita conscincia da sua importncia de apstolos, se onde quer que larguem semente deixam sinal de cristandade. Um clrigo que por aqui adregasse de passar, um capelo militar, aclararia definitivamente o tema, deixando limpas de dvidas as almas e fortalecidas as razes e a f, mas a gente da religio est toda com o rei, esperando os fidalgos estrangeiros, e agora devem ter chegado, deram mostra disso as aclamaes, cada um faz a festa que pode, dentro do devido, neste caso tanto por to pouco.
   A Raimundo Silva, a quem sobretudo importa defender, o melhor que souber, a heterodoxa tese de se terem recusado os cruzados a ajudar  conquista de Lisboa, tanto lhe far uma personagem como outra, embora, claro est, sendo pessoa de impulsos, no possa evitar aqueles movimentos de simpatia ou repulsa instantneos, por assim dizer perifricos ao cerne das questes, que no raro acabam por fazer depender de acrticas preferncias ou antipatias pessoais o que deveria decidir-se conforme os dados da razo e, neste caso, da histria. No moo Mogueime atraiu-o a desenvoltura, se no mesmo o brilho, com que relatou o episdio do assalto a Santarm, mas, mais do que bondades literrias, aquele seu humanitrio impulso, demonstrativo duma alma bem formada, ou naturalmente relapsa s influncias negativas do meio, que o levara a apiedar-se das infelizes mouras, e no  porque no lhe agradem as filhas de Eva, ainda que degeneradas, estivesse ele no vale, em vez de andar s cutiladas aos maridos delas, e refocilaria a carne tanto e to regaladamente como tinham feito os outros, porm cortar-lhes o pescoo que um minuto antes beijara e mordera de prazer, no. Aceita portanto Raimundo Silva a Mogueime para sua personagem, mas considera que alguns pontos ho-de ser previamente esclarecidos para que no restem mal-entendidos que possam vir a prejudicar, mais tarde, quando j os laos do inevitvel afecto que liga o autor aos seus mundos se tenham tornado irrompveis, prejudicar, dizamos, a plena assuno das causas e dos efeitos que ho-de apertar esse n com a dupla fora da necessidade e da fatalidade.  preciso, efectivamente, saber quem mente aqui e quem diz a verdade, e no estamos a pensar na questo dos nomes, se  Mogueime, ou Moqueime, como tambm no falta quem viesse a chamar-lhe, ou Moigema, como est dito,  certo que os nomes so importantes, mas s passam a s-lo depois de os conhecermos, antes disso uma pessoa no  seno uma pessoa, e basta, olhamo-la, est ali, podemos reconhec-la noutro lugar, conheo-a, dizemos, e basta. E se, enfim, vimos a saber como se chama, o mais certo  que do nome conjunto nos limitemos a escolher ou a receber, como mais precisa identificao, apenas uma parte dele, o que prova que, sendo o nome importante, no tem todo ele a mesma importncia, que Einstein se chamasse Alberto -nos relativamente indiferente, como to-pouco nos pesa no sabermos que outros nomes teria Homero. O que sim quereria Raimundo Silva averiguar  se as guas da fonte da Atamarma eram realmente doces, como afirmou Mogueime, anunciando a lio futura da Crnica dos Cinco Reis de Portugal, ou se, pelo contrrio, eram amargas, como expressamente o declara o outras vezes citado Frei Antnio Brando na sua estimada Crnica de D. Afonso Henriques, o qual vai ao ponto de dizer que por serem as guas amargosas  que  fonte chamavam da Atamarma, o que, posto em vernculo e em inteligvel, equivaleria a dizer, rigorosamente, fonte das guas Amargas. Embora no seja a mais importante questo a apurar, deu-se Raimundo Silva ao trabalho de reflectir o suficiente para concluir que, logicamente, embora por de mais saibamos que nem sempre a realidade segue o recto caminho da lgica, no faria sentido, sendo as guas da terra no seu geral doces, pretender distinguir uma fonte por aquilo que pertence ao geral delas, motivo por que tambm no se chamaria fonte das avencas a uma fonte que fetos rodeassem, ento pensou, at posterior verificao doutras fontes, histricas e documentais, que seriam amargas as guas da Atamarma, e, continuando a pensar, que um dia dever ir sab-lo pela maneira prtica, isto , bebendo-as, com o que chegar, experimental e provavelmente,  concluso, enfim definitiva, de que so salobras, assim satisfazendo toda a gente, uma vez que do salobro se pode dizer que est a meio caminho entre o doce e o amargo.
   Porm, de nomes e paladares no cura Raimundo Silva tanto quanto parece, apesar da extenso e demora destes debates mais prximos, qui apenas demonstrativos do tal pensamento oblquo que a doutora Maria Sara julgou reconhecer nele, to-pouco o conhecendo ainda. O que realmente preocupa o revisor, agora que j aceitou Mogueime como personagem,  ach-lo em contradio, se no em flagrante mentira, situao para que no pode haver outra alternativa que a verdade, pois aqui no ficou espao para uma nova fonte da Atamarma oferecendo conciliadoramente umas guas que no so nem sim nem no. Disse Mogueime, e muito por claro o explicou, que subiu aos ombros de Mem Ramires para prender a escada nas ameias do muro, o que, alis, viria demonstrar, pela via do facto histrico, o que ainda podamos imaginar serem aquelas idades, to prximas da de ouro que dela conservavam o brilho de certas aces, neste caso ter dado um fidalgo da corte de D. Afonso o seu precioso corpo para suporte, plinto e pedestal dos plebessimos ps dum soldado sem outros mritos aparentes que ter crescido mais do que os outros. Mas o que Mogueime disse, e, v l, o confirma Frei Antnio Brando, desmente-o o texto mais antigo da Crnica dos Cinco Reis, onde se escreve, sem tirar nem pr, que Dom Mendo ouue gram dor em seu coraa se por uentura se espantass as vellas pello som e amergeosse e esteue quedo h pouco & depois fez lanar curuo h mancebo Mogueime e sobio aima com asina delrey e por cima delle fez lanar a escada ao muro, ora isto  muito lmpido e claro, apesar das peculiaridades lexicais e ortogrficas, o que se l  que Mogueime se curvou para que s costas lhe subisse Mem Ramires e que por ordem deste o fez, no h prestidigitaes de interpretao nem casusticas de linguagem que admitam uma leitura diferente. Raimundo Silva tem diante de si os dois textos, compara-os, nenhuma dvida pode subsistir, Mogueime  indiscutivelmente mentiroso, tanto pelo que resulta da lgica das situaes hierrquicas, ele soldado, o outro capito, quanto pela autoridade particular de que se investe, como texto anterior que , a Crnica dos Cinco Reis. A pessoas s interessadas nas grandes snteses histricas, ho-de estas questes parecer-lhes irremediavelmente ridculas, mas ns devemos  atender a Raimundo Silva, que tem uma tarefa a cumprir e que logo de entrada se v a braos com a dificuldade de conviver com personagem to duvidosa, este Mogueime, Moqueime ou Moigema, que, alm de mostrar no saber exactamente quem , porventura est maltratando a verdade que, como testemunha presencial, seria seu dever respeitar e transmitir aos vindouros, ns.
   Porm, disse o outro, atire a primeira pedra aquele que se achar sem pecado. Realmente,  muito fcil acusar Mogueime mente, Mogueime mentiu, mas ns, aqui, maiormente instrudos nas mentiras e verdades dos ltimos vinte sculos, com a psicologia lavrando as almas, e a mal traduzida psicanlise, mais o resto, para cuja simples enunciao se requereriam cinquenta pginas, no deveramos levar  ponta de intransigente espada os defeitos alheios se to indulgentes costumamos ser com os nossos prprios, a prova  no haver lembrana de algum que, julgador severo e radical dos actos por si cometidos, levasse o executrio nimo ao extremo de apedrejar o prprio corpo. Alis, regressando ao passo evanglico, -nos lcito duvidar que o mundo estivesse naquele tempo to empedernido de vcios que para salvar-se carecesse do Filho de um Deus pois  o prprio episdio da adltera que a est a demonstrar-nos que as coisas no iam assim to ms l na Palestina, agora sim que esto pssimas, veja-se como naquele remoto dia nem mais uma pedra foi lanada contra a infeliz mulher, bastou ter proferido Jesus as fatais palavras e logo ali se recolheram as mos agressoras, por esta maneira declarando, confessando e mesmo proclamando os seus donos que sim senhor ele tinha razo, em pecado estavam. Ora, uma gente que foi capaz de reconhecer-se culpada publicamente, ainda que de modo implcito, no estaria de todo perdida, conservava intacto em si um princpio de bondade, autorizando-nos portanto a concluir, com mnimo risco de erro, que ter havido alguma precipitao na vinda do Salvador. Hoje, sim, que teria valido a pena, pois no s os corruptos perseveram no caminho da sua corrupo, como se vai tornando cada dia mais difcil encontrar razes para interromper um apedrejamento comeado.
    primeira vista, no parecer que estas digresses moralizantes tenham uma relao suficiente com a relutncia que Raimundo Silva tem mostrado em aceitar Mogueime como personagem, mas j se compreender a utilidade delas quando nos lembremos de que Raimundo Silva, supondo que esteja isento de faltas maiores, tem culpas habituais em outra decerto no menor, mas mundanamente tolerada por mrito da sua prpria divulgao e acessibilidade, e que  o fingimento. De mais ele sabe que no h uma diferena quem subiu s costas de por a alm entre mentir sobre Ramires s quem se eu s de Mem Ramires, se Mem Ramires s minhas, e, s para dar um exemplo, o acto banal de pintar os cabelos, tudo , no fim das contas, questo de vaidade, vontade de parecer bem, tanto no fsico quanto no imoral, podendo mesmo, desde j, imaginar-se um tempo em que o comportamento humano ser todo ele artificioso, postergando-se, sem mais contemplaes, a sinceridade, a espontaneidade, a simplicidade, essas bonssimas e luminosas qualidades de carcter que tanto trabalho deram a definir e a tentar praticar nas pocas j distantes em que, embora conscientes de havermos inventado a mentira, ainda julgvamos ser capazes de viver a verdade.
   Pelo meio da tarde, numa pausa entre as dificuldades do cerco e as futilidades do romance, o tal que a editora espera, Raimundo Silva saiu  rua, a espairecer. No pensava mais do que isso, dar uma volta, distrair-se, arrumar ideias. Mas, tendo passado  porta duma florista, entrou e comprou uma rosa. Branca. E agora est voltando para casa, um pouco envergonhado por levar uma flor na mo.
   

   
   Sem tira-te nem guarda-te,  falsa f, atacaram os avies japoneses a esquadra norte-americana que estava demolhando as obras vivas em Pearl Harbour, e foi ali o destroo que se sabe, regular quanto a perdas de gente, se compararmos com Hiroxima e Nagasqui, mas de consequncias catastrficas no que toca aos bens materiais, couraados, porta-avies, destroyers, e o resto, um prejuzo de arrasar as finanas, ao todo treze barcos metidos no fundo sem que alguma vez tivessem disparado um tiro a srio, fora os exerccios. Foi uma causa remota do naval desastre ter-se perdido, numa hora qualquer daquela noite dos tempos que guarda os segredos, ter-se perdido, dizamos, o costume cavaleiresco de mandar publicar as guerras com um aviso prvio de trs dias, para que ao inimigo no faltasse tempo de preparar-se ou, preferindo, de pr-se a salvo, outrossim para que no casse, sobre quem a trgua decidira romper, o labu infamante de desleal ao honor militar. Tempos que no voltam nunca mais. Porque, enfim, uma coisa  atacar pela calada da noite, sem tambores nem trombetas, mas tendo antes mandado recado, outra seria, sem tir-te nem guar-te, vir com pezinhos de l e armas pretas at umas portas descuidosamente abertas e entrar por ali dentro, a matar. J sabemos que ningum pode fugir ao seu destino, e est muito claro que as mulheres e as crianas de Santarm estavam fadadas para morrer naquela noite, era esse um ponto em que tinham chegado a acordo o Al dos mouros e o Deus dos cristos, mas ao menos no poderiam queixar-se as infelizes de no terem sido avisadas, se ficaram foi de sua livre vontade, que  vila de Santarm mandou o nosso bom rei a Martim Moab e mais dois companheiros que publicassem a guerra aos mouros para da a trs dias, portanto no incorria D. Afonso Henriques em culpas mentais e reais quando disse, antes da batalha, No perdoeis a sexo nem a idade, morra o menino que pende dos braos da me e o velho carregado de dias, a donzela moa, a velha decrpita,  que ele imaginava, pois que usou da cautela prescrita no cdigo, que s o estariam esperando a p firme os guerreiros mouros, todos homens e no vigor da idade.
   Ora, neste caso de que nos estamos ocupando, o cerco de Lisboa, qualquer aviso teria sido redundante, no s por, a bem dizer, estarem as pazes rotas desde a tomada de Santarm, como por serem evidentes e manifestas as intenes de quem juntou exrcito to numeroso nas colinas de alm e s no pde acrescentar-lhe umas tantas divises mais por causa de um erro tipogrfico agravado de sentimentos de despeito e vaidade ofendida. Porm, e ainda assim, h que cumprir e respeitar as formalidades, adaptando-as a cada caso, por isso determinou el-rei que fossem a parlamentar com o governador da cidade D. Joo Peculiar e D. Pedro Pites, acompanhados de fidalguia bastante, com reforo de homens de armas na proporo, tanto para o luzimento como para a segurana. Com vista a esquivar a surpresa duma traio irreparvel no atravessaram o esteiro, pois no  necessrio ser estratego como Napoleo ou Clausewitz para perceber que, se aos mouros desse para porem mo nos emissrios e estes quisessem fugir, o esteiro estaria ali para cortar qualquer tentativa de retirada rpida, se  que as brigadas de assalto mouriscas, entretanto, em manobra de envolvimento, no teriam j destrudo os bateles de desembarque. Deram pois os nossos a volta por onde foi dito que a volta tinha de ser dada, seguindo Rua das Taipas abaixo at ao Salitre, depois, com o susto natural em quem entra no campo inimigo, patinhando na lama em direco  Rua das Pretas, logo subindo e descendo, primeiro ao Monte de Santa Ana, depois pela Rua de S. Lzaro, passando a vau o arroio que vem de Almirante Reis, e outra vez fatigosamente trepando, que ideia esta vir conquistar uma cidade toda aos altos e baixos, pela Rua dos Cavaleiros e pela Calada de Santo Andr at s imediaes da porta a que hoje chamamos de Martim Moniz sem razo nenhuma. A caminhada foi longa, pior com este calor, apesar da hora matinal a que saram, as mulas tm o plo empapado em espuma, e os cavalos, poucos, vo no mesmo estado, se no pior, porquanto lhes falta a resistncia dos hbridos, so bestas mais delicadas. Quanto  infantaria, embora j o suor lhe escorra em bica, no se queixa, mas se, enquanto todos esperam que a porta se abra, algum pensamento os de a p entretm,  que depois duma tal estafa, a corta-mato, no venha a ser preciso pelejar nem um pouquinho. Mogueime est aqui, calhou mandarem-no no destacamento, e adiante, perto do arcebispo, vemos tambm Mem Ramires,  uma coincidncia interessante terem-se juntado neste histrico momento dois dos principais protagonistas do episdio escalabitano, ambos com igual influncia no seu desenlace, pelo menos enquanto no for definitivamente averiguado qual deles foi arre-burrinho do outro. O pessoal que veio a esta fala parlamentar  todo de portugueses, no pareceu bem a el-rei servir-se de estrangeiros para o reforo do ultimatum, ainda Que, diga-se de passagem, subsistam grandes dvidas de que o arcebispo de Braga pertena, de facto, ao nosso sangue lusitano, mas enfim, j nesses antigos tempos tinha principiado a fama que mantivemos at hoje de receber bem a gente de fora distribuir-lhes cargos e prebendas, e este D. Joo Peculiar v l, pagou-nos multiplicado em servios patriticos. E se como tambm se diz, era mesmo portugus, e de Coimbra vejamo-lo como pioneiro da nossa vocao migratria, da magnfica dispora, pois toda a sua juventude a passou em Frana, a estudar, devendo notar-se aqui uma acentuada diferena em relao s tendncias recentes da nossa emigrao para aquele pas, plutt adstrita aos trabalhos sujos e pesados. Quem  indubitavelmente estrangeiro, mas contado  parte por vir em misso especial, nem parlamentrio nem homem de guerra,  aquele frade ruivo e sardento, ali, a quem agora mesmo ouvimos chamar Rogeiro, mas que realmente tem por nome Roger, o que deixaria em aberto a questo de ser ele ingls ou normando, se no fosse ela despicienda para o assunto que nos ocupa. Avisara-o o bispo do Porto de que estivesse pronto para escrever, o que significa que veio Roger ou Rogeiro de cronista, como agora se evidencia ao sacar ele dos alforges os materiais de escrita, s os estiletes e as tabuinhas, j que com o menear da mula se derramaria a tinta e esparramaria a letra, tudo isto, j se sabe, so suposies de um narrador preocupado com a verosimilhana, mais do que com a verdade, que tem por inalcanvel. Este Rogeiro no conhece uma palavra de arbigo nem de galego, mas neste caso no ser impedimento a ignorncia, pois todo o debate, v por onde v, sempre ir dar ao latim, graas aos intrpretes e aos tradutores simultneos. Em latim falar o arcebispo de Braga, para o arbigo o traduzir algum destes frades que vieram, se no se preferir recorrer a Mem Ramires, representante do exrcito ilustrado, que j mostrou mais do que suficiente competncia, depois responder o mouro na sua lngua, que o mesmo ou outro frade transpor ao latim, e assim sucessivamente, o que no sabemos  se haver por aqui algum encarregado de passar ao galego um resumo de quanto se disser, para que se vo inteirando do debate os portugueses de uma lngua s. O certo certo  que, com todas estas demoras, se os discursos forem longos, vamos passar aqui o resto da tarde.
   Eirados, ameias e caminhos de rolda do alcar esto apinhados de escuros e barbados mouros que fazem gestos de ameaa, porm calados, poupando as palavras, que talvez os cristos acabem por retirar-se, como fizeram h cinco anos, e sendo assim seriam ofensas perdidas. Abriram-se de par em par as duas folhas da porta, reforadas de cravos e cintas de ferro, e saram por ela uns quantos mouros em passo lento, um deles, passado da idade, poder ser o governador, ttulo este que d para tudo e que no caso  usado  falta de certezas quanto ao prprio, exacto e preciso, finalmente no mencionado por ser to duvidoso acertar entre os dois ou trs possveis, alm de no ser de excluir a probabilidade de l de dentro terem mandado a negociar, por exemplo, um alfaqui, um cdi, um amir, ou mesmo um mufti, o mais que deles vm so funcionrios e homens de guerra, em nmero rigorosamente igual ao dos portugueses que esto fora, por isso  que os mouros tero tardado tanto em sair, primeiro foi preciso organizar o destacamento. Em geral, imagina-se que as autoridades civis, militares e religiosas dos antigos tempos eram, todas elas, dotadas de rgos vocais estentreos, capazes de se fazerem ouvir a grandes distncias, tanto assim que nos relatos histricos quando algum chefe tem de arengar s tropas ou outras multides, ningum estranha que ele tenha sido ouvido sem dificuldade por centenas e milhares de ouvintes rumorosos quantas vezes desassossegados, quando bem sabemos o trabalho que hoje d a instalar e afinar as electrnicas para que cheguem ao pblico das ltimas filas sem desfalecimentos acsticos, sem distores e borres de som que, evidentemente, afectariam os sentidos e alterariam os significados. Portanto, indo contra o costume e conveno, e com uma infinita pena de ter de desmentir aplaudidssimas tradies de espectculo e de histricas cenografias, somos obrigados, por amor  simples verdade, a declarar que os emissrios de um lado e do outro se encontraram a poucos passos de distncia, e a esse fcil alcance  que falaram, como nica maneira de se fazerem ouvir, ficando os circunstantes, tanto os mouros do castelo como os portugueses da companhia,  espera do desenlace do colquio diplomtico, ou do que, durante ele, viessem os alvissareiros comunicar  pressa, uns fragmentos de frases, uns arrebatamentos retricos, umas sbitas angstias, umas duvidosas esperanas. Assim definitivamente ficar a saber-se que no ressoaram sobre os vales os ecos do debatimento nem de monte em monte saltaram, os cus no se comoveram, no tremeu a terra, o rio no tornou atrs,  que realmente a tanto no puderam alcanar at hoje as palavras dos homens, mesmo sendo de ameaa e guerras como estas, ao contrrio do que imaginvamos por ingnua confiana nas exageraes dos picos.
   Disse o arcebispo, e Rogeiro logo em abreviado e taquigrfico o registou, para mais tarde deixando os aformoseamentos oratrios com que brindar aquele seu destinatrio distante, Osberno chamado, l onde quer que esteja e quem quer que tenha sido, porm j vai introduzindo redondeios de lavra prpria, frutos da inspirao estimulada, Viemos aqui para nos reconciliarmos, principiara o arcebispo, e continuou, pois temos pensado que sendo todos, ns e vs, filhos da mesma natureza e de um mesmo princpio, mal parecia que prossegussemos nesta mais do que desagradvel contenda, e assim gostaramos que acreditsseis que no viemos c para tomar a cidade ou despojar-vos dela, por onde j podeis ir comeando a apreciar a benignidade dos cristos em geral, que ainda quando exigem o que  seu, no roubam o alheio, e se nos argumentais que a isso mesmo  que viemos, responderemos que s reivindicamos como sendo de nosso direito a posse desta cidade, e que se em vs existem nem que sejam uns vestgios dos princpios da justia natural, sem mais rogos, com vossas bagagens, dinheiro e peclios, com vossas mulheres e crianas, sem dvida demandareis a ptria dos mouros que sois e donde malamente viestes, deixando-nos o que nosso , no, consenti que acabe, bem vejo que abanais a cabea a um lado e a outro, mostrando j com o gesto o no que a boca ainda no disse, atendei que vs, os da raa dos mouros e moabitas, fraudulentamente roubastes ao vosso e nosso reino o reino da Lusitnia, destruindo, at hoje, vilas e aldeias e igrejas, so j passados trezentos e cinquenta e oito anos que injustamente tendes as nossas cidades e a posse das terras, mas enfim, visto que ocupais Lisboa desde to longa data e nela nascestes, queremos usar convosco da costumada bondade e vos pedimos que nos entregueis apenas a fortaleza do vosso castelo, ficando cada um de vs com a sua antiga liberdade, porque vos no queremos expulsar de vossas casas, onde vos protesto que podeis viver dentro dos costumes, a no ser que, pela converso, queirais vir livremente aumentar a Igreja de Deus, nica e verdadeira, quem vos avisa vosso amigo , uma cidade como esta de Lisboa est exposta  ambio de muitos, de to rica que sabemos ser e to feliz que parece, vede a os arraiais, as naus, a multido de homens que est conjurando contra vs por isso vos imploro, poupai-vos  desolao dos campos e dos frutos, compadecei-vos das vossas riquezas, compadecei-vos do vosso sangue, aceitai a paz oferecida enquanto ainda vos  favorvel a nossa disposio, pois bem deveis saber que melhor  a paz que se obtm sem luta do que a alcanada com muito sangue, como mais agradvel  a sade que nunca se perdeu do que a sade que  fora e como que compelida se salva de doenas graves e quase mortais, no  por acaso que o digo, reparai quo grave e perigosa  a doena que vos ataca, que a no ser que tomeis uma resoluo salutar, uma de duas acontecer, ou lograis debelar o mal, ou sereis vtima dele, e j vos digo que no vos fatigueis a buscar terceiras alternativas, antes devereis acautelar-vos, pois haveis chegado ao fim, cuidai pois da vossa sade enquanto  tempo, lembrai-vos do ditado romano, Na arena se aconselha o gladiador, e no me respondais que mouros  que sois e no gladiadores, que eu vos diria que o ditado a vs serve como a eles, se ides a morrer, posto o que no tenho mais que argumentar convosco se alguma coisa tendes a dizer, dizei j, e breve.
   No pareceram palavras prprias de um pastor de almas, esta secura fria que se adivinha por baixo das blandcias e das melfluas, finalmente rompendo em intimao brutal, porm, antes de seguirmos adiante, deixemos ficar nova meno, agora sublinhada, daquele de algum modo inesperado reconhecimento de que a gente que aqui est, crist e moura,  toda ela filha da mesma natureza e de um mesmo princpio, o que significar, supomos, que Deus, da natureza pai e nico autor do princpio de que os princpios provieram,  inquestionavelmente o pai e o autor destes desavindos filhos, os quais, ao combaterem um contra o outro, ofendem gravemente a paternidade comum em seu no repartido amor, podendo at dizer-se, sem exagerar, que  sobre o inerme corpo de Deus velho que vm pelejando at  morte as criaturas suas filhas. Deu naquelas palavras clara mostra o arcebispo de Braga de saber que Deus e Al  tudo o mesmo, e que remontando ao tempo em que nada e ningum tinham nome, ento no se encontrariam diferenas entre mouros e cristos seno as que se podem encontrar entre homem e homem, cor, corpulncia, fisionomia, mas o que provavelmente no ter pensado o prelado, nem tanto lho poderamos exigir, tendo em conta o atraso intelectual e o analfabetismo generalizado daquelas pocas,  que os problemas sempre comeam quando entram em cena os intermedirios de Deus, chamem-se eles Jesus ou Maom, para no falar de profetas e anunciadores menores. J  muito de agradecer-lhe que v to fundo na via da especulao teolgica um arcebispo de Braga armado e equipado para a guerra, com a sua cota de malha, o seu montante suspenso do aro da mula, o seu elmo de nasal, qui no lhe permitam as mesmas armas que leva chegar a concluses de humanitria lgica, pois j ento podia ver-se at que ponto os artefactos de guerra podem levar um homem a pensar diferentemente, sabemo-lo hoje muito melhor, embora ainda no o suficiente para que retiremos as armas a quem, no geral, delas se serve como nico crebro. Porm, longe de ns a inteno de ofender estes homens ainda pouco portugueses que andam a combater para criar uma ptria que lhes sirva, em campo aberto quando for necessrio, pela traio quando convenha, que as ptrias foi assim que nasceram e frutificaram, sem excepo, por isso  que, tendo cado em todas, pode a ndoa passar por adorno e sinal de mtua absolvio.
   Divagando por estas possivelmente arriscadas consideraes, viemos a perder o comeo da resposta do governador mouro, e pena temos, porque ele, segundo o que o alviareiro ainda foi capaz de perceber e resumir, teria principiado por lanar algumas dvidas sobre o direito ou mesmo a simples pertinncia geogrfica da aluso ao reino da Lusitnia. Foi pena, repetimos, porquanto a controversa questo dos limites e, mais do que ela, a de afinal sermos ou no descendentes e herdeiros histricos dos famosos lusitanos, teria recebido, talvez, da argumentao de gente to ilustrada como eram, ao tempo, os letrados mouros, alguma claridade, ainda que a viessem a rejeitar, por desfavorvel, o orgulho e a patritica presuno de quem no pode reconhecer-se vivo sem ter no sangue, pelo menos, duas ou trs gotas do de Viriato. E  mesmo provvel que, tendo-se concludo que de Lusitnia teremos ainda menos do que isso, e portanto menos propenso devendo achar-se Andr de Resende a extrair de Luso lusada,  quase certo, diremos, que Cames no encontrasse melhor soluo que chamar ao seu livro, banalmente, Os Portugueses. Que somos ns, pelo pouco que nos aproveita. E agora, sim, antes que o resto do discurso se perca tambm, dmos ouvidos e ateno ao governador dos mouros, notando desde j como Lhe sai tranquila a voz, no tom de quem sossegadamente discorre sobre alguns dados da evidncia e dela no pensa afastar-se, Como quereis vs, perguntava ele, que acreditemos nisso que dissestes de que somente desejais que vos entreguemos a fortaleza do nosso castelo, ficando ns com a liberdade, e que no quereis expulsar-nos das nossas casas, se vos desmente o exemplo do que haveis feito em Santarm, onde por morte atrocssima at aos velhos roubastes a pouca vida que Lhes restava, e s indefesas mulheres degolastes como a cordeiros inocentes, e aos meninos esquartejastes sem que se vos derretesse o corao o dbil clamor, ora no me digais que se vos apagaram da memria os tristes sucessos, que se  verdade que no podemos trazer-vos aqui os mortos de Santarm, podemos, isso sim, chamar todos quantos, feridos, chagados e mutilados, ainda tiveram foras para se recolherem  nossa cidade, esses mesmos que agora ireis exterminar de vez, e a ns com eles, pois no vos bastou o primeiro crime, porm, desenganai-vos que nunca foi nossa inteno entregar-vos Lisboa pacificamente ou submet-la ao vosso domnio, deixando-nos ficar nela, concordai que seria grande a nossa ingenuidade se trocssemos o certo pelo incerto, o seguro pelo duvidoso, fiados apenas dessa palavra que to pouco vale, a vossa. Fez o bispo do Porto um gesto violento, como se fosse interromper o mouro, mas o arcebispo cortou-lhe o arrebato, Estai quedo, ouamos o que falta, vs tereis a ltima palavra. O mouro continuava, Esta cidade foi outrora dos vossos, agora porm  nossa, e no futuro talvez que vossa volte a ser, mas isso pertence a Deus que no-la deu quando quis, e que no-la tirar se o quiser, porque nenhuma muralha  inexpugnvel contra as deliberaes da sua vontade, assim ns o acreditmos sempre, porque apenas queremos o que for do agrado de Deus, que tantas vezes salvou das vossas mos o nosso sangue, e a quem, portanto, e com razo, bem como aos seus desgnios irrevogveis, no deixaremos de admirar, no s porque em seu poder esto todos os males, mas ainda porque, por sua suprema razo, submete a ns as desgraas, as dores e as injrias, enfim, ide-vos daqui, pois s a ferro se abriro as portas de Lisboa, e quanto a essas desgraas inevitveis que nos prometeis, se tiverem de acontecer, dependem do futuro, e atormentar-nos com o que est por vir nada mais  que loucura e atraco voluntria de misrias. O mouro fez uma pausa como para procurar outras razes, mas deve ter-lhe parecido intil, encolheu os ombros e concluiu, No vos demoreis mais tempo, fazei o que puderdes, ns o que for da vontade de Deus.
   Caram bem no nimo de Raimundo Silva as ponderadas palavras, no pelo facto de entregarem a Deus a resoluo das diferenas que em nome dele e precisamente por sua exclusiva causa levam os homens a lutar uns contra os outros, mas por uma serenidade to admirvel perante a previsvel morte, que, sendo sempre certa, se torna por assim dizer fatal ao vir com figura de provvel, parece uma contradio, porm basta pensar um pouco. Confrontando as duas falas, pesou ao revisor ver como um simples mouro a quem faltavam as luzes da verdadeira f, se bem que com patente de governador, soube, em prudncia e eloquncia, librar mais alto seu voo que um arcebispo de Braga, apesar de versado em conclios, bulas e doutrinais. Mui natural  propender em ns o desejo de que ganhem em tudo os nossos, e Raimundo Silva, embora suspeitando que haja no corpo da nao a que pertence mais sangue de mourisma do que de arianos lusitanos, teria gostado de aplaudir a dialctica de D. Joo Peculiar em vez de ter de humilhar-se intelectualmente diante do discurso exemplar de um infiel que no deixou nome na histria. Porm, cabe ainda a possibilidade de prevalecermos finalmente sobre o inimigo nesta justa oratria, e  quando o bispo do Porto toma a palavra, tambm ele armado, pe a mo no punho do montante, sobre a cruz que l est, e diz, Benevolamente vos falmos, esperando encontrar em vs ouvidos benvolos, mas se irritados nos haveis escutado, tempo  de que vos digamos palavras irritadas, e elas sero para que fiqueis sabendo quanto desprezo votamos a esse hbito vosso de esperar pelo correr dos factos e pelos males que nos venham, quando claramente se mostra que frgil e fraca  a esperana que no depende da confiana do valor prprio, mas sim da desgraa alheia,  como se de antemo j vos reconhecsseis vencidos, e pois que falastes do incerto e do futuro, aprendei que quantas mais vezes nos for desfavorvel o resultado duma empresa, tantas mais vezes a havemos de tentar para que bem nos suceda, e tendo as nossas tentativas contra vs sido frustradas at hoje, aqui estamos a tentar de novo, para que finalmente experimenteis o destino que vos espera quando entrarmos por essas portas que agora no nos quereis abrir, sim, vivei vs o que for da vontade de Deus, a ns essa mesma vontade nos far vencer-vos, e sem mais que merea a pena dizer, retiramo-nos sem saudar-vos, como tambm no queremos as vossas saudaes. Ditas estas palavras de insultuosa despedida, virou o bispo do Porto as rdeas  montada, embora segundo a hierarquia a ele no competisse tomar destas iniciativas, movera-o um impulso do seu irado nimo, e j levava em ps si a companhia toda, quando inesperada se levantou a voz do mouro, sem vestgio nenhum da insolente resignao que pusera o prelado fora de si, agora falava com no menor insolncia o orgulho, e eis o que disse, Perigoso erro  o vosso se confundis pacincia com timidez de esprito e temor da morte, olhai que assim no o fizeram vossos pais e avs a quem vencemos uma e mil vezes pela fora das armas, por toda a Espanha, sob esse mesmo cho que pisais jazem alguns que julgaram poder opor-se ao nosso domnio, no cuideis, pois, que para vs acabaram as derrotas, aqui contra estes muros vireis quebrar os ossos, aqui tereis cortadas as mos vidas, ide, e preparai-vos para morrerdes, ns, j o sabeis, sempre o estamos.
   No h no cu uma nuvem, o sol brilha alto e ardente, um bando de andorinhas vai e vem, rodopiam sobre as cabeas dos dois inimigos, e gritam asperamente. Mogueime olha para o cu, sente um arrepio, talvez a causa dele seja o guinchar louco das aves, talvez a ameaa do mouro, o calor do sol no o conforta, de um frio estranho entrechocam-se-lhe bruscamente os dentes, vergonha de um homem que com uma simples escada de mo fez cair Santarm.
   No silncio ouviu-se a voz do arcebispo de Braga, uma ordem dada ao escrivo, Frei Rogeiro, no fareis constncia do que disse esse mouro, foram palavras lanadas ao vento e ns j no estvamos aqui, amos descendo a encosta de Santo Andr, a caminho do real onde el-rei nos espera, ele ver, sacando ns as espadas e fazendo-as brilhar ao sol que  comeada a batalha, isto sim, podeis escrever.
   

   
   Nos primeiros dias depois de haver lanado fora as tintas com que, durante anos, escondera os estragos do tempo, Raimundo Silva, como um semeador ingnuo  espera de ver romper o primeiro talo, observava com ateno obsessiva, de manh e  noite, a raiz dos cabelos, saboreando morbidamente a expectativa do choque que certamente iria causar-lhe o surgimento da sua verdade capilar nua de artifcios. Mas porque o cabelo, a partir duma certa idade,  vagaroso no crescer, ou porque a ltima pintura tivesse atingido, ou tingido, as prprias camadas subcutneas, diga-se de passagem que tudo isto no  mais que suposio obrigada por uma necessidade de explicar o que afinal pouca importncia tem, Raimundo Silva acabou por ir dando cada vez menos ateno ao caso, e ultimamente metia o pente ao cabelo to livre de cuidados como se estivesse na sua primeira juventude, devendo no entanto observar-se que havia nesta atitude uma certa parte de m-f, uma espcie de falsificao de si consigo mesmo, mais ou menos traduzvel numa frase que no foi dita nem pensada, No vejo porque sou capaz de fingir que no vejo, o que veio a converter-se numa convico aparente, ainda menos formulada, se possvel, e irracional, de que a ltima pintura tinha sido definitiva, assim como um prmio concedido pelo destino em paga do seu corajoso gesto de renncia s futilidades do mundo. Hoje, porm, que tem de ir levar  editora o romance por fim lido e preparado para a tipografia, Raimundo Silva, entrando na casa de banho, aproximou devagar o rosto do espelho, com dedos cautelosos empurrou para cima o tufo frontal de cabelos, e no quis acreditar no que os seus olhos viam, l estavam as razes brancas, to brancas que o contraste da cor parecia torn-las fortssimas, e tinham um ar sbito, se tal se pode dizer, como se tivessem brotado da noite para o dia, enquanto o semeador, de puro cansao, se deixara dormir. Ali mesmo se arrependeu Raimundo Silva da deciso que havia tomado, isto , no chegou precisamente a arrepender-se, mas pensou que poderia t-la adiado por algum tempo, escolhera estupidamente a ocasio menos oportuna, e a contrariedade que sentiu foi tal que imaginou que poderia conservar por a ainda algum frasco esquecido, com um resto de tinta no fundo, ao menos hoje, amanh voltarei s firmes resolues. Contudo, no foi procurar, em parte por saber que deitara tudo fora, em parte porque, supondo que algo encontraria, temia ter de decidir outra vez, pois havia a possibilidade de vir a tomar a deciso contrria, ficando neste jogo de ida e volta duma vontade incapaz de ser suficientemente forte mas que se recusa a ceder de uma vez para sempre  fraqueza que reconhece em si prpria.
   Quando Raimundo Silva ps pela primeira vez relgio de pulso, j l vo muitos anos, era ele ento juvenilssimo adolescente, quis a fortuna lisonjear-lhe a vaidade, imensa, de andar a passear-se por Lisboa com a bela novidade, colocando no seu caminho nada menos que quatro pessoas ansiosas por saber que horas eram, Tem horas, perguntavam, e ele, generoso, tinha horas e dava-as. O movimento de estender o brao para fazer recuar a manga e deixar  vista o mostrador rebrilhante conferia-lhe ento um sentimento de importncia que nunca mais voltaria a experimentar. E menos agora quando vai no caminho de casa  editora, procurando passar despercebido na rua e entre os passageiros do autocarro, recolhendo o mnimo gesto que possa atrair as atenes de quem, querendo tambm saber as horas, se ficasse a olhar com expresso trocista a indisfarvel linha branca de separao no alto da testa enquanto esperava que ele, nervosamente, desembaraasse o relgio das trs mangas que hoje o tapam, a camisa, o casaco, a gabardina, So dez e meia, responde finalmente Raimundo Silva, furioso e vexado. Um chapu viria bem a calhar, mas  objecto que o revisor nunca usou, e que usasse, com ele s se resolveria uma pequena parte das dificuldades, certamente que no vai entrar na editora de chapu enfiado na cabea, Ol, como esto todos, de chapu na cabea passando depois ao gabinete da doutora Maria Sara, Aqui tem ; o romance, o melhor, sem dvida, ainda ser fazer de contas que  tudo muito natural, branco, preto, pintado, olha-se uma vez, no se olha segunda, e  terceira j ningum repara. Mas uma coisa  reconhecer isto pelo intelecto, convocar ao exame a relatividade que concilia todas as diferenas, perguntar-se, com desprendimento estico, que , do ponto de vista de Vnus, um cabelo branco na terra outra coisa terrvel enfrentar-se com a telefonista, suportar o seu olhar indiscreto, imaginar j os risinhos de murmrios que vo alimentar os cios nos prximos dias, O Silva deixou de pintar o cabelo, ficou de um cmico, antes I tinham-se rido porque o pintava, h pessoas que em tudo vem motivo de divertimento. E de repente todas estas preocupaes ridculas foram por gua abaixo porque a telefonista Sara estava a dizer-lhe, A doutora Maria Sara no se encontra, est doente, h dois dias que no vem  editora por causa de to simples palavras viu-se Raimundo Silva dividido por dois sentimentos contrrios, o contentamento por no poder ela ver-lhe o cabelo branco a despontar, e uma aflio desmedida, que no vinha da doena, de cuja ' gravidade ainda nada sabia, podia ser uma gripe sem complicaes, ou uma indisposio acidental, coisas de mulheres, por exemplo, mas porque de repente se viu como que perdido, um homem arrisca tanto, sujeita-se a vexames, tudo para poder entregar em mo prpria o original de um romance, e a mo no est l, repousa talvez numa almofada ao lado do plido rosto, onde, at quando. Raimundo Silva, num segundo, percebe que se demorou tanto a entrega do trabalho foi para saborear, com uma volpia inconsciente, a espera de um momento que agora lhe escapava, A doutora Maria Sara no est, dissera a telefonista, e ele fez um movimento para retirar-se, mas depois lembrou-se de que tinha de deixar o original a algum, ao Costa, evidentemente, O senhor Costa est, perguntou, nesse momento deu-se conta de que se colocara de perfil em relao  telefonista, com o propsito bvio de furtar-se  observao, e, irritado com tal demonstrao de fraqueza, rodou sobre os calcanhares para enfrentar-se com todas as curiosidades do mundo, mas a menina Sara nem o olhou, estava ocupada a meter e tirar cavilhas da central telefnica ainda de modelo antigo, e limitou-se a fazer um gesto afirmativo, ao mesmo tempo que com um vago movimento de cabea apontava o corredor de entrada, tudo isto significando que o Costa estava e que para o Costa no era necessrio anunciar este visitante, o que Raimundo Silva, alis, bem sabia, pois antes da chegada da doutora Maria Sara no tinha mais que entrar e ir  procura do Costa que, sendo a Produo, podia estar em qualquer dos outros gabinetes, pedindo, reclamando, protestando, ou simplesmente desculpando-se na administrao, como sempre tinha de fazer, fosse ou no fosse a responsabilidade sua, quando havia falhas no programa.
   A porta do gabinete da doutora Maria Sara est fechada. Raimundo Silva abre-a, olha para dentro e sente um aperto no diafragma, no pelo facto em si mesmo da ausncia, mas por uma impresso desoladora de vazio, de ltimo abandono, sugerida, talvez, pela arrumao rigorosa dos objectos, que, pensou ele algum dia, apenas  suportvel quando a perturba uma presena humana. Sobre a secretria inclinava-se, desmaiada, uma rosa branca, duas ptalas j se tinham desprendido. Nervosamente, Raimundo Silva fechou a porta, no podia continuar ali, sujeito a que aparecesse algum, mas esta ideia do gabinete vazio, onde uma nica vida, a da rosa, murchava lentamente, trespassando-se para a morte por um longo esvaimento das clulas, encheu-o de maus pressentimentos, de negros agoiros, tudo muito despropositado, pensar um pouco mais tarde, Que tenho eu que ver com esta senhora, mas nem esse desprendimento fingido o tranquilizar. O Costa atendeu-o cordialmente, Sim, a doutora Maria Sara est doente, eu tomo conta, palavras inteis, todas elas, que Maria Sara estivesse doente j Raimundo Silva o sabia, que o Costa tomaria conta era mais do que previsvel, e, quanto ao resto, no preocupar-se, de pouco lhe importava o destino prximo ou remoto do romance, o que ele queria era obter informaes, que ningum lhe daria, claro est, se por elas no perguntasse, um empregado que ficou doente em casa no justifica a publicao de boletins mdicos de hora a hora. Arriscando-se pois a ver o Costa estranhar-lhe o interesse, Raimundo Silva atreveu-se finalmente,  grave, Grave, o qu, perguntou por sua vez o outro, que no compreendera o alcance, A doena da doutora, agora a angstia de Raimundo Silva  pensar que talvez esteja a corar neste mesmo momento, Ah, acho que no, e levando o assunto para o campo das suas preocupaes profissionais, o Costa acrescentou, introduzindo uma nota levssima de ironia, dirigida tanto  doutora ausente como ao revisor presente, Mesmo que ficasse muito tempo em casa, descanse que o trabalho da editora no se interromperia. Nesta altura o Costa desviou ligeiramente a direco do olhar, uma luz de malcia sorridente perpassou-lhe no rosto. Raimundo Silva fechou bruscamente a expresso e ficou  espera de um comentrio, mas o Costa j tinha voltado ao romance, folheava-o como se estivesse  procura de algo que no saberia definir, porm, a atitude, percebia-se, no era de todo consciente, e ento foi a vez de o revisor sorrir  lembrana daquele dia em que o Costa folheara outro livro, as provas erradas da Histria do Cerco de Lisboa, de cuja falsificao finalmente frustrada viriam a ser consequncia estas grandes mudanas, estas alvoroadas alteraes, um cerco novo, um encontro que ningum teria podido prever, uns sentimentos que principiavam a mover-se, vagarosamente, como as ondas pesadas de um mar de mercrio. De sbito, o Costa viu que estava a ser observado, julgou compreender porqu, e, como quem executa uma vingana tardia, perguntou, Desta vez tambm aqui meteu algum no, e Raimundo Silva respondeu com ironia tranquila, Esteja descansado, desta vez meti um sim. O Costa largou de golpe o mao de folhas e disse secamente, Se no tem mais nada a tratar comigo, deixou ficar em suspenso a frase, com reticncias invisveis, mas Raimundo Silva, graas  sua longa experincia de revisor, no precisaria delas para saber que devia retirar-se.
   A menina Sara aproveita uma pausa para acertar com mil cuidados uma unha que se lhe partiu minutos antes naquela infernal dobadoira de cavilhas, j tem o rasgo rematado e agora alisa subtilmente com a lima, est muito concentrada, decerto no vai responder a Raimundo Silva como ele desejaria, ele que enquanto vinha pelo corredor tivera aquela brilhante ideia, auxiliada porventura pelo duelo dialctico com o Costa, so as vantagens de um exerccio ginstico intelectual, mas agora se ver se vai servir de alguma coisa, a pergunta  esta, Sabe se a doutora Maria Sara pode receber chamadas,  que tenho um assunto, outra frase suspensa, o olhar ansioso, em verdade a altura no poderia ser pior, a inevitvel irritao de quem acabou de partir uma unha comprida e ovalada, e ainda por cima ser preciso procurar na lista o nmero do telefone, supondo que a telefonista estar disposta a dar-lho, Pouca sorte, pensa Raimundo Silva, logo havia de ter acontecido isto, a unha, a lima, Ai, senhor Silva, o trabalho que estas unhas me do, tomara j que me tirem daqui este ferro-velho e me dem uma central moderna, dessas s com botezinhos, electrnica, saber se pode receber chamadas isso no sei mas dou-lhe o nmero, tome nota. Tinha-o de cor, era uma vaidade sua, decorar quantos nmeros pudesse, fazer alarde de memria, tem uma memria fenomenal, a Sara, e ainda bem, porque a este teve de o repetir duas vezes, to confuso Raimundo Silva estava, primeiro sem encontrar onde escrever, depois enganando-se nos algarismos, ouvindo seis em vez de trs, ao mesmo tempo que o crebro prosseguia no exame duma dvida, depois exposta, em tom de no dar-lhe importncia, Claro que se no fez daqui nenhuma chamada,  porque ela as no pode receber, Faz-las eu, no fiz, mas a direco pode ter falado por um telefone directo, claro, o telefone directo no passa pela telefonista, pode-se falar  vontade pelos telefones directos, Raimundo Silva cr mesmo lembrar-se de que h um telefone directo no gabinete do director literrio. A menina Sara deu por concluda a restaurao da unha e observa criticamente o resultado, tendo em conta a gravidade do dano fez o melhor que podia, est mesmo moderadamente satisfeita, ser por isso que pergunta, Se quer, eu ligo agora daqui, e Raimundo Silva ficou sem resposta, abanou negativamente e com fora a cabea, nesse momento, providncia divina, a central deu sinal de chamada, dois sinais quase simultneos, o mundo entrou na sua rbita rotineira, assim estar parecendo a quem no souber que Raimundo Silva j leva no bolso o nmero do telefone de Maria Sara, e isso faz uma grande diferena no universo.
   Contra os seus hbitos de homem poupado, voltou para casa de txi, e o caso, verdadeiramente, no era para menos, porquanto lhe tardava o momento de poder sentar-se  secretria, puxar o telefone e marcar o nmero de Maria Sara, dizer, Soube que tem estado doente, espero que no seja nada de cuidado, o romance entreguei-o ao Costa, estimo as suas melhoras, tem razo,  que para adoecer basta ter sade, a frase  estpida, que lhe havemos de fazer, pelo menos metade das coisas que dizemos so pouco inteligentes, no, o Costa no me deu outro trabalho, ora, no tem importncia, aproveito para descansar, sim, descansar, arrumo uns papis, dou balano  vida,  um modo de falar, evidentemente, o que fao  pensar que estou a pensar na vida e no estou a pensar coisa nenhuma, mas no lhe vim telefonar para a aborrecer com os meus problemas e dificuldades, de viver, claro, desejo que melhore rapidamente, espero v-la em breve na editora, adeus. Mas a senhora Maria, apesar de no ser o seu dia, veio trabalhar, explica que ter de levar um sobrinho ao mdico amanh, que esse, sim, seria o dia de aqui estar, e ento achou melhor vir trabalhar hoje, Raimundo Silva no sabia que a sua mulher-a-dias tinha um sobrinho, A minha irm no pode faltar ao servio, Est bem, no tem importncia, e fechou-se no escritrio para telefonar. Porm, a deciso acabou ali. Afinal, embora com a porta fechada, no se sentiria  vontade, mesmo para uma conversa to simples, informar-se do estado de sade de um superior hierrquico, Como tem passado, senhora doutora, seria talvez diferente, com certeza mais fcil, se em lugar duma doutora se tratasse dum doutor, se bem que, Raimundo Silva ter de reconhec-lo se for chamado  pedra, das vezes que em tantos anos estiveram os vrios directores doentes, nunca este revisor se lembrou de telefonar l para casa a saber notcias da preciosa sade deles. Concluindo, resumindo, o que Raimundo Silva parecia no querer, por qualquer obscura razo, ou pelo contrrio muito clara se tivermos em conta a personalidade que deste homem se vem definindo, retrada, perplexa,  que a senhora Maria se apercebesse de que o seu patro estaria a telefonar a uma mulher. O resultado do absurdo conflito vir a ser pedir ele que lhe ponham o almoo na mesa d cozinha e sair para libertar-se das duas obsessivas presenas, do telefone e da senhora Maria, obviamente inocentes e desconhecedores da guerra em que os meteram. Est Raimundo Silva a comer a sua costumada sopa de feijo e hortalia, enquanto um guisado de batatas e carne j aquecido espera no tacho, quando se ouve l de dentro a voz da senhora Maria a perguntar, Posso atirar fora esta rosa que est murcha, e  com um tom de quase pnico que ele responde, No, no, deixe-a estar, eu trato disso, no se chegou a ouvir o comentrio com que a mulher-a-dias rematou o dilogo, mas algumas palavras ela disse, que se no foram de despeito o imitariam perfeitamente, no esquecendo, uma vez mais, que  impossvel enganar de facto uma mulher, ainda que a-dias, se em casa de homem onde nunca antes se vira flor em jarra aparece uma rosa, ainda por cima branca,  possvel que a senhora Maria tenha dito, H mouro na costa, expresso histrica e popular duma substancial desconfiana originada nos tempos em que os mouros, j ento varridos da terra portuguesa, vinham assolar as nossas costas e vilas marinheiras, e hoje reduzida a mera reminiscncia retrica, porm de alguma utilidade, como acaba de ver-se.
   Sem o auxlio dos cruzados, que j l vo pelo mar fora, Raimundo Silva v-se privado do peso militar desses doze mil homens em quem tnhamos depositado tantas das nossas esperanas, restando-lhe apenas, aproximadamente, no mais do que outros tantos portugueses, em nmero insuficiente para cercar tudo numa frente contnua, e que, sempre estando  vista dos mouros, no podero deslocar-se em conjunto para, por exemplo, dar assalto a qualquer das portas, sem que de tal movimento logo dem f os de dentro, que mais tempo tero para guarnecer poderosamente os alvos do ataque que os de fora para irem de um lado a outro por montes, vales e no pouca gua. Torna-se portanto necessrio reconsiderar toda a estratgia, e  para examinar in loco o teatro das operaes que Raimundo Silva volta a subir ao castelo, de cujas levantadas torres podem os olhos abarcar a extenso, como um tabuleiro de xadrez aonde viro pelejar, objectivamente falando, os pees e os cavaleiros, sob as vistas do rei e dos bispos, acaso com a ajuda dumas outras construdas torres, se for por diante a sugesto de um destes estrangeiros que connosco ficaram, Armamo-las da altura das muralhas e levamo-las de empurro at encostarem, depois  s saltar dentro e matar os infiis, Dito assim parece fcil, respondeu o rei, mas  preciso ver se temos carpinteiros que cheguem, Que essa no seja a dvida, tornou o outro, aquele Henrique de seu nome e grande piedade, vivemos felizmente num tempo em que qualquer homem pode fazer tudo, semear o cereal, ceif-lo, moer o gro, cozer o po, e finalmente com-lo, se no morrer antes, ou, como neste caso, construir uma torre de madeira e subir a ela de espada em punho para matar o mouro ou por ele ser morto.
   Enquanto o debate prossegue, ainda sem concluso mas j com previso de perdas, Raimundo Silva rev mentalmente a localizao das portas, a de Alfofa, sobre cujo muro vive, a de Ferro, a de Alfama, a do Sol, que directamente do para a cidade, e a de Martim Moniz chamada, nica do castelo que d para o aberto. Est pois claro que os doze mil soldados do rei Afonso vo ter de ser divididos em cinco grupos para cobrirem as portas igualmente, e quem diz cinco deveria dizer seis, porque no nos podemos esquecer do mar, que verdadeiramente mar no , mas rio, porm o uso faz lei, chamaram-lhe os mouros mar, e ns at hoje, ora, sendo assim, dos grupos falamos, que  que temos, a ridicularia de dois mil homens para cada frente de batalha. Sem contar, Deus nos ajude, com o problema apresentado pelo esteiro. No bastava j o escarpado dos acessos, se se exceptuar a porta de Alfama, que est em terreno cho, ainda tinha este esteiro de vir intrometer-se para agravar a j de si complicada disposio das tropas, por enquanto espalhadas por aqueles altos e encostas do Monte de S. Francisco, at S. Roque, descansando, poupando as foras na suavidade das sombras, mas se de uma tal distncia no se poderia lanar um ataque, nem as armas de tiro alcanam, to-pouco seria isto cerco digno do nome com aquele esteiro ali em baixo, desguarnecido, dando passagem franca a reforos e abastecimentos vindos da Outra Banda, que contra eles no chegaria a ser duradouro obstculo a frgil linha de bloqueio naval que viesse a ser estabelecida. Sendo assim parece no haver outra soluo que passar mesmo quatro mil homens para o lado de l, enquanto os outros iro a rodear pelo caminho que tomaram os parlamentrios Joo Peculiar e Pedro Pites, colocando-se finalmente em frente das trs portas viradas a norte e oriente, a saber, a de Martim Moniz, a do Sol e a de Alfama, como explicado j ficara antes e agora se repetiu, por comodidade do leitor e redondeio do discurso. Tornando  cautelosa e dubitante frase de D. Afonso Henriques, dito assim at parece fcil, porm, um simples olhar ao mapa mostrar logo a complexidade dos problemas de intendncia e logstica que vai ser necessrio pr em equao e resolver. O primeiro tem que ver directamente com os meios navais disponveis, que so escassos, e  aqui que mais se ir notar a falta que nos fazem os cruzados, com a sua completa armada e aquelas centenas de botes e outros barquinhos de servio, que, se c estivessem, num abrir e fechar de olhos transportariam os soldados numa largussima frente de avano, obrigando os mouros a dispersar-se ao longo da margem e portanto a enfraquecer a defesa. O segundo, e agora decisivo, ser a escolha do ponto ou pontos de desembarque, questo de crucial importncia, pois h que levar em conta no s a maior ou menor proximidade das portas, como as dificuldades do terreno, desde o lamaal da boca do esteiro at s vertentes abruptas que defendem do lado do sul o acesso  porta de Alfofa. Terceiro, quarto e quinto problemas, ou sexto e stimo, poderamos ns enunciar ainda se no fossem, todos eles, efeito mais ou menos matematicamente decorrente dos dois primeiros, por isso nos limitaremos a mencionar um s pormenor, alis rico de consequncias no que diz respeito  veracidade deste relato em outros particulares, como a seguir veremos, e vem a ser, o dito pormenor, a pequenssima distncia que separa a Porta de Ferro da margem do esteiro, no mais que cem passos, ou, em medida moderna, uns oitenta metros, o que inviabiliza que o desembarque aqui se faa, pois ainda a flotilha de canoas viria padejando fatigosamente, por via da carga de homens e armas, a meio do esteiro, e j os muros da cidade, deste lado, estariam guarnecidos de soldados, e outros, a p firme, rente  gua, esperariam a aproximao dos portugueses para os crivarem de setas. Dir portanto D. Afonso Henriques ao seu estado-maior, Afinal, fcil  que no , e enquanto discutem novas variantes tcticas recordemos ento aquela gorda mulher que na Leitaria A Graciosa, ao princpio destes acontecimentos, falando do msero estado em que vinham os fugidos ao avano, disse que os vira entrar, em sangue, pela Porta de Ferro, o que nessa altura a todos pareceu ser verdade pura, pois a publicava uma testemunha presencial. Sejamos porm lgicos. Est claro que, pela sua proximidade da margem do esteiro, a Porta de Ferro serviria, sobretudo, ao trfego fluvial de pessoas e mercadorias, o que, obviamente, no seria motivo para no entrarem por ela refugiados se no fosse a circunstncia de estar localizada, por assim dizer, no extremo sul da muralha, sendo portanto, de todos os acessos, o mais distante para quem viesse enxotado do norte e dos lados de Santarm. Que alguns infelizes, varridos de Entre-Cascais-e-Sintra, tivessem alcanado a cidade por caminhos que vinham dar ao esteiro, e, a chegados, encontrassem ainda barqueiros para transport-los  margem de c,  perfeitamente admissvel. Contudo, no seriam esses casos tantos que autorizassem a mulher gorda a fazer uma referncia especial  Porta de Ferro, quando ela, a mulher, to perto estava da Porta de Alfofa, que mesmo o mais desatento dos observadores de mapas e topografias reconhecer como mais adequada, a par das do Sol e de Alfama, a receber o triste aluvio. E o que  curioso  no ter nenhuma das outras pessoas presentes contrariado a inexacta verso de factos para cuja confirmao no se necessitariam mais do que alguns passos, o que mostra a que pontos pode chegar a falta de curiosidade e a preguia intelectual perante qualquer afirmao peremptria, donde quer que venha e qualquer que seja a autoridade, mulher gorda ou Al, para no citar outras conhecidas fontes.
   Disse el-rei, Ouvidas as vossas doutas opinies e tendo ponderado os inconvenientes e as vantagens dos vrios planos propostos,  minha real vontade que todo o exrcito se mova deste lugar para irmos a sitiar a cidade mais cerca dela, pois aqui no alcanaramos vitria nem at ao fim do mundo, e procederemos como agora vos direi, s fustas iro mil homens dos afeitos  navegao, que para mais no teramos embarcaes bastantes, mesmo contando com os barcos que os mouros no puderam levar para dentro dos muros ou destruir e que ns capturmos, e esses homens tero por misso cortar todas as comunicaes por mar, que ningum possa entrar ou sair por a, e o grosso restante das tropas ir concentrar-se no Monte da Graa, onde finalmente nos dividiremos, dois quintos para as portas do lado nascente, outros dois quintos para as do lado poente, e o sobrante ficar ali para guardar a porta do norte. Pediu ento Mem Ramires a palavra para notar que sendo muito mais rdua e perigosa a tarefa dos soldados que iriam atacar as portas de Alfofa e de Ferro, por ficarem, digamos assim, entalados entre a cidade e o esteiro, prudente seria refor-los, pelo menos durante o tempo que levassem a consolidar posies, pois grande desastre seria se os mouros, fazendo uma rpida surtida e achando fraca a resistncia, empurrassem os portugueses at  gua, onde no teramos mais que escolher entre morrer afogados ou trucidados, postos,  um modo de falar, entre o alfange e o caldeiro. Pareceu bem a el-rei o conselho, e logo ali nomeou Mem Ramires capito da frente ocidental, deixando para mais tarde a designao dos outros comandos, Quanto a mim, sendo por natureza e real dever de todos vs comandante, tomarei tambm sob minhas directas ordens um corpo de exrcito, precisamente o que vai ficar no Monte da Graa, onde estar instalado o quartel-general. Foi a vez de intervir o arcebispo D. Joo Peculiar para dizer que a Deus no pareceria bem que os mortos desta batalha pela conquista da cidade de Lisboa viessem a ser sepultados avulsamente por esses montes e vales, mas que, pelo contrrio, deveriam receber sepultura crist em campo santo, e que, uma vez que desde que ali tinham chegado, alguns poucos j tinham morrido, por doena ou causa de briga, e por a andavam enterrados, fora do arraial, fosse o cemitrio consagrado neste mesmo local, j que de facto principiado estava. Usou ento da palavra o ingls Gilberto, em nome dos estrangeiros, argumentando que seria indecente, por confuso, que no dito cemitrio se misturassem os portugueses e os cruzados, pois que estes, se quisesse Deus que nestas paragens deixassem a vida, deveriam a todos os ttulos ser considerados mrtires, tal como prometidos mrtires eram j aqueles outros que, navegando agora no mar,  Terra Santa fossem morrer, pelo que em sua opinio se haveriam de consagrar no um mas dois cemitrios, ficando cada qual morto com seu igual defunto. Agradou a el-rei a proposta, embora se tivessem notado alguns murmrios de despeito entre os portugueses, que mesmo morrendo se viam privados das glrias do martrio, e logo no minuto seguinte, saindo todos fora, foram marcados os limites provisrios dos dois cemitrios, deixando-se a sagrao deles para quando o terreno ficasse limpo destes vivos pecadores, e dadas j as ordens para, na altura prpria, se desenterrarem e tornarem a enterrar aqueles desgarrados mortos primeiros, por uma casualidade todos portugueses. El-rei, cumpridos os trabalhos de agrimensura, encerrou a sesso, de que, para constar, se lavrou a competente acta, e Raimundo Silva regressou a casa, passava a tarde de meio.
   A senhora Maria j no estava, o que enfadou Raimundo Silva, no por ter ela abreviado as tarefas, se o fizera, mas porque agora no havia ningum entre ele e o telefone, nenhuma indiscreta testemunha que, com a sua presena, pudesse absolv-lo da cobardia, ou timidez, opo vocabular menos contundente, que o derrotara ao defrontar-se com aquele seu outro eu que com to fina astcia arrancara  telefonista da editora o nmero de Maria Sara, segredo, como se viu, dos mais bem guardados do universo. Mas esse diferente Raimundo Silva no  companhia certa, tem seus dias, ou nem tanto, apenas horas ou segundos, s vezes irrompe por a com uma fora que parece capaz de remover mundos, os de fora e os de dentro, mas no dura to depressa vem logo parte, lume que ainda bem no se acendeu j est apagado. O Raimundo Silva que aqui est diante do telefone, impotente para levantar o auscultador e marcar um nmero, foi homem, do alto do castelo, tendo a seus ps a cidade, foi homem, dizemos, para elaborar as tcticas mais convenientes  ingente tarefa de cercar e conquistar Lisboa, mas agora pouco lhe falta para que se arrependa do momento de audcia louca em que cedeu  vontade do outro, e vai ao ponto de procurar nos bolsos o papel onde tomou nota do nmero, no para utiliz-lo, mas com a esperana de o ter perdido. No o perdeu, est a, na mo aberta, amarrotado, como se, e assim realmente havia sido embora disso se no lembre Raimundo Silva, todo o tempo o tivesse estado buscando e tacteando, com medo de o perder. Sentado  secretria, com o telefone ao lado, Raimundo Silva imagina o que poderia acontecer se se resolvesse a marcar o nmero, que conversao travaria diferente da que antes inventara, e quando est a passar em revista as diversas possibilidades ocorre-lhe, e  absurdo que lhe ocorra pela primeira vez, que nada conhece da vida particular de Maria Sara, se  casada, viva, solteira ou divorciada, se tem filhos, se vive com os pais, ou apenas com um deles, ou nenhum, e essa realidade ignorada torna-se ameaadora, sacode e derruba as frgeis arquitecturas de sonho e de estpida esperana que tem andado a levantar desde h algumas semanas em cho de areia e nenhuma firmeza, Suponhamos que marco o nmero e me sai uma voz de homem que me diz que ela no pode atender ao telefone, est de cama, mas que eu diga o que pretendo, se  recado, pergunta ou informao, que no, que s queria saber se a doutora Maria Sara est melhor, sim, um colega, e enquanto estivesse a diz-lo perguntar-me-ia, uma vez mais, se de facto a palavra tem aplicao neste caso, tratando-se da relao profissional existente entre um revisor e o seu chefe, e chegando a conversa ao fim eu perguntaria Com quem falei, e ele responderia Sou o marido, ora  certo que ela no usa aliana, mas isso nada significa, no faltam a casais que no a usam e nem por isso se consideram menos felizes, ou ento no o so, e tanto faz, alis a resposta do homem seria igual em qualquer caso, diria Sou o marido ainda que o no fosse, com certeza no me ia responder Sou o companheiro, companheiro deixou de usar-se, e muito menos Sou o homem com quem ela vive, ningum se exprimiria deste modo grosseiro, porm h qualquer coisa em Maria Sara que me diz que no  casada, no se trata apenas da falta da aliana,  algo que no se deixa definir, um jeito de falar, uma maneira de estar atenta que em cada momento parece querer evadir-se para outro lugar, e quando digo casada tambm poderia dizer viver com um homem, ou ter o homem embora no vivendo com ele, isso a que costuma chamar-se uma ligao, ou relaes de acaso, sem compromisso nem consequncias,  o que mais se encontra nos tempos de hoje, que de tais bem-aventuranas no posso dizer que tenha grande experincia, pouco mais fao que observar o mundo e aprender de quem sabe, noventa por cento do conhecimento que julgamos ter  da que nos vem, no do que vivemos, e  l que est tambm o apenas pressentido, essa nebulosa informe onde ocasionalmente brilha uma sbita luz a que damos o nome de intuio, ora eu pressinto e intuo que no h qualquer homem na vida de Maria Sara, ainda que parea impossvel sendo bonita como , no ser nenhuma beleza suprema mas  bonita, digo de cara e de figura, quanto ao corpo,  vista, bom, os corpos s se sabe o que valem quando esto despidos, esta  a boa cincia, a das evidncias, melhor ainda depois, quando j se conheceu o que est coberto e dele se gostou.
   Enormes, consabidamente, so os poderes da imaginao, como neste caso outra vez foi provado, quando Raimundo Silva comeou a sentir o seu prprio corpo, o que nele estava a acontecer, primeiro um movimento de sismo lento, quase imperceptvel, depois a palpitao brusca, repetida, urgente. Raimundo Silva assiste, de olhos semicerrados segue o processo como se estivesse recordando mentalmente uma pgina conhecida, e fica quieto,  espera, at que o sangue a pouco e pouco reflui, como mar que abandonasse uma caverna, devagar, a espaos lanando ainda novas vagas ao assalto, mas  intil, a mar vaza, so os ltimos sobressaltos, por fim no h nada seno um manso escorrer de fios de gua, as algas descem espalhadas sobre as pedras onde se vo esconder uns caranguejozinhos assustados que deixam na areia molhada sinais apenas distinguveis. Agora num estado de meio entorpecimento voluntrio, Raimundo Silva pergunta-se donde vm e que querem dizer-lhe estes animalejos grotescos, com o seu modo inslito de caminhar, inquietante, como se a natureza tivesse comeado por eles o seu previsvel desconcerto geral, No futuro seremos todos caranguejos, pensou, e imediatamente a imaginao mostrou-lhe o soldado Mogueime na margem do esteiro, lavando as mos sujas de sangue e olhando os caranguejos daquele tempo que fugiam, a direito, no fundo baixo, confundindo com a sombra da gua a sua prpria cor de terra. A imagem desapareceu rapidamente, outra veio como diapositivos passando, era mais uma vez o esteiro, mas agora havia uma mulher a lavar nele roupa, Raimundo Silva e Mogueime sabiam quem era, tinham-lhes dito que era a manceba do tal cavaleiro Henrique, alemo de Bona, apanhada na Galiza quando uns tantos cruzados l desembarcaram para fazer aguada, roubou-a um criado dele, ora o cavaleiro morreu num assalto mai-lo criado, e a mulher anda agora por a, mais ou menos com quem calha, diga-se mais ou menos, porm acautelado, porque algumas vezes a tinham tomado contra sua vontade, dois que o fizeram apareceram uns dias mais tarde mortos  punhalada, no se chegou a saber quem os tinha matado, num to grande ajuntamento de homens no se podem evitar desordens e agresses, sem contar que pode ter sido obra de mouros infiltrados no arraial, ferindo pela calada e  falsa f. Mogueime aproximou-se da mulher, a alguns passos, sentou-se numa pedra, a olhar. Ela no se voltou, tinha-o visto de relance quando ele vinha, reconhecia-o pela figura e pelo jeito de andar, a condizer, mas ainda no sabia como ele se chamava, apenas que era portugus, numa ocasio ouvira-o falar galego. O mover cadenciado das ancas da mulher perturbava Mogueime. Alis, trazia-a de olho desde que o cavaleiro morrera, e mesmo muito antes, mas um soldado raso, de mais a mais medieval, no se atreveria a andar de p-de-alferes com a mulher do prximo, ainda que barreg. Cara em tristura e raiva ao ver que depois a levaram outros, mas ela no ficara com nenhum, embora eles a quisessem, como os apunhalados, que de tanto bem que lhe queriam a tentaram obrigar. Obrig-la por sua vez era ideia que Mogueime no tinha, muito menos aqui neste descampado, com gente  vista, uns soldados tambm de sueto, uns pajens que davam banho s mulas dos seus senhores, uma cena em verdade pacfica que nem parecia de cerco e intento de conquista, sobretudo se, como agora, viramos costas  cidade e ao castelo, e temos diante dos olhos a tranquila superfcie das guas do esteiro, aqui to metidas pela terra dentro que c no chega a ondulao larga do rio, e em frente as colinas com rvores dispersas num cho ora amarelado ora verde-escuro, consoante o cobre o mato perene ou os ervaais crestados pelo vero. Est calor, a hora  a do meio-dia, os olhos tm de desviar-se da gua para no ficarem deslumbrados e cegos com o resplendor fixo do sol, no os olhos de Mogueime, claro, que esses no se despegam do vulto da mulher. Agora ela ergueu o corpo, levanta e baixa o brao para bater a roupa, o rudo de estalo corre sobre a gua,  um som que no se confunde, e outro, e outro e depois h um silncio, a mulher descansa as duas mos sobre a pedra branca, um velho cipo funerrio romano Mogueime olha e no se mexe,  ento que o vento traz o grito agudo de um almuadem, quase sumido na distncia mas ainda assim inteligvel para quem, embora no conhecendo a arbiga lngua, desde h quase um ms os vem ouvindo, trs vezes ao dia. A mulher vira ligeiramente a cabea para a esquerda como para escutar melhor o apelo, e estando Mogueime desse lado, um pouco para trs, teria sido impossvel no se encontrarem os olhos dele com os olhos dela. Todo o desejo fsico de Mogueime se apagou num pice, apenas o corao se desatou aos saltos numa espcie de pnico,  difcil levar mais longe o exame da situao porque h que ter em conta o primitivismo dos tempos e dos sentimentos, corre-se sempre o risco do anacronismo por exemplo, pr diamantes em coroas de ferro ou inventar subtilezas de erotismo requintado em corpos que se contentam com ir direitos ao fim comeando rapidamente pelo princpio. Mas este soldado Mogueime j mostrou ser em alguma coisa diferente do comum quando do debate sobre a conquista de Santarm e o foramento e degolao das mulheres mouras, e se  certo ter-se mostrado nessa altura propenso a tentaes de imaginosa fantasia, tambm pode ser que por isso mesmo, contraditoriamente, se a verdade deve ir adiante de todas as coisas, encontremos a raiz da sua diferena, na dvida, na reordenao posterior de um facto, na averiguao oblqua dos seus motivos, na interrogao ingnua sobre a influncia que cada um de ns tem em actos alheios sem o sabermos ns e deliberadamente a desprezando quem deles pretende ser inteiro autor. Com os ps descalos na areia grossa e hmida, Mogueime sente o peso todo do seu corpo, como se tivesse passado a fazer parte da pedra em que est sentado, bem podiam agora as trombetas reais tocar ao assalto que o mais seguro seria no as ouvir, o que sim Lhe est ecoando na cabea  o grito do almuadem, continua a ouvi-lo enquanto olha a mulher, e quando ela enfim desvia os olhos o silncio torna-se absoluto,  verdade que h rudos em redor mas pertencem a outro mundo, as mulas resfolgam e bebem num arroio de gua doce que desagua no esteiro, e porque provavelmente no se encontraria outra maneira melhor de comear o que tem de ser feito, Mogueime pergunta  mulher, Como te chamas, quantas vezes teremos perguntado uns aos outros desde o princpio do mundo, Como te chamas, algumas vezes acrescentando logo o nosso prprio nome, Eu sou Mogueime, para abrir um caminho, para dar antes de receber, e depois ficamos  espera, at ouvirmos a resposta, quando vem, quando no  com silncio que nos respondem, mas no foi esse o caso de agora, O meu nome  Ouroana, disse ela.
   O papel com o nmero de telefone continua ali, sobre a secretria, nada mais fcil, marcar seis algarismos, e do outro lado, a quilmetros de distncia, ouvir-se- uma voz, to simples, no nos importa agora se de Maria Sara se do marido, devemos  reparar nas diferenas entre aquele tempo e este tempo, para falar, como para matar,  preciso chegar perto, assim fizeram Mogueime e Ouroana, ela veio da Galiza trazida  fora para este cerco, manceba de um cruzado que j morreu e depois lavadeira de fidalgos para merecer o que come, e ele, tendo conquistado Santarm, veio  procura duma glria maior, frente aos muros formidveis de Lisboa. Raimundo Silva marca cinco algarismos, no lhe falta seno um, porm no se decide, finge saborear a antecipao de um gosto, o arrepio de um medo, diz consigo mesmo que se quisesse completaria a srie, um gesto s, mas no quer, murmura No posso, e pousa o auscultador como quem de repente largasse uma carga que o iria esmagar. Levanta-se, pensa Tenho sede, e vai  cozinha. Enche um copo da torneira, bebe lentamente, desfruta a frescura da gua,  um prazer simples, talvez o mais simples de todos, um copo de gua quando se tem sede, e enquanto bebe imagina o arroio correndo para o esteiro e as mulas tocando com os beios a flor da corrente, h setecentos e quarenta anos, os pajens estimulam-nas com o assobio,  verdade que no h muitas coisas verdadeiramente novas debaixo da rosa do sol, nem mesmo o rei Salomo foi capaz de imaginar quanta razo tinha. Raimundo Silva pousou o copo, voltou-se, sobre a mesa da cozinha estava um papel, a costumada e desnecessria explicao da mulher-a-dias, Fui-me embora, deixei tudo arrumado, mas desta vez no  assim, nem uma palavra sobre as suas obrigaes,  outro o recado, Telefonou-lhe uma senhora, pede que ligue para o nmero, e Raimundo Silva no precisa de correr ao escritrio para saber que o nmero  o mesmo que est no papel amarrotado, aquele que tanto trabalho lhe deu a encontrar. Ou a no perder.
   

   
   O motivo por que Raimundo Silva conseguiu no telefonar a Maria Sara teve tanto de simples quanto de tortuoso, o que logo se apresenta como um modo de dizer que pouco dever  exactido, pois que estes adjectivos se aplicariam com outro rigor ao raciocnio com o qual foi obrigado o dito motivo a conformar-se. Tal como nos romances policiais clssicos, o essencial da questo residia no factor tempo, isto , a circunstncia de a chamada de Maria Sara ter sido feita durante a ausncia de Raimundo Silva, a uma hora no conhecida, que tanto poderia ser a do imediato minuto aps ele ter sado de casa como a do minuto imediatamente anterior quele em que a mulher-a-dias se retirou, hora que igualmente se desconhece, para no mencionar seno estes minutos extremos. No primeiro caso, tero passado mais de quatro horas at Raimundo Silva tomar conhecimento do recado, no segundo caso, julgando pelo costume, umas trs. Tudo bem ponderado, significa que Maria Sara, se ficou  espera de uma chamada em resposta  sua, teve tempo para pensar que talvez Raimundo Silva regressasse a casa muito tarde, a horas em que no seria de bom gosto telefonar para casa de algum, de mais a mais doente. Ainda que, expresso restritiva mas no irnica, no fosse a doena to grave que no tivesse podido, por sua prpria mo e voz, chamar esta casa vizinha do castelo, onde Raimundo Silva procura e no encontra resposta  pergunta inevitvel, Que  que ela me quer. O resto da tarde e a noite antes de se deitar levou-os ele a desenvolver um sem-nmero de variaes sobre este tema, indo do simples ao complexo, do geral ao particular, desde um qualquer pedido de informao, que seria absurdo vistas as circunstncias,  ainda maior absurdidade de querer ela declarar-lhe o seu amor, assim mesmo, pelo telefone, como quem no podia resistir mais  tentao deliciosa. A irritao consigo mesmo, por ter-se deixado levar por um pensamento louco a esta hiptese, atingiu um tal extremo que, num gesto de mau humor, foi-se  rosa branca que realmente murchava no solitrio e atirou-a ao lixo, batendo depois com fora a tampa do recipiente, em jeito de sentena final, Sou um idiota, disse em voz alta, mas no se explicou se o era por ter deixado os pensamentos irem to longe ou por ter assim maltratado uma flor inocente, que durara viosa alguns dias e merecia que a deixassem extinguir-se, marcenda, numa suavssima deliquescncia, com um resto de perfume e uma ltima e escondida brancura no seu ntimo corao. Deve-se no entanto acrescentar que, estando j deitado, noite dentro, e sem poder dormir, Raimundo Silva levantou-se e foi  cozinha, puxou de debaixo da chamin a lata do lixo e recolheu a conspurcada rosa, que delicadamente limpou e lavou num fio de gua para no magoar-lhe as frouxas ptalas, feito o que a restituiu ao solitrio, amparando-lhe a corola decada numa pilha de livros sobrepostos, o ltimo dos quais, por interessante coincidncia, era a Histria do Cerco de Lisboa, exemplar fora do mercado. O ltimo pensamento de Raimundo Silva, antes de adormecer, foi, Amanh telefono, declarao peremptria que est to de acordo, enquanto promessa, com o seu carcter hesitante como se tivesse sido proferida, com real deciso, por pessoa mais resoluta, o caso est em que nem tudo se pode fazer hoje, j  bastante a firmeza quando o no deixmos para depois de amanh.
   No dia seguinte, Raimundo Silva acordou com ideias muito claras sobre como dispor finalmente as tropas no terreno para o assalto, incluindo certos pormenores tcticos da sua prpria lavra. O sono, que viera profundo, e algum sonho auxiliar por meio, dissiparam de vez as dvidas que ainda o apoquentavam, naturais em quem nunca fora instrudo nos perigos e acasos duma guerra verdadeira, ainda por cima com no pequenas responsabilidades de mando. Era por de mais evidente que j no poderia obter-se o chamado efeito de surpresa, esse que deixa as pessoas sem aco nem reaco, sobretudo, as cercadas, que, no o tendo sabido antes, compreendem que ao saberem-no depois o souberam tarde de mais. Com todo este alarde de foras, este ir e vir de emissrios, estas manobras de envolvimento, mais que fartos esto os mouros de saber o que os espera, e a prova est naqueles eirados cobertos de guerreiros, naqueles muros inados de lanas. Raimundo Silva encontra-se numa interessante situao, a de quem, jogando o xadrez consigo mesmo e conhecendo de antemo o resultado final da partida, se empenha em jogar como se o no soubesse e, mais ainda, em no favorecer conscientemente nenhuma das partes em litgio, as negras ou as brancas, neste caso os mouros ou os cristos, segundo as cores. E muito abertamente o tem vindo a demonstrar, haja vista a simpatia, diramos mesmo o apreo, com que tem tratado os infiis, em particular o almuadem, sem falar no respeito que manifestou quando se referiu ao porta-voz da cidade, aquele tom, aquela nobreza, em contraste com uma certa secura uma impacincia, uma ironia, at, que sempre vm  tona do discurso quando se trata dos cristos. No se infira daqui, porm, que as inclinaes de Raimundo Silva vo todas para o lado dos mouros, entendamo-las antes como um movimento de espontnea caridade, porque, enfim, por mais que o tentasse no poderia esquecer-se de que os mouros vo ser vencidos, mas sobretudo porque sendo ele tambm cristo, ainda que no praticante, o indignam certas hipocrisias, certas invejas, certas infmias que no seu prprio campo tm carta branca. Enfim, o jogo est na mesa, por enquanto s se moveram os pees e alguns cavalos, e segundo a avisada opinio de Raimundo Silva deve-se tentar um assalto simultneo s cinco portas, que duas tem Lisboa menos que Tebas, com o objectivo de experimentar as foras dos sitiados, que, sorte havendo, bem pode ser que numa delas esteja um batalho mais assustadio, caso em que levaramos de vencida a batalha em pouco tempo e com reduzida perda de inocentes de um lado e do outro.
   No entanto, antes da grande empresa  preciso telefonar. Prolongar por mais um dia o silncio, alm de m educao, s iria servir para criar dificuldades s relaes futuras, profissionais, claro est. Raimundo Silva telefonar, portanto. Porm, para comear, ligar para a editora, porque  admissvel a hiptese,  mesmo fortemente presumvel que Maria Sara, restabelecida do seu breve transtorno de sade, j tenha ido trabalhar hoje, no sendo at de excluir que fosse esse o motivo da chamada recebida pela mulher-a-dias, por exemplo, pedir-lhe que comparecesse no dia seguinte na editora a fim de tratar, sem mais perda de tempo, doutra reviso. Raimundo Silva acredita tanto que assim , que ao dizer-lhe a telefonista que a doutora no est, Est doente, senhor Silva, no se lembra de lho ter dito ontem, responde, Tem a certeza de que no foi trabalhar, veja bem, e a telefonista, melindrada, Sei quem est e quem no est, Podia ter entrado sem que voc desse por isso, Eu dou por tudo, senhor Silva, eu dou por tudo, e Raimundo Silva tremeu ao ouvir estas sibilinas palavras, que lhe soaram a ameaa, qualquer coisa equivalente a No julgue que me faz o ninho atrs da orelha, ou No pense que me come por parva, nem pretendeu averiguar aonde queria chegar a insinuao, atropelou uma frase apaziguadora e desligou. D. Afonso Henriques arenga s tropas reunidas no Monte da Graa, fala-lhes da ptria, j ento era assim, da terra natal, do futuro que nos espera, s no falou dos antepassados porque verdadeiramente ainda quase no os havia, mas disse, Pensai que se no vencermos esta guerra, Portugal se acabar antes de ter comeado, e assim no podero ser portugueses tantos reis que esto por vir, tantos presidentes, tantos militares, tantos santos, e poetas, e ministros, e cavadores de enxada, e bispos, e navegantes, e artistas, e operrios, e escriturrios, e frades, e directores, por comodidade de expresso  que falo no masculino, por al no, que em verdade no estou esquecido das portuguesas, as rainhas, as santas, as poetisas, as ministras, as cavadoras de enxada, as escriturrias, as freiras, as directoras, ora para que venhamos a ter tudo isto na nossa histria, e o mais que no direi para no alongar o discurso e porque nem tudo se pode saber j hoje, para vir a ter tudo isto  preciso comear por conquistar Lisboa, portanto vamos a ela. Aclamaram as tropas a el-rei e, depois,  ordem dos seus alferes e capites, marcharam a ocupar as posies que lhes estavam destinadas, levando os chefes instrues imperiosas de que no dia seguinte,  hora do meio-dia, quando os mouros estivessem em orao, seria o ataque desencadeado ao mesmo tempo nas cinco frentes, que Deus nos proteja a todos, que em seu servio vamos.
   Splica semelhante, passada  primeira pessoa do singular, ter Raimundo Silva murmurado no acto de marcar o nmero do destino, mas to apagada foi ela que no se lhe ouviu para fora da boca, trmula como de adolescente, ele prprio tem agora mais em que pensar, se pensa, se no , todo ele, apenas um tmpano imenso onde soa e ressoa a campainha do telefone, a campainha no, o sinal electrnico, esperando a interrupo sbita do apelo, e que uma voz pronuncie Estou, ou Faz favor de dizer, talvez Al, talvez Quem fala, no faltam possibilidades entre as frmulas tradicionais e as suas variantes modernas, porm, de aturdido que estava no chegou Raimundo Silva a perceber o que lhe disseram, apenas que era uma mulher, ento perguntou, cuidando pouco de cortesia,  a doutora Maria Sara, no, no era, Quem fala, foi como quis saber a voz, Raimundo Silva, da editora, no era esta uma verdade incontrovertvel, mas servia como simplificao da identidade, decerto no contaramos que ele se apresentasse como Raimundo Benvindo Silva, revisor, trabalhando em sua casa, e que o fizesse, seria igual a resposta, Espere um momento, por favor, vou ver se a doutora Maria Sara pode receber a chamada, nunca momento nenhum foi to breve, No desligue, vou passar o telefone, silncio. Raimundo Silva imaginou a cena, a mulher, com certeza uma criada, retirando a ficha da tomada, transportando o aparelho com as duas mos, amparado ao peito, puerilmente assim o via, e entrando num quarto em penumbra, depois baixando-se para ligar a ficha nesta outra tomada, Como est, a voz soou inesperada, Raimundo Silva esperara ouvir ainda a criada dizer algo como Vou passar  senhora doutora, seriam trs ou quatro segundos mais de adiamento, em vez disso a pergunta directa, Como est, invertendo a situao, a ele, sim,  que competia exprimir interesse pelo estado da enferma, Estou bem, obrigado, e acrescentou rapidamente, Vinha saber se est melhor, Como foi que soube que tenho estado doente, Na editora, Quando, Ontem de manh, Ento resolveu telefonar para saber como estou, Sim, Muito obrigada pelo seu cuidado, at agora foi o nico revisor a interessar-se, Bom, achei que devia, espero no t-la incomodado, Pelo contrrio, fico-lhe muito grata, estou melhor, penso que amanh, talvez depois, j poderei ir  editora, No quero ma-la mais, desejo-lhe umas rpidas melhoras, Antes de desligarmos, como foi que soube o nmero do meu telefone, Deu-mo a menina Sara, A outra, Sim, a telefonista, Quando, J lho disse, ontem de manh, E s me telefona hoje, Tive medo de ser importuno, Mas venceu o medo, Parece que sim, a prova  que estou a falar consigo, No entanto, deve saber que antes eu quis falar consigo. Durante dois segundos Raimundo Silva pensou em fingir que no recebera o recado, mas acabou por responder, quando j se ia passando o terceiro segundo, Sim, Posso portanto admitir que me telefonou porque no podia deixar de o fazer, uma vez que eu tinha tomado a iniciativa, Admitir tudo quanto quiser, est no seu direito, mas admita tambm que se eu pedi o nmero  telefonista no foi para ficar com ele no bolso,  espera no se sabe de qu, Ficou mesmo  espera no se sabe de qu, A razo foi outra, Qual, Simplesmente falta de coragem. A sua coragem, pelos vistos, limitava-se quele episdio de reviso de que no gosta de que se fale, De facto, telefono-lhe apenas para saber da sua sade e desejar-lhe as melhoras, E no acha que  a altura de perguntar-me por que foi que lhe telefonei eu, Por que foi que me telefonou, No sei se gosto desse tom, D importncia s palavras, no ao modo, Supus que a sua experincia de revisor lhe teria ensinado que as palavras no so nada sem o tom, Uma palavra escrita  uma palavra muda, A leitura d-lhe voz, Excepto se for silenciosa, At mesmo essa, ou julgar o senhor Raimundo Silva que o crebro  um rgo silencioso, Sou apenas um revisor, fao como faz o sapateiro, que se contenta com a chinela, o meu crebro sabe de mim, eu no sei nada dele, Interessante observao, Ainda no respondeu  pergunta, Que pergunta, Por que foi que me telefonou, Agora no sei se me apetece dizer-lho, Afinal no sou o nico cobarde, No me lembro de ter falado em cobardia, Falou de falta de coragem, No  o mesmo, As duas faces duma moeda so diferentes, mas a moeda  uma s, O valor s vai num lado, No compreendo esta conversa, e acho que no devemos prossegui-la, sem esquecer que  uma imprudncia, estando doente como est, No Lhe fica bem o cinismo, No sou cnico, Bem sei, portanto escusa de fingir, A srio, creio que j no sabemos o que estamos a dizer, Eu sei muito bem, Ento explique-mo, No precisa de explicaes, Est a fugir  questo,  voc quem foge  questo, esconde-se atrs de si mesmo, quer que lhe diga o que j sabe, Por favor, Por favor, qu, Acho melhor que desliguemos, este dilogo caiu num equvoco, Porque voc o est a empurrar para l, Eu, Sim, Est enganada, gosto das coisas claras, Ento seja claro, diga-me por que  agressivo quando fala comigo, No sou agressivo com ningum, no tenho essa qualidade moderna,  agressivo comigo, porqu, No sou, Desde o dia em que nos conhecemos, se precisa que lho lembre, As circunstncias, Mas as circunstncias modificaram-se depois, e a agressividade continuou, Desculpe, nunca tive essa inteno, Agora sou eu que Lhe peo, por favor, no use palavras inteis, Calo-me, Ento oua, telefonei-lhe porque me sentia s, porque tive curiosidade de saber se estava a trabalhar, porque queria que me desejasse as melhoras, porque, Maria Sara, No diga o meu nome assim, Maria Sara, eu gosto de si, pausa longa, Isso  verdade,  verdade, Levou tempo a dizer-mo, E talvez nunca lho dissesse, Porqu, Somos diferentes, pertencemos a mundos diferentes, Que  que sabe dessas diferenas todas, nossas e dos mundos, Imagino, vejo, concluo, Essas trs operaes tanto podem levar  verdade como conduzir ao erro, Admito-o, e o erro maior, neste momento, ter sido dizer-lhe que gosto de si, Porqu, Nada conheo da sua vida particular, se , Casada, Sim, ou, De qualquer maneira comprometida, como antigamente se dizia, Sim, Imaginemos que sou realmente casada, ou que tenho um compromisso, impedi-lo-ia isso de gostar de mim, No, E se eu fosse realmente casada, ou tivesse um outro compromisso, impedir-me-ia isso de gostar de si, se tal tivesse de acontecer, No sei, Ento tome nota de que gosto de si, pausa longa, Isso  verdade,  verdade, Oua, Maria Sara, Diga, Raimundo, mas antes fique a saber que sou divorciada h trs anos, que acabei h trs meses com uma ligao, que no comecei outra, que no tenho filhos, que quero t-los, que vivo em casa de um irmo, que a pessoa que o atendeu  a minha cunhada, e no precisa de dizer-me quem  a pessoa que recebeu o meu recado,  a sua empregada, e agora, sim, tem a palavra, senhor revisor, no faa caso, estou quase a rebentar de contentamento, Por que  que gosta de mim, diga-me, No sei, gosto, E no teme que quando comear a saber, possa comear a no gostar, s vezes acontece, acontece mesmo muito, Ento, Ento, nada, o depois s depois  que se conhece, Eu gosto de si, Acho que sim, que gosta, Quando nos veremos, To depressa eu me levante deste leito de dor, Onde, Em toda a parte, Agora posso perguntar-lhe que doena  essa, Nada de importncia, ou melhor, esta foi a gripe mais importante da minha vida, Da no me pode ver, mas estou a sorrir, Grande novidade, que at hoje foi coisa que nunca vi na sua boca, Posso dizer-lhe que a amo, No, diga s que gosta de mim, J o disse Ento guarde o resto para o dia em que for verdade, se esse dia chegar, Chegar, No juremos sobre o futuro, esperemo-lo para ver se ele nos reconhece, e agora esta dbil e febril mulher pede que a deixem descansar, precisa de recuperar foras para a hiptese, acaso provvel, de algum se lembrar de tornar a telefonar-lhe hoje, A quem, a si, Ou a si o sentido da frase tem dois destinatrios, depende, A ambiguidade no  sempre um defeito, At logo, Deixe que me despea com um beijo, Est a chegar o tempo deles, Para mim j vinha tardando, S uma pergunta mais, Diga, J comeou a escrever a Histria do Cerco de Lisboa, J, No sei se continuaria a gostar de si se me respondesse que no, adeus.
   Adeus, foi a palavra. No seu quarto, deitada, Maria Sara pousa devagar o auscultador no descanso, ao mesmo tempo que Raimundo Silva, sentado  secretria, pousa devagar o auscultador no descanso. Num movimento ondulatrio, ela afunda-se, preguiosa, entre os lenis, enquanto ele com abandonamento, se recosta no espaldar da cadeira. Esto felizes, ambos, e a um ponto tal que ser grande injustia separar-nos de um para ficar a falar do outro, como mais ou menos seremos obrigados a fazer, porquanto, conforme ficou demonstrado num outro mais fantasioso relato,  fsica e mentalmente impossvel descrever os actos simultneos de duas personagens, mormente se elas esto longe uma da outra, ao sabor dos caprichos e preferncias de um narrador sempre mais preocupado com o que julga serem os interesses objectivos da sua narrativa do que com as esperanas em absoluto legtimas desta ou daquela personagem, ainda que secundria, de ver preferidos os seus mais modestos dizeres e midas aces aos importantes feitos e palavras dos protagonistas e dos heris. E porque de heris falmos, dem-se como exemplo ilustrativo aqueles encontros maravilhosos dos cavaleiros da Tvola Redonda ou da Demanda do Graal com sbios ermites ou misteriosas donzelas postos no seu caminho, que chegando ao fim a prtica e a lio partia o cavaleiro rumo a novas aventuras e reunies, e ns obrigatoriamente com ele, ficando na pgina abandonados, quantas vezes para todo o sempre, o ermito numa, a donzela noutra, quando mais nos gostaria saber que futuro tiveram estes, se ao ermito, por amor, o foi retirar do ermitrio uma rainha, se a donzela, em lugar de ficar no bosque  espera do prximo cavaleiro perdido, foi ela a ver se encontrava no mundo um homem. Neste caso de Maria Sara e Raimundo Silva, a questo complica-se muito, visto que os dois so personagens principais, como principais estaro sendo, agora mesmo, os seus gestos e pensamentos, dos quais, afinal, vista a dificuldade intransponvel, no nos resta outra soluo que escolher algo que o critrio do leitor tenha por bem aceitar como essencial, por exemplo, quanto a Maria Sara, observar que houve tambm uma certa volpia no movimento que primeiro nos limitmos a qualificar de preguioso, e que Raimundo Silva tem os lbios secos como se uma repentina febre, um febro, lhe tivesse entrado no corpo, todo ele comeou a tremer,  a ressaca dos nervos, tensos durante a conversa, enganosamente relaxados no instante brevssimo dos adeuses, e agora zunindo como arames esticados, ou, respeitando a beleza e a comoo, harpa elica que o vento, porm ciclnico, faz vibrar. Diga-se tambm que durando o sorriso de Maria Sara tanto, e sendo ou parecendo to genuinamente feliz a expresso dele, a cunhada lhe perguntou, curiosa, Quem  esse Raimundo Silva que te ps nesse estado, e Maria Sara, continuando a sorrir, respondeu, Ainda no sei. Raimundo Silva no tem a quem falar, sorri apenas, agora que a tranquilidade aos poucos regressa, enfim levantou-se,  um homem novo que sai do escritrio e se dirige ao quarto, e que olhando-se num espelho no se reconhece porm, to consciente de ser isto que aqui est, que ao reparar na linha branca da raiz dos cabelos se limita a encolher os ombros, com uma indiferena que  real, quando muito um pouco impaciente, talvez porque so vagarosos os progressos da verdade. Maria Sara v as horas no relgio de pulso,  cedo ainda para que volte a tocar o telefone ou para que decida ser ela a fazer a ligao, a grande prova de sabedoria  ter presente que mesmo os sentimentos devem saber administrar o tempo. Raimundo Silva v as horas no relgio de pulso e sai. Demorou-se na rua no mais tempo que o necessrio para ir  florista e comprar quatro rosas, as mais suavemente brancas que l havia. Cruzou com a empregada um animado dilogo antes de conseguir o que por acrescentamento pretendia e para o que, finalmente, teve de mostrar-se muito mais generoso propinador do que  prtica comum e ainda menos seu prprio costume, pois no persuadiram bastante a empregada os diversos argumentos usados, desde o intento de demonstrar-lhe que a diferena entre duas rosas e doze rosas  puramente aritmtica e no de valor, at algumas misteriosas e veladas aluses ao cumprimento duma promessa sobre a qual um juramento solene o impedia de abrir-se como gostaria, Que mais no fosse para corresponder a tanta pacincia e amabilidade. J com a gratificao reconfortante no bolso da bata de servio, a empregada acedeu a deixar-se impressionar, e, prosseguindo a conversao, no surpreenderia se viesse a concluir-se que o dinheiro no tivera qualquer influncia no entusiasmo com que ela acabou por aderir ao inusual requerimento do cliente, inusual, sim, pois que, por mais voltas que se lhes dem, duas rosas no so doze, nem sequer uma orqudea, que, essa, a si mesma se basta, e at prefere. Para no ser apanhado em falso, em ausncia que seria duplamente frustradora, Raimundo Silva regressou a casa de txi, subiu a escada a correr, proeza ginstica que lhe embaou por alguns minutos a respirao, Imprudncia, pensou, com a minha idade no se deve subir desta maneira a Calada da Glria, disse glria sem pensar, depois, divertindo-se com os seus prprios exageros, os fsicos e os vocabulares, foi retirar a flor murcha do solitrio, mudou a gua, e disps nele, com artes e vagares de japons, as duas rosas que trouxera.
   Pela janela do quarto viam-se passar nuvens, devagar, pardas e pesadas, no cu violeta do entardecer. Apesar de adiantada, a primavera ainda no se resolvera a abrir as portas ao calor, ao Austro morno que leva a desafogar os colos e subir as mangas, de certo modo Raimundo Silva anda a viver em dois tempos e em duas estaes, o julho ardentssimo que refulge e inflama as armas que cercam Lisboa, este abril hmido, gris, com um sol s vezes dardejante que torna a luz dura, como um diamante liso e fechado. Abriu a janela, apoiou os cotovelos no parapeito da varanda, sentia-se bem apesar do agreste, felizmente a casa vira as costas ao Breas, que  quem neste momento est soprando, em sbitas e pequenas rajadas que contornam o cunhal e vo perpassar-lhe na cara como uma carcia fria. Aos poucos sente-se arrefecer e pensa se no deveria recolher-se, quando num instante fica transido, literalmente transido, ao lembrar-se de que ali onde est no poder ouvir a campainha do telefone, se ele o chamar. Meteu-se para dentro  pressa e precipitou-se para o escritrio como se ainda quisesse perceber umas ltimas vibraes, o telefone l estava, quieto, negro, como sempre, mas agora tinha deixado de ser um animal ameaador, um insecto couraado de espinhos e aguilhes, podia mesmo ser comparado a um gato dormindo, enroscado no seu prprio calor, que desperto no mais ameaar com as unhas de pequena e quantas vezes mortal fera, antes ficar esperando a mo que se aproxima para roar-se nela, voluptuoso e cmplice. Raimundo Silva regressou ao quarto, sentou-se  pequena mesa junto da janela sem acender a luz,  espera. Apoiou a testa nas mos, gesto seu caracterstico com as pontas dos dedos roava distraidamente a raiz dos cabelos onde uma outra histria andara a ser escrita, porque esta de agora, comeada, s poder l-la quem os olhos tiver lcidos e abertos, no um cego, a quem, por muito apurada que tivesse a sensibilidade tctil, no diriam os dedos que cor  essa, nova, de uns cabelos. Apesar de estar a tarde caindo, a penumbra no quarto no seria to densa se no fosse o alpendre, que mesmo em dias claros impede o caminho da luz zenital, e neste momento faz nascer aqui a noite quando l fora, por entre os rasges lentos das nuvens, o cu prximo ainda se deixa penetrar pelos ltimos raios que o sol, passando por trs do mar, lana at s regies superiores do espao. Erguidas no estreito solitrio, as duas rosas alvejam no escuro-azulado do quarto, as mos de Raimundo Silva pousam sobre a ltima folha escrita, umas linhas negras indecifrveis, talvez de arbiga lngua, no estivemos atentos  voz do almuadem, em vo ele gritou, o sol demorou-se ainda um longo minuto, pousado sobre o horizonte ntido, esperando, depois deixou-se afundar, agora qualquer palavra viria tarde de mais. O vulto de Raimundo Silva confunde-se a pouco e pouco com a espessura das sombras, as rosas  que ainda recolhem da janela o quase imperceptvel luzeiro retido nas vidraas e nele se banham, ao mesmo tempo que soltam do corao profundo das corolas um perfume inesperado. As mos de Raimundo Silva levantam-se devagar e vo tocar-lhes, uma, outra, como se duas faces tocassem, uma, outra, preldio do movimento seguinte, aqueles dois lbios que lentamente se vo aproximando e afloram as ptalas, a boca mltipla da flor. Agora o telefone no deve tocar, que nada venha interromper este momento antes que ele por si mesmo se acabe, amanh os soldados reunidos no Monte da Graa avanaro como duas tenazes, a nascente e a poente, at  margem do rio, passaro  vista de Raimundo Silva que mora na torre norte da Porta de Alfofa, e quando ele assomar ao eirado, curioso, trazendo uma rosa na mo, ou duas, gritar-lhe-o de baixo que  demasiado tarde, que o tempo no  mais de rosas, mas de sangue final e de morte. Por este lado, em direco  Porta de Ferro,  que baixar o corpo de tropas que leva por capito a Mem Ramires e onde, no tropel, vai Mogueime, a quem o seu comandante, vendo-o e finalmente o reconhecendo, imaginamos que pela altura, que a cara  de barbas como a de todos, lhe gritar, com um bom riso lhano e medieval, Eh, homem, altas so por de mais estas muralhas para que aos teus ombros eu pudesse outra vez subir e lanar uma escada, como em Santarm fizemos e quo bem nos aproveitou e a el-rei nosso senhor, e Mogueime, posto em confiana, mas a quem, na ocasio, no lhe passa pela cabea contradizer a verso do seu oficial sobre a posio relativa das partes constitutivas da j clebre escada humana, responde com aquela filosofia de soldado que vai  guerra e contesta ao general que passa no jipe, Se l dentro tornarmos a ver-nos ser sinal de que ganhmos ambos a guerra, mas se algum de ns faltar ao encontro, esse perdeu-a, e agora levante vossa senhoria o escudo que vem a uma chuva de setas. Raimundo Silva acendeu o candeeiro da mesa, a rpida luz por um momento pareceu apagar as rosas, depois elas reapareceram como se a si mesmas se reconstitussem, porm sem aura nem mistrio, ao contrrio do que se julga e ps a correr foi um botnico o autor da clebre frase, Uma rosa  uma rosa  uma rosa, um poeta teria dito apenas, Uma rosa, o resto caberia no silncio de contempl-la.
   Finalmente, o telefone. De um salto, Raimundo Silva levantou-se, a cadeira empurrada para trs oscilou e caiu, e ele j ia no corredor, um pouco  frente de algum que o observava sorrindo com suave ironia, Quem nos diria, meu caro, que tais coisas viriam a acontecer-nos, no, no me respondas,  perda de tempo dar troco a perguntas retricas, vrias vezes falmos disso, vai, vai, eu sigo-te, nunca tenho pressa, o que algum dia tiver de ser teu, meu h-de ser, eu sou sempre aquele que chega depois, vivo cada momento vivido por ti como se de ti respirasse um perfume de rosas apenas guardado na memria, ou, menos poeticamente, o teu prato de hortalia e feijo branco, onde em cada instante a tua infncia renasce, e no o vs, e no quererias acreditar se fosse preciso dizer-to. Raimundo Silva lanou-se sobre o telefone, num segundo de dvida pensou E se no  ela, era ela, Maria Sara, que lhe dizia, No o devia ter feito, Porqu, perguntou ele, desconcertado, Porque a partir de hoje no poderei no receber rosas todos os dias, Nunca lhe faltarei com elas, No me refiro a rosas rosas, Ento, Ningum deveria poder dar menos do que deu alguma vez, no se do rosas hoje para dar um deserto amanh, No haver deserto,  s uma promessa, no o sabemos,  verdade, no o sabemos, eu tambm no sabia que lhe mandaria duas rosas, e voc, Maria Sara, por seu lado no sabe que duas rosas iguais a essas esto aqui, num solitrio, sobre uma mesa onde h umas folhas escritas com a histria de um cerco que nunca aconteceu, ao lado duma janela que d para uma cidade que no existe tal qual a vejo, Quero conhecer essa casa, Provavelmente, no gostar dela, Porqu, No sei dizer,  uma casa simples, ou menos que isso, sem beleza, juntmo-nos aqui eu e uns mveis, desirmanados, os livros so muitos, vivo deles, mas sou o que sempre est do lado de fora, mesmo quando corrijo um erro da tipografia ou do autor, no vou alm de ser aquele passeante que num jardim, por escrpulo de limpeza, levanta uma folha do cho e, no sabendo onde p-la, mete-a no prprio bolso,  tudo quanto transporto comigo, folhas secas, murchas, nenhum fruto so para a boca, Irei visit-lo, No h nada que mais deseje no mundo, interrompeu-se um instante breve e acrescentou, Por agora, mas, como se se arrependesse do que dissera ou o tivesse achado demasiado inconveniente, emendou, Desculpe-me, foi sem inteno, e como ela continuasse calada deixou sair palavras que nunca imaginaria ser capaz de pronunciar alguma vez, directas, francas, explcitas por si mesmas e no por um qualquer jogo de cautelosa insinuao, Claro que foi com inteno, e no lhe peo desculpa. Ela riu-se, tossiu um pouco, O meu problema, nesta situao,  saber se j deveria ter corado antes, ou se  agora que devo corar, Lembro-me de a ter visto corar uma vez, Quando, Quando toquei na rosa que estava no seu gabinete, As mulheres coram mais que os homens, somos o sexo frgil, Ambos os sexos so frgeis, eu tambm corei, Sabe assim tanto da fragilidade dos sexos, Sei da minha prpria fragilidade, e alguma coisa da dos outros, se os livros sabem, eles, do que falam, Raimundo, Diga, Logo que eu possa sair, irei visit-lo, mas, Estou  sua espera, Essas palavras so boas, No percebo, Quando eu j a estiver, dever continuar  minha espera, como eu continuarei  sua, por enquanto ainda no sabemos quando chegaremos, Esperarei, At breve, Raimundo, No se demore, Que vai fazer quando desligarmos, Acampar em frente da Porta de Ferro e rezar  Virgem Santssima para que os mouros no tenham a ideia de nos atacarem pela calada da noite, Est com medo, Tremo de pavor, Tanto, Antes de vir para esta guerra, eu era apenas um revisor sem outros maiores cuidados que traar correctamente um deleatur para explic-lo ao autor, Parece que h interferncias na linha, O que se ouve so os gritos dos mouros, ameaando l das ameias, Tenha cuidado consigo, No vim de to longe para morrer diante dos muros de Lisboa.
   

   
   Se por bons e averiguados tomarmos os factos tal como na sua carta a Osberno os relatou o antes mencionado Frei Rogeiro, ento vai ser preciso explicar a Raimundo Silva que no se iluda ele sobre a suposta facilidade de acampar. sem mais aquelas, na testada da Porta de Ferro ou qualquer outra, porque este perversa raa de mouros no  to timorata que, sem luta, se tenha j trancado a sete chaves,  espera de um milagre de Al capaz de desviar os galegos das suas funestas intenes. Lisboa, dissemo-lo antes, tem casas fora dos seus muros, e no so elas poucas nem de simples veraneio ou jardinagem, antes est uma cidade rodeando outra, e se  sabido que, daqui por dias, quando o cerco for enfim uma realidade geomtrica, nelas se instalaro comodamente os quartis-generais e as personalidades importantes, militares e religiosas, assim dispensadas de suportar o relativo desconforto das tendas, agora vai ser necessrio pelejar duramente para expulsar a mourama destes aprazveis arrabaldes, de rua em rua, de ptio em ptio, de aoteia em aoteia, batalha que no durar menos de uma semana e que s veio a ser possvel vencer por serem os portugueses na ocasio superiores em nmero, uma vez que os mouros no tinham feito sair todos os seus batalhes e as tropas de dentro no podiam intervir nos confrontos com as fundas e as bestas por medo de ferir ou matar irmos que a este combate de primeira linha, com ou sem vontade, se tinham sacrificado. No censuremos, porm, Raimundo Silva, que, como ele prprio no se tem cansado de lembrar-nos, no passa de um mero revisor dispensado do servio militar, sem conhecimentos da arte, apesar de entre os seus livros haver uma edio resumida das obras de Clausewitz, comprada num alfarrabista h muitos anos e que nunca abriu. Porventura ele ter querido abreviar o seu prprio relato, considerando que, tantos sculos passados, o que conta so s os episdios principais. Hoje as pessoas no tm vagar nem pacincia para fixar na cabea pormenores e miudezas histricas, isso estaria bem para os contemporneos do nosso rei D. Afonso o Primeiro, que tinham, obviamente, muito menos histria para aprender, uma diferena de oito sculos a favor deles no  brincadeira nenhuma, a ns o que nos vale so os computadores, metemos l para dentro tudo quanto seja enciclopdia e dicionrio, e pronto, dispensamo-nos de ter memria prpria, mas este modo de entender as coisas, digamo-lo primeiro que algum no-lo diga,  absolutamente e condenatoriamente reaccionrio, pois as bibliotecas dos nossos pais e avs para isso mesmo  que serviam, para que no sofresse carga excessiva o neoplio, muito j ele faz para o tamanho que tem, minsculo, metido l no fundo do crebro, rodeado de circuitos por todos os lados, quando Mem Ramires disse a Mogueime, Ajeita-te a, que te vou subir para as costas, talvez no se pense ter sido esta frase obra do neoplio, onde, estando a memria de escadas e soldados disciplinados, est tambm a inteligncia, convergncia ou relao de causa e efeito de que o computador no se pode gabar, pois que, sabendo tudo, no compreende nada. Dizem.
   Est Lisboa enfim cercada, j foram mortos a enterrar, os feridos levados com eles nos mesmos batis para a outra margem do esteiro e da, pelo monte acima, uns para os cemitrios, outros para os hospitais de sangue, estes a eito, aqueles segundo a condio e a nao. No arraial, se descontarmos o pesar e o pranto pelas perdas sofridas, alis nada exagerados, pois esta gente  dura de sentimentos e pouco dada s lgrimas, nota-se uma grande confiana no futuro e uma extremada f nas ajudas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que desta vez no precisar de dar-se ao trabalho de aparecer como em Ourique, j obrou prodgio bastante ao fazer com que os mouros, na pressa da retirada, tivessem abandonado ao apetite inimigo, nosso, as muitas cargas de trigo, cevada, milho mido e legumes que, para provimento da cidade e por no caberem nela, estavam enceleiradas em cavas subterrneas abertas a meio da encosta, entre a Porta de Ferro e a Porta de Alfofa. Foi ento, na ocasio dessa feliz descoberta, que el-rei D. Afonso, com uma sabedoria que a sua pouca idade no faria prever, tinha ento trinta e oito anos, uma criana, proferiu a clebre sentena que logo entrou no circuito das ideias portuguesas, Guardado est o bocado para quem o h-de comer, e prudentemente mandou recolher os alimentos para que no se tivesse de inventar to cedo outro ditado, Barriga de pobre, antes rebentar que sobre, a melhor altura para racionar  na abundncia, rematou ele.
   Uma semana passou j sobre a errada previso de Raimundo Silva, a da sua primeira estratgia, quando pensou que ao meio-dia do dia seguinte quele em que se moveram as tropas do Monte da Graa estaria dando assalto simultneo a todas as portas da cidade, com a esperana de encontrar um ponto dbil na defesa e por a romper, ou fazendo atrair para l reforos que, desguarnecendo as outras frentes, as deixariam enfraquecidas e portanto. Nem vale a pena terminar a frase. No papel todos os planos so mais ou menos bons, porm, a realidade tem mostrado a sua irresistvel vocao para desviar os papis e rasgar os planos. No foi s o caso dos arrabaldes convertidos pelos mouros em baluartes, esse acabou por ser resolvido, embora com grandes baixas, agora a questo est em saber como se pode entrar por portas to fechadas, defendidas por cachos de guerreiros empoleirados nas torres que as flanqueiam e protegem, ou como se assaltam muros com uma altura destas, aonde as escadas no conseguem chegar e onde as sentinelas nunca adormecero. Afinal, Raimundo Silva est em excelentes condies para julgar das dificuldades da empresa, pois de cima da sua varanda percebe que nem precisaria de ter uma pontaria rigorosa para matar ou ferir quantos cristos tentassem aproximar-se desta Porta de Alfofa, se ela ainda aqui estivesse. Corre pelo arraial a notcia de que fervem divergncias entre os altos comandos, divididos entre duas teses operativas, uma que prope o assalto imediato com todos os meios disponveis, comeando por um poderoso tiro de barragem para obrigar os mouros a afastarem-se das ameias e terminando no emprego de aretes gigantescos para investir as portas at met-las dentro, outra menos aventurosa que defende o estabelecimento de um cerco to apertado que nem um rato pudesse sair ou entrar em Lisboa, ou, com mais preciso, que saiam os que quiserem, mas que no entre nenhum, que finalmente pela fome renderamos a cidade. Argumentam os adversrios da primeira tese que a concluso, isto , a entrada vitoriosa em Lisboa, assenta numa falsa premissa, que  supor-se que o tiro de barragem seria bastante para fazer recuar os mouros das ameias, A isto, caros senhores, chama-se contar com o ovo no cu da galinha, o certo ser eles no arredarem p, alis no precisariam de mais que armar umas coberturas, uns alpendres, debaixo dos quais se abrigariam, e assim muito a seu salvo fuzilarem-nos de cima com todo o sossego ou despejarem-nos azeite a ferver nos lombos, que  manha costumada deles. Respondem os defensores da proposta de ataque imediato que ficarem  espera de que os mouros se rendessem pela fome no seria digno de fidalgos de to alta linhagem como os que ali se encontram e que j foi imerecida caridade ter-lhes sido proposto que se retirassem levando os teres e os haveres, agora s o sangue poder lavar os muros de Lisboa da ndoa infame que h mais de trezentos e cinquenta anos infecta estes lugares que puros a Cristo  hora de restituir. Tem el-rei ouvido a uns e a outros, e a uns e a outros tanto reconhece como nega razo, porque se  verdade que no Lhe parece prprio da sua dignidade quedar-se  espera de que o fruto lhe caia maduro da rvore, to-pouco acredita que um assalto lanado  desgarrada venha a surtir efeito, mesmo trazendo a marrar contra as portas mouras todos os carneiros do reino. Pediu ento o cavaleiro Henrique licena para recordar que em todos os cercos da Europa tm vindo a ser usadas, com os melhores resultados, torres mveis de madeira, ; isto , mveis mas no tanto, pois a uma avantesma daquelas  preciso uma multido de gente e de bestas para lev-la ao stio, o que conta  que no alto da torre, quando ela atingiu a altura conveniente, vamos a construir um passadio que, bem protegido dos ataques, ir aos poucos avanando na direco do muro e por onde finalmente se lanaro, como uma torrente irresistvel, os nossos soldados, levando adiante sem merc nem recurso a nefanda escumalha, e concluiu a explicao dizendo, Grandes so as vantagens que a Portugal adviro de imitar, neste como em outros casos, o que na Europa se vai fazendo de mais moderno, ainda que ao princpio experimenteis dificuldades em meter na cabea as tecnologias novas, eu, por mim, sei da construo das tais torres o suficiente para ensinar os naturais daqui, Vossa Alteza no tem mais que dar-me ordens, confiado que no dia da distribuio dos prmios no fique no rol do esquecimento a especial importncia da minha contribuio no quadro dos apoios com que, apesar das defeces verificadas, Portugal tem contado nesta hora decisiva da sua histria.
   Determinava-se j el-rei a anunciar a sua deciso, ouvidos to avisados conselhos, quando dois outros cruzados se levantaram e pediram a palavra, um normando, outro francs, para dizerem que tambm eles eram peritos no levantamento de torres e que ali mesmo pediam meas em questes de competncia, sem falar na diferena e economia de mtodos, tanto no desenho como na construo, favorvel s suas propostas. Quanto s condies, tambm eles se entregavam  magnanimidade do rei e  sua gratido se confiavam, juntando-se portanto ao cavaleiro Henrique, e fazendo suas as palavras dele pelas mesmas causas e razes. Quem no gostou desta viragem do debate foram os portugueses, quer os partidrios da espera, quer os da aco imediata, se bem que por motivos diferentes, s convergindo uns e outros na rejeio da hiptese, perigosamente crvel, de tomarem os estrangeiros a primazia, no servindo o pessoal da terra mais do que para a mo-de-obra annima, sem direito a deixar o nome inscrito na obra e na lista das recompensas. Era verdade que aos defensores do cerco passivo no desagradavam totalmente os projectos das torres, pois tornava-se evidentssimo que elas no poderiam ser construdas em meio da balbrdia dos ataques, porm a estas consideraes sempre teria de sobrepor-se o orgulho patritico, e assim acabaram aqueles por fazer comum frente com os impacientes por uma aco pronta e directa, desta maneira se tentando adiar o simples recebimento das propostas estrangeiras. Ora, a prova de que D. Afonso Henriques merecia verdadeiramente ser rei, e no apenas rei, mas rei nosso, est em que soube decidir como Salomo, esse outro exemplo de despotismo esclarecido, ao fundir num nico plano estratgico as diferentes teses, dispondo-as numa harmoniosa e lgica sucesso. Felicitou em primeiro lugar os partidrios do ataque imediato pelas virtudes de coragem e ousadia que assim provavam, deu depois os parabns aos engenheiros das torres pelo seu sentido prtico adornado dos dons modernos da inveno e da criatividade, congratulou-se finalmente com os demais por neles encontrar o louvvel mrito da prudncia e da pacincia, inimigas de riscos desnecessrios. Feito o que, sintetizou, Determino, pois, que a ordem das operaes seja a seguinte, primeiro, assalto geral, segundo, no caso de ele falhar, avanaro as torres, a alem, a francesa, a normanda, terceiro, falhando tudo, manter o cerco indefinidamente, alguma vez eles se ho-de render. Os aplausos foram unnimes, ou porque falando rei assim deve ser, ou porque todos ali encontravam satisfao bastante na deciso tomada, o que veio a exprimir-se por trs diferentes ditados, ou divisas, cada qual para sua faco, diziam os primeiros, Candeia que vai adiante alumia duas vezes, contrariavam os segundos, O primeiro milho  dos pardais, rematavam irnicos os terceiros, O ltimo a rir  aquele que rir melhor.
   A evidncia da maior parte dos acontecimentos que constituram, at agora, o mais substancial do miolo desta narrativa, tem vindo a mostrar a Raimundo Silva que no lhe serviu de nada tentar fazer valer os seus pontos de vista prprios, mesmo quando eles decorriam, por assim dizer em linha recta, obrigatoriamente, da negativa introduzida numa histria que, at esse seu acto, se mantivera prisioneira dessa espcie de fatalidade particular a que chamamos factos, quer eles faam sentido na sua relao com outros, quer surjam como inexplicveis em um determinado momento do estado do nosso conhecimento. D-se ele conta de que a sua liberdade comeou e acabou naquele preciso instante em que escreveu a palavra no, de que a partir da uma nova fatalidade igualmente imperiosa se havia posto em movimento e que nada mais lhe resta agora que tentar compreender o que, tendo comeado por parecer sua iniciativa e reflexo sua, resulta to-s de uma mecnica que Lhe era e continua a ser exterior, de cujo funcionamento alimenta apenas uma muito vaga ideia e em cuja actividade intervm no mais que pelo manejo aleatrio de alavancas ou botes de que desconhece a real funo, unicamente que  esse o seu papel, boto ou alavanca por seu turno movidos aleatoriamente pela emergncia de impulsos no previsveis, ou, se adivinhveis e at auto-estimulados, fora de toda a previso no que se refere s suas consequncias prximas ou remotas. Por isso se pode verificar que, no tendo ele previsto, efectivamente, contar a nova histria do cerco de Lisboa como aqui vem contada, se v de sbito confrontado com o resultado duma necessidade to implacvel quanto a outra, aquela de que julgara fugir pela simples inverso de um sinal e em que finalmente voltava a cair, agora em negativo, ou, para falar em termos menos radicais, como se tivesse escrito a mesma msica baixando de meio-tom todas as notas. Raimundo Silva est a pensar, seriamente, em pr um ponto final no seu relato, fazer regressar os cruzados ao Tejo, no devem ir muito longe, esto talvez entre o Algarve e Gibraltar, e dessa maneira deixar que a histria se cumpra sem variaes, como mera repetio de factos, segundo consta dos manuais e da Histria do Cerco de Lisboa. Considera que a pequena rvore da Cincia do Erro por si plantada j deu o seu fruto verdadeiro, ou tem-no prometido, que foi ter colocado este homem diante daquela mulher, e se isso feito est, que se comece captulo novo, tal como se interrompe um dirio de navegao no momento da descoberta da nova terra, claro que no est proibido continuar a escrever no dirio de bordo, mas j ser outra a histria, no a da viagem, terminada, mas a do encontro e do que foi encontrado. Suspeita porm Raimundo Silva que tal deciso, se a tomasse, no iria agradar a Maria Sara, que ela o olharia indignada, se no mesmo com uma insuportvel expresso de decepo. Sendo assim, no haver, por enquanto, ponto final, apenas uma suspenso at  anunciada visita, alis, neste momento em que estamos Raimundo Silva seria incapaz de escrever uma simples palavra mais, se de todo tem perdida a serenidade ao pr-se a imaginar que talvez Mogueime, na vspera do assalto em massa j decidido, tendo diante dos olhos os muros de Lisboa resplandecentes de lumes nos eirados, se pusesse, ele, a pensar numa mulher algumas vezes avistada nestes dias, Ouroana, barreg de um cruzado alemo, e que a esta hora estar dormindo com o seu senhor, l no Monte da Graa, certamente numa casa, sobre a esteira estendida nos ladrilhos frescos aonde nunca mais voltar a deitar-se o mouro. Mogueime abafava dentro da tenda e veio fora a desalterar-se, os muros de Lisboa, iluminados pelas fogueiras, parecem feitos de cobre, Que eu no morra, Senhor, sem provar o gosto da vida. Pergunta-se agora Raimundo Silva que semelhanas h entre este imaginado quadro e a sua relao com Maria Sara, que no  barreg de ningum, com perdo da imprpria palavra, sem cabimento hoje no vocabulrio dos costumes, afinal ela disse, Acabei h trs meses uma ligao, no comecei outra, so situaes obviamente distintas, supomos que de comum haja apenas o desejo, que tanto o sentia o Mogueime daquele tempo como o est sentindo o Raimundo de agora, as diferenas, que as h, so culturais, sim senhor.
   Numa destas voltas do pensamento, Raimundo Silva foi distrado das suas preocupaes pela lembrana sbita de que em nenhuma ocasio Maria Sara mostrara curiosidade de saber como estava ele de relaes sentimentais, para lhes dar um nome em que tudo cabe. Tal indiferena, que o era pelo menos formalmente, provocou-lhe um movimento de despeito, Afinal de contas, eu no sou um homem acabado que  que ela julga, e acto contnuo percebeu que estava dando voz a uma espcie de amuo infantil, ainda assim desculpvel visto o conhecido facto de serem os homens, todos eles, umas perfeitas crianas, agravado, esse amuo, pelo mau humor duma virilidade ofendida, Orgulho de macho, orgulho de besta, resmungou, e apreciou a expressividade lapidar da frmula, semanticamente inatacvel. Na verdade, a atitude de Maria Sara podia ser explicada por uma sua discreta natureza, h pessoas decididamente incapazes de forar as portas da intimidade alheia, o que, reparando melhor, no  o caso desta, que em todas as circunstncias, desde o princpio, tomou as rdeas e a iniciativa, sem contemplaes. A explicao seria ento outra, por exemplo, considerar Maria Sara que a sua franqueza deveria ser espontaneamente retribuda, e, sendo assim, no  impossvel que a esta mesma hora ela esteja entretendo maus pensamentos, do gnero Desconfiar de homem que no fale e de co que no morde. Tambm no se dever excluir a probabilidade, mais de acordo com a moral dos modernos tempos, de haver ela encarado qualquer eventual ligao dele como factor despiciendo, no gnero Eu s tenho de mostrar o que sinto, no vou averiguar primeiro se o cavalheiro est livre ou no, ele que o diga. Em todo o caso, quem teve a ideia de ir ao ficheiro do pessoal para saber a morada de um revisor, bem podia ter aproveitado a oportunidade para certificar-se do seu estado civil, ainda que se tratasse de uma informao antiga. Solteiro  o que est escrito na ficha de Raimundo Silva, mas, se ele se tivesse casado depois, de certeza ningum se lembraria de registar-lhe a mudana de estado. Alm disso, no se ignora que entre o estado de solteiro e o estado de casado, ou de divorciado, ou de vivo, no so poucas as situaes possveis, antes, durante e depois, resumveis nas respostas que cada um v encontrando para a pergunta, A quem  que eu quero, independentemente de querer a quem, incluindo-se aqui, claro est, todas as variantes principais e secundrias, tanto activas como passivas.
   Nos dois dias seguintes, Maria Sara e Raimundo Silva falaram muito pelo telefone, repetindo alguma coisa do que  antes tinham dito, maravilhando-se s vezes com o que de novo iam encontrando e buscando as melhores palavras para exprimi-lo de modo diferente, proeza praticamente impossvel, como se sabe. Foi na tarde do segundo dia que Maria Sara anunciou, Amanh vou trabalhar, sairei uma hora mais cedo e vou a sua casa. A partir deste momento, Raimundo Silva comeou a confirmar tudo quanto se afirma sobre o carcter infantil dos homens, irrequieto como se sentisse necessidade de expulsar de si uma sobrecarga de energia impaciente por o tempo ser afinal a mais vagarosa das coisas deste mundo, caprichoso tambm, ou embirrento, como mentalmente lhe chamou a senhora Maria, ao ver confundida a rotina dos seus servios de limpeza e arrumao pelas exigncias absolutamente despropositadas de um homem em seu normal acomodatcio. A primeira desconfiana dela, de haver mouros na costa, manifestada quando viu a rosa no solitrio, e que se tornara em quase certeza ainda que certeza sem objecto, quando as rosas passaram a ser duas, volvia-se agora em convico firme perante o alvorotamento, por assim dizer imprprio, de quem fora ao ponto de exibir um dedo indicador sujo de poeira recolhida num friso de porta, repetindo assim a desagradvel tradio das donas de casa manacas de higiene. Raimundo Silva s comeou a perceber que devia dominar-se quando a senhora Maria, provocadoramente, lhe perguntou, Quer que mude hoje os lenis da cama, ou espero at sexta-feira como  costume. Infantis, os homens so tambm transparentes. Valeu a Raimundo Silva no estar nessa altura no quarto, assim a senhora Maria no chegou a v-lo atrapalhar-se, embora a ela lhe tivesse bastado como confirmao de que acertara no alvo a afligida tremura de voz que o seu ouvido finssimo identificou, No vejo motivo para alterar os hbitos da casa, frase que no chegou para engan-la e que nele foi acordar uma outra inquietao, vaga, sinuosa, que tentava repelir as nicas palavras por que lealmente se exprimiria, demasiado cruas para serem recebidas no seu monlogo interior, Se ns formos para a cama estaro os lenis suficientemente limpos, perguntaria, e no sabe como responder, ouve a senhora Maria dizer, chocarreira no ponto justo, nem de mais nem de menos, Julguei que os queria mudados, cobardemente cala-se, se ela mudar os lenis que o faa por sua conta, ser o destino a decidir. S quando a mulher-a-dias se for embora  que ele ir verificar, ento v que os lenis so lavados, a senhora Maria  apesar de tudo uma pessoa misericordiosa, mas ele no vai conseguir decidir-se entre ficar satisfeito ou contrariado. Que vida complicada.
   Passava pouco das cinco horas, a campainha tocou. Um toque leve, como de passagem, que precisamente fez correr Raimundo Silva  porta como se tivesse medo de que fosse uma vez para nunca mais, s na sinfonia de Beethoven o destino chama e torna a chamar, na vida no  assim, h ocasies em que tivemos a impresso de que algum estava l fora  espera, e quando fomos ver no era ningum, e h outras em que chegmos apenas um segundo tarde de mais, e tanto fazia, a diferena  que, neste caso, ainda podemos ficar a perguntar-nos, Quem ter sido, e levar o resto da vida a sonhar com isso. Raimundo Silva no precisar de sonhar. Maria Sara est ali, no limiar, e entra, Ol, disse, ele respondeu, Ol, e os dois ficaram no corredor estreito, um pouco sombrio, agora que a porta se fechou. Raimundo Silva acendeu a luz murmurando, Desculpe, como se tivesse adivinhado um pensamento a Maria Sara, suspicaz e equvoco, O que tu queres  aproveitar-te do escuro, julgas que no te percebo, na verdade comea mal a to desejada visita, estes dois que ao telefone tantas vezes foram inteligentes e brilhantes, at agora no disseram mais que Ol, custa a acreditar depois das promessas implcitas, do jogo das rosas, destes corajosos passos que ela deu, quem sabe se no estar desiludida com a maneira como a recebem. Felizmente, em situaes como esta, difceis, o corpo  rpido a compreender que o crebro no est em condies de dar ordens e por sua prpria conta se move, em geral faz o que convm, e pelo caminho mais curto, sem palavras, ou usando delas o que lhes sobra de incuo e casual, foi assim que Raimundo Silva e Maria Sara se acharam no escritrio, ela ainda no se sentou, tem a mo na dele, talvez nem um nem o outro tenham conscincia de que esto assim desde que ela entrou, sabem apenas que esto de mo dada, a direita dele e a esquerda dela, Maria Sara procura com o olhar uma cadeira,  ento que Raimundo Silva, como se no houvesse outra maneira de ret-la um instante ainda, leva a mo dela aos lbios, e deu resultado, sim senhor, porque Maria Sara no instante seguinte estava a olh-lo de frente e ele podia pux-la um pouco para si, os lbios aflorando apenas a testa, junto  raiz dos cabelos. To perto, e logo to longe, porque ela recuou,  certo que sem brusquido, ao mesmo tempo que dizia,  uma visita, lembra-se. Ele soltou-a suavemente, Lembro-me disse, e indicou-lhe a cadeira, Ao lado tenho uma salita com assentos mais confortveis, mas penso que se sentir melhor aqui onde estamos, e tendo dito foi sentar-se  secretria, na nica cadeira que restava, ficaram separados pela mesa, era como num consultrio, Diga-me de que se queixa, porm Maria Sara no falava, ambos sabiam que era a ele que competia falar agora, que mais no fosse para dar as boas-vindas a quem chegara. E ele falou. F-lo num tom uniforme, praticamente sem modulaes de persuaso ou insinuao, querendo que cada palavra valesse por si mesma pelo significado nu que naquele momento e naquela situao pudesse alcanar, Vivo sozinho nesta casa, e h muitos anos, no tenho mulher, excepto quando a necessidade aperta, e ento continuo a no ter, sou uma pessoa sem atributos especiais, normal at nos defeitos, e no esperava muito da vida, enfim, esperava conservar a sade porque  uma comodidade, e que o trabalho no me faltasse, a isto, que no  pouco, reconheo, se limitavam as minhas ambies, agora gostaria que a vida me desse o que nunca me lembro de ter tido, o sabor que ela certamente tem. Maria Sara ouvira-o sem desviar os olhos dos dele, salvo por um rpido momento em que a ateno concentrada foi substituda por uma expresso de surpresa e curiosidade, e disse quando Raimundo Silva chegou ao fim, No estamos, creio eu, a estabelecer as condies de um contrato, nem precisa de me informar do que eu j sabia,  esta a primeira vez que lhe falo das coisas particulares da minha vida, As coisas que julgamos particulares so quase sempre do conhecimento geral, no imagina o que  possvel ficar a saber em duas ou trs conversas aparentemente desinteressadas, Andou a fazer perguntas a meu respeito, Fiz perguntas a respeito dos revisores que trabalham para a editora, apenas para me ajudar a ter uma ideia, compreende, mas as pessoas geralmente esto sempre dispostas a dizer mais do que se lhes pergunta,  questo de estimul-las um pouco, de encaminh-las sem que se apercebam disso, J tinha notado essa sua habilidade, logo no princpio, S a uso para bons fins, No estou a queixar-me. Raimundo Silva passou a mo pela testa, hesitou um segundo, depois disse, Pintava o cabelo, deixei de pint-lo, as razes brancas no so um espectculo agradvel, desculpe, daqui por um tempo estarei no meu natural, Pois eu deixei de o estar, por sua causa fui hoje ao cabeleireiro tingir as venerveis cs, Eram to poucas que no me parece que valesse a pena, Ento tinha reparado, Olhei-a suficientemente de perto, como me ter olhado a mim para perguntar-se como  que um homem com a minha idade no tinha cabelos brancos, Nunca me perguntei tal coisa, metia-se pelos olhos dentro que pintava o cabelo, a quem  que pensa que andava a enganar, Provavelmente, s a mim mesmo, Como eu decidi agora comear a enganar-me,  igual, Que  que  igual, A sua razo para pintar, a minha para deixar de pintar, Explique melhor, Eu deixei de pintar o cabelo para ser como sou, E eu, por que o pintei eu, Para continuar a ser como , Admirvel casustica, vou ter de praticar ginstica mental todos os dias para estar  sua altura, No sou o mais alto dos dois, sou apenas o mais velho. Maria Sara sorriu de leve,  uma evidncia irremovvel que, pelos vistos, o preocupa, No me tem preocupado, a idade de cada um de ns s tem um real significado em relao  idade do outro, suponho que serei novo para uma pessoa de setenta anos, mas no tenho dvidas de que para um rapaz de vinte estou na velhice, E em relao a mim, como se v, Agora que tingiu os seus poucos cabelos brancos e eu estou a deixar aparecer todos os meus, sou um homem de setenta anos diante duma rapariga de vinte, As suas contas esto erradas, s quinze anos nos separam, Ento tenho trinta e cinco anos. Riram ambos, e Maria Sara disse Vamos combinar uma coisa entre ns, Qu, Que o tema da idade e das idades ficou esgotado nesta conversa, Tentarei no voltar a ele, Convir que faa mais do que tentar, porque eu no serei a interlocutora, Falarei com o espelho, Falar consigo mesmo, se lhe d gosto, mas no foi para isso que vim a sua casa, Imagino que perguntar-lhe para que veio seria presunoso da minha parte, Ou grosseiro, No estou a dizer o que deveria, de repente sai-me uma frase que estraga tudo, Que esse medo o no apoquente, no estragou nada, a verdade  que estamos os dois assustados, Se eu me levantar daqui e lhe for dar um beijo, talvez, No o faa, mas se o fizer no o anuncie primeiro Cada vez pior, outro no meu lugar saberia como proceder Outro no seu lugar teria aqui outra mulher, Rendo-me Disse-lhe que era somente uma visita, pedi-lhe que esperasse,  o que fao, mas eu sei j o que quero, Concedo que seja importante saber o que se quer, toda a gente tem palavras dessas na boca, mas penso que  muito melhor querer o que se sabe, leva mais tempo,  certo, e as pessoas no tm pacincia, Rendo-me outra vez, que posso ento fazer, Pode mostrar-me a sua casa, habitualmente  por a que se comea, Diz-me como vives e eu saberei quem s, Pelo contrrio, dir-te-ei como no deves viver se me disseres quem s, Ando a tentar dizer-lhe quem sou, E eu a tentar descobrir como vamos viver. Raimundo Silva levantou-se, levantou-se tambm Maria Sara, ele contornou a secretria, aproximou-se, mas no demasiado, somente lhe tocou num brao, como para indicar-lhe que a visita ia principiar, contudo ela demorava-se, olhava a mesa, os objectos em cima dela, o candeeiro, papis, dois dicionrios,  aqui que trabalha, perguntou, Sim,  aqui que trabalho, No vejo sinais de um certo cerco, Vai v-los, o castelo no  apenas este escritrio.
   Sabemos que no h muito mais do que isto, a casa de banho, at h algumas semanas tambm laboratrio de cosmtica, a cozinha, das torradas e da comida repetitiva e frugal, o escritrio, onde mesmo agora estvamos, a sala de estar, inspita e abandonada, esta porta que d para o quarto. Com a mo no puxador, Raimundo Silva parece hesitar em abri-la, retm-no uma espcie de respeito supersticioso,  decididamente um homem de outros tempos, que teme ofender o pudor de uma mulher pondo-lhe diante dos olhos a libidinosa viso duma cama, mesmo tendo sido ela prpria a pedir, Mostre-me a sua casa, o que nos autoriza a pressupor que sabia muito bem o que a esperava. A porta abre-se finalmente,  o quarto, com os seus mognos excessivos, em frente, no sentido do comprimento, o leito, a colcha branca, grossa, por baixo do travesseiro a alvinitente dobra do lenol, h uma luz coada que vem da janela e suaviza os contornos das coisas, e tambm um silncio que parece respirar. Estamos em abril, as tardes j so longas, os dias demoram-se, ser por isso que Raimundo Silva no acende a luz, tambm para que no se deite a perder esta mal principiada penumbra, a qual, por sua vez, o pe em desassossego, no v Maria Sara pensar mal das suas intenes, de mais sabemos todos, por experincia ou ouvir contar, como tantas vezes se chega ao deslumbramento pelo caminho duma obscuridade, no mago profundo da escurido. Maria Sara viu logo as duas rosas no solitrio, sobre a pequena mesa ao lado da janela, e as folhas de papel, uma meio escrita ao centro,  esquerda uma pequena rima, agora devia Raimundo Silva acender aquele candeeiro para criar efeito e atmosfera, mas no o fez, chegara-se para um lado, junto aos ps da cama, como se a quisesse esconder, e esperava as palavras, tremia de no poder adivinhar que palavras iriam ser ditas, no pensava em gestos, em actos, apenas as palavras, aqui, neste quarto.
   Maria Sara aproximou-se da mesa. Durante alguns segundos ficou ali, parada, como se aguardasse a explicao seguinte do guia, ele podia dizer-lhe, por exemplo, Repare nas rosas, e ela teria de desviar os olhos, interessar-se pelas flores, gmeas de outras que tem em casa, e, depois, uma aluso cmplice da sua parte, uma discreta expresso de sentimento talvez amoroso, As nossas rosas, acentuando o pronome, mas ele continua calado e ela no faz mais que olhar a pgina meio escrita, no precisa perguntar para saber que esto aqui os sinais do cerco, ainda indecifrveis na meia luz apesar da boa caligrafia do cronista. Compreende que Raimundo Silva no falar, e ela quereria e ao mesmo tempo no quer que ele fale, que nada venha interromper este silncio irreal, mas que acontea algo que impea a irrupo de um outro mundo neste em que estamos, a prpria morte, talvez, nico outro mundo verdadeiramente, que entre marcianos e terrestres, encontrando-se, sempre haveria de comum a vida. No instante preciso afasta um pouco a cadeira e senta-se, com a mo esquerda acende o candeeiro, a luz cobre a mesa e espalha ao redor do quarto um halo como de tenussimo e impalpvel nevoeiro. Raimundo Silva no se mexeu, tenta analisar uma difusa impresso de que com aquele gesto Maria Sara acabou de tomar posse material de alguma coisa j antes possuda pela conscincia, e logo pensa que por muitos anos que viva no haver nunca outro momento como este, ainda que ela volte a esta casa e a este quarto muitas vezes, ainda que, ideia absurda, aqui viessem a viver todos os momentos da vida. Maria Sara no tocou no papel, tem as mos juntas no regao, e l desde a primeira linha, ignora o que foi escrito na pgina anterior, e nas outras, desde o comeo da histria, l como se nestas dez linhas se contivesse tudo quanto lhe importaria saber da vida, uma sentena final, um resumo derradeiro, ou, pelo contrrio, a carta de prego onde se encontra consignado o novo rumo da sua navegao. Acabou de ler, e, sem virar a cabea, pergunta, Quem  esta Ouroana, este Mogueime quem , estavam os nomes, e pouco mais, como sabamos. Raimundo Silva deu dois passos breves na direco da mesa, parou, Ainda no sei bem, disse, e calou-se, afinal deveria ter adivinhado, as primeiras palavras de Maria Sara teriam de ser para indagar quem eles eram, estes, aqueles, outros quaisquer, em suma, ns. Maria Sara pareceu contentar-se com a resposta, tinha experincia suficiente de leitora para saber que o autor s conhece das personagens o que elas foram, mesmo assim no tudo, e pouqussimo do que viro a ser. Disse Raimundo Silva, como se respondesse a uma observao feita em voz alta, No creio que se possa chamar-lhes personagens, Pessoas de livro so personagens, contraps Maria Sara, Vejo-os antes como se pertencessem a um escalo intermdio, diferentemente livres, em relao ao qual no fizesse sentido falar nem da lgica da personagem nem da necessidade contingente da pessoa, Se no pode dizer-me quem so, diga-me ao menos o que fazem, Ele  soldado, esteve na tomada de Santarm, ela foi apanhada na Galiza para servir de barreg a um cruzado, H portanto uma histria de amor, Se se lhe pode chamar assim, Tem dvidas,  que no sei como se amava naquele tempo, isto , sou talvez capaz de imaginar o sentimento, mas no fao ideia nem tenho informao de como o exprimiam ento um homem e uma mulher do povo, a lngua, neste caso, no seria obstculo, os dois falavam galego, Invente uma histria de amor sem palavras de amor, sans mots d'amour, suponho que j ter acontecido alguma vez, Duvido, pelo menos na vida real, tanto quanto sei,  impossvel, E essa Ouroana, sendo barreg de um cruzado, imagino que fidalgo, como vai ela parar ao soldado Mogueime, O mundo d muitas voltas, a ns muitas mais, e a final delas  a morte, o cruzado Henrique, assim se chama, vai morrer no tarda, Ah, esse seu cruzado  o mesmo da Histria do Cerco de Lisboa, a outra, Precisamente, Ento tambm vai contar o caso dos milagres que ele obrou depois de morto, No perderia a oportunidade, O dos dois mudos, Sim, mas com uma ligeira modificao, a resposta de Raimundo Silva veio acompanhada de um sorriso. Maria Sara ps a mo sobre a pequena rima de papel, Posso olhar, perguntou, Decerto no vai querer ler isso agora, alis ainda estou longe do fim, a histria est incompleta, No terei pacincia de esperar, e as folhas no so assim tantas, Peo-lhe, hoje no, Tenho curiosidade de saber como resolveu o problema da recusa dos cruzados, Amanh fao fotocpias e levo-lhas  editora, Bom, de acordo j que no posso convenc-lo. Levantou-se, Raimundo Silva estava muito perto,  tarde, disse Maria Sara, e olhou para o lado da janela, Pode abrir, perguntou, No esteja preocupada, disse Raimundo Silva, eu no lhe fao mal, tenho presente que veio de visita, nada mais, Tenha tambm presente que esse discurso  tolo, quero respirar, ver daqui a cidade, nada mais.
   Estava um crepsculo suave, a friagem do entardecer mal se sentia. Lado a lado, com os cotovelos apoiados na varanda, Maria Sara e Raimundo Silva olhavam em silncio, conscientes das suas mtuas presenas, o brao de um sentindo o brao do outro, e, pouco a pouco, a tepidez do sangue. O corao de Raimundo Silva batia com fora, ressoava-lhe nos ouvidos, o de Maria Sara parecia querer abal-la da cabea aos ps. O brao dele chegou-se um pouco mais, o dela permaneceu onde estava, expectante, porm Raimundo Silva no ousou ir mais longe, aos poucos invadira-o o medo, Posso falhar, pensava, no via muito claramente, ou no queria ver, em que  que poderia falhar, mas essa mesma indeterminao fazia aumentar o seu pnico. Maria Sara sentiu que todo ele recuava, como um caracol que se recolhe  proteco da concha, mais e mais fundo, e disse cautelosamente,  uma bonita vista. As primeiras luzes apareciam nas janelas ainda tocadas por um resto de claridade diurna, os candeeiros da rua acabavam de acender-se, algum ali perto, no Largo dos Lios, falou em voz alta, algum respondeu, mas as palavras ficaram incompreensveis. Raimundo Silva perguntou, Ouviu aqueles, Ouvi, No consegui perceber o que disseram, Eu tambm no, Nunca saberemos at que ponto as nossas vidas mudariam se certas frases ouvidas mas no percebidas tivessem sido entendidas, O melhor, penso eu, seria comear por no fazer de conta que no percebemos as outras, as claras e directas, Tem toda a razo, mas h pessoas a quem atrai mais o duvidoso que o certo, menos o objecto do que o vestgio dele, mais a pegada na areia do que o animal que a deixou, so os sonhadores, , evidentemente, o seu caso, At certo ponto, embora tenha de lembrar-lhe que no foi minha a ideia de escrever esta nova histria do cerco, Digamos que eu pressenti que tinha na minha frente a pessoa indicada, Ou que, prudentemente, prefere no ter a responsabilidade dos seus sonhos, Estaria aqui eu se essa fosse a verdade, No, A diferena  que eu no busco pegadas na areia. Sabia Raimundo Silva que no precisava perguntar que era ento que buscava Maria Sara, agora poderia pr-lhe um brao sobre os ombros, como sem inteno, um gesto simples, s fraterno por enquanto, e deixar que ela reagisse, talvez que suavemente relaxasse o corpo, talvez se tornasse, como dizer, redonda, e se deixasse descair um quase nada para o lado, inclinando um pouco a cabea,  espera do gesto seguinte. Ou ficaria tensa, protestando silenciosamente, desejando que ele percebesse que ainda no era tempo, Mas ento, quando, perguntava Raimundo Silva a si mesmo, esquecido do medo que sentira, Depois do que dissemos agora, do que explicitamente nos prometemos, o lgico seria que j nos tivssemos abraado e beijado, pelo menos, sim, pelo menos. Endireitou-se como para sugerir que deveriam retirar-se para dentro, mas ela continuou debruada na varanda, e ele perguntou, No tem frio, No, nenhum frio. Reprimindo um movimento de impacincia, voltou  posio anterior, sem saber agora de que falar, imaginando viciosamente que ela estava a divertir-se  sua custa, era tudo bem mais fcil quando lhe telefonava para casa, mas no podia dizer-lhe, V-se embora, que eu telefono-lhe. Ento veio-lhe a ideia para sair do embarao, um tema neutral, Esse prdio em frente ocupa o lugar de uma das torres que defendiam a porta que estava neste local, ainda se nota na forma da base, E a outra torre, onde era, devia haver duas, Aqui mesmo, onde estamos, Tem a certeza, Certeza absoluta no, nas tudo indica que sim, considerando o que se sabe sobre o traado do que seria esta parte da muralha, Ento, aqui, na torre, que somos ns, mouros ou cristos, Por enquanto, mouros, estamos c justamente para impedir que os cristos entrem, No o conseguiremos, nem vai ser preciso esperar pelo fim do cerco, haja vista os painis de azulejos com os milagres de Santo Antnio,  entrada da rua, Abominveis, Os milagres, No, os azulejos, Por que  que esta rua se chama do Milagre de Santo Antnio, quando s nos painis h trs, No lhe sei responder, talvez o santo tenha feito algum milagre particular aos vereadores,  verdade que seria mais bonito chamar-lhe dos Milagres, o que no se dever, por exemplo,  imaginar que Santo Antnio tenha contribudo militarmente para a conquista de Lisboa, naquela altura ainda no era nascido, Dois dos milagres dos painis so sabidos, o do aparecimento do Menino Jesus e o da bilha partida, o outro no conheo, h um cavalo, ou uma mula, no reparei bem,  uma mula Que  que sabe do caso, Tenho a dentro um livro, um alfarrbio velho, coisa do sculo dezoito, onde se contam todos os milagres, incluindo esse, Diga, O melhor seria que o lesse, Fica para outra vez, Quando, No sei, amanh, depois, um dia. Raimundo Silva respirou fundo, era impossvel fazer de conta que no percebia estas palavras, e a si mesmo fez jura de record-las, inapelvel, a Maria Sara como a promessa definitiva que imperativamente reclama o seu cumprimento prprio. De to alegre que ficou, de to solto e livre, ps-lhe sem pensar a mo no ombro, e disse, No, eu  que vou ler-lhe a histria da mula, venha para dentro  comprida,  como tudo, pode ser dita em dez palavras, ou em cem, ou em mil, ou no acabar nunca.
   Raimundo Silva fechou a janela e foi ao escritrio. Maria Sara ouviu-o murmurar, No est aqui, onde diabo o meti eu, e depois entrou na sala de estar, abria e fechava as portas da estante, finalmente, C est. Reapareceu com um in-quarto encadernado em pele, vetusto de aspecto, com certeza de origem, e vinha contente como quem procurou e achou, mas no o livro, Sente-se, disse, ela sentou-se na cadeira junto da mesa, tinha a mo sobre a folha de papel onde estavam os nomes de Ouroana e Mogueime, ele ficou de p, parecia muito mais novo, feliz, Agora oua com ateno, que vale a pena, comeo pelo ttulo, a vai, Sol Nascido ao Ocidente e Posto ao Nascer do Sol, Santo Antnio Portugus Luminar Maior no Cu da Igreja Entre os Astros Menores na Esfera de Francisco, Eptome Histrico e Panegrico da Sua Admirvel Vida e Prodigiosas Aces, Que Escreve e Oferece  Serenssima, Augusta, Excelsa, Soberana Famlia da Casa Real de Portugal, Cujos nclitos Nomes e Cognomes se Felicitam e Esmaltam Com as Sagradas Denominaes de Franciscos e Antnios, Por Mo do Reverendssimo Antnio Teixeira lveres, do Conselho de Sua Majestade, Que Deus Guarde, Seu Desembargador do Pao, do Conselho Geral do Santo Ofcio, Cnego Doutoral na S de Coimbra, e Lente de Prima Jubilado nas Duas Faculdades de Cannes e Leis, et coetera, Brs Lus de Abreu, Cistagano, Familiar do Santo Ofcio, uff. Maria 5ara riu-se, Espero ter compreendido que o autor da mirfica obra  esse Brs Lus de Abreu, final e cistagano, Compreendeu muito bem, e felicito-a, agora oua, pgina cento e vinte e trs, ateno, vou comear, Com a notcia de que algumas Provncias daquele Reino, o reino de que se fala  a Frana, se achavam inficcionadas deste contgio, o da hertica pravidade, como se explica umas linhas acima, partiu Antnio de Lemonges para Tolosa, Cidade nesse tempo to abundante de comrcios como enriquecida de vcios, e o que mais , pestilente seminrio dos Hereges Sacramentrios que negam a real presena de Cristo na Hstia Consagrada. Apenas se viu o Santo posto na palestra dos erros quando logo comeou a descer para a rea dos conflitos, s para que viesse a subir para o carro dos triunfos. Picado do ardente zelo da glria de Deus e das verdades infalveis da sua F, arvorou nos pendes da caridade as bandeiras da doutrina, nos quartis da penitncia as armas da Cruz, e feito trombeta Evanglica da Divina palavra tocou a marchar vozes, a degolar vcios. Era o dio que tinha aos Herticos to implacvel como incansvel a actividade fogosa do seu zelo. Sacrificou-se todo nas aras da F por vtima da sua crueldade, como quem com tantas veras tinha ensaiado a vida para a morte, os afectos para o martrio. No se descuidavam aqueles Pssaros de mau agouro, que vivendo na funesta noute dos seus erros s rendem sua altivez obstinada s armas da luz, de maquinar contra a sua vida venenos disfarados, contra a sua honra diablicos artifcios, contra a sua reputao infernais inventos, solicitando quanto o podiam alcanar as foras da sua malcia, desacreditar e obscurecer as luzes de tanta doutrina, os trofus de tamanha Santidade. Comeou a pregar Antnio com aplauso e admirao de todos os Catlicos, e ainda mais porque, reconhecendo-o Estrangeiro, o viam falar na prpria lngua com tanta elegncia, afluncia e expedio que parece que se naturalizara no Idioma, que, como ele, se tinha legitimado nos afectos. Voou a Fama dos maravilhosos produtos que fazia nas Almas a eficcia da sua palavra, e os Hereges Predicantes, que comearam a reconhecer o grande dano, assim o entendiam eles, que se lhes seguia do novo pregador, porque em muitos, que se convertiam dos seus erros, iam perdendo o crdito, com a soberba e a presuno, vcios to familiares nesta canalha, determinaram entrar com Antnio em Mercurial disputa, fiando de suas sofsticas cavilaes uma campal vitria.
   Por enquanto no h sinais da mula, disse Maria Sara, Naquele tempo os caminhos do mundo no eram cmodos e os da escrita ainda menos, observou Raimundo Silva, e continuou, Fiaram-se e confiaram-se para este efeito de um insigne Dogmatizante Tolosano, entre eles o mais clebre e o de maior nome, chamado Guialdo, homem audaz, prosuntivo e cervicoso, mui versado nas Sagradas Escrituras, inteligentssimo da lngua Hebrea, no engenho acre, fogoso no gnio, e em tudo aparelhado sempre para as maiores disputas. No rejeitou o Santo o quartel de desafio por satisfazer a o duelo da F, pondo toda a confiana em Deus como nico Agente da sua causa. Assinou-se o dia e o stio para a contenda. Foi inumervel o concurso, igualmente de Catlicos que de Sectrios. Comeou o Herege primeiro que Antnio, que sempre no teatro do Mundo fez primeiro papel a Malcia, a orar com vaidosa ostentao de seus mal empregados estudos e a introduzir alinhadas parlandas com uma farta verbosidade de alguns cavilosos Silogismos. Deixou passar a modstia do Santo aquela trovoada de palavras, cheias de artifcio, vazias de verdade, e entrou logo a refutar seus depravados erros, com tanta cpia de lugares da Sagrada Escritura, exornados com to vivas razes, com to legtimos sentidos, e com discursos to apropriados, que j a obstinao do Herege se dava por vencida, quanto aos fatigados discursos do entendimento, se ainda no se mantivera firme, quanto aos diablicos caprichos da vontade. No indivduo os agudos dilemas com que Antnio enobreceu este combate, porque superiores  narrao se entreguem ao silncio da histria como mistrios da fama, baste dizer que procedeu to doutamente ilustre que, excedendo-se a si mesmo, fez mais glorioso o sucesso com a vitria de um impossvel. Ateno agora, Maria Sara, j se ouve o bater dos cascos da mula. Entre corrido e confuso se achava o perverso Dogmatizante por se ver concludo na presena dos mesmos que com tanto orgulho esperavam ver triunfantes os seus enganos. E vendo totalmente desfeitas as artificiosas redes de suas fraudulentas sofisterias, comeou a tentar a modstia e humildade do Santo com este mal intencionado discurso, Enfim, Padre Antnio, deixemo-nos das vozes, conceitos e disputas, s nos resta que vamos s obras, e j que to prezado de Catlico e filho da Igreja Romana confias nos milagres, que em confirmao dos Artigos da F foram nos primitivos tempos os motivos mais poderosos da prudente credulidade, eu me darei por ultimamente concludo como a favor deste artigo da presena Real do corpo de Cristo no Sacramento obre Deus algum milagre. Antnio, que para colher nos conflitos a palma tinha sempre a Deus da sua mo, esperanado nele, respondeu, Sou contente, e confio na misericrdia de meu Senhor Jesus Cristo, que, por adquirir a tua alma e as de tantos como seguem com abominvel cegueira os mpios Dogmas dos teus erros, h-de fazer ostentao do seu poder infinito a favor e em crdito desta verdade Catlica. A esta varonil e Santa resoluo tornou o Herege, Pois eu sou o que hei-de escolher o milagre. Eu sustento em minha casa uma Mula. Se esta, depois de trs dias em que no tenha comido bebido,  vista da Hstia Sagrada no apetecer nem olhar para o sustento por mais que lho ofeream, crerei firmemente ser verdade infalvel que est Cristo no Sacramento. Movido do Divino instinto veio prontamente o Santo no partido ponderado com um contentamento pressago do triunfo, que no seu grande corao s se admitia o desassossego introduzido pelo alvoroo. E em confiana de que era tanto de Deus aquela causa, se prometeu seguramente a vitria, prevenindo-se para o combate com as armas da Humildade, com os aproches da Orao.
   Estou toda arrepiada, disse Maria Sara, com a solenidade do momento, e com o vernculo, mas esses aproches parecem-me um escandaloso galicismo, Assim , para que no esqueamos que at nos piores panos caem as ndoas continuemos, Chegou o dia determinado, ajuntou-se numeroso concurso de uma e outra parte, a dos Catlicos, confiada mas humilde, a dos Hereges, sobre incrdula, presunosa. Celebrou Antnio o tremendo Sacrifcio da Missa no mais vizinho Templo, e recebendo em suas mos, com toda a reverncia, a Hstia Consagrada, saiu aonde o faminto Bruto estava prevenido. Puseram-lhe diante dos olhos e bem junto  boca uma crescida rao de cevada, e ao mesmo tempo com imperiosa voz lhe disse o Santo, Em virtude e em nome de Jesus Cristo, que tenho em minhas indignas mos, te mando,  Criatura irracional, que, desprezado esse sustento, chegues a dar a devida adorao a teu Criador, para que convencida a proterva obstinao dos homens confesse as verdades da F Catlica Romana, obrigada do instinto menos obstinado dos Brutos. Ainda bem Antnio no tinha acabado de proferir semelhantes palavras, quando o Bruto torpe, nisto no mostrou que o era, rejeitando a comida, que j tinha principiado a devorar, e vencendo em si as poderosas instncias de seu natural apetite, se chegou ao Santo e prostrado de joelhos adorou a Cristo Sacramentado, com pasmo e admirao de todos os circunstantes. Atendiam todos este maravilhoso espectculo com lgrimas nos olhos, e sendo em todos um efeito, eram os afectos vrios, porque as que nos Catlicos eram lgrimas de devoo e ternura, nos Hereges eram de compuno e arrependimento. Celebraram os Catlicos os triunfos da F e detestavam os mais Hereges os erros da Seita. Somente alguns rebeldes  mesma evidncia, ainda namorados dos absurdos, parecem que galanteavam os oprbrios. No puderam porm negar-se confundidos de estticos, de sorte que os mesmos que antes da batalha se prometiam nos movimentos do seu orgulho os aplausos do triunfo, foram ao depois, pela imobilidade das aces, as primeiras esttuas oferecidas  vitria.
   Raimundo Silva fez uma pausa para dizer, Segue-se um pargrafo que descreve a converso de Guialdo e de seus parentes e amigos, poupo-a  leitura, mas o que no se pode perder  a perorao,  sempre admirvel virtude a de Antnio. Ela faz que os Brutos se ponham humanos para confuso dos Homens, ela faz que os Homens deixem de ser feras com a lio dos Brutos. Queixava-se David que os irracionais domsticos s conheciam o estbulo, onde achavam o sustento, sem atenderem  mo do Senhor, que lhe fazia o benefcio, porm nesta ocasio a imprios de Antnio, esquecida a ingratido da sua natureza, desprezou este vivente agradecido o sustento e o estbulo por adorar ao verdadeiro Senhor que lhe deu o ser e o sustento.  venturoso Animal. Agora se conhece em ti que h Brutos discretos, pois deixas a tantos Homens brutos, avisados. Uma vez em Belm deixaste de comer a palha para agasalhar a Deus nascido, agora em Tolosa deixas de comer a cevada por adorar a Deus Sacramentado. Esqueceste a palha no Prespio por adorar o Menino manifesto na casa do po, esqueceste a cevada na Palestra por venerar a Cristo oculto nas espcies do trigo. Assim tu foras capaz de razo, como s digno de aplauso. O teu instinto sim ser fantasia, mas parece discurso, a tua noo no ser raciocnio, mas parece entendimento. Sem teres memria, parece que tens advertncia no que veneras, sem teres vontade, parece que mostras afectos no que adoras, sem teres entendimento, parece que descobres juzo no que conheces. Dois milagres obrou em ti Antnio em um s prodgio para ser muitas vezes prodigioso neste s portento. Fez que o teu instinto bruto parecesse ideia racional porque adoraste, fez que a tua boal voracidade parecesse abstinncia penitente porque no comeste. No foram s dois os assombros, porque eram mais naquele passo os brutos. Era Guialdo cego na crena daquele mistrio, manco na F daquela presena, mas a f que Antnio lhe deu a vista  vista daquela maravilha nunca rastreada, a f que Guialdo logo se moveu com o p de tamanha novidade, nunca jamais vista. Eis aqui como de uma s aco de Antnio Soberano resultaram trs milagres estupendos, porque trs vezes requintado na virtude fosse nele o nico triplicidade, porque trs vezes milagroso nas obras fosse nele o admirvel superlativo. Amm.
   Raimundo Silva fechou o formidando livro com um movimento de solenidade burlesca e repetiu, Amm, Est no discurso do autor, esse amm, ou foi acrescentamento seu, perguntou Maria Sara, Uma tumefaco oratria assim no pedia menos, Que mundo este, em que tais coisas se acreditavam e escreviam, Eu diria antes, em que tais coisas no se escrevem, mas acreditam ainda hoje, Definitivamente, estamos loucos, Ns dois, Referia-me s pessoas em geral, Sou daqueles para quem o ser humano  desde sempre um doente mental, Para lugar-comum, no est mal, Talvez lhe soe menos a lugar-comum a minha hiptese de a loucura ter resultado do choque produzido no homem pela sua prpria inteligncia, ainda no nos repusemos do abalo trs milhes de anos depois, E, segundo a sua ideia, iremos cada vez a pior, No sou adivinho, mas receio bem que sim. Foi colocar o livro na mesa no exacto momento em que Maria Sara se levantava, ficaram os dois frente a frente, nenhum pode fugir, e no o quer. Ele segurou-a pelos ombros, era a primeira vez que Lhe tocava assim, ela ergueu a cabea, brilhavam-lhe muito os olhos, tocados pela luz baixa do candeeiro, e murmurou, No diga nada, nem uma palavra, no diga que gosta de mim, que me ama, d-me apenas um beijo. Ele puxou-a um pouco para si, mas no tanto que os seus corpos se tocassem, e inclinou-se devagar at tocar com os lbios os lbios dela, primeiro nada mais que tocar, um roar levssimo, e depois, aps uma hesitao, as bocas abriram-se ligeiramente, de sbito beijo total, intenso, ansioso. Maria Sara, Maria Sara, murmurou ele, no ousava outras palavras, ela no respondia, talvez no soubesse ainda dizer Raimundo, muito enganado est quem cuide que  fcil pronunciar um nome, no amor, pela primeira vez. Maria Sara retraa-se, ele quis segui-la, nas ela abanou a cabea, afastou-se, sem brusquido saiu dos braos dele, Tenho de ir, disse, d-me o meu casaco, que est no escritrio, e a mala, por favor. Quando Raimundo Silva regressou, ela tinha na mo a folha de papel e sorria, O mundo est cheio destes loucos, disse, e Raimundo Silva respondeu, Mogueime, vejo-o l em baixo, diante da Porta de Ferro,  espera da ordem de atacar, Ouroana, sendo noite, ser chamada  tenda do cavaleiro Henrique para que se goze ele dela, quanto a ns, somos os mouros que julgam poder vigiar do alto duma torre o avano do destino. Maria Sara recebeu o casaco, que no vestiu, a mala, e encaminhou-se para a porta do quarto.
   Ele acompanhou-a, fez ainda um gesto para ret-la, No, num momento ela tinha aberto a porta da escada, e foi dali que anunciou, Volto amanh, no precisas de ir  editora levar-me as fotocpias, e no me telefones, por favor.
   Raimundo Silva comeu pouco ao jantar, esteve a escrever at tarde, quando foram horas de ir para a cama percebeu que no seria capaz de abri-la, de deitar-se nos lenis lavados, sequer de desfazer a harmonia da almofada sobre o travesseiro. Tirou do guarda-fato dois cobertores de reserva e levou-os para a sala de estar, improvisou uma cama no div estreito, e ali  que dormiu.
   

   
   Geralmente, considera-se demonstrao de inultrapassvel bravura dar o prprio condenado  morte a ordem de fogo ao peloto que o vai fuzilar, e at mesmo os mais pacficos ou cobardes de ns, podendo ser e ajudando as circunstncias, teremos alguma vez sonhado com esse fim glorioso, mormente se sobrou algum para narrar o feito, que glrias da costura para dentro so menos estimadas. De facto,  preciso ter vindo ao mundo com nervos da mais apurada liga, ou, sendo eles vibrteis e estaladios, estar possesso de uma paixo acima do comum, patritica ou similar, para com a nossa rouca e logo para sempre calada voz gritar, Fogo, de alguma maneira descarregando de culpas as conscincias dos matadores e erguendo a nossa prpria, num ltimo lampejo, s alturas sublimes do sacrifcio e da abnegao total.  provvel que o cenrio habitual destes actos, em particular nas suas verses cinematogrficas, contribua para uma exaltao capaz de tornar qualquer banal pessoa num heri, s por casualidade ausente do lugar dramtico, precisamente por ter vindo hoje ao cinema, a ver, ora em falso, ora em verdadeiro, como simulou morrer o clebre actor, ou como, documentariamente, morreu de vez um justiado sem nome. No h qualquer insinuao maliciosa nesta dvida, apenas o que supomos ser certo, que nenhum condenado  cadeira elctrica, ou  forca, ou  guilhotina, ou ao garrote, ou  fogueira, ter dado voz de aco para ligar a corrente, ou abrir o alapo, ou soltar a lmina, ou girar o parafuso, ou riscar o fsforo, talvez por no terem estas mortes dignidade, incluindo as de mais longa tradio na arte, talvez por faltar nelas o factor militar, a instituio das armas, onde to mais de costume faz ninho o herosmo, que mesmo quando o condenado no passava de vulgar paisano as balas que recebeu no peito procederam como resgate da mediocridade e foram o vitico, o salvo-conduto, graas ao qual lhe vir a ser permitido, quando chegar a hora, entrar no paraso dos heris, sem querela de sentidos nem de causas, que l a ideia se perde de tais diferenas terrenais.
   To largo rodeio da matria no teve outra justificao que mostrar como, por inocncia, pode acontecer que algum venha a dar voz  sua prpria morte, mesmo no vindo ela imediata, e como, neste caso, palavras ditas com um santo propsito se converteram em serpentes furiosas que por nada deste mundo voltaro atrs. Era meio-dia, e os almuadens haviam subido ao balco das almdenas para convocar os crentes  orao, que no seria por estar a cidade cercada e posta nos alvoroos da guerra que deixariam de ser cumpridos os ritos da f, e apesar de saber o da mesquita maior que de todos os lados o avistavam soldados cristos, em particular os que assediam a Porta de Ferro, ali to perto, no lhe dava isto cuidado, em primeiro lugar por no ser a proximidade tanta que o alcanasse um dardo perdido, em segundo lugar porque as suas prprias palavras o haviam de defender dos perigos, La ilaha illa lla, ia clamar, Al  o nico Deus, e para que lhe serviria se afinal o no fosse. Ora, posto em frente das cinco portas, o exrcito dos portugueses no espera por mais que ouvir este grito para lanar o ataque geral e simultneo, primeiro dos trs itens em que, como sabemos, veio a articular-se o plano definitivo de combate, conforme foi estabelecido pelo nosso bom rei, ouvidos os pareceres do seu estado-maior. Ao irnico esmero de pr na boca dos mouros inadvertidos a ordem de assalto deveremos ns resistir  tentao de, levados pelo hbito, chamar maquiavlico, pois Maquiavel, a esse tempo, ainda no era nascido e nenhum dos seus antepassados, contemporneos ou anteriores  tomada de Lisboa, se havia distinguido internacionalmente na arte de enganar.  necessrio ter grande cuidado no uso das palavras, no as empregando nunca antes da poca em que entraram na circulao geral das ideias, sob pena de nos atirarem para cima com imediatas acusaes de anacronismo, o que, entre os actos repreensveis na terra da escrita, vem logo a seguir ao plgio. Na verdade, fssemos j ento uma nao importante, como o somos hoje, e no teria sido preciso esperar trs sculos por Maquiavel para enriquecer a prtica e o vocabulrio da astcia poltica, sem mais que pensar denominaramos de afonsino este golpe genial, Al  o nico Deus, grita o almuadem, e, como um s homem, os portugueses avanam a passo de carga e dando vozes para se animarem contra as portas da cidade, ainda que um observador medianamente experiente, desde que imparcial, no pudesse deixar de notar uma certa falta de convico nas hostes corredoras, como quem no acredita que com to pouco se v chegar to longe.  certo que os arcos e as bestas disparavam uma verdadeira chuva de setas, virotes e virotes sobre as ameias, com vista a afastar delas os mouros de guarda e a deixar folga aos assaltantes da primeira linha para, com machados e martelos, tentarem britar as portas, enquanto outros, manejando os pesados aretes, investem ritmicamente contra elas, mas os mouros no arredavam p, primeiramente protegidos pelos alpendres que haviam construdo, e depois, quando estes comearam a arder, incendiados por tochas atadas aos virotes maiores precipitaram-nos dos muros abaixo sobre as cabeas dos portugueses, que assim tiveram de recuar, chamuscados como cerdos depois da matana. Apagados os lumes mais vivos, para o que alguns soldados de Mem Ramires tiveram de lanar-se s guas do esteiro, donde saram rechinando e reclamando unguentos, a artilharia lanou nova barragem, agora mais prudente, empregando de preferncia pedras e bolas de barro duro, porque os mouros, diabolicamente maliciosos, davam-nos o troco com as nossas prprias munies, acontecendo mesmo morrer um portugus, est visto que ningum foge ao seu destino, com um virote de ida-e-volta de que fora o primeiro atirador. So casos que, embora raros, acontecem nos episdios de guerra, principalmente em trabalhos de cerco, pois nestes aproveita-se tudo, flecha vai, flecha vem, e, se no fosse a depreciao resultante do uso ininterrupto, uma batalha como esta poderia nunca acabar, mesmo sem entrar em linha de conta com as fbricas de Brao de Prata, em laborao contnua, chegando-se finalmente ao extremo de restar-nos um s sobrevivente para um arsenal completo, tantas armas e ningum a quem matar.
   Da varanda da almdena, o almuadem ouvia o fatal tumulto, quo diferente do alarido de alegres vozes que lhe chegara aos ouvidos naquele mesmo lugar, quando os cruzados partiram. Agora no precisava de descer a correr para saber o que se passava, de mais sabia que era a batalha que recomeava depois da pausa que se seguira  perda do arrabalde, mas no se sentia inquieto, os gritos que ouvia, dos seus irmos, no eram de desespero e derrota, mas de coragem, assim lhe pareciam, e decerto assim era, que sendo cego tinha a compensao de um ouvido finssimo, apesar da idade. Nas outras almdenas da cidade, provavelmente, estariam tambm os almuadens delas escutando o tumulto, seis, oito, dez cegos de tantas outras mesquitas, colocados entre o cu e a terra, em negra escurido. Todos eles eram responsveis por este ataque, eles eram os que tinham dado a ordem, porm, inocentes, no ligavam as palavras ditas ao seu efeito bvio, cada um estaria dizendo, Que coincidncia, e prefeririam pensar que, pairando ainda nos ares os ecos do santo apelo  orao, se bem que j confundidos com os bramidos e as pragas dos combatentes, era como se a presena palpvel de Al protegesse a cidade, enorme cpula feita de mirades de outras pequenas cpulas vibrantes que iam descendo, do castelo, pela encosta abaixo, at ao rio, enquanto ao redor o Deus dos cristos deveria estar com falta de escudos para defender dos projcteis de cima os seus cpticos soldados. Assustados pela algazarra, os ces ladram por estas ladeiras, buscam recantos e comeam a enterrar ossos, para alguma coisa lhes h-de servir o instinto quando at as pessoas dotadas de juzo pressentem a aproximao dos dias maus.
   Esta aluso aos ces mouros, isto , os ces que com os mouros ainda ento conviviam,  certo que na sua condio de impurssimos animais, mas que daqui a pouco tempo comearo a alimentar com a sua suja carne o corpo enfraquecido das criaturas humanas de Al, esta aluso, dizamos, fez recordar a Raimundo Silva o das Escadinhas de S. Crispim, se  que, pelo contrrio, no foi uma lembrana no consciente dele que deu p  introduo do quadro alegrico, com aquele breve comentrio sobre juzo e instinto. Quase sempre, para tomar o elctrico, Raimundo Silva vai s Portas do Sol, embora seja maior a distncia a percorrer, e tambm por a  que regressa. Se lhe perguntssemos por que o faz, responderia que, tendo uma to sedentria profisso, Lhe convm muito andar a p, mas a razo verdadeira no  precisamente essa,  facto que ele no se importaria nada de descer os cento e trinta e quatro degraus das escadas, ganhando tempo e beneficiando das sessenta e sete flexes de cada joelho, se, por vaidade masculina, no se sentisse tambm obrigado a subi-los, com a resultante canseira, que a todos toca se por aqui passam, como o deixa perceber a raridade dos alpinistas. Soluo conciliatria seria descer por l at  Porta de Ferro e tomar, para subir, o caminho mais comprido e suave, mas faz-lo teria sido reconhecer, de modo mais que implcito, que pulmes e pernas j no so o que foram, valorao somente presumvel, porque o tempo da vida robusta de Raimundo Silva no entra nesta histria do cerco de Lisboa. Em duas ou trs vezes que tomou, para descer, nestas semanas, aquele caminho, Raimundo Silva no encontrou o co, e pensou que, cansado de esperar da avareza dos vizinhos a rao vital mnima, ele teria emigrado para paragens mais abundantes de restos, ou ento acabara-se-lhe simplesmente a vida por ter esperado demasiado. Lembrou-se do seu gesto de caridade e disse consigo mesmo que bem o poderia ter repetido, mas isto de ces, sabe-se como , vivem com a ideia fixa de ter um dono, dar-lhes confiana e po  t-los  perna para sempre, ficam a olhar para ns com aquela ansiedade neurtica e no h outro remdio que pr-lhes coleira, pagar a licena e met-los em casa. A alternativa ser deix-los morrer de fome, to lentamente que no ficasse lugar para remorsos, e, se possvel, nas Escadinhas de S. Crispim, onde no passa ningum.
   Notcia chegou de que fora estremado outro campo santo numa ch fronteira ao castelejo, em baixo da encosta que est  mo esquerda do acampamento real, pela razo do trabalho que dava transportar os mortos por barrancos e charcos at ao Monte de S. Francisco, aonde chegavam mais modos que pescada e, com este tempo de grande calor, cheirando pior do que os vivos. Como aquele, tambm o cemitrio de S. Vicente  duplo, portugueses para um lado, estrangeiros para outro, o que, parecendo desperdcio de espao, responde, afinal, ao desejo de ocupao inerente  condio humana, para o efeito tanto servindo os vivos como os mortos. Aqui vir parar, chegando a sua hora, o cavaleiro Henrique, que v chegada estar para breve essa outra hora sua, a de provar a excelncia tctica das torres de assalto, confirmado como j foi o malogro dos ataques directos s portas e muralhas, item primeiro do plano estratgico. O que ele no sabe, nem ningum lho pode dizer,  que o momento em que ter postos em si os esperanosos olhos do exrcito, tirando os invejosos, que j nesse tempo os havia, esse mesmo momento, no limiar da glria, ser o da sua infausta morte, infausta militarmente falando, diga-se, porque a outra glria, mais alto, estava finalmente destinado quem de to longe viera. Porm, no antecipemos. Agora trata-se ainda de enterrar os trinta mortos nacionais que custou a tentativa de assalto  Porta de Ferro, e esses lev-los-o as barcas ao outro lado do esteiro, e pela encosta acima, a brao, em padiolas improvisadas com paus toscamente aparelhados.  beira da fossa comum sero despidos das roupas que possam aproveitar a vivos, se no esto molestamente encortiadas de sangue, e ainda assim algum menos escrupuloso e delicado a essas levar, donde vem a resultar que, no geral dos casos, os mortos baixam  sepultura to nus como a terra que os recebe.
   Alinhados, com os ps descalos a tocar a primeira fmbria do lodo, que as mars altas e as ondas mantm fresco e mole, os mortos, sob os olhares e chufas dos mouros vencedores, l no alto dos adarves, esperam a hora de embarcar. A tardana est em serem, para o transporte, menos os necessrios do que os voluntrios, o que poderia surpreender-nos tratando-se de tarefa to penosa e lgubre, mesmo levando em linha de conta o aliciante da compensao vestimentria, mas  caso que toda a gente quer ir realmente de barqueiro e cangalheiro, porque ali ao lado do cemitrio se acabou de instalar, nestes dias, o bairro da putaria, at agora dispersas as mulheres por esses barrocos e revessas mais escusas  espera de ver em que pararia esta guerra, se seria chegar, ver e vencer, e a qualquer arrumo precrio serviria, ou se ia dar em cerco prolongado, como tudo indica que venha a ser, portanto apetecendo maiores comodidades, e nesta circunstncia escolhe-se um espao sombreado, por estar quente o tempo e puxar do corpo o exerccio, e armam-se umas quantas choupanas de pau-a-pique e ramagens a fazer de toldo, para cama no se requer mais que uma paveia de feno ou umas rsticas ervas rodilhadas que com o tempo se volvero terrio confundido com a poeira dos mortos. No seriam precisos extremos de erudio para notar, agora, como j naqueles medievos tempos, apesar da resistncia da Igreja aos smiles clssicos, andavam emparceirados Eros e Tanatos, neste caso com Hermes por intermedirio, pois no poucas vezes com as mesmas roupas dos mortos se pagavam os bons servios de mulheres que, por estarem na infncia da arte e a principiar um pas, ainda acompanhavam com verdade e alegria os transportes do cliente. Perante isto, j no surpreender o debate, Vou eu, vou eu, que no  sinal de compaixo pelos companheiros perdidos nem pretexto para escapar por algumas horas s contingncias da frente de batalha,  sim apetite insofrvel da carne, dependente, quem o diria, dos caprichos de favoritismo ou de embirrao de um sargento-ajudante.
   E agora passemos um pouco ao longo desta fila de corpos sujos e sangrentos, deitados ombro com ombro  espera da hora do embarque, alguns de olhos ainda abertos, arregalados para o cu, outros que com as plpebras semicerradas parecem reprimir uma enorme vontade de rir,  um estendal de chagas, de feridas hiantes que as moscas devoram, no se sabe quem sejam ou tivessem sido estes homens, s os amigos mais de perto lhes conhecero os nomes, ou porque dos mesmos lugares vieram, ou porque juntos se encontraram num mesmo perigo, Morreram pela ptria, diria el-rei se aqui viesse prestar aos heris o ltimo preito, mas D. Afonso Henriques tem l no seu arraial os seus prprios mortos, no precisa vir de to longe, o discurso, se o fizer, dever ser entendido como contemplando em partes iguais quantos mais ou menos a esta hora aguardam despacho, enquanto se esto discutindo questes importantes para saber quem vai de tripulante das barcas ou estar de faxina ao cemitrio para abrir as covas. O exrcito no ter de avisar as famlias por telegrama, No cumprimento do seu dever caiu no campo de honra, maneira sem dvida mais elegante que explicar mui por claro, Morreu com a cabea esmagada por uma pedra que um filho da puta de um mouro atirou l de cima,  que estes exrcitos ainda no tm cadastro, os generais, quando muito, e muito pela rama, sabem que ao princpio tinham doze mil homens e daqui para diante o que tm a fazer  ir descontando todos os dias uns tantos, soldado na frente de batalha no precisa de nome  sua besta, se recuas levas um tiro nos cornos, e ele no recuou, e a pedra caiu, e ele morreu. Chamavam-lhe Galindo,  este, em estado tal que nem a prpria me que o pariu o reconheceria, amolgada a cabea de um lado, o rosto coberto de sangue seco, e tem  direita Remgio, de setas trespassado, duas de lado a lado, que os dois mouros que ao mesmo tempo o escolheram para alvo tinham olho de falco e brao de sanso, mas no perdem pela demora, daqui a alguns dias tocar-lhes- a vez, e ficaro, como estes expostos ao sol,  espera da sepultura, dentro da cidade que estando cercada j no se pode chegar ao cemitrio, onde os galegos cometeram as mais nefandas profanaes. A seu favor, se tal se pode dizer, s tm os mouros as despedidas da famlia, o alarido das mulheres, mas isso, quem sabe, at ser pior para o moral dos tropas, sujeitos a um espectculo de lgrimas de dor e sofrimento, de lutos sem consolao, Meu filho, meu filho, enquanto no acampamento cristo tudo se passa entre homens, que as mulheres, se esto l,  por outros motivos e para outros fins, abrir as pernas a quem vier, soldado morto, soldado posto, as diferenas de comprimento e grossura, com o hbito, nem se notam, salvo casos excepcionais. Galindo e Remgio vo atravessar pela ltima vez o esteiro, se  que j o tinham atravessado antes neste sentido, que estando o cerco ainda no princpio no faltam aqui homens que no chegaram a aliviar-se dos humores secretos, entraram na morte cheios de uma vida que no aproveitou a ningum. Com eles, estendidos no fundo da barca, uns sobre outros, comprimidos pela estreiteza do espao, iro tambm Diogo, Gonalo, Ferno, Martinho, Mendo, Garcia, Loureno, Pro, Sancho lvaro, Moo, Godinho, Fuas, Arnaldo, Soeiro, e os que ainda faltam para a conta, alguns que tm o mesmo nome, porm aqui no mencionados para que no se nos possa protestar, Desse j se falou, e no seria verdade, bem podia ser que escrevssemos, Vai na barca Bernardo, e serem trinta mortos com um nome s, nunca nos cansaremos de repetir, Um nome  nada, a prova podemos encontr-la em Al que, apesar dos noventa e nove que tem, no conseguiu ser mais que Deus.
   Vai Mogueime na barca, mas vai vivo. Escapou ileso do assalto, nem um arranho, e no foi por que se tivesse resguardado da peleja, pelo contrrio, dele se pode jurar que esteve sempre na primeira linha de fogo, de servio aos aretes, como Galindo, mas esse no teve sorte. Ser mandado ao funeral vale pois tanto como uma citao  ordem, um louvor com as tropas em parada, um dia de folga, que o sargento no desconhece como vo aproveitar os seus homens o tempo entre a ida e a volta, pena grande  a sua de no poder ir no acompanhamento, vai com o seu capito Mem Ramires ao arraial do prncipe, aonde os chefes foram chamados para fazer o balano, obviamente negativo, do assalto, por aqui  que se v que na vida das patentes superiores a vida nem sempre  de rosas, e isto sem falar na hiptese muito provvel de el-rei assacar aos capites a responsabilidade do malogro, e estes por sua vez atirarem com as culpas aos sargentos, que, pobres deles, no podero desculpar-se com a cobardia dos soldados, porquanto, como  sabido, o que um soldado valer, ao seu sargento o deve. Se tal vier a acontecer,  de prever que sejam cortadas as prximas licenas para enterro, os mortos que naveguem sozinhos, no fim de contas no tm mais que um rumo, j  tempo de comear a histria dos navios fantasmas. Da encosta fronteira, as mulheres, no limiar das cancelas, olham as barcas que se aproximam com o seu carregamento de mortos e de desejos, e alguma que dentro esteja com um homem vai remexer-se deslealmente para despach-lo pronto, pois estes soldados das gndolas funerrias, tal vez por insolente necessidade de equilibrar a fatalidade da morte com os direitos da vida, so muito mais ardentes que qualquer militar ou paisano em acto de rotina, e j se sabe que a generosidade sempre cresce na proporo da satisfao do ardor. Por muito pouco que valha um nome, estas mulheres tm-no tambm, alm do geral de putas com que as conhecem, e so Tarejas, como a me do rei, ou Mafaldas; como a rainha que veio de Sabia o ano passado, ou Sanchas, ou Maiores, ou Elviras, ou Drdias, ou Enderquinas, ou Urracas, ou Doroteias, ou Leonores, e duas delas tm nomes preciosos, uma que  Chamoa, outra que  Moninha, d vontade de tir-las da vida e lev-las para casa, no como Raimundo Silva teria feito ao co das Escadinhas de S. Crispim, por piedade, mas para tentarmos saber que segredo liga a pessoa ao nome que tem, mesmo quando ela parece tanto menos ainda do que ele.
   Vem Mogueime na travessia com dois fitos pblicos e um reservado. Dos pblicos j se falou o bastante, esto a as valas abertas para receber os mortos e abertas as mulheres para receber os vivos. Com as mos sujas ainda da terra negra e fresca, Mogueime deslaar as bragas e, sem mais tirar-se roupa que levantar o saio, se chegar  mulher que escolheu, ela tambm s com a saia subida e enrolada na barriga, a arte amatria est toda por inventar em terras h to poucos dias conquistadas, os mouros levaram consigo o muito que dela sabem, diz-se, e se alguma destas rascoas, sendo moura de origem, por casualidade e azares da vida veio a dar no trato internacional, das artes da sua raa segredo far por ora, at que possa comear a vender por preo melhor as novidades. Claro que os portugueses no so de todo brutos na matria, afinal as possibilidades dependem de meios mais ou menos comuns a toda a gente, mas falta-lhes evidentemente requinte e imaginao, talento para o movimento subtil, jeito para a suspenso sbia, enfim civilizao e cultura. Por ser heri desta histria, no se cuide que Mogueime  mais competente e artista que qualquer dos companheiros. Se ao lado roncou de prazer Loureno e berrou Elvira, com igual veemncia responderam daqui estes dois, Doroteia faz mesmo questo de no ficar nunca atrs da outra em prodigalidades de expanso, e Mogueime, se to bem lhe soube, no tem qualquer motivo para calar-se. Enquanto no vier o poeta D. Dinis a ser rei, contentemo-nos com o que h.
   Quando as barcas regressarem  outra margem, bem mais ligeiras, Mogueime no ir nelas. No porque tenha decidido desertar, tal ideia no lhe passaria pela cabea, muito menos uma pessoa com a sua reputao e com lugar j assegurado na Histria Grande de Portugal, no so coisas que se percam por uma leviandade, uma cabeada, ele  Mogueime que esteve na tomada de Santarm, e basta. O seu fito reservado, que nem a Galindo confiaria,  ir desde aqui, pelos caminhos que ficaram explicados quando o exrcito se deslocou do Monte de S. Francisco para o Monte da Graa, at ao acampamento do rei, onde sabe que separadamente esto as tendas dos cruzados, a ver se por um feliz acaso, ao virar duma esquina, encontra a concubina do alemo, Ouroana se chama ela, em quem no pra de pensar, embora no tenha iluses quanto a no ser ela bocado para o seu dente, pois um soldado sem graduao no pode aspirar a mais que s putas de todo o mundo, barregs exclusivas  prazer e direito de senhores, quando muito trocadas, mas entre iguais. No fundo, no acredita que v ter a sorte de a ver, mas bem gostaria de voltar a sentir aquela pancada na boca do estmago por duas vezes experimentada, apesar de tudo no se pode queixar, que em meio de tanto macho exasperado de cio as fmeas esto no geral guardadas, mais ainda se saem a tomar ar, prova  que levava Ouroana a acompanh-la um criado do cavaleiro Henrique, armado como para o combate, no obstante pertencer ao servio interno.
   Grandes so as diferenas entre a paz e a guerra. Quando as tropas aqui estiveram acampadas, enquanto os cruzados decidiam se sim ou no ficavam, e o mais que de luta houvera no fora alm de escaramuas rpidas, trocas areas de setas e girndolas de insultos, Lisboa aparecia como uma jia por assim dizer reclinada na encosta, oferecida s volpias do sol, toda coberta de cintilaes, rematada l no alto pela mesquita do castelo, rebrilhante de mosaicos verdes e azuis, e, na vertente virada a este lado, o arrabalde, donde a populao ainda no se retirara, se pedia meas com alguma coisa, seria com as antecmaras do paraso. Agora, fora dos muros, h casas queimadas e paredes derrubadas e mesmo de to longe se pressente o caminhar da runa, como se o exrcito portugus fosse um enxame de formigas brancas to capazes de roer madeira como pedra, embora se lhes partam os dentes e o fio da vida no spero trabalho, como se tem visto e por aqui no ficar. Mogueime no sabe se tem medo de morrer. Acha natural que morram outros, nas guerras sempre est a acontecer, ou  para que acontea que as guerras so feitas, mas se a si mesmo fosse capaz de perguntar que  o que realmente teme nestes dias, responderia talvez que no  tanto a possibilidade da morte, quem sabe se j no prximo assalto, mas outra coisa a que simplesmente chamaramos perda, no da vida em si, mas do que nela sucede, por exemplo, se podendo Ouroana vir a ser sua depois de amanh, quisesse o destino ou a vontade de Nosso Senhor que a depois de amanh ele no chegasse por ter de morrer amanh mesmo. Pensamentos destes j sabemos que os no pode ter Mogueime, ele vai por um caminho mais directo, que venha a morte tarde, que cedo venha Ouroana, entre a hora de chegar ela e a hora de partir ele estaria a vida, mas tambm este pensar  por de mais complexo, resignemo-nos ento a no saber o que pensa realmente Mogueime, entreguemo-nos  aparente clareza dos actos, que so os pensamentos traduzidos ainda que na passagem destes para aqueles sempre algumas coisas se tirem e se acrescentem, o que finalmente vir a significar que sabemos to pouco do que fazemos como do que pensamos. O sol vai alto, em pouco tempo ser meio-dia, de certeza que esto os mouros observando os movimentos do arraial, a ver se como ontem voltam os galegos a atacar quando os almuadens chamarem  orao, que por aqui se v o nenhum respeito que guardam os desalmados  f dos outros. Mogueime, para encurtar caminho, atravessa o esteiro a vau por altura da Praa dos Restauradores; aproveitando estar a mar baixa. Andam por aqui, desafogando os medos e tentando apanhar peixe mido, soldados dos que se enfrentam com a Porta de Alfofa, vieram longe no h dvida, j ento se dizia, Longe da vista, longe do corao, neste caso no se trata das intermitncias da paixo, mas de buscar alvios arredados do teatro da guerra, cuja vista, aps a febre do combate, os mais delicados no suportam. E para evitar que estes se escapem andam por a uns tantos cabos, como pastores nu ces vigiando o gado, no h outra maneira, que a tropa tem a soldada paga at agosto e dar o corpo ao manifesto, dia por dia, at ao fim do prazo, salvo impedimento resultante de se ter cumprido com anterioridade um outro prazo, o da vida. O segundo brao do esteiro no o pode Mogueime atravessar a vau, por ser mais fundo, mesmo na vazante, por isso vai subindo ao longo da margem at chegar aos arroios de gua doce, onde um dia destes ver Ouroana lavando roupa e lhe perguntar, Como te chamas, mas  s um truque para comear a conversa, se h algo nesta mulher que para Mogueime no tenha segredos,  o seu nome, tantas so as vezes que ele o tem dito, os dias no s se repetem, como se parecem, Como te chamas, perguntou Raimundo Silva a Ouroana, e ela respondeu, Maria Sara.
   Eram quase sete horas da tarde quando Maria Sara chegou. Raimundo Silva estivera a escrever at s cinco, sempre com a ateno distrada, com dificuldade compunha duas ou trs linhas e logo punha-se a olhar pela janela, as nuvens, um pombo que volta e meia pousava na varanda e o mirava atravs da vidraa com o seu olho vermelho e duro, agitando a cabea em movimentos que eram ao mesmo tempo rpidos e fluidos, o cesto de papis que fora buscar ao escritrio estava cheio de folhas rasgadas, um destroo, se todos os dias, a partir de agora, forem como este h grande perigo de que a sua histria no acabe, ficando os portugueses, at ao fim dos tempos, diante desta cidade de Lisboa, invicta, sem nimo para a conquistar e sem foras para renunciar a ela. Durante o dia tivera de resistir mil vezes  tentao de telefonar, o que ainda mais contribura para desviar-lhe o tino do que queria escrever, vindo a resultar que, em trabalho aproveitado, no adiantara mais do que uma pgina, e ainda assim graas quela benevolncia que tantas vezes nos leva a tolerar o que no tem outro mrito seno o de no ser insuportvel. A ltima meia hora passou-a quase toda na varanda, uma ou outra vez mostrando-se sem disfarce, como quem, estando  espera, no se importa que se saiba e murmure, mas quase sempre encostado  moldura interior da janela, com meio corpo escondido, e espreitando  socapa para o Largo dos Lios onde Maria Sara deixar o carro. Viu-a aparecer na esquina do prdio dos painis de Santo Antnio, num passo tranquilo, nem depressa, nem devagar, vestia o casaco e a saia que j lhe conhecia, ao ombro o saco, os cabelos soltos danando, e o desejo deu-lhe um sbito n na boca do estmago, no como acontecera a Mogueime, que a esse foram socos. Percebeu que isto, sim, era desejo verdadeiro, que ontem mais havia sido como uma vibrao convulsiva e contnua de todo o seu ser, acaso resolvel pelas vias de um contacto fsico expedito que provavelmente, se se tivesse consumado, deixaria marcas de frustrao ou, ainda pior, de desencanto. Foi abrir a porta e saiu ao patamar, Maria Sara j subia e olhava para cima, sorrindo, e ele sorriu, To tarde, disse, J sabe, o trnsito, ontem foi um dia excepcional, sa mais cedo da editora, respondeu ela, e, avanando, deu-lhe um beijo rpido na face e entrou. A porta mais prxima, como sabemos,  a do quarto, no faria Qualquer sentido, no estado em que as coisas esto, procurar outra, tanto mais que este quarto no  quarto apenas,  tambm, ainda que provisoriamente, lugar de trabalho, por isso, repetimos, de certa maneira neutralizado. Mas Raimundo Silva retirou-lhe o saco do ombro, lentamente, como se a despisse, foi um gesto no premeditado, so aquelas ocasies em que a intuio ajuda a que da cincia s vezes j se esqueceu, Ontem, ao despedir-se, tratou-me por tu, disse,  a falta de hbito, ainda no estou acostumada, respondeu Maria Sara, Quer ir para o escritrio, No, aqui estamos bem, mas tu no tens onde sentar-te, Vou buscar uma cadeira. Quando voltou, Maria Sara estava a ler a ltima pgina do manuscrito, Adiantaste pouco, disse, Por que ter sido, perguntou Raimundo Silva, sim, por que ter sido, repetiu ela, desta vez sem sorrir, e olhando-o como quem espera uma resposta, Repare na cama, Que tem a cama, e noutro tom, S eu  que estou a usar o tu, Talvez tenha eu mais dificuldade em habituar-me, mas vou repetir certo Repara na cama, E eu respondo Que tem a cama, Notas alguma diferena nela em relao a ontem,  a mesma cama, Claro que a mesma cama, o que eu quero que me digas  se achas que ela foi aberta e utilizada, sendo mulher observars facilmente que as dobras e vincos do lenol esto intactos, que a almofada e o travesseiro no tm uma ruga, que a colcha est lisa, com todas as franjas alinhadas, Sim,  verdade, Foi assim que a empregada a deixou ontem, Ento no dormiste aqui, No, Porqu, onde, Respondo primeiro  segunda parte da pergunta, dormi l dentro, num div, E porqu, Porque sou um garoto, um adolescente a quem os cabelos brancos vieram cedo de mais, parque no fui capaz de me deitar aqui sozinho, s isso. Maria Sara largou a folha sobre a secretria, foi para ele e abraou-o, Nunca precisars de me dizer que gostas de mim, Direi, Mas no assim, Usarei palavras, E eu quero ouvi-las, sei que esquecerei muitas delas, o momento, o lugar, a hora, mas o que no poderei  esquecer isto, e quando tocaste na rosa. Estavam nos braos um do outro, mas ainda no se beijavam, olhavam-se e sorriam muito, o rosto alegre, e depois o sorriso recolheu-se lentamente, como gua que a terra estivesse sorvendo e saboreando, at que ficaram srios os dois, fitando-se, uma rpida sombra subtil adejou pelo quarto, veio e fugiu logo, e ento umas asas imensas e poderosas envolveram Maria Sara e Raimundo Silva, apertando-os como a um nico corpo, e o beijo comeou, to diferente daquele que aqui se tinham dado ontem, eram as mesmas , pessoas, eram outras, mas dizer isto  ter dito nada, porque ningum sabe o que o beijo  verdadeiramente, talvez a devorao impossvel, talvez uma comunho demonaca talvez o princpio da morte. No foi Raimundo Silva quem conduziu Maria Sara  cama, nem ela para ali o impeliu suavemente como distrada, ali se acharam, sentados primeiro na borda do colcho, amarrotando a colcha branca, depois ele deitou-a para trs e continuaram a beijar-se, ela rodeava-lhe a nuca com os braos, o brao direito dele servia de apoio  cabea dela, mas o esquerdo parecia hesitar sem saber o que fazer, ou sabendo-o e no ousando, como se um final e invisvel muro se houvesse interposto no ltimo segundo, guiou-o finalmente a sbia mo, tocou a cintura de Maria Sara, desceu at  anca e foi pousar, quase sem presso, no arredondado da coxa, para subir depois, devagar, pelo corpo acima, at ao peito, agora a memria dos dedos pde reconhecer a macieza do tecido da blusa em que tocava pela primeira vez, a sensao foi rapidssima e no mesmo instante diluda pela conscincia tumultuosa de que sob a mo banal do homem estava o prodgio de um seio. Aturdido pelo contacto, Raimundo Silva levantou a cabea, queria olhar, ver, saber, ter a certeza de que era a sua prpria mo que ali estava, agora sim, o muro invisvel desmoronava-se, para alm dele ficava a cidade do corpo, ruas e praas, sombras, claridades, um cantar que vem no se sabe donde, as infinitas janelas, a peregrinao interminvel. Maria Sara colocou a sua mo sobre a de Raimundo Silva, e ele beijou-lha muitas vezes, at que ela a retirou levando a dele consigo, e o seio erguido, ainda coberto, se ofereceu aos beijos. Foi ela quem, sem pressas, desfrutando o seu prprio movimento, desabotoou a blusa e a afastou, sob a renda branca do suti a pele era uma renda mate, e rseo o mamilo, o bico da mama, meu Deus, ento a mo de Raimundo Silva voltou, doce, violenta, e num s gesto resoluto fez sair o seio, elstico e denso. Maria Sara gemeu quando a boca dele, sfrega, a sugou, todo o seu corpo estremeceu, e logo mais profundamente porque a mo de Raimundo Silva se pousara sobre o seu ventre, inesperadamente, para, j sem surpresa, descer at ao pbis, onde se crispou e forou, invasora. Estavam ainda vestidos, ela apenas com o casaco solto e a blusa desabotoada, e foi Raimundo Silva quem fez recolher o seio descoberto, to delicadamente que os olhos surpreendidos de Maria Sara se humedeceram de lgrimas. A penumbra do quarto iluminou-se subitamente, decerto para os lados da barra se tinham aberto as nuvens do fim da tarde, e o ltimo sol entrou pela janela, oblquo, lanando sobre aquele lado da parede uma vibrao de luz cor de cereja, que por sua vez espalhava pelo quarto uma invisvel palpitao, uma tremura comovida de tomos despertos pela esmorecente claridade, como se este fosse um mundo apenas nascido e ainda sem foras, ou velho de haver vivido muito, sem foras j. Maria Sara e Raimundo Silva, por pudor ou por intuio, no se despiram completamente, conservavam a ltima pea ntima, e ela no tirara o suti. Estavam deitados, cobertos, e tremiam. Ele pegou-lhe nas mos e beijou-as, ela repetiu o gesto, com um movimento ondulatrio do corpo aproximaram-se, to perto que as respiraes se confundiam, depois as bocas tocaram-se e o beijo tornou-se devoramento de lbios e de lnguas, enquanto as mos de um buscavam o corpo do outro, apertavam, puxavam, acariciavam, ento comearam a ouvir-se palavras, soltas, entre cortadas, ofegantes, meu amor, quero-te, como foi possvel; no sei, tinha de ser, abraa-me, desejo-te, esse antiqussimo murmrio que, por estas e outras palavras, mais doces ainda, ou cruas, ou toscas, ou brutais, persegue desde a noite dos tempos, seja-nos permitida a expresso uma vez mais, o inefvel. Inbil, a mo de Raimundo Silva lutava com o fecho do suti, mas foi Maria Sara quem, com um simples toque e um movimento de ombros, se libertou, e aos seios libertou da priso, oferecendo-os aos olhos, s mos e  boca dele. Depois, enfim, despiram-se de todo, cada um ajudando o outro ou a ele se entregando, Despe-me, disseram, e em verdade j estavam nus, mas agora  que podiam tocar-se, palpar, sondar, de sbito Raimundo Silva atirou a roupa para trs, ali estava Maria Sara, os seios, o ventre, o pbis alto, as coxas longas, e ele, sem vergonha, esquecido de medos, mostrando-se  luz, ainda que to pouca, apenas o lenol branco brilhava como se o inundasse o luar, a noite caa muito devagar sobre a cidade, parecia que o mundo exterior se pusera  espera de um milagre novo, porm ningum deu por ele quando aconteceu, aqui, quando os sexos destes dois se sentiram pela primeira vez quando pela primeira vez gemeram juntos, quando surdamente gritaram, quando todas as comportas do dilvio se abriram sobre a terra e as guas da terra, e depois a calma, o largo esturio do Tejo, dois corpos lado a lado vogando, de mos dadas, um diz, Oh, meu amor, o outro, Que nada no futuro seja menos do que isto, e de repente ambos tiveram medo do que disseram e abraaram-se, o quarto estava escuro, Acende a luz, disse ela, quero saber se isto  verdade.
   

   
   Maria Sara passou a noite em casa de Raimundo Silva. Depois de ter-lhe pedido que acendesse a luz e certificar-se, com todos os sentidos, da verdade de ali estar, nua e com este homem nu ao lado, olhando-o e tocando-o, e sem resguardo oferecendo-se aos olhos e s mos dele, disse, entre dois beijos, Vou telefonar  minha cunhada. Enrolou-se na colcha branca e correu descala ao escritrio, do quarto Raimundo Silva ouviu-a marcar o nmero, e logo, Sou eu, a seguir houve um silncio, provavelmente a cunhada estaria a manifestar estranheza pela demora, perguntando, por exemplo, H alguma novidade, e Maria Sara, que precisamente de to grandes e numerosas novidades estava habilitada a falar, respondeu, No, vinha apenas avisar que no vou ficar a casa, o que, a falar verdade, era uma novidade absoluta, tendo em conta que acontecia pela primeira vez desde que ela se fora a morar em casa do irmo depois do divrcio. Outro silncio, a surpresa discreta da cunhada, imediatamente cmplice, s palavras que disse, Maria Sara riu-se, Depois te conto, e diz ao meu irmo que no vale a pena pr-se a a representar o papel de protector de vivas e donzelas, que o meu caso no  desses. Do lado de l a cunhada teria exprimido uma preocupao familiar razovel, Espero que saibas o que ests a fazer,  o mnimo que se pode dizer em situaes como esta, e Maria Sara respondeu, Nesta altura chega-me saber que  verdade, e depois duma nova pausa disse simplesmente, , no precisou de mais Raimundo Silva para perceber que a cunhada de Maria Sara tinha perguntado,  o revisor, e Maria Sara respondeu, . Aps ter desligado, ela ficou ali alguns momentos, subitamente tudo ganhara um ar de irrealidade, estes mveis, estes livros, e l dentro, no quarto, estava um homem deitado, ao longo da face interna das coxas sentiu que deslizava uma carcia fria, e pensou,  dele, arrepiou-se e enrolou-se mais na colcha, mas o gesto f-la tomar conscincia da nudez completa do seu corpo, e agora lutava nela a lembrana das recentes sensaes com um pensamento irritante que no a queria deixar, Se ele se tiver deixado ficar nu em cima da cama, o pensamento interrompia-se ali, ou era ela que se recusava a segui-lo at ao fim, mas compreendia-se claramente que se tratava duma ameaa, duma deciso tomada, mesmo no estando o destinatrio formalmente explcito. Estranhou que ele a no chamasse, a campainha do telefone dera sinal no fim da comunicao, parecia que o silncio tomava conta da casa como se fosse um inimigo furtivo e inquietante, e depois achou que tinha adivinhado o motivo, ele no sabia como deveria cham-la, sim, diria Maria Sara, mas a questo no estava nas palavras, estava no tom com que fossem ditas, como escolher entre o tom imperativo de quem cresse ser j proprietrio dum corpo e a expresso duma doura sentimental que no diramos fingida, mas em que seguramente haveria uma parte de deliberao demasiado consciente para ser natural. Voltou ao quarto, pensando, enquanto seguia pelo corredor, Ele est tapado, ele est tapado, to ansiosamente como se disso fosse depender todo o futuro das palavras e obras que aqui tinham sido ditas e feitas. Raimundo Silva cobrira-se at aos ombros.
   Jantaram num restaurante da Baixa, ela quis saber como ia a histria do cerco, Menos mal, creio, para o absurdo que , Ainda te falta muito para termin-la, Poderia acab-la em trs linhas, no gnero depois casaram e foram muito felizes, no nosso caso os portugueses num supremo esforo tomaram a cidade, ou ento ponho-me a enumerar as armas e as bagagens, a enredar as pessoas e as personagens, e nunca mais chegarei ao fim, uma alternativa seria deix-la ficar tal qual est, agora que j nos encontrmos, Preferiria que a terminasses, tens de resolver as vidas daquele Mogueime e daquela Ouroana, o resto ser menos importante, de toda a maneira sabemos como a histria ter de acabar, a prova  estarmos a jantar em Lisboa, no sendo mouros nem turistas em terra de mouros, Provavelmente passaram por aqui as barcas que levaram ao cemitrio os mortos do ataque s portas da cidade, Quando voltarmos para casa vou pr-me a ler desde o princpio, Se no estivermos ocupados em questes mais interessantes, Temos muito tempo, caro senhor, Alis, a histria  curta, em meia hora ters lido tudo, limitei-me, como vers, ao que me parecia poder ser essencialmente decorrente do facto de os cruzados se terem ido embora sem ajudar os portugueses, E que daria um romance,  possvel, mas quando me meteste nestes trabalhos sabias que eu no passava de um normal e modesto revisor, sem outras qualidades, As suficientes para teres aceitado o repto, Deverias chamar-lhe antes provocao, Seja provocao, Que ideia tinhas tu na cabea quando me desafiaste, que buscavas, Naquela altura no o via com muita clareza, por muitas explicaes que pudesse ter dado a mim prpria, ou a ti, quando as pediste, agora j  evidente que era a ti que buscava, Este tipo magro e sisudo, com os seus cabelos mal pintados, vivendo fechado em casa, triste como um co sem dono, Um homem que me agradou logo que o vi, um homem que fizera deliberadamente um erro onde estava obrigado a emend-los, um homem que percebera que a distino entre no e sim  o resultado duma operao mental que s tem em vista a sobrevivncia,  uma boa razo,  uma razo egosta, E socialmente til, Sem dvida, embora tudo dependa de quem forem os donos do sim e do no, Orientamo-nos por normas geradas segundo consensos, e domnios, mete-se pelos olhos dentro que variando o domnio varia o consenso, No deixas sada, Porque no h sada, vivemos num quarto fechado e pintamos o mundo e o universo nas paredes dele, Lembra-te de que j foram homens  lua, O seu quartinho fechado foi com eles, s pessimista, No chego a tanto, limito-me a ser cptica da espcie radical, Um cptico no ama, Pelo contrrio, o amor  provavelmente a ltima coisa em que o cptico ainda pode acreditar, Pode, Digamos antes que precisa. Acabaram de tomar o caf, Raimundo Silva pediu a conta, mas foi Maria Sara quem, num gesto rpido, tirou da carteira e colocou no pires o carto de crdito, Sou a tua directora, no posso permitir que pagues o jantar, acabava-se o respeito das hierarquias se os subordinados comeassem por a a querer botar figura contra os seus superiores, Admito por esta vez, em todo o caso lembro-te que estou a caminho de tornar-me autor, e nessa altura, Nessa altura  que no pagarias de todo, onde j se viu o despautrio de pagar o autor o jantar ao editor, realmente no sabes nada de relaes pblicas, Sempre ouvi dizer que dos infelizes autores  que fazem almoo e jantar os editores, Calnias indecentes, manifestaes inferiores de um dio de classe, Eu no sou mais do que revisor, estou fora dessa guerra, Se levas tanto a peito, No, no, paga tu, mas as minhas razes para admitir que pagues so outras, Quais so,  que com toda esta arrastada histria de cerco quase no tenho trabalhado na reviso, e portanto, sendo tu responsvel pelo estado periclitante da minha economia,  de justia que pagues, para compensar fao-te amanh as torradas do pequeno-almoo, Vais deixar-me com um saldo devedor tremendo.
   Maria Sara tinha o carro no Largo dos Lios, a ambos apetecera o passeio a p pela noite quase tpida, um pouco hmida. Antes de descerem o Limoeiro demoraram-se no miradouro a olhar o Tejo, o largo e misterioso mar interior. Raimundo Silva pousara o brao no ombro de Maria Sara, conhecia este corpo, conhecia-o, e de conhec-lo  que lhe vinha esta sensao de fora infinita, e outra, contrria, de infinito vazio, de lassido preguiosa, como uma grande ave que pairasse sobre o mundo adiando o momento de pousar. Agora regressavam a casa, devagar, a noite parecia-lhes interminvel, no tinham de correr para deter as horas, ou come-las depressa, que mais do que isto no o permite o tempo. Disse Maria Sara, Estou curiosa de ler o que escreveste, pode ser que tenhas razo quando dizes que vais a caminho de ser autor, Pensava que tinhas tido o bom senso de no me tomares a srio, Nunca se sabe, nunca se sabe, os melhores panos no servem apenas para neles carem as ndoas, Se j como revisor estou condenado s penas do inferno. imagina que destino seria o meu como autor, Pior do que o inferno, suponho, s o limbo, Tambm acho, mas para o limbo j passei da idade, e, como sou baptizado, se vier a escapar do castigo, do prmio no escaparei, consta que no h alternativa, aqui era a Porta de Ferro, deitaram-na abaixo h uns duzentos anos, o que dela restava, claro est, quanto  dos mouros ningum sabe como era, No mudes de conversa, a ideia  boa, Que ideia, Publicares essa histria, Na nossa editora, Seria uma hiptese, Davas uma pssima directora literria, subornvel pelos sentimentos, Parto do princpio de que o livro ter qualidade suficiente, E acreditas que os nossos patres, depois de se terem visto ridicularizados, Se tm algum sentido de humor, Nunca dei por tal, o que alis pode ser culpa minha por falta de qualidades receptivas, A caba o livro e logo veremos, nada se perder em tentar, O que l tenho em casa no  um livro, so apenas umas poucas dezenas de pginas com episdios soltos,  um ponto de partida, Muito bem, mas ento ponho uma condio, Qual, Serei o revisor da minha prpria obra, Para qu, se o autor  sempre um mau revisor de si mesmo, Para que no venha a acontecer porem-me um sim em lugar de um no. Maria Sara riu e disse, Gosto mesmo de ti. E Raimundo Silva, Estou a fazer o possvel para que assim continues. Iam subindo a Calada do Correio Velho, o tal caminho que ele evitava, porm hoje sentia-se leve e alado, e a fadiga, que sem dvida tinha, era diferente, no reclamava o repouso, pedia uma fadiga nova. A esta hora a rua estava deserta, o lugar e a ocasio eram propcio,, Raimundo Silva beijou Maria Sara, no h nada de mais comum nos dias de hoje, o beijo na via pblica, mas devemos ter em conta que Raimundo Silva ainda vem duma gerao discreta que no fazia demonstrao de sentimentos, muito menos de desejos. O atrevimento, no fim de contas, no fora por a alm, uma rua solitria e pouco iluminada, mas  um princpio. Continuaram a subir, pararam no princpio das escadas, S. Crispim tem cento e trinta e quatro degraus, disse Raimundo Silva, e empinados como os dos templos astecas, mas chegando ao alto estamos logo em casa, No me queixo, vamos, Ali em cima, por baixo daqueles janeles ainda h vestgios da muralha construda pelos godos, pelo menos assim o afirmam os entendidos, Entre os quais agora ests, Nem pensar, apenas li umas coisas, tenho-me divertido ou instrudo, aos poucos, a descobrir a diferena entre olhar e ver e entre ver e reparar,  interessante, isso,  elementar, suponho at que o verdadeiro conhecimento estar na conscincia que tivermos da mudana de um nvel de percepo, para diz-lo assim, a outro nvel, Homem brbaro, o mais godo de todos, quem vem a mudar de nveis sou eu desde que comemos a trepar por esta montanha, paremos neste degrau um pouco, que preciso de respirar, ao menos um minuto, sentemo-nos. Esta palavra, e o acto subsequente, trouxeram de golpe a Raimundo Silva a lembrana daquele dia em que, fugido ao temor de ser interpelado por um Costa indignado e ameaador, descera de atropelo estas escadas e se sentara, a num desses degraus, escondendo, de olhos imaginadamente acusadores, no apenas a sua cobardia, mas tambm a vergonha de senti-la. L1m dia, quando estiver bastante seguro do amor que vem nascendo, ter de contar a Maria Sara estas ainda assim pequenas misrias de esprito, embora possa igualmente acontecer que resolva ficar calado para que no sofra nenhum desdouro a imagem positiva que consiga dar de si mesmo no futuro, e manter. Porm, j neste instante, quando ainda no tomou qualquer resoluo sobre o que finalmente far, sente a incomodidade de um escrpulo desatendido, um remorso que se antecipa  falta, um espinho mental. Promete que no se esquecer deste aviso premonitrio da sua conscincia, e de sbito apercebe-se do silncio que entre ambos se interpusera, talvez um constrangimento, mas no, o rosto de Maria Sara est tranquilo, sereno, tocado pela claridade de uma lua escassa que dilui um pouco as sombras neste lugar onde esto e aonde no chega a iluminao pblica o constrangimento  nele que reside, por nenhuma outra razo que saber que est ocultando alguma coisa, digamos que no a vergonha do medo, mas o medo da vergonha. Se Maria Sara no fala  s porque acha que no tem de falar, se Raimundo Silva vai falar  porque no quer explicar a verdadeira causa de estar calado, H tempos houve aqui um co, um rafeiro, que desapareceu, e a partir desta declarao comps uma histria do seu encontro com o animal, juntando-lhe uma parte suficiente de imaginao para a tornar mais real e autntica, No queria sair deste stio duas ou trs vezes dei-lhe comida, e creio que tambm o alimentariam alguns dos vizinhos, mas pouco entre uns e outros, porque o bicho dava a ideia de estar sempre a morrer de fome, no sei o que Lhe aconteceu, se lhe veio a coragem de ir correr mundo e buscar a vida, ou se rebentou aqui mesmo,  mngua, hoje penso que deveria ter tratado mais dele, afinal no custava nada trazer-lhe todos os dias uns restos ou comprar-lhe mesmo dessas comidas para ces que h agora, a despesa no me levaria  runa. Durante mais uns minutos Raimundo Silva repetiu as suas responsabilidades e culpas, consciente, no entanto, de que estava a encobrir com um falso remorso o outro verdadeiro, duvidoso este, incerto o que vir, depois, subitamente, calou-se sentia-se ridculo, pueril, tantos cuidados por causa de um co vadio, faltava-lhe s que Maria Sara fizesse um comentrio qualquer, desinteressado, por exemplo, Coitado do bicho, e foi isto mesmo que ela disse, Coitado do bicho, e logo depois, levantando-se, Vamos.
   Sentado  pequena mesa onde tem escrito a Histria do Cerco de Lisboa, olhando a ltima pgina,  espera da palavra providencial que por atraco ou choque reactivar o fluxo interrompido, Raimundo Silva deveria dizer a si mesmo, como Maria Sara nas Escadinhas de S. Crispim ontem  noite, Vamos, mas agora num tom diferente, como imperativa ordem, Vamos, escreve, avana, desenvolve, abrevia, comenta, remata, portanto sem nenhuma parecena com a modulao suave daquele outro Vamos, que, no perdurando no espao, continuou a ressoar dentro deles como um eco sucessivamente ampliado, passo a passo, at transformar-se em canto glorioso quando a cama se abriu outra vez para receb-los. A lembrana da noite magnfica distrai Raimundo Silva, a surpresa de despertar de manh e ver e sentir um corpo nu ao seu lado, o prazer inexprimvel de tocar-lhe, aqui, ali, docemente, como se todo ele fosse uma rosa, dizer consigo mesmo, Devagar, no a acordes, deixa que te conhea, rosa, corpo, flor, depois a urgncia das mos, a carcia prolongada e insistente, at que Maria Sara abre os olhos e sorri, disseram ao mesmo tempo, Meu amor, e abraaram-se. Raimundo Silva procura a palavra, noutra ocasio estas mesmas poderiam servir, Meu amor, mas  duvidoso que Mogueime e Ouroana saibam alguma vez diz-las, alm de que, no ponto em que estamos, esses dois nem sequer ainda se encontraram; quanto mais declararem to abruptamente sentimentos cuja expresso parece fora do seu alcance.
   Por enquanto, instrumento do destino sem o saber, o cavaleiro Henrique debate, em seu foro ntimo, se levar consigo Ouroana para o arraial de Mem Ramires ou se a deixar ficar no acampamento real, entregue aos cuidados e  vigilncia do seu criado favorito. Porm, est to acostumado a esse criado que no se sente inclinado a dispens-1o, posto o que, tudo considerado, o chamou para dizer-lhe que prepare bagagens e armas porque amanh cedinho descero destas alturas protegidas para se juntarem s tropas que entestam com a Porta de Ferro, onde, a seu governo e mando, iro construir uma torre de assalto, A ver quem mais depressa a acabar, se ns, ou os franceses, ou os normandos, na Porta do Sol e na Porta de Alfama, E Ouroana, vossa barreg, que lhe fazeis, perguntou o criado, Ir comigo, So grandes os perigos, alm esto frente com frente os mouros e os cristos, Logo verei o que convenha, sendo certo, contudo, que no se tm atrevido os infiis a vir dar batalha fora dos muros. Assim concertados, foi o criado avisar Ouroana e organizar a mudana de posto, iriam tambm com o cavaleiro Henrique cinco seus homens de armas, que no era este alemo to grande senhor que  sua conta tivesse levantado um exrcito, a sua especialidade era mais a engenharia, a qual, se quase sempre depende de gente numerosa para gerar as mquinas, depende sempre do que o engenheiro leva dentro da cabea, cincia, engenho e arte. Na manh seguinte, cedinho como fora dito, depois de ouvida a missa, foi o cavaleiro Henrique beijar as mos a el-rei, Adeus, senhor, c me vou para o trabalho. Um pouco apartados, sem direito aos emboras reais, estavam o privado e os homens de armas Ouroana numas andas, esta mais por ostentao do seu senhor do que por delicadeza sua de compleio, que nos campos de Galiza onde foi roubada era filha de lavradores e com eles trabalhava no rigoroso amanho da terra. D. Afonso Henriques abraou o cavaleiro, Santa Maria te acompanhe e te proteja, disse, e te ajude a levantar essa torre at agora nunca vista nestas paragens, vais trabalhar com carpinteiros de barcos, que foi o mais parecido que pudemos arranjar, mas se eles forem to bons alunos como eu tenho informao de seres tu bom mestre, os meus prximos cercos nisso de torres de assalto, j iro ser feitos s com mo-de-obra nacional, sem incorporao estrangeira, Senhor, ao meu pas chegou prolixa fama da modstia, da humildade, da frugalidade e do esprito de abnegao dos portugueses, sempre bem-dispostos para o servio de famlia e ptria, ora, se a tantas e to raras qualidade eles juntarem alguma inteligncia e muita fora de carcter e vontade, ento, senhor, eu vos dou por seguro que no haver torre que no sejais capazes de construir, tanto neste prximo dia de amanh como em todos os mais que esto por vir. Calaram fundo no nimo de el-rei estes esperanosos votos, de mais a mais vindos de quem vinham, e foi tanto o que lhe aprouveram que, afastando-se um pouco com o cavaleiro Henrique, em confiana, lhe fez segredo duma sua preocupao, a saber, Haveis-vos dado conta, certamente, de que uma parte do meu estado-maior no vai muito  bola com essa ideia das torres,  gente conservadora, agarrada ao artesanato, por isso, se virdes que algum vos aparece com embelecos e pretextos dilatrios ou derrotistas vinde logo dizer-mo, que eu tomo muito a peito, como rei moderno que me presumo de ser, levar por diante esta empresa sem delongas escusadas, tanto mais que as minhas finanas, devoradas por esta guerra, levaram um rombo de todo o tamanho, j vedes que no me conviria nada, mesmo nada, ter de pagar no fim de agosto nova soldada, que  quando se vencem os trs meses,  que, embora a nossa tropa ganhe pouco, todos juntos fazem uma senhora despesa, seria como sopa no mel se consegussemos tomar a cidade neste meio tempo, imaginai pois quanto de bom espero da vossa e outras torres, e assim vos exorto, estimulo e aplaudo a que leveis rijamente por diante o nosso desgnio, por cuja remunerao no tendes que preocupar-vos, pois l esto os bens dos mouros para que por vossas prprias mos vos pagueis uma e dez vezes. O cavaleiro Henrique respondeu que podia el-rei ficar descansado, que ele tudo iria fazer pelo melhor, com a ajuda de Deus, que das dificuldades da tesouraria seria discreto confidente, e que nunca, por nunca ser, se inquietara com o pagamento dos seus servios, Que o melhor pago, meu senhor,  no cu que est, e l, para conquistar a cidade do paraso, outras torres se necessitam, as das boas obras como esta que nos prometemos de no deixar aqui um mouro vivo se se obstinarem na teima de no se renderem. Despediu el-rei ao cavaleiro prometendo a si mesmo no o perder de vista, pois tanto de bom parece ter para bispo como para general, resultando afortunado o negcio das torres lhe far proposta de naturalizar-se, com doao de terras e de ttulo para poder comear a vida.
   Que o cavaleiro Henrique no estava na disposio de perder tempo, viu-se logo, porque, mal chegado ao arraial da Porta de Ferro, reuniu-se em conferncia com Mem Ramires para que lhe fossem consignados os homens necessrios  portentosa obra, comeando-se imediatamente pelo abate das rvores que havia por ali, umas nascidas ao acaso da natureza, outras plantadas pelas mesmas mos dos mouros, que ento no puderam adivinhar que estavam, literalmente, a juntar lenha para se queimarem, so, digamo-lo uma vez mais, as ironias do destino. Porm, no devemos
   seguir adiante nestas descries sem primeiro dizer do alvoroo causado pela chegada do cavaleiro e seus acompanhantes, nem era o caso para menos, que vinha um tcnico estrangeiro, ainda por cima alemo, que  ser tcnico duas vezes, alguns, cpticos de seu natural ou por conta alheia duvidavam dos mritos e dos resultados, outros achavam que no se deve julgar mal o que bem ainda no teve tempo de provar-se, finalmente os prticos e objectivos abundavam no reconhecimento da evidncia de que melhor se combate o mouro tendo-o diante de ns e  nossa altura do que estando ele l em cima a atirar-nos pedras aproveitando-se da vantagem da gravidade e ns em baixo sofrendo os efeitos duma e doutras. Alheado de tais polmicas questes, atinentes ao complexo militar-industrial em formao, com olhos apenas para a mulher que vinha nas andas, Mogueime mal podia acreditar na sua sorte. Nunca mais precisaria de andar rondando pelo arraial da Graa, sempre em perigo de aparecer-lhe uma patrulha da polcia militar interessada em saber, Que  que andas a fazer aqui longe do teu acampamento, agora veio mesmo a montanha a Moiss, no porque no tivesse Moiss querido ir  montanha, todos somos boas testemunhas de quanto se tem esforado, mas porque acima de Moiss sabemos que est o sargento-ajudante, est o alferes, est o capito, e, sendo este tempo de guerra, so as licenas ainda menos do que as oportunidades, mesmo se ajudadas pela inventiva. Esta Ouroana que chega, se no vai passar todo o tempo fechada na tenda,  espera de que o cavaleiro Henrique interrompa o seu trabalho de prancheta e estaleiro para vir desafogar nela inquietaes que to facilmente transitam de um esprito que se quer mstico com Deus  carne que mstica s com a carne anseia estar, esta Ouroana, tendo em conta o reduzido espao do teatro de operaes, estar muito mais vezes e mais facilmente ao alcance da vista, em passeios e devaneios pelo arraial e  beira do rio a ver saltar as toninhas, naquelas sossegadas horas que so em geral as do cair da tarde, quando as tropas andam por a a tentar recompor-se do violento calor do dia e das ardncias ainda piores da batalha.  de esperar, no entanto, que todos os esforos do pessoal se concentrem agora na construo das torres, pois sendo to escassos os efectivos seria suicdio dispers-los por aces sem probabilidades de xito, salvo aquelas, de diverso, destinadas a manter ocupado o inimigo, em ordem a assegurar aos carpinteiros a tranquilidade de que vo precisar para levar a bom termo o arriscado trabalho. Nos seus apontamentos para a carta a Osberno, notou Frei Rogeiro, embora de tal no viesse a fazer meno na redaco definitiva, uma minuciosa descrio da chegada do cavaleiro Henrique ao arraial da Porta de Ferro, incluindo certa aluso, pelos vistos irrefrevel,  mulher que com ele vinha, Ouroana de seu nome, formosa como o amanhecer, misteriosa como o nascer da lua, foram expresses do frade, que a prudncia disciplinar, por um lado, e o pudor parece que melindroso do destinatrio, por outro, aconselharam a expungir. Ora,  bem possvel que este e outros recalcados movimentos de alma tenham sido a causa, por via de sublimao, do cuidado com que Frei Rogeiro passou a acompanhar os ditos e os feitos do cavaleiro alemo, antes, mas sobretudo depois da sua infeliz morte, porm no desgraada, como a seu tempo se tornar patente. Em por claro, diremos que no podendo Frei Rogeiro satisfazer em Ouroana os apetites, no encontrou melhor exutrio, salvo outro qualquer secreto, que exaltar at  desmedida o homem que se gozava do corpo dela. Da complexidade da alma humana tudo deveremos esperar.
   Veio a senhora Maria  hora do costume, depois do almoo, e mal entrou ps-se a fungar de um modo que tanto tinha de discreto como de ostensivo, cometimento em extremo difcil de alcanar, pois leva a dupla finalidade de parecer disfarar que se pretenda saber algo, mostrando ao mesmo tempo, que no se est disposto a permitir que o outro se d por desentendido. , por excelncia, uma arte diplomtica, mas dirigida pela intuio, se no pelo instinto, e que, em geral, atingia o seu objectivo principal, que era o de criar no revisor um vago sentimento de pnico, como se visse prestes a serem revelados em pblico os seus mais ocultos segredos. A senhora Maria  sdica e no o sabe. Deu as boas-tardes da porta do quarto, fungou duas vezes para que Raimundo Silva percebesse que l por ser ela uma  pobre mulher-a-dias, ainda era dotada de olfacto de bastante qualidade para captar o que no ar tenha ficado de um perfume. Raimundo Silva respondeu  saudao e continuou a escrever, limitando-se a lanar um olhar rpido para o lado dela, decidido a fazer de conta que no sabia o que estava a passar-se, a senhor Maria, assombrada primeiro e logo com a expresso especial que significa, Bem me queria a mim parecer, fitando a cama, que, em vez do puxo sumrio que Raimundo Silva aprendera a dar-lhe para que no se confundisse com tarimba de malts, apresentava-se irrepreensvel, como s mos femininas so capazes. Tossiu para chamar a ateno, mas Raimundo Silva fingia-se distrado, embora o seu corao estivesse em estpido alvoroo, No tenho que dar contas da minha vida, pensava, e indignou-se consigo mesmo por buscar justificaes cobardes, ele que havia comeado agora um amor assim, inteiro, ento levantou a cabea, perguntou, Quer alguma coisa, num tom seco, sacudido, que desarmou a impertinncia da mulher, No senhor, no quero nada, estava s a olhar. Raimundo Silva podia ter-se contentado com a atrapalhao da resposta, mas preferiu desafiar, A olhar o qu, Nada, a cama, Que tem a cama, Nada, est feita, Pois est, e da, Nada, nada, a senhora Maria virou costas, acobardara-se, no fez a pergunta que lhe ardia na lngua, Quem a fez, e assim no soube que resposta lhe daria Raimundo Silva, o qual, por sua vez, to-pouco a sabia. Durante todo o tempo a senhora Maria no voltou ao quarto, como se estivesse significando a Raimundo Silva que considerava aquela parte da casa j fora da sua jurisdio, porm, ou no pde ou no quis abafar a frustrao mal-humorada, no abafando tambm os rudos prprios do seu trabalho e, pelo contrrio, exagerando-os. Raimundo Silva resolveu levar o caso a sorrir, mas o abuso tornava-se notrio, por isso veio ao corredor, Menos barulho, por favor, que estou a trabalhar, a senhora Maria podia ter-lhe respondido que tambm ela estava, e que no tinha a sorte de certas pessoas que podem ganhar a vida sentadas, quietas e caladas, mas a preciso, mesmo to conflitiva como esta, pde mais do que a vontade, e calou-a. O que sobretudo irrita a senhora Maria  que to grandes mudanas estejam a passar-se  sua revelia, no fosse ela a espertssima pessoa que , e um dia destes, inesperadamente, dava com outra mulher em casa, sem poder atirar-lhe a pergunta mais apetecida, Quem  a senhora, quem a chamou c, os homens so uns insensveis e uns incompetentes, que  que custava a Raimundo Silva uma meia palavra de risonha confidncia9 por muito que doesse sempre seria um lenitivo para to amargo cime, que esse  o mal de que sofre a senhora Maria, e no sabe. Outras consideraes, das prticas e prosaicas, ocupam tambm os seus pensamentos, sendo a principal o risco em que poder vir a estar o emprego se  tal mulher, supondo que no se trate de um arranjinho de ocasio, lhe der para implicar com o seu trabalho, Limpe isto outra vez, exibindo a ponta de um dedo sujo da poeira dum friso de porta, esse gesto odioso a que nenhuma mulher-a-dias at hoje se lembrou de responder com uma frase que entraria na histria, Se voc o meter no cu sai de l mais sujo. Pobre de quem veio ao mundo para obedecer, pensa a senhora Maria, e volta a limpar o que j estava limpo, enquanto, sem ver porqu, lhe sobem as lgrimas do corao aos olhos, quis o acaso que isto acontecesse diante do espelho da casa de banho,  senhora Maria, neste momento, nem os seus lindos cabelos a consolam. A meio da tarde o telefone tocou; Raimundo Silva foi atender, era da editora, gorou-se a expectativa da mulher-a-dias, coisas de trabalho, Sim, estou disponvel, dizia ele, Mande-me o original quando quiser, senhora doutora, ou se prefere vou eu busc-lo a, e o resto da conversa foi do mesmo teor, reviso, prazo, monlogos como este ouvira-os a senhora Maria muitas vezes, a nica diferena era o interlocutor inaudvel, antes fora um tal Costa, agora uma senhora doutora qualquer, talvez por isto se pusera requebrado o tom de voz de Raimundo Silva, requebrado era termo da senhora Maria, ai estes homens, mas apesar de to arguta ser no lhe passou pela cabea que Raimundo Silva pudesse estar a falar precisamente com a mulher com quem dormira nessa noite, gozando o prazer inefvel de empregar palavras neutras s por eles traduzveis noutra linguagem, a da emoo, evocadora de sentidos, pronunciar livro e ouvir beijo, dizer sim e entender sempre, ouvir boa tarde e perceber amo-te. Tivesse a senhora Maria algumas noes da arte da criptofonia e iria daqui sabedora do segredo iodo, a rir-se de quem julga poder rir-se dela,
   maneira de pensar evidentemente forada e que s o despeito explica, pois nem Raimundo Silva nem Maria Sara imaginam que estejam a fazer sofrer a senhora Maria, e se o soubessem no troariam dela, ou no seriam merecedores do que de bom esto vivendo. Com tudo isto, no est excludo que a senhora Maria venha a gostar de Maria Sara, tambm do corao se pode esperar tudo, at a harmonia das suas contradies.
   Raimundo Silva est outra vez s, durante alguns segundos ainda se interrogou, curioso, sobre o que significaria o amavioso tom com que a senhora Maria se despediu, mulher desconcertante que to depressa aparece de m cara como d mostras de querer meter-nos no corao, mas a Histria do Cerco de Lisboa chamou-o  outra realidade,  construo da torre destinada a liquidar por uma vez a resistncia dos mouros, e sabendo ns que disso depende a existncia duma ptria, no podemos dar o trabalho por interrompido, ainda que a Raimundo Silva agradasse muito mais ter aqui Maria Sara do que dar conta de operaes de que nada sabe, o aparelhamento dos barrotes, o desbastamento das pranchas, o afeioamento das cavilhas, o entranamento das cordas, todos estes materiais que, reunidos, se vo pouco a pouco levantando em uma torre que no  de Babel, esta de agora no aspira a subir mais alto que o adarve da muralha, e, quanto s lnguas, a inteno de D. Afonso Henriques no  repetir a multiplicidade delas, mas cortar esta pela raiz, tanto no sentido figurado, alegrico, como no prprio e sangrento. Quando Maria Sara voltar amanh  tarde, como prometeu ao ir-se, para ficar essa noite e a seguinte, e tambm o dia entre elas, que  domingo, a obra haver de estar adiantada, pois outros sucessos esperam a sua vez, e o tempo mudou de nome, agora chama-se urgncia, Calma, dir Maria Sara, no cabem mais coisas num ano do que num minuto s por serem minuto e ano, no  o tamanho do vaso que importa, mas sim o que cada um de ns possa pr nele, ainda que tenha de transbordar e se perca. Como tambm esta torre se perder.
   Mais de uma semana levou a construo. Entre a manh e a noite, o cavaleiro Henrique no vivia seno para a sua ideia, e, mesmo quando na tenda repousava, cortava-se-lhe o sono s de pensar que podia ter ficado mal firme uma viga de apoio, e chegava ao ponto de levantar-se no meio da madrugada para certificar-se da solidez duns encaixes e da boa tenso dumas cordas. To excelente senhor era e to piedoso que, no aceso do trabalho, no se dedignava de meter um ombro  carga se a um dos extenuados soldados se quebrava, num instante de fraqueza, a mola dos rins. Numa destas ocasies achou-se Mogueime atrs dele, que tambm Mogueime andava de auxiliar  torre, e foi caso que tinha vindo Ouroana a ver o andamento da obra e naturalmente a olhar para quem s olhos deveria ter, o seu senhor e amo, mas isto no evitou que ela notasse a fixidez com que a fitava o soldado alto que atrs estava, dera por ele desde o primeiro dia, sempre a olh-la onde quer que a encontrasse, logo no arraial do Monte de S. Francisco, depois no acampamento do rei, agora nesta estreita ponta de terra, to estreita que parecia obra de milagre caberem todos ali sem tropearem uns nos outros, por exemplo, este homem e esta mulher, que no tm feito mais do que olhar-se. Mogueime via a um palmo de distncia a nuca larga do alemo, sobre a qual desciam longos cabelos ruos, empastados de p e de suor, mat-lo em meio da confuso talvez no fosse difcil e assim ficaria Ouroana livre, mas no mais prxima do que agora. Tentaes de morte violenta, apertando muito o remorso apenas de as ter, deveriam ser levadas ao confessor, mas descobrir tambm ao frade que vivia a cobiar a mulher da vtima, ainda que eoncubina, era mais do que lhe cabia na coragem. De furor e raiva fez um gesto brusco e bateu nas costas do alemo, que olhou para trs, mas calmo e sem surpresa, era frequente em ajuntamentos de to descompassado esforo, e esse olhar directo foi bastante para que a ira de Mogueime se sumisse, no podia odiar um homem que mal nunca lhe fizera, s por desejar tanto a mulher que era dele.
   Finalmente ficou concluda a torre. Era uma pea estupenda de engenharia militar que se deslocava sobre macias rodas e se compunha de um sistema complexo de travejamentos internos e externos unindo entre si as quatro plataformas que definiam a estrutura vertical, uma inferior que directamente assentava nos eixos fixos das rodas, outra superior prolongando-se ameaadora para o lado da cidade e duas intermdias que serviam para reforar o conjunto e serviriam de proteco temporria aos soldados que se preparassem para subir. Uma roldana manobrada de baixo permitiria fazer subir rapidamente alcofas cheias de armas, de modo a no faltarem mesmo no mais rijo do combate. Quando a obra foi dada por finda, a tropa rompeu em vivas e aclamaes, ansiosa por se lanar ao assalto, to fcil lhe parecia agora a conquista. Os prprios mouros deviam de estar assustados, um silncio estupefacto calara os insultos que constantemente choviam l de cima. O entusiasmo no arraial da Porta de Ferro ainda se tornou maior ao saber-se que as torres dos franceses e dos normandos levavam atraso, portanto a glria estava ali ao alcance do brao, no havia mais que empurrar o carro de assalto at encost-lo ao muro, era a altura de vir Mem Ramires como capito a dar a voz, Empurrem, rapazes, vamos a eles, e todos fizeram quanta fora podiam. Infelizmente, no se reparara que o terreno adiante era inclinado, e portanto,  medida que avanavam, j debaixo do fogo inimigo, a torre ia-se inclinando para trs e para cima, tornando-se evidente que, mesmo que conseguissem chegar ao muro, a plataforma superior ficaria demasiado afastada dele para poder ter alguma utilidade. Ento o cavaleiro Henrique, corrido da sua imprevidncia, deu ordem para parar e voltar ao princpio, agora os carpinteiros iam dar lugar aos sapadores, tratava-se de rasgar um caminho direito e a direito, tarefa realmente perigosa, pois os cavadores teriam de trabalhar a descoberto sob a avalancha de projcteis de toda a espcie que vinham de cima, e tanto pior quanto mais se aproximassem. Mesmo assim, e apesar das baixas sofridas, foram abertos uns vinte metros por onde a torre j poderia avanar, servindo de cobertura para o lano seguinte. Estava-se nisto, fazendo cada qual o melhor de que era capaz, mouros de um lado, cristos do outro, quando de repente o cho cedeu de um lado e as trs rodas da enterraram-se at aos cubos, fazendo inclinar a torre assustadoramente. Ouviu-se um grito geral, de aflio e medo no arraial dos portugueses, de diablica alegria nos adarves onde a negra mourisma assistia de camarote. Em equilbrio periclitante, a torre rangia de alto a baixo, com todo o madeirame sujeito a tenses que no haviam sido previstas, algumas unies logo rebentadas. De cabea perdida, vendo a pique de malograr-se o que deveria ser demonstrao magnfica do seu engenho, o cavaleiro Henrique arrepelava-se, soltava na lngua germnica pragas que certamente em nada condiziriam com a boa fama, apesar de tudo merecida, em que geralmente era tido, mas que a grosseria inerente a estes primitivos tempos mais do que justificava. Por fim, acalmando-se, foi examinar de perto a situao, os estragos, concluindo que o remdio, se o iria ser estaria em prender nas traves superiores, do lado oposto ao do sentido da inclinao, umas cordas mui compridas e pr toda a companhia a puxar de largo, de modo a dar folga s rodas enterradas e poder cal-las com pedras, sucessivamente, at fazer voltar a torre  vertical. O plano era perfeito, porm, para que se alcanasse o desiderato era necessrio, primeiro, proceder a uma operao arriscadssima a qual consistiria em desafogar as rodas, retirando precisamente a terra que, a estas alturas, ainda amparava a pesada construo, pois nela  que se apoiava, inclinada a plataforma inferior. Era um buslis, um n cego, um xis uma equao com uma enorme e aterradora incgnita, mas no se topava outra soluo, ainda que, com rigor, devssemos chamar-lhe apenas nfima probabilidade. Foi esta a ocasio que os mouros escolheram para despedir l de cima uma chuva de virotes com mechas inflamadas que zumbiam no ar como enxames de abelhas e vinham cair aqui, ali, dispersos, o vento que fazia prejudicava afortunadamente a pontaria dos arqueiros, mas tantas vezes o cntaro vai  fonte que por fim l deixa a asa, bastou que um viroto acertasse no alvo para os outros logo aprenderem o caminho, querendo enfim a m sorte que a torre viesse a despenhar-se, no tanto por efeito da inclinao agravada pelo cavamento da terra, mas por causa da agitao de esforos para apagar o fogo que pegara em diversas partes. Da brutal queda ficaram mortos ou malferidos os soldados que no cimo da torre prendiam as cordas, tambm alguns outros que trabalhavam de p s rodas, e finalmente, perda sem remdio, o cavaleiro Henrique, alcanado por um viroto a arder que o seu generoso sangue ainda pde apagar. Como ele, mas por ter recebido em cheio no peito uma viga que se soltara na derrocada, morreu tambm o fiel criado, assim ficando Ouroana s no mundo, o que, podendo ser lembrado noutra ocasio, aqui j se deixa mencionado, tendo em conta a importncia do facto para a continuao desta histria. No se descreve o jbilo desconforme dos mouros, assegurados como se acharam ali, se de tal precisassem, do maior poder de Al sobre Deus, comprovado na derrota fragorosa da torre maldita. E tambm descrever no  possvel o desgosto, a raiva e a humilhao da lusitana gente, ainda que alguma dela no se coibisse de murmurar que qualquer pessoa com dois dedos de testa e experincia de guerra deveria saber que as batalhas   ponta de espada que se ganham e no com engenhos estrangeiros que tanto podem estar a favor como contra. Destroada, a torre ardia como uma fogueira de gigantes, e nela se reduziam a torresmo e cinzas no se chegou a averiguar quantos homens que na confuso dos travejamentos desfeitos tinham ficado presos. Um desastre.
   O corpo do cavaleiro Henrique foi levado para a sua tenda, onde Ouroana, sabedora j do infortnio, fazia o , seu choro obrigado de concubina, sem mais. Jazeu o cavaleiro na tarimba, com as mos postas em prece, atadas sobre o peito, e tendo sido to rpida a morte, ali estava de rosto sereno, to sereno que parecia dormir, e at, olhando mais de perto, diramos que sorri, como se estivesse diante das portas do paraso, sem mais torre nem arma que a bondade das suas aces na terra, mas to seguro de entrar na bem-aventurana como de estar morto. Sendo o calor muito ao fim de algumas horas j se lhe desfiguraro os traos, sumir-se- o sorriso feliz, entre este cadver ilustre e qualquer outro destitudo de mritos particulares no se notar diferena, mais tarde ou mais cedo todos acabamos por ficar iguais perante a morte. Ouroana despenteara os cabelos, que eram louros de um louro galego, e chorava, um tanto cansada de no sentir desgosto, somente uma discreta pena de um homem contra quem mais razes de queixa no tinha que t-la roubado por violncia, que quanto ao resto sempre fora dele bem tratada, segundo o que hoje possamos imaginar do que h oito sculos se passaria entre uma barreg e o fidalgo seu dono. Quis Ouroana saber que fim tinha levado o criado fiel, que morto ou muito ferido deveria de estar para no vir lamentar-se  cabeceira do seu amo, e disseram-lhe que o tinham transportado logo para o cemitrio do outro lado do esteiro, aproveitando a oportunidade de estar-se despejando o terreno das calcinadas vigas e troncos, para no ficarem por ali a empanchar a manobra, numa nica operao de limpeza recolheram-se tambm e levaram-se os cadveres completos, que dos troos mais pequenos encontrados fez-se sepultura expedita num rebaixo desta encosta de c, donde ser difcil que possam vir a ressuscitar quando soarem as trombetas do Juzo Final. Achou-se pois Ouroana livre de senhores directos ou indirectos, e fez questo de o demonstrar logo na primeira ocasio, quando um dos homens de armas do cavaleiro Henrique, sem respeito ao defunto, ali mesmo quis pr mo nela, estando sozinha. Num relmpago apareceu na mo de Ouroana um punhal, que ela com previdente diligncia tinha retirado do cinto do cavaleiro quando o trouxeram, delito em que felizmente a no surpreenderam, que um cavaleiro deve ir ao tmulo, se no com todas as suas armas, ao menos as menores. Ora, um punhal em mos frgeis de mulher, mesmo se habituadas aos trabalhos da lavoura e aos cuidados do gado, no era ameaa que pudesse meter medo a um guerreiro teuto, decerto consciente da superioridade da sua arinica raa, mas h olhos que valem por todos os armamentos do mundo, e se estes no eram dos que podiam devassar os interiores do malvado, podiam a trs passos intimid-lo, acrescendo que o recado no teria podido ser mais claro, Se me pes a mo em cima, ou te mato, ou me mato, disse Ouroana, e ele recuou, menos com medo de morrer do que de ser culpado da morte dela, embora pudesse sempre alegar que a pobrezinha, no suportando as scuas do desgosto, ali diante dos seus olhos se quitara a vida. Preferiu pois o soldado retirar-se, pedindo a Deus que se destas aventuras em terra estranha for Ele servido que escape, lhe faa encontrar, aqui, se c ficar, ou na Germnia distante, uma mulher como esta Ouroana, que mesmo ariana no sendo a receberia com sumo gosto.
   Raimundo Silva pousou a esferogrfica, esfregou os olhos cansados, depois releu as ltimas linhas, as suas. No lhe pareceram mal. Levantou-se, levou as mos aos rins e inclinou-se para trs, suspirando de alvio. Trabalhara horas seguidas, esquecera-se mesmo de jantar, to absorvido pelo assunto e pelas palavras que s vezes lhe fugiam, que nem se lembrou de Maria Sara, esquecimento este que seria muito de censurar se a presena dela nele, salvo o exagero da metfora, no fosse como a do sangue nas veias, em que realmente tambm no pensamos, mas que, estando l e por l circulando,  condio absoluta da vida. Salvo o exagero da metfora, torna-se a dizer. As duas rosas do solitrio banham-se na gua, alimentam-se dela,  verdade que no duram muito, mas ns, relativamente, no duramos tanto. Abriu a janela e olhou a cidade. Os mouros festejam a destruio da torre. As Amoreiras, sorriu Raimundo Silva. Naquele lado de alm est a tenda do cavaleiro Henrique, que amanh ir a enterrar no cemitrio de S. Vicente. Ouroana, sem lgrimas, vela o cadver, que j cheira. Dos cinco homens de armas, falta um que foi ferido. O que tentou pr mo em Ouroana, olha-a de vez em quando, e pensa. C fora, escondido, Mogueime ronda ao redor da tenda como uma mariposa fascinada pelo claro dos brandes que sai pela abertura dos panos. Raimundo Silva olha o relgio, se dentro de meia hora Maria Sara no telefonar, telefonar ele, Como ests, meu amor, e ela responder, Viva, e ele dir,  um milagre.
   

   
   Diz Frei Rogeiro que foi por este tempo que houve sinais de estar a fome apertando com os mouros na cidade. E nem era para admirar, se pensarmos que fechadas naqueles muros, como num garrote, estavam para cima de sessenta mil famlias, nmero que  primeira vista assombra e  segunda assombra ainda mais, porquanto, naquelas recuadas eras, famlias de pai, me e um filho seriam raridades suspeitas, e mesmo fazendo as contas to por baixo chegaramos a uma populao de duzentos mil habitantes, clculo por sua vez posto em causa por uma outra fonte de informao, segundo a qual s os homens eram, em Lisboa cento e cinquenta e quatro mil. Ora, se considerarmos que o Coro autoriza que cada homem tenha at quatro mulheres, em todas naturalmente fazendo filhos, e se no nos esquecermos dos escravos, que tendo pouco de gente tambm comem, pelo que devem ter sido os primeiros a sentir as faltas, a concluso atira-nos para nmeros de que a prudncia manda desconfiar, qualquer coisa assim como quatrocentas ou quinhentas mil pessoas, imagine-se. De toda a maneira, se no eram tantas, sabemos pelo menos que eram muitas, e do ponto de vista de quem l vivia demasiadas.
   Se no fosse aquela contnua sede de glria que desde os tempos imemoriais no deixa uma hora de sossego a reis, presidentes e cabos-de-guerra, esta conquista de Lisboa aos mouros poderia ter-se feito com a maior tranquilidade deste mundo, afinal parvo  aquele que entra na jaula do leo para lutar com ele, em vez de cortar-lhe o sustento e sentar-se a v-lo morrer.  certo que com a passagem dos sculos algo viemos aprendendo, e hoje  prtica bastante comum usar-se a arma da privao de comida e outros bens como meio de persuadir a quem, por teimosia ou falta de entendimento, no se rendeu a razes mais clssicas. Porm, esses quinhentos so outros e outra teria de ser a histria deles. O que importar, neste caso,  observar a concomitncia das duas distintas ocorrncias, como foram a destruio e queima da torre da Porta de Ferro e os primeiros alarmes de fome na cidade, que, reunidas e confrontadas nas mentes do estado-maior real, tornaram claro que, devendo-se embora continuar a peleja, no prprio sentido do termo, para honra das armas portuguesas, a boa tctica mandaria apertar mais ainda o cerco, pois que, aps o conveniente tempo, os mouros no s teriam tudo comido at  ltima migalha e  ltima ratazana, como acabariam por devorar-se uns aos outros. Prosseguissem l os franceses e os normandos a construo das suas torres, aplicassem deste lado os lusitanos os conhecimentos aprendidos nas lies do eavaleiro Henrique para montarem a sua prpria mquina, fizesse a artilharia os seus bombardeamentos regulares, lanassem os arqueiros dardos, setas, virotes e virotes para dar vazo aos fabricos quotidianos de Brao de Prata, tudo isto seria nada mais que simblicos gestos para inscrever nas epopeias, perante a soluo final, derradeira e completa, a fome. Ordens, pois, rigorosas, levaram os diferentes capites s suas hostes para que vigiassem dia e noite a cintura de muralhas, no apenas as portas, mas sobretudo os recessos mais escondidos, certos escusos ngulos que poderiam servir de antepara, e tambm a frente do mar, no porque por a pudessem ser introduzidos mantimentos na cidade, que para a preciso sempre seriam escassos, mas para evitar que atravessassem o cerco mensageiros levando s vilas do Alentejo imploraes de auxlio, tanto em vveres como em ataques pelas costas aos sitiantes, que to bem-vindos seriam uns como outros. Provou-se em pouco tempo que a cautela era boa, quando pela calada duma noite sem lua foi surpreendido um pequeno batel que tentava esgueirar-se por entre as galeotas da armada, transportando um correio que, levado  presena do almirante, no teve outro remdio que denunciar as cartas de que era portador, dirigidas aos alcaides de Almada e de Palmela, nas quais por claro se via a que ponto tinha j chegado a necessidade do infeliz povo de Lisboa. Apesar da vigilncia, algum outro mensageiro h-de ter atravessado as linhas, pois semanas mais tarde veio a ser encontrado, boiando ao rs do muro que dava para o rio, um mouro que, iado para bordo da fusta mais prxima, se revelou ser emissrio duma carta do rei de vora, que melhor foi no ter chegado ao seu destino, to cruel, to desumano era o seu contedo, e por cima disto hipcrita, considerando que de irmos de raa e de religio se tratava, e assim era que dizia, O rei dos eborenses deseja aos lisbonenses a liberdade dos corpos, h j tempo que tenho trguas com o rei dos portugueses e no posso quebrar o juramento para o incomodar a ele ou aos seus com a guerra, remi a vossa vida com o vosso dinheiro, para que no sirva para vossa desgraa o que devera servir-vos para vossa salvao, adeus. Este era rei, e para no quebrar as trguas que tinha tratado com o nosso Afonso Henriques, esquecido de que este mesmo Afonso as quebrara para atacar e tomar Santarm, deixava morrer de negra morte a desgraada gente de Lisboa, ao passo que o correio que de Lisboa sara com o pedido de ajuda no se aproveitou da ocasio para fugir a terras seguras, antes voltou com a m nova, morrendo ele antes de entregar a mensagem que anunciava o abandono e a traio.  bem verdade que nem sempre os homens esto nos seus lugares certos, a Lisboa teria acudido este mouro se fosse o rei de vora, mas o rei de vora teria obviamente fugido logo na primeira viagem, no fosse dar-se o caso de o trazerem de escolta at Cacilhas com a resposta e dizerem-lhe, V, atira-te  gua, e livra-te de tentares voltar para trs. Transportar o corpo do cavaleiro Henrique para o cemitrio de S. Vicente, por aqueles tortuosos caminhos no sop da escarpada encosta, a dois passos da gua para prevenir os apedrejamentos ou coisa pior, foi, como ento provavelmente comeou a dizer-se, o cabo dos trabalhos. Mas a fidalguia do falecido e a grandeza do seu ltimo feito justificavam a custosa diligncia, que em todo o caso no leva comparao com os tormentos por que passaram as tropas que agora se encontram diante da Porta de Ferro e que este mesmo caminho tomaram, episdio a seu tempo descrito, muito pela rama. Levavam o esquife os quatro homens de armas, com uma guarda de soldados portugueses mandada por Mem Ramires, e Ouroana atrs, a p, como deve de ir quem deixou de ter a quem servir de ostentao e vaidade. A bem dizer, sendo ela no mais que barreg ocasional, nada a obrigava a acompanhar o enterro, mas pensou, em sua conscincia, que no parecia procedimento de crist recusar ao defunto uma ltima presena, a morte no os separara mais do que a vida os tivera em verdade separados, o senhor e a mulher de alguns dias. Outra vida, porm, instante e exigente, vem l atrs, um soldado que segue de longe, no o prstito, mas esta mulher que, tendo dado por ele, se pergunta, Que queres de mim, homem, que queres de mim, e no responde, mais que sabe ela que  o lugar do cavaleiro Henrique o que ele pretende, no este onde agora vai, balanando pesadamente no esquife, debaixo duma suja mortalha, mas o outro, um qualquer outro onde possam dar-se vivos os corpos, uma cama verdadeira, um cho de erva, um braado de feno, um regao de areia. No ignorava Mogueime que o mais certo seria que viesse Ouroana a ser tomada por qualquer senhor que se agradasse dela, porm, isto no o perturbava, talvez porque, no fundo, no acreditasse que algum dia, mesmo ajudando o destino, pudesse tocar-lhe com um dedo, e se ela, por no a querer ningum, mais remdio no tivesse na vida que juntar-se s mulheres do outro lado, nem assim ele empurraria a cancela da choa onde ela estivesse para gozar o seu gozo de homem em um corpo que, por ter de ser de todos, no poderia ser dele. Este soldado Mogueime, que no sabe ler nem escrever, que no se lembra da terra em que nasceu nem por que lhe foi dado um nome que finalmente parece ter mais de mouro que de cristo, este soldado Mogueime, simples degrau daquela escada por onde se entrou em Santarm e agora neste cerco de Lisboa com as suas fracas armas de peo, este soldado Mogueime vai atrs de Ouroana como quem da morte no v outro modo de afastar-se, sabendo no entanto que com ela tornar a enfrentar-se uma e muitas vezes e no querendo acreditar que a vida tenha de ser no mais do que uma srie finita de adiamentos. O soldado Mogueime no pensa nada disto, o soldado Mogueime quer aquela mulher, a poesia portuguesa no nasceu ainda.
   Foi escrito, l para trs, graas a uma daquelas penetraes clarividentes adentro do futuro inexplicveis pela razo, que nas guas do esteiro lavou um dia Mogueime as mos ensanguentadas, e que dois soldados do acampamento real, que tinham tomado por fora a Ouroana, apareceram mais tarde mortos de faca. Sabendo com que ligeireza manejou Ouroana o punhal do cavaleiro Henrique contra o homem de armas que primeiro lhe quis pr mo, nada mais fcil que deixarmo-nos tentar pela imaginao de que, em vingana da honra ofendida, a dita Ouroana, a salvo de testemunhas pelo crepsculo da tarde ou da manh, num ensejo propcio, passando-lhe ao alcance os violadores, os tenha espetado bem fundo na barriga, l aonde mal chega ou apenas fraldeja a cota de malha. Sem dvida dessa morte morreram os soldados, mas no os matou Ouroana. Porm porque o frtil imaginar no se detm e tendo em conta que o forte amor de Mogueime o poderia ter levado, por cime a cometer tais crimes, o quadro antecipado, de Mogueime lavando as manchadas mos, ficaria com o seu sentido completo se dos mseros assassinados fosse o sangue que a onda prontamente diluiu e levou, como no tempo desaparece tambm a vida. Assim podia ter sido, mas no foi, morrerem esses homens no passou de coincidncia, j ento as havia, porm mal se reparava. Um dia, quando tiverem chegado  fala e a outras mais intimidades, Ouroana perguntar a Mogueime se tinha sido ele quem matara os soldados prevaricadores, Que no, respondeu, e ficou a pensar que provavelmente o deveria ter feito, para melhor merecer o amor dessa mulher.
   No h mal que por algum bem no venha, eis aqui um formoso ditado, anterior a quantos relativismos filosficos se engendraram e que sabiamente nos ensina serem penas perdidas querer julgar os casos da vida como se de separar o trigo do joio se tratasse. Temera o nosso Mogueime perder a esperana de vir a conquistar Ouroana se um qualquer fidalgo, por capricho ou alarde, ou, quem sabe, um sentimento mais srio ainda que no duradouro, a tomasse para si, quitando-a do vale-de-vida ao menos pelo tempo da guerra. Tal no sucedeu, e isto foi um bem, mas o motivo de no ter sucedido foi ele um mal, pois se havia tornado pblico e notrio que aquela solitria mulher, no sendo puta confirmada, tivera comrcio carnal com soldados sem graduao, dois dos quais vieram a aparecer mortos em condies misteriosas, o que, no interessando especialmente  histria, como j sabemos, serviu para reforar as razes de descaso por parte de senhores que no andam aos restos e tm de superstio o bastante para no tentarem o demnio, mesmo vindo ele em figura de to estupenda mulher. Ento, deixada de todos por razes to contrrias, estava Ouroana lavando roupa num arroio que desaguava no esteiro, ofcio limpo de que tivera de valer-se para prover ao seu sustento, quando viu pelo canto do olho acercar-se aquele soldado que a segue para onde quer que v. Mesmo tornando a barba crescida to iguais as caras dos homens, a este no seria fcil confundi-lo, pois de altura sobreleva o maior dos outros pelo menos em meia cabea, e a compleio no geral condiz, tudo em seu favor. Sentou-se ele numa pedra, perto, e ali ficou, calado, a observar, agora ela ergueu o corpo, levanta e baixa o brao para bater a roupa, o rudo de estalo corre sobre a gua,  um som que no se confunde, e outro, e outro, e depois h um silncio, a mulher descansa as duas mos sobre a pedra branca, um velho cipo funerrio romano, Mogueime olha e no se mexe,  ento que o vento traz o grito agudo do almuadem. A mulher vira ligeiramente a cabea para a esquerda como para escutar melhor o apelo, e, estando Mogueime desse lado, um pouco para trs, teria sido impossvel no se encontrarem os olhos dele com os olhos dela. Com os ps descalos na areia grossa e hmida, Mogueime sente o peso de todo o seu corpo, como se tivesse passado a fazer parte da pedra em que est sentado, bem podiam agora as trombetas reais tocar ao assalto que o mais seguro seria no as ouvir, o que sim lhe est ecoando na cabea  o grito do almuadem, continua a ouvi-lo enquanto olha a mulher, e quando ela enfim desvia os olhos o silncio torna-se absoluto,  verdade que h rudos em redor mas pertencem a outro mundo, as mulas resfolgam e bebem no arroio, e porque provavelmente no se encontraria outra maneira melhor de comear o que tem de ser feito, Mogueime pergunta  mulher, Como te chamas, quantas vezes teremos perguntado uns aos outros desde o princpio do mundo, Como te chamas, algumas vezes acrescentando logo o nosso prprio nome, Eu sou Mogueime, para abrir um caminho, para dar antes de receber, e depois ficamos  espera, at ouvirmos a resposta, quando vem, quando no  com silncio que nos respondem, mas no foi esse o caso de agora, O meu nome  Ouroana, disse ela, j o sabia ele, mas dito por esta boca foi a primeira vez.
   Mogueime levantou-se e avanou para ela, seis passos, um homem caminha lguas e lguas durante uma vida e dessas no aproveitou mais do que fadiga e feridas nos ps, quando no na alma, e vem um dia em que d seis passos apenas e encontra o que buscava, aqui, durante este cerco de Lisboa, esta mulher que de joelhos estava e agora para me receber se levantou, tem as mos molhadas, molhada a saia, e no sei como nos achmos os dois na gua baixo, sinto o manso afago da corrente nos tornozelos, o ranger das pedrinhas midas do fundo, um dos pajens que do de beber s mulas disse de chacota, Eh, homem, como se dissesse, Eh, toiro, e logo se sumiu, Mogueime no ouve, s v o rosto de Ouroana, finalmente v-o, to perto que poderia tocar-lhe como numa flor aberta, em silncio tocando-lhe com somente dois dedos que passam devagar sobre as faces e a boca, sobre as sobrancelhas, uma, outra, desenhando o desenho que tm, e depois a testa e os cabelos, at lhe perguntar, j a mo toda pousada sobre o ombro, Queres, a partir de agora, ficar comigo, e ela responde, Sim, quero, ento abriram-se os ouvidos de Mogueime, todas as trombetas do rei tocaram glrias, com tal estentor que  impossvel que a elas no se tenham juntado outras tantas do cu. Acabou ali Ouroana de lavar a roupa, que por ter chegado o dia prometido no se havia acabado a obrigao, enquanto Mogueime lhe contava da sua vida, dos parentes nada porque no os conhecia, e ela, pelo contrrio, da vida depois de roubada no falou, e quanto  outra  o comum da gente campestre, j ento era assim, e no por coincidncia. Foi Ouroana levar a roupa ao acampamento do Monte da Graa, onde nestes dias vivera, disseram-lhe que passasse noutra ocasio que lhe dariam o pago, em mantimentos, claro est, mas ela no se importou, nem tem que importar-se com demoras quem a fidalgos sirva, que dali ia partir para outra vida, com este homem ao lado, quem me quiser encontrar que me procure onde a guerra  mais acesa, diante da Porta de Ferro, porm esta noite no, por ser a primeira em que estaremos juntos, mulher e homem, apartados quanto se possa do arraial para que seja sem testemunhas a nossa entrega, debaixo do cu estrelado, ouvindo o marulhar da onda, e quando a lua nascer ainda os nossos olhos estaro abertos Mogueime dir, No h outro paraso, e eu responderei, Assim no foram Eva e Ado porque o Senhor lhes disse que haviam pecado.
   Maria Sara chegou  hora que tinha prometido. Trazia alguma comida, munies de boca lhe chamaramos com maior propriedade vocabular, pois veio para uma guerra, e muito consciente das suas responsabilidades, Sim, um beijo, dois, trs, mas no te distraias, a trabalhar estavas a trabalhar continuas, o tempo chega para tudo, mesmo quando  pouco, e ns vamos ter duas noites inteiras e um dia completo, a eternidade, d-me s mais um beijo, e agora senta-te, diz-me apenas como vai a histria, Mogueime e Ouroana j se encontraram, Menos eufemisticamente, queres dizer que j foram para a cama, De certo modo, sim, Como de certo modo,  que no tinham cama, deitaram-se  luz das estrelas, Que sorte, Noite quente, eles estavam juntos e a mar subia, Espero que tenhas escrito essas palavras, No, no escrevi, mas ainda estou a tempo. Maria Sara levou os embrulhos para dentro, enquanto Raimundo Silva de p, olhava as suas folhas com a expresso de quem segue outro pensamento, No podes escrever mais, perguntou ela ao regressar, a minha chegada distraiu-te, No  o mesmo estares ou no estares, no somos o velho casal que j perdeu as emoes e at a memria de as ter tido, pelo contrrio, somos Ouroana e Mogueime comeando, Ento distraio-te, A Deus graas, mas o que eu estava a pensar  que no continuo a escrever aqui, Porqu, No sei muito bem, deixar o escritrio foi fugir  rotina, uma infraco ao costume que talvez me ajudasse a entrar noutro tempo, mas agora, que estou quase a regressar, apetece-me voltar  cadeira e  secretria do revisor, que  o que eu sou, no fim das contas, Porqu essa insistncia no revisor, Para que tudo fique claro entre Mogueime e Ouroana, Explica-te, Tal como ele nunca vir a ser capito, eu nunca serei um escritor, E tens medo de que Ouroana vire as costas a Mogueime quando descobrir que nunca ser mulher de um capito, Tem-se visto, Contudo, essa Ouroana viveu vida melhor quando estava com o cavaleiro, e agora quis Mogueime, suponho que ele a no forou, No estou a falar de Ouroana, Ests a falar de mim, bem o sei, mas o que dizes no me agrada, Calculo, Dure esta relao o que durar, quero viv-la limpamente, gostei de ti pelo que s, presumo que o que sou no te impede de gostares de mim, e basta, Desculpa-me, No adianta pedires desculpa, o mal est em vocs, homens, todos, a macheza, quando no  a profisso  a idade, quando no  a idade  a classe social, quando no  a classe social  o dinheiro, alguma vez vocs se decidiro a ser naturais na vida, Nenhum ser humano  natural, No  preciso ser-se revisor para saber isso, uma simples licenciada no o ignora, Parece que estamos em guerra, Claro que estamos em guerra, e  guerra de stio, cada um de ns cerca o outro e  cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor ser no haver mais barreiras, o amor  o fim do cerco. Raimundo Silva sorriu, Tu  que devias ter escrito esta histria, Nunca me teria passado pela cabea a ideia que a ti te ocorreu, negar um facto histrico absolutamente incontroverso, Nem eu prprio saberia dizer hoje por que o fiz, Em verdade, penso que a grande diviso das pessoas est entre as que dizem sim e as que dizem no, tenho bem presente, antes que mo faas notar, que h pobres e ricos, que h fortes e fracos, mas o meu ponto no  esse, abenoados os que dizem no, porque deles deveria ser o reino da terra, Deveria, disseste, O condicional foi deliberado, o reino da terra  dos que tm o talento de pr o no ao servio do sim, ou que, tendo sido autores de um no, rapidamente o liquidam para instaurarem um sim, Bem dito, Ouroana querida, Obrigada, querido Mogueime, mas eu no sou mais do que uma simples mulher, ainda que licenciada, E eu um simples homem, apesar de revisor. Riram ambos, e depois, ajudando-se, transportaram para o escritrio os papis, um dicionrio, outros livros de consulta, Raimundo Silva fez questo de levar o solitrio com as duas rosas, Isto  comigo, que sou o inventor. Disps tudo em cima da secretria sentou-se, olhou muito srio para Maria Sara como se avaliasse, pela presena dela ali, o efeito da mudana de local Agora, vou escrever sobre os milagrosos casos de que foi autor, morto j e enterrado, o antes por outras admirveis razes to celebrado Henrique alemo, cavaleiro da cidade de Bona, segundo explicadamente se conta na carta de Frei Rogeiro quele Osberno que veio a ficar com a boa fama de cronista, carta que sendo, neste ponto, digna de confiana mnima, o  de mxima f, e isso  o que conta, E eu, respondeu Maria Sara, enquanto no chega a hora de jantar, que hoje ser preparado e comido em casa, ficarei sentada neste sof lendo a edificante obra dos milagres de Santo Antnio, para cujo apetite me havia preparado a tua leitura do caso prodigioso da mula que trocou a aveia pelo Santssimo Sacramento, fenmeno que no teve repetio, pois a dita mula, sendo estril como todas as outras, no deixou descendncia, Principiemos, Principiemos.
   No tinha passado mais de uma semana depois que o cavaleiro Henrique fora sepultado no cemitrio de S. Vicente, talho dos mrtires estrangeiros, estava Frei Rogeiro na sua tenda compilando os apontamentos que havia tomado durante uma volta que dera por todos os arraiais, cavalgando a sua fiel mula, que em verdade tinha todas as qualidades prprias da espcie, mas sofria duma gula incurvel que no deixava fio de erva ou gro de aveia a salvo dos seus dentes amarelos, estava Frei Rogeiro assim, noite fechada, quando, por cansao da viagem, depois de ter cabeceado docemente trs vezes, lhe deu um sono to profundo que parecia obra de sobrenatural. Diz aqui que faltando ao coro na noite de Natal, por assistir na enfermaria a um religioso agonizante, mereceu Santo Antnio que se desunissem as paredes para ali adorar a hstia consagrada no tempo da missa. Estava pois dormindo Frei Rogeiro, quando entrou na tenda um cavaleiro armado de todas as suas armas menores, excepto a adaga, e dirigindo-se a ele o sacudiu por um ombro tambm trs vezes, a primeira com jeito, a segunda com nimo, a terceira com fora. Diz aqui que estando Santo Antnio a pregar ao ar livre lhe comeou a chover, e ento fez com que chovesse apenas ao derredor, ficando os ouvintes em seco. Abriu Frei Rogeiro os olhos espantados e viu que tinha na sua frente o cavaleiro Henrique, que lhe disse, Levanta-te e vai quele lugar onde os portugueses enterraram o meu escudeiro, afastado de mim, e toma o corpo dele e traze-o e enterra-o aqui junto comigo, a par desta minha sepultura. Diz aqui que a uma sua devota fez ouvir Santo Antnio a sua voz  distncia de uma lgua, e que a uma outra uniu os cabelos cortados aos que na cabea continuavam. Olhou Frei Rogeiro, e no vendo mais o cavaleiro nem sepultura nenhuma cuidou que estava dormindo e sonhando, e para no desmentir-se a si mesmo, tornou a adormecer. Diz aqui que tendo Santo Antnio encontrado um penitente e achando que ele merecia absolvio, lha deu, fazendo ao mesmo tempo desaparecer todas as letras de um papel onde o dito levava escritas as suas culpas. Voltara Frei Rogeiro a dormir a sono solto, sonhando que alguma comida avariada lhe causara aquele molesto sonho, quando tornou a entrar o cavaleiro, outra vez o sacudiu e despertou, e disse, No durmas, frade, que eu ordenei-te que fosses buscar o meu escudeiro  cova onde jaz longe de mim, e tu bem me ouviste e no fizeste caso. Diz aqui que tendo-se entornado vinho numa adega, Santo Antnio o fez restituir  pipa. Devia de estar Frei Rogeiro muito cansado para logo ter tornado a adormecer, desprezando, primeiro o pedido, depois a ordem, mas agora inquietava-se em seu sono, como se adivinhasse que no tardaria muito a t-lo interrompido, e assim foi, que entrou o cavaleiro com suma ira e uma espantosa e brava catadura, increpando-o com palavras de grande medo, Que fao-te e aconteo-te se no vais j j cumprir o que tantas vezes te vim dizer. Diz aqui que com o sinal da cruz converteu Santo Antnio um sapo em um capo, e depois com o mesmo sinal fez de um capo peixe. Ora, no seria Frei Rogeiro digno do seu sagrado ministrio se no tivesse aprendido com a lio de S. Pedro, segundo a qual se pode negar ou recusar duas vezes, mas que  terceira, mesmo no cantando o galo, se arrisca um a sofrer brutas represlias, mormente em casos em que intervenham espritos, cuja fora material sempre sobreleva a dos vivos em no sei quantos por cento. Diz aqui que Santo Antnio com o sinal da cruz arrancou os olhos a um herege por castigo, e por compaixo lhos tornou a restituir. Levantou-se pois asinha Frei Rogeiro do seu conforto e pegando numa candeia desceu ao esteiro, assustando de passo no poucas sentinelas que julgavam ir ali alma penada, tomou um batel e, esforando-se nos remos, atravessou para o outro lado. Diz aqui que Santo Antnio uniu prodigiosamente dois copos quebrados e restituiu o vinho derramado  pipa duma devota, demonstrando assim que os milagres se podem repetir sem que padea mngua a potncia miraculosa. Aonde ter ido Frei Rogeiro buscar as foras necessrias ao hercleo trabalho que lhe tinha sido assinado, no se sabe resumindo-se que ao prprio medo que sentia, mas em pouco tempo abriu a sepultura e retirou o escudeiro, que s costas transportou para o barco, e, alagado em suores frios e suores quentes, regressou ao ponto de partida, acarretou o tremendo peso pela encosta acima at S. Vicente, e ao lado do moimento do cavaleiro fez nova cova e nova sepultura. Diz aqui que estando Santo Antnio em Siclia viu cair uma sua devota a um charco e que incontinenti a fez sair dele composta e asseada. Entrou Frei Rogeiro na sua tenda e dormiu o resto da noite como uma pedra, e quando de manh acordou e se lembrou do que lhe acontecera, no s no duvidou, pois tinha as mos e o hbito manchados de terra e viscosidades suspeitas, como se escandalizou com o ingrato procedimento do cavaleiro que no se dera ao incmodo de vir agradecer-lhe, ele que to pronto fora em arranc-lo ao precioso sono. Diz aqui que Santo Antnio, estando em Roma, pregou em uma s lngua e o entenderam perfeitamente vrias naes. Ora, no se acabaram com este feito as manifestaes maravilhosas do cavaleiro Henrique, antes sucedeu que  cabeceira da sua campa apareceu uma palma semelhvel quelas que trs sculos depois traro os romeiros de Jerusalm em suas mos. Diz aqui que em Ferrara livrou Santo Antnio a uma inocente mulher da injusta morte que lhe maquinava o seu marido, fazendo que um menino recm-nascido falasse e declarasse a inocncia da me. Cresceu a palma, comeou a deitar folhas e fez-se alta, e veio el-rei e todo o povo de soldados e de gente comum que pelos arraiais andava, e todos deram muitas graas a Deus. Diz aqui que em Arimino, sendo apedrejado pelos hereges, passou Santo Antnio s praias do mar e convocando os peixes lhes fez um admirvel sermo. Principiaram de vir os enfermos e tomavam folhas daquela palma, e pondo-as no colo logo eram curados nessa hora de qualquer enfermidade que cada um houvesse. Diz aqui que, passando de Arimino a Pdua, converteu Santo Antnio a vinte e sete ladres em um s sermo. Que prodgio, que formoso milagre. Diz aqui que, tendo Santo Antnio repreendido asperamente a um moo que dera um pontap em sua prpria me, ficou o agressor to compungido e repeso do mal que fizera, que foi dali por um cutelo e sem mais advertncia cortou o malicioso p. Outros enfermos houve que colhiam as palmas e as torravam e pisavam, e misturando o p com gua ou vinho o bebiam, ficando logo sos de qualquer dor que no corpo tivessem. Diz aqui que se dessangrava o moo em termos de perder a lastimosa vida, e tantos gritos deu que se juntou povo ao redor dele querendo saber o porqu, e ele explicou, chorando muito, que Frei Antnio lhe tinha dito que aquele era o castigo que merecia, e nisto veio a me queixando-se de que o frade lhe matara o filho, atribuindo a
   
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   Histria do Cerco de Lisboa
   
   imprudncia deste ao zelo excessivo do santo. Correu a fama das virtudes curativas da palma e de tal maneira que, a pouco tempo, de tanto levarem das folhas e dos talos, no ficou s nenhuma sobre a terra, e porque no puseram nela boa guarda vieram alguns de noite e arrancaram aquela que debaixo da terra ficara e levaram-na. Diz aqui que acorreu Santo Antnio ao adjunto e, tomando o p, que estava separado da perna, com as suas prprias mos o a justou pelos vestgios da mesma cisura, e fazendo sobre ele o sinal da cruz instantaneamente ficou unido com a mesma solidez e a mesma segurana. No teria fim o inventrio bendito das miraculosas obras do cavaleiro Henrique se por extenso e com particularidades as discriminssemos todas, caminho este que finalmente nos levaria para muito longe do escopo desta narrativa, que , mais do que saber que destino levou Lisboa, coisa que no  segredo para ningum explicar como conseguimos ns, sem a ajuda dos cruzados, levar a termo o desgnio patritico do nosso rei Afonso, primeiro desse nome e em tudo. Diz aqui que, pregando Santo Antnio em Milo apareceu em Lisboa e fez absolver o seu pai de uma dvida que no devia, e tambm pregando em Pdua, apareceu no mesmo tempo em Lisboa, onde fez falar um defunto e livrou seu pai da morte. Ora, testemunhas oculares de tais e tantos maravilhosos sucessos tinham vindo na frota, dois homens surdos-mudos que, porm no se sabe se ingleses aquitanos, bretes, flandrenses ou colonenses, foram um dia ao moimento do cavaleiro e deitaram-se ao lado dele, com grande devoo, pedindo em suas vontades que houvesse com eles piedade e misericrdia. Diz aqui que estes foram os milagres principais obrados por Santo Antnio em vida mas que depois da sua morte se observaram inmeros e de tal qualidade que em nada ficaram que operou pelos influxos d a dever, at hoje, aos papel se mencionando um desses como boa prova do fica dito, e vem a ser que fez passar Santo Antnio uma sua devota de estril a fecunda, e que parindo ela uma mole informe a converteu numa criatura elegante, assim transformando metade de um milagre em um milagre inteiro. Ora, estando os dois homens surdos-mudos assim jazendo, adormeceram ambos e apareceu-lhes em sonho logo o cavaleiro Henrique, em figura e traje de romeiro, e trazia em sua mo um bordo de palma e falou queles mancebos e disse-lhes assim, Alevantai-vos e folgai e havei grande prazer, ide e sabede que pelos meus merecimentos e destes mrtires que aqui jazem, havedes ganhada graa do Senhor Deus, a qual graa  convosco, e dito isto desapareceu, e eles acordando acharam que podiam ouvir, e falar tambm, porm falavam como gagos, e de maneira que no se entendia que lngua estavam falando, se a dos ingleses, ou aquitanos, ou bretes, ou flandrenses, ou colonenses, ou, conforme no poucos afirmavam, a lngua dos portugueses, E depois, Depois os dois gagos tornaram  sepultura do cavaleiro com mais devoo ainda, se  possvel, porm foram perdidas oraes, que gagos ficaram para toda a vida, o que no fim de contas no deveremos estranhar, uma vez que em questo de milagres no se pode comparar um cavaleiro Henrique a Santo Antnio.
   Vamos jantar, disse Maria Sara, e Raimundo Silva perguntou, Que  que temos para comer, Ser talvez peixe, ser talvez capo, mas se os milagres tambm se fazem de trs para diante no te admires que nos saia da panela um sapo.
   

   
   Esto passados mais de dois meses desde que comeou o cerco, trs meses sobre o pagamento do ltimo soldo. Esperara muito D. Afonso Henriques, como a seu tempo fomos informados, das artes de engenharia militar do cavaleiro Henrique e tambm daqueles franceses e normandos no nomeados, mas a desastrosa morte do santo homem ainda que madre doutros prodgios, e a destruio da torre que deveria atacar o muro ao sul da Porta de Ferro fizeram, em toda a gente, que o entusiasmo blico passasse de fogo vivo a lume brando, como  possvel observar pelo atrasado em que est o trabalho daqueles estrangeiros e pelas interminveis discusses em que vm gastando o seu tempo os mestres carpinteiros portugueses, que no conseguem pr-se de acordo sobre se vale mais repetir tal e qual a obra do alemo, respeitando a patente, ou introduzir-lhe modificaes estruturais que, por assim dizer, dem  futura torre o toque nacional. Robustecera-se a dita esperana de el-rei em dois motivos, sendo um efeito directo do outro, e vinha a ser, motivo primeiro, que havendo o assalto resultado bem ficava a cidade ganha, e portanto, motivo segundo, poderia licenciar a tropa, mand-la para casa, at  prxima campanha, poupando uma soldada geral. Tivera D. Afonso a honestidade de no esconder os apuros em que se encontrava a sua tesouraria, sem liquidez, o que, alis, s dever abonar em seu favor, pois simplicidade e franqueza no so qualidades que habitualmente exornem os governantes de todo o mundo, sem excepo dos nossos. Porm, esta maneira de estar na poltica nunca  compensada como mereceria, e agora temos aqui um rei com a apetecida cidade de Lisboa diante dos olhos e sem lhe poder chegar, e ainda por cima obrigado a rapar o fundo s burras para pagar o pr a um exrcito que j anda a murmurar contra a tardana. Claro que esta no  a primeira vez que a coroa se atrasa nos pagamentos, mormente em estado de guerra, pensemos s nas vicissitudes de um conflito, a recolha do dinheiro, o transporte, a questo dos trocos, tudo isto junto faz com que a chamada  caixa se faa geralmente tarde e a ms horas, no sendo raros os casos em que a infelicidade  tanta que morre o soldado antes de receber o soldo, s vezes por minutos.
   Tivesse D. Afonso Henriques conseguido o dinheiro uns dias mais cedo, e a histria deste cerco viria a ser diferente, no na sua conhecida concluso, mas nos seus trmites intermdios.  que, com o passar do tempo, era j meados de setembro, e sem que se soubesse como e onde tinha nascido a inaudita ideia, comearam os soldados a dizer uns para os outros que, sendo tanto ou to pouco homens como os cruzados, tambm por igual merecedores deveriam ser, e que, estando sujeitos  mesma morte, lhes deveriam ser reconhecidos direitos em tudo iguais aos deles, quando chegasse a hora do pagamento. Falando claro, o que eles queriam saber era por que bulas iam os cruzados ter direito a saque, e v l que o grosso deles se tinha desinteressado da empresa, enquanto o soldadinho portugus haveria de contentar-se com o magro soldo, assistindo, de algibeiras a tinir, ao brdio, ripano e festival dos estrangeiros. Aos ouvidos dos capites chegaram ecos destes movimentos e encontros, mas a pretenso era de tal modo absurda, ia de tal maneira contra todas as leis e usanas, tanto as escritas como as consuetudinrias, que a resposta foi um encolher de ombros e um comentrio displicente, So parvos, com que pretendiam significar, So pequenos, naquele tempo ainda se ligava  etimologia, no  como hoje, que no se pode chamar parvo a ningum, ainda que obviamente minorca, sem que fique logo aberta uma querela por ofensa. Pelo sim, pelo no, mandaram os capites recado a D. Afonso Henriques para que se desse pressa em liquidar os soldos atrasados, porquanto se estava relaxando a disciplina e a tropa resmungava de cada vez que os sargentos mandavam atacar, Por que  que no vai ele, que tem divisas, e era mui injusto o comentrio, que nunca sargento algum se deixou ficar na trincheira a ver em que paravam os resultados do assalto, se devia avanar para recolher os louros, ou ficar para repreender e castigar os cobardes fujes. Ao fim de mais uma semana, quando as opinies subversivas j tinham deixado de expressar-se  boca pequena para serem proclamadas em alta voz nos ajuntamentos espontneos ou convocados, correu a notcia de que finalmente ia o soldo ser pago. Suspiraram de alvio os capites, mas logo se lhes cortou a respirao quando os caixas vieram dizer que no aparecia ningum a receber. No prprio arraial do rei a afluncia foi diminutssima, e mesmo essa devia ser interpretada como consequncia duma intimidao, que a todo o momento podia o tropa dar de caras com D. Afonso Henriques e este perguntar-lhe, Ento j foste receber, onde  que o tmido praa iria buscar a coragem para responder, Saiba vossa alteza que no, ou me pagam pela tabela dos cruzados, ou no vou mais  guerra.
   Todo o temor dos capites era que os mouros se apercebessem da ribaldaria que ia pelos acampamentos cristos, no fosse o caso de aproveitarem-se do desconcerto que neles reinava para, em surtidas fulminantes, irromperem ao mesmo tempo das cinco portas e varrerem uns para o mar e a outros precipit-los das alturas. Por isso, antes que se fizesse irremediavelmente tarde, mandaram chamar, no os cabecilhas, que os no havia, mas uns tantos soldados que, por falarem mais alto, tinham ganho certo imprio sobre os outros, e quis o destino que na Porta de Ferro fosse Mogueime um deles, que no o distraa o seu amor por Ouroana das responsabilidades cvicas e dos justos interesses pessoais e colectivos. Foram pois trs procuradores ao capito, a quem, perguntados, participaram as sabidas razes. Usou Mem Ramires, e  de crer que nos outros arraiais este tenha sido tambm o discurso, de arrebatadoras exortaes patriticas, as quais, apesar de serem uma novidade, no demoveram os soldados da sua firmeza, passando depois aos gritos e ameaas, que to-pouco produziram efeito, e finalmente, tomando Mogueime como interlocutor, exclamou Mem Ramires, embargando-se-lhe de comoo a voz, Como  possvel que tu, Mogueime, estejas metido nesta conspirao, tu, que foste meu companheiro de armas em Santarm, quando generosamente me emprestaste os teus ombros e a tua grande estatura para que eu pudesse lanar aos merles a escada por onde depois todos subimos, e agora, esquecido do papel importantssimo que tiveste naquela gloriosa jornada, desagradecido ao teu capito, ingrato ao teu rei, a ests enquadrilhado com uns vagabundos ambiciosos, como  possvel, e Mogueime, sem se dar por achado, no respondeu mais do que isto, Meu capito, se precisar de subir outra vez s minhas cavalitas para chegar com a espada, as mos ou a escada ao adarve mais alto de Lisboa, conte comigo, vamos j, se quiser, mas a questo no  essa, a questo  que queremos ser pagos como os estrangeiros, e repare o meu capito aonde chega a nossa sensatez, que no viemos aqui pedir que se pague aos estrangeiros como se tem pago a ns. Os outros dois procuradores assentiram em silncio, que tal eloquncia no necessitava reiterao, e a conferncia acabou.
   Fez Mem Ramires o seu relatrio ao rei, o qual, no essencial, coincidia com os dos outros capites, sugerindo, com todo o respeito, que mandasse sua alteza comparecerem  sua presena os delegados do movimento das foras armadas, que talvez, diante da majestade real, se lhes reduzissem os atrevimentos e encolhessem os nimos. Duvidou D. Afonso Henriques de condescender, mas a situao apertava, a toda a hora podiam os mouros dar-se conta da inaco dos inimigos, e em desespero de causa, mas furioso mandou vir os procuradores. Quando os cinco homens entraram na tenda, el-rei, de fechada catadura e com os potentes braos cruzados sobre o peito, increpou-os sanhudamente, No sei se hei-de mandar que vos cortem os ps que vos ho trazido, ou a cabea donde sairo, se tal ousardes, as vossas atrevidas palavras, e tinha os olhos chamejantes postos no mais alto dos delegados, que era, como se adivinhou, Mogueime. Ora, foi bonita coisa de se ver, provavelmente s possvel naqueles inocentes tempos, como se lhe alteou ainda mais a figura a Mogueime e como lhe veio clara a voz para dizer, Se vossa alteza nos mandar cortar a cabea e os ps, ser todo o vosso exrcito que ficar sem ps nem cabea. No queria D. Afonso Henriques acreditar nos seus prprios ouvidos, que um assoldadado da infantaria popular pretendesse reivindicar para o seu vil grmio mritos que s  cavalaria dos nobres deveriam ser reconhecidos, que ela, sim,  verdadeiro exrcito, no servindo a peonagem para mais do que arredondar as hostes no campo de batalha ou fazer cordo nos cercos, como  o caso em que estamos. Mesmo assim, e porque a natureza o dotara de algum sentido de humor, conformado, evidentemente s circunstncias do tempo, achou graciosa a resposta do delegado, no tanto quanto ao fundo da questo, mais do que discutvel, mas por causa do feliz jogo de palavras. Voltando-se para os quatro capites, que tambm haviam sido chamados, disse em tom de sorridente escrnio, Este pas, pela amostra, comea mal, e depois, mudando de expresso e afirmando-se melhor em Mogueime, acrescentou, Eu conheo-te, tu quem s, Estive na tomada de Santarm, senhor, respondeu Mogueime, e foi s minhas costas que subiu o capito Mem Ramires, que a est, E por isso crs que te autorizas a vir aqui protestar e reclamar o que no pode ser teu, No por isso, senhor, mas porque o quiseram os meus companheiros, de quem, com estes, sou voz e lngua, E que quereis, eles e tu, J o sabeis, senhor, que tenhamos parte justa no saque, como quem aqui veio dar o seu sangue, que, derramado,  igual na cor ao dos cruzados estrangeiros, como igualmente a eles fedem os nossos corpos se a morte nos toca e apodrecemos, E se eu disser que no, que no tereis parte no saque, Ento, senhor, tomareis a cidade com os poucos cruzados que vos restam dos que ficaram,  uma rebelio isto que estais cometendo, Senhor, peo-vos que no o tomeis assim, e se  verdade que h alguma ganncia no nosso esprito, pensai tambm que  acto de justia pagar o igual com o igual, e que este pas em princpio de vida s comear mal se no comear justo, lembrai-vos, senhor, do que j os nossos avs disseram, que quem torto nasce tarde ou nunca se endireita, no queirais que torto nasa Portugal, no o queirais, senhor, Onde foi que te ensinaram a falar assim, que nem clrigo maior, As palavras, senhor, esto por a, no ar, qualquer as pode aprender. D. Afonso Henriques j de todo deixara cair a carranca, com a mo direita prendida na barba pensava, e havia no seu olhar uma certa expresso de melancolia como se duvidasse de tantos actos que praticara, e os outros, desconhecidos, que o esperavam no futuro para o avaliarem segundo a medida de alma com que vier a enfrentar-se com eles, e estando assim alguns minutos, num silncio que ningum ali agora se atreveria a quebrar, disse por fim, Ide-vos, depois os vossos capites vos instruiro sobre o que com eles vou decidir.
   Houve festa nos cinco arraiais, que at no do Monte da Graa foi perdida a timidez, quando, reunidas as tropas em alardo, vieram os arautos anunciar a merc que fazia el-rei de que a todos os soldados, sem diferena de graduao ou antiguidade, ficava reconhecido o direito de saque da cidade, segundo os costumes e salvaguardadas as partes que deveriam caber  coroa e aos cruzados se tinham prometido. As aclamaes foram tantas e to prolongadas que definitivamente se arrecearam os mouros de que chegara a hora do assalto final, embora nenhuns preparativos anteriores o fizessem esperar. Tal no sucedeu, de facto, mas do alto dos muros puderam ver como referviam de actividade os acampamentos, iguais que formigas alvorotadas pela sbita descoberta de uma mesa posta e servida  beirinha do carreiro por onde at a no tinham feito mais do que acarretar praganas secas e migalhas de presigo. Em uma hora puseram-se os mestres carpinteiros de acordo, em duas fervilhavam de diligncia os estaleiros onde preguiosamente o caruncho viera tomando conta das torres em construo, maneira figurada de dizer, pois os hilotrupes e os anbios no esto dotados de instrumentos de corte e perfurao capazes de defrontar-se com a madeira verde e venc-la, e em trs teve algum a ideia de que, cavando por baixo da muralha uma mina funda e atulhando-a de lenha e pegando-lhe fogo, o calor da fornalha faria dilatar as pedras e esboroar as juntas, com o que, empurrando tambm Deus um pouco, viria tudo ao cho no tempo de dizer um amm. Murmuraro aqui os cpticos e os que sempre esto malsinando a natureza humana que estes homens, antes insensveis ao amor da ptria e indiferentes ao futuro das geraes, pelo amor ao satnico lucro se desvelavam agora, iro s no duro trabalho do corpo, mas tambm nas invisveis e superiores operaes da alma e da inteligncia, porm haver que dizer que redondamente se enganam, pois o que era ali motor de vontades e gerador de alegrias resultava infinitamente mais do contentamento que no esprito sempre far nascer uma justia que seja igual para todos e que de cada um faa destinatrio escolhido de um integral e incorruptvel direito.
   Com estas novas disposies dos cristos, que mesmo  distncia se tornavam patentes, comeou o desnimo a filtrar-se no nimo dos mouros, e se na maior parte dos casos era  prpria e necessria luta contra a fraqueza despontante que iam buscar foras novas, alguns houve que cederam aos medos reais e imaginados e tentaram salvar o corpo buscando num precipitado baptismo cristo a condenao da sua islmica alma. Pela calada da noite, usando cordas improvisadas, baixaram das muralhas e, ocultos nas runas das casas do arrabalde e entre os arbustos, esperaram o nascer do dia para surgirem  luz. De braos levantados, com a corda que os ajudara a descer posta em redor do pescoo como sinal de sujeio e obedincia, caminharam para o arraial, ao mesmo tempo que davam altas vozes, Baptismo, baptismo, acreditando na virtude salvadora duma palavra que at a, firmes na sua f, haviam detestado. De longe, vendo aqueles mouros rendidos, julgaram os portugueses que viessem negociar a prpria rendio da cidade, embora lhes parecesse raro que no se tivessem aberto as portas para eles sarem nem obedecido ao protocolo militar prescrito para estas situaes, e sobretudo, aproximando-se mais os supostos emissrios, tornava-se notrio, pelo esfarrapado e sujidade das roupas, que no se tratava de gente principal. Mas quando finalmente foi compreendido o que eles pretendiam, no tem descrio o furor, a sanha dementada dos soldados, baste dizer que em lnguas, narizes e orelhas cortadas foi ali um aougue, e, como se tanto fosse nada, com golpes, pancadas e insultos os fizeram tornar aos muros, alguns, quem sabe, esperando sem esperar um impossvel perdo daqueles a quem haviam atraioado, mas foi um triste caso, que todos acabaram ali mortos, apedrejados e crivados de setas pelos prprios irmos. Depois desta trgica aventura caiu sobre a cidade um silncio pesado, como se um luto mais profundo tivessem de purgar, talvez o duma religio ofendida, talvez o insuportvel remorso dos actos fratricidas, e foi ento que, rompendo as ltimas barreiras da dignidade e do recato, a fome se mostrou na cidade em sua mais obscena expresso, que menor obscenidade  a exibio dos comportamentos ntimos do corpo do que ver extinguir-se esse corpo  mngua de alimento sob o indiferente e irnico olhar de deuses que, tendo deixado de guerrear uns contra os outros por serem imortais, se distraem do aborrecimento eterno aplaudindo os que ganham e os que perdem, uns porque mataram, outros porque morreram. Pela ordem inversa das idades, apagavam-se as vidas como candeias exauridas, primeiro as crianas de colo que no encontravam uma s gota de leite nos peitos murchos das mes e se desfaziam em podrides interiores causadas por alimentos imprprios que em ltimo recurso as queriam fazer ingerir, depois as mais crescidas, a quem, para sobreviver, no bastava o que os adultos tiravam  boca, e destes mais as mulheres do que os homens, que elas privavam-se para que eles pudessem levar uma ltima energia  defesa dos muros, ainda assim os velhos eram os que melhor resistiam, talvez graas  pouca exigncia de corpos que por si mesmos se dispunham a entrar leves na morte para no sobrecarregarem a barca em que atravessaro o ltimo rio. J ento tinham desaparecido os gatos e os ces, as ratazanas eram perseguidas at s trevas ftidas onde se refugiavam, e agora que pelos ptios e jardins se raspavam as ervas at s razes, a lembrana de uma ceia de co ou de gato equivalia ao sonho duma era de abundncia, quando ainda as pessoas se podiam oferecer o luxo de atirar fora os ossos mal esburgados. Nos monturos, agora, buscavam-se restos que dessem para aproveitamento imediato ou para transformar, por qualquer meio, em comida, e o ardor da busca era tal que os ltimos ratos, surdindo do invisvel em meio da noite negra, quase nada encontravam que pudesse aproveitar  sua indiscriminativa voracidade. Lisboa gemia de misria, e era uma ironia grotesca e terrvel deverem os mouros celebrar o seu ramado quando a fome tornara o jejum impossvel.
   E assim foi que se chegou  Noite do Destino, essa de que se fala na sura noventa e sete do Coro e que comemora a primeira revelao do profeta, e em que, segundo a tradio, se revelam por sua vez os acontecimentos de todo o ano. Para estes mouros de Lisboa, porm, o destino no esperar tanto tempo, vai cumprir-se por estes dias, e chegou sem ser esperado, pois no o revelou a Noite de h um ano, ou no a souberam ler nos seus arcanos, iludidos por estarem ainda to l para o norte os cristos, esse Ibn Arrinque de m semente e a sua tropa de galegos. No se pde averiguar a razo de terem os mouros ateado em toda a extenso dos adarves grandes fogueiras que, como uma enorme coroa de lumes rodeando a cidade, arderam durante toda aquela noite, enchendo de espanto e de inquieto temor religioso os coraes dos portugueses, a quem o assombroso espectculo porventura faria duvidar das esperanas de vitria se no tivessem boa informao das raias de desespero a que tinham chegado os desgraados. Ao alvorecer, quando os almuadens chamaram  orao, as ltimas colunas de fumo negro erguiam-se para um cu purssimo e, tingidas de vermelho pelo sol nascente, eram empurradas por uma brisa suave, sobre o rio, na direco de Almada, como uma ameaa.
   Estavam, realmente, chegados os dias. A escavao da mina terminara, as trs torres, a normanda, a francesa, e tambm a portuguesa, cuja construo em breve tempo alcanara a das outras, levantavam-se perto dos muros como gigantes prestes a erguerem o punho tremendo que iria reduzir a escombros e destroos uma barreira a que vai faltando o cimento da vontade e da valentia dos que at agora a defenderam. Sonmbulos, os mouros vem as torres que se aproximam, e sentem que j os seus braos mal podem levantar a espada e esticar a corda do arco, que os olhos turvos confundem as distncias,  a derrota que a vem, pior que a morte. Em baixo, o fogo ri a muralha, da mina saem golfes de fumo, como de drago agonizando. E  ento que num esforo final os mouros, tentando encontrar no seu prprio desespero as ltimas energias, irrompem pela Porta de Ferro para uma vez mais incendiarem a torre ameaadora, que de cima, por estar ela melhormente protegida, no lograriam destru-la. De um lado e do outro, mata-se e morre-se. A torre chega a pegar fogo, mas o incndio no se propagou, os portugueses defendem-na com fria igual  dos mouros, mas um momento houve em que, aterrorizados, feridos uns, outros o fingindo, largando as armas ou com elas vestidas, alguns fugiram lanando-se  gua, uma vergonha, ainda bem que no h aqui cruzados para registarem a cobardia e dela levarem afrontosa notcia ao estrangeiro, que  onde as famas se fazem ou se perdem. Quanto a Frei Rogeiro, no h perigo, anda a observar por outras paragens, se algum lhe for delatar o que aqui se passou, sempre poderemos argumentar, Como  que pode ter a certeza, se no estava l. Fraquejaram por sua vez os mouros, enquanto os portugueses de maior coragem agora avanavam, pedindo o auxlio de todos os santos e da Virgem Santa Maria, e, ou fosse por isso, ou por haver para todos os materiais um limite de resistncia, o certo  que com tremendo estrondo veio abaixo o muro, abrindo-se uma bocarra enorme, pela qual, dissipado o fumo e o p, se podia finalmente ver a cidade, as ruas estreitas, as casas apinhadas, a gente em pnico. Os mouros, amargurados pelo desastre, recuaram, a Porta de Ferro fechou-se, tanto fazia, que outro vo se havia rasgado quase ao lado, para ele no havendo porta, a no ser, to precria, os peitos dos mouros que surgiram a cobrir a abertura, com desesperada ira que fez hesitarem novamente os portugueses, valeu no aperto que a torre daqui pde enfim alcanar o muro, ao tempo que um alarido de medo e agonia se ouvia na outra parte da cidade, eram as mais duas torres que entestavam com a muralha fazendo pontes por onde os soldados, gritando, Sus, sus, a eles, invadiam os adarves. Lisboa estava ganha, perdera-se Lisboa. Aps a rendio do castelo, estancou-se a sangueira. Porm, quando o sol, descendo para o mar, tocou o ntido horizonte, ouviu-se a voz do almuadem da mesquita maior clamando pela ltima vez l , do alto, onde se refugiara, Allahu akbar. Arrepiaram-se as carnes dos mouros  chamada de Al, mas o apelo no chegou ao fim porque um soldado cristo, de mais zelosa f, ou achando que ainda lhe faltava um morto para dar a guerra por terminada, subiu correndo  almdena e de um s golpe de espada degolou o velho, em cujos olhos cegos uma luz relampejou no momento de apagar-se-lhe a vida.
   So trs horas da madrugada. Raimundo pousa a esferogrfica, levanta-se devagar, ajudando-se com as palmas das mos assentes sobre a mesa, como se de repente lhe tivessem cado em cima todos os anos que tem para viver. Entra no quarto, que uma luz fraca apenas ilumina, e despe-se cautelosamente, evitando fazer rudo, mas desejando no fundo que Maria Sara acorde, para nada, s para poder dizer-lhe que a histria chegou ao fim, e ela, que afinal no dormia, pergunta-lhe, Acabaste, e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, E Mogueime, e Ouroana, que foi que lhes aconteceu, Na minha ideia, Ouroana vai voltar para a Galiza, e Mogueime ir com ela, e antes de partirem acharo em Lisboa um co escondido, que os acompanhar na viagem, Por que pensas que eles se devem ir embora, No sei, pela lgica deveriam ficar, Deixa l, ficamos ns. A cabea de Maria Sara descansa no ombro de Raimundo, com a mo esquerda ele acaricia-lhe o cabelo e a face. No adormeceram logo. Sob o alpendre da varanda respirava uma sombra.
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